Soul of Darkness
1 Não era um sonho.
Minha vida não é algo fácil de explicar, não espero que entenda ou continue a ler, mas como todo ser vivo deve saber que cada pessoa tem um destino, ás vezes bom e ás vezes não. Meu nome é Virgínia, tenho 17 anos e acabei de me formar no Ensino médio. Moro em uma cidade no interior de São Paulo, onde não tem shopping, parques ou qualquer coisa legal que um jovem da minha idade poderia se interessar. A única coisa que faço da minha vida é estudar para os terríveis vestibulares de medicina. Escolhi tal curso não pelo dinheiro, mas porque sempre quis cuidar das pessoas, salvar vidas, sei que não poderei salvar todas, mas darei o melhor de mim para salvá-las.
Entretanto, parei um pouco os estudos, pois é final de Dezembro, todos merecem descansar um pouco. Decidi passar meu descanso com a minha avó, uma senhora adorável, porém sempre que cometo algum erro a parte adorável desaparece e como qualquer avó, sabe cozinhar muito bem, nada é melhor que a comida dela. Ela morava em uma casa simples, porém muito aconchegante, junto com meu tio e meu avô. Eles têm 2 cachorros enormes, Rambo e o Van Damme. Meu avô não é do tipo que conversa muito e meu tio sempre vive estressado. Eles tinham um comercio de xampus e sabonetes, por incrível que pareça, apesar de ser algo bem simples, vendiam muito.
Assim que cheguei à casa dos meus avós, senti o cheiro da minha comida preferida, macarrão e frango assado. Minha avó me recebeu com um olhar austero e me disse:
— Eu estava à sua espera, precisamos conversar depois do jantar.
Assenti com a cabeça, enquanto ela ia em direção á sala. Um milhão de coisas se passaram pela minha cabeça, o que eu teria feito de errado? Com certeza eu estava encrencada. Peguei um prato e me servi do maravilhoso frango assado e macarrão da minha avó, por um momento pude esquecer-me do desespero e sentir aquele gosto maravilhoso dos temperos secretos dela. Terminei de comer, escovei os dentes e fui onde minha avó estava. A mesma se encontrava no jardim, em frente de um altar cheio de velas, juro que fui milhares de vezes no jardim e nunca vi aquele altar. Respirei fundo e pensei em dizer algo, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa minha avó falou primeiro.
— Virgínia, faltam apenas alguns meses para que você complete 18 anos e você precisa tomar uma decisão que vai mudar toda a sua vida – Ela me encarou, eu a interrompi.
— Eu sei, logo entrarei na faculdade e terei que tomar cuidado com as minhas decisões- revirei os olhos.
— Não é somente isso, não ouse me interromper outra vez e tome cuidado com o que fala, sou sua avó, me respeite- Eu realmente queria muito rir, mas sua voz estava rígida, decidi escutá-la com atenção.
— Faz 37 anos que a nossa família se esconde por causa de vários inimigos que fizemos. Nosso povo foi obrigado a se esconder, por causa dos erros que cometemos. Sei que deve estar se formando milhões de perguntas na sua cabecinha, mas não me interrompa. Bem antes de você nascer, vivíamos em um mundo bem diferente daqui, em um reino, cheio de criaturas místicas. Sabe aquelas histórias que te contei quando você era pequena, sobre bruxas, vampiros, lobisomens, demônios, fadas, plantas que falam? Tudo aquilo era verdade. Virgínia, desde pequena você tem aquele sentimento de querer ajudar as pessoas, sempre se dedicou ao próximo. Um sentimento que toda Rainha deveria ter, você é a Rainha das criaturas místicas, você é a única bruxa capaz de unir nosso povo. Estou muito velha para lutar e sua mãe não pode ficar no meu lugar. Quando contei a ela sobre o nosso mundo e mostrei-a, a mesma enlouqueceu, tive que fazer um feitiço de esquecimento para ela tentar se controlar. Tentei tirar os poderes dela para que ela não descobrisse o que era novamente, porém algo deu errado, todos os poderes dela foram para você. Por favor, não entre em pânico, precisamos de você. Pode falar agora.
Meus olhos se arregalaram com tanta informação, agora pude compreender melhor as coisas bizarras que aconteciam na minha família. Mas ainda havia algumas coisas confusas.
— Por que meu tio não pode lutar pelo reino? Ou um dos filhos dos seus irmãos? –perguntei.
— Somente um bruxo pode assumir o Reino, seu tio não é um bruxo. E seus primos também não. Seu tio é um lobisomem, ele é meu sétimo filho. Tive 6 filhas mulheres, mas apenas uma sobreviveu, sua mãe. Elas nasciam e morriam uma hora depois. Seu tio nunca se transformou em lobo, coloquei um feitiço para que a fera ficasse aprisionada nele até que fosse seguro libertá-la e é por isso que ele vive de mau humor. Seu avô também é o sétimo filho, mas ele se transforma. Todo sétimo filho de uma sequência de 6 filhas se transforma em lobisomem na primeira lua cheia de seus 16 anos. E se transformam em todas as luas cheias até os 21 anos, quando terão aprendido a controlar a fera e se transformar quando quiserem. E seus primos, sempre achei que eles eram filhos do próprio demônio de tanto que aprontavam. E né que eu tinha razão? Sua tia tem gosto particularmente estranho.
— Okay vó. É realmente muita informação. Mas eu nunca fiz nada estranho acontecer, não posso ser uma bruxa, no máximo posso chegar perto de ser uma anã com a minha altura- Debochei.
— Nunca? Não se lembra quando flutuou o seu tio até o teto e ele quando voltou ao chão queria matar você ou quando fez nevar no quintal. Me dê um mês e eu faço uma lista das milhões de coisas que você aprontou.
Meus olhos se arregalaram.
— Vó, isso é impossível, sempre achei que todas essas coisas fossem apenas sonhos. Eu não consigo acreditar.
—Só é impossível, se você pensar que é. Está vendo aquela pedra?
Ela apontou para uma pequena pedra vermelha que estava no chão.
— Olhe para ela, não pense em outra coisa. Tente levantá-la, sem usar as mãos é claro- Ela sorriu, como se fosse a coisa mais normal do mundo fazer com que pedras se levitem.
Fixei meus olhos na pedra, esvaziei meus pensamentos e pensei que a pedra flutuaria. Conforme fui erguendo o meu olhar a pedra foi subindo, desejei tê-la em minha mão e ela veio até mim. Olhei para minha avó, ela parecia orgulhosa e por mais tolo que isso pareça, me senti uma mulher poderosa por erguer uma pedrinha sem as mãos.
— Virgínia, você tem que tomar essa decisão até amanhã, já esperei demais por você – Ela foi para dentro da casa e me deixou sozinha no Jardim.
Respirei fundo, pensando na decisão que tomaria. Ouvi um barulho atrás de uma árvore e mesmo com medo decidi ver o que era. Me aproximei lentamente, não sabia o que eu faria se fosse algo que pudesse me matar. Gritaria para a minha avó? É...talvez. Quando cheguei perto, pude ver que era alguém, e quando digo “alguém” quero dizer com formato humano, pois depois de tanta informação, estou desconfiada de qualquer um. Não pude ver o rosto, devido a escuridão, decidi fazer a pergunta mais tola e que normalmente leva a morte nos filmes de terror.
— Quem é você?
—Minha querida Virgínia, não consegue reconhecer um velho amigo?
Aquela voz me fez arrepiar e deixou meu corpo trêmulo.
— Pensei que estivesse morto – Foram as únicas palavras que consegui dizer.
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