Soul Master
7 Memórias, parte 2: Cabana da Asfixia
Notas iniciais
Desde aquele dia, josh saía todo dia de tarde e voltava tarde da noite. Cada vez que aparecia no lugar em que tinham se conhecido, os girassóis se multiplicavam e ficavam anormalmente grandes. A flor tinha o tamanho de uma cabeça humana. Lisa explicou que o crescimento anormal era resultado dos seus poderes. Passavam a maior parte do dia jogando conversa fora, josh começou a contar as histórias de seu pai, e Lisa explicava sobre as diferentes espécies de plantas da reserva. Sempre que escurecia os adolescentes chegavam para farrear, e era nesse momento que os dois se despediam. Lisa parecia cada vez mais estressada com isso, certa vez ela esticou o braço na direção do barulho, deixando a palma da mão emitindo uma luz, pouco tempo depois os dois ouviram gritos. Lisa tinha feito algumas raízes enroscarem na perna de alguns deles.
—a parte boa de morar num lugar sem uso de magia como aqui é que esses bobões nunca esperam esse tipo de coisa- Lisa cerrou o punho, com um sorriso que deixou Josh assustado
—voce nao tem medo que eles venham atrás de voce?- perguntou josh
—eu tenho medo é do que eles fazem com a reserva- rebateu.
Dias depois, josh chegou no horário habitual no local de sempre. Pela primeira vez, Lisa ainda não tinha chegado. Josh esperou por meia hora e decidiu andar para procurá-la. Passou por outra rota da trilha, até que avistou no horizonte uma casa de dois andares. Ela era de madeira, mas possuía vários buracos em muitas partes, e das duas vidraças no segundo andar, uma estava quebrada. Josh se perguntou se essa era a cabana que lisa disse que morava, e andou em direção ao local. Não parecia ser a casa de alguém como Lisa, sempre imaginou que fosse um lugar muito decorado. Se aproximou da casa, e a cada passo que dava, sentia um aperto no peito e uma sensação de falta de ar. Resolveu parar de andar e deu dois passos para trás. Tinha algo naquela casa, algo que estava mandando ele se afastar. Ficou congelado por alguns instantes, até que ouviu uma voz familiar.
—JOSH!! SAI DAÍ- Lisa estava acima de uma árvore cerca de 30 metros longe de Josh e da casa
—Estava te procurando!!! Achei que era aqui que você morava- O garoto correu na direção da amiga, e ao se aproximar viu que ela estava com um olho roxo e um curativo em cima do nariz- O que aconteceu com você?
—Longa história, tropecei e- parou de falar e olhou para os lados- machuquei meu rosto- Lisa nao olhou nos olhos de Josh pra responder a pergunta, e só voltou a encará-lo quando começou uma nova frase- Você não pode chegar perto da barraca da asfixia.
—barraca do que?- perguntou josh, confuso
—Da asfixia, dizem que se você chegar perto demais, perde todo o ar nos pulmões e morre.-respondeu. Josh lembrou de como se sentiu quando se aproximou do lugar.
—mas porque?
—eu sei lá, mas todo mundo fica longe dali desde sempre, e voce deveria fazer o mesmo.
—alguém mora ali?
—Acho que não, nunca ninguém viu ninguém saindo ou entrando ali. Dizem que a cabana é mau assombrada- Lisa falou as ultimas tres palavras com um tom mais grave, balançando os dedos, claramente tentando assustar Josh. Funcionou
—Eita, vamos embora daqui- Josh deu passadas rápidas e Lisa o seguiu, rindo
Foram voltando na direção do ‘lugar de sempre”. Quando estavam quase chegando, ouviram o barulho de vozes. Os olhos de Lisa se arregalaram. De longe dava para ver que tinham mais de 10 jovens, 6 garotos e 4 garotas, pisando em seus girassóis. De um aparelho de som saía uma musica pop, e todos estavam fumando e despejando as cinzas nas flores. Sentada no chão estava uma garota bebendo num cantil, com 2 amigos repetindo “vira, vira”, ela deu mais 2 goles, fez uma careta e vomitou no chão, em cima dos girassóis. Lisa se ajoelhou com a cena e observou o acontecimento sem dizer uma palavra. Josh estava igualmente sem reação, e nao sabia o que fazer para animar a amiga. Josh lembrou de todas as vezes que a encontrou cuidando dos girassóis e sobre quantas vezes ela disse o quanto era apegada a eles. Subitamente lhe veio uma vontade de enxotar todo mundo do lugar. Cerrou o punho e deu passos pra frente, mas a amiga segurou o seu braço.
—Não...tá tudo bem- Lisa encarou o chão por mais alguns momentos e depois olhou nos olhos do garoto. Sorria, mas seu rosto estava molhado de lagrimas que não paravam de cair- não tem nada que a gente possa fazer.- Josh estava com muita raiva, se ajoelhou para ficar na altura de lisa e colocou as duas mãos no ombro dela, olhando-a nos olhos
—Quem foi que te bateu?- perguntou o garoto, sério
—Já disse que eu caí
—voce tá mentindo- Lisa olhou para o chão por alguns instantes e o encarou de volta
—por favor josh, vamos pra casa, não quero que voce se machuque também
—mas...
—POR FAVOR- a garota começou a soluçar e chorou mais- amanha nos encontramos no mesmo horário, mas me encontra nos limites da reserva. Voce pode me ajudar a plantar novos girassóis?
Vendo a garota daquele jeito, Josh teve ainda mais vontade de pular no meio daquela gente e expusá-los dali à força, mas cada uma daquelas pessoas era bem mais velha que ele, seria espancado por qualquer um deles, encará-los todos de uma vez seria idiotice. Sentiu medo, que junto da sua vontade de fazer alguma coisa, converteu-se em frustração. Deu um passo na direção deles, mas hesitou e finalmente assentiu, contrariado. Despediu-se de Lisa e correu, sem olhar para trás.
Como era mais cedo do que de costume, o sol ainda não havia se posto, o que significava que sua mãe ainda não estava em casa. Apesar disso, assim que entrou, escutou uma música vindo de um rádio na cozinha, e a voz do seu tio acompanhando a canção com o tom embriagado que o garoto já conhecia tão bem.
—se não é meu sobrinho favorito- Tio Ben enchia mais um copo com whisky, a julgar pelo conteúdo da garrafa e o rosto corado do homem, claramente estava longe de ser a primeira dose do dia.
—O que você faz aqui, tio?
—A força policial daqui de Orleans tem um probleminha com bebidas, então eu achei que poderia pegar um pouco mal se eles vissem que eu encomendo whisky importado, por isso pedi para sua mãe fazer isso para mim. Como eu já estava aqui fiquei com preguiça de ir até em casa para beber- Riu alto depois de terminar a frase, deixando o odor de álcool empestear o ambiente.
Josh estava com o olhar distante, por alguns instantes ficou olhando para o teto, logo depois fez que ia sair do local,mas foi interrompido pelo tio.
—O que você tem hein garoto? Tá com uma cara péssima.
—Não é nada, tio
—levou um fora da sua namorada?- deu mais alguns goles no copo de whisky
—não é isso, e ela não é a minha namorada.
—então o que é?
— É que tem uns garotos mais velhos bebendo e sujando a reserva florestal. Minha amiga é muito ligada com essas coisas, cuida das plantas e tudo mais.
—Fiquei sabendo disso, se eu tivesse no controle da polícia esse tipo de coisa não aconteceria, mas esses delinquentes são filhos de um pessoal influente, então o meu chefe falou para nós fazermos vista grossa. Francamente, na hora que um moleque desses aparecer morto esses burocratas estúpidos vão ver só!- Deu os últimos goles do whisky, já pegando a garrafa para mais uma dose, era claro que o tio iria dormir no sofá essa noite.
—Tio, o senhor- pensou se queria continuar fazendo a pergunta, mas decidiu terminar a frase- o senhor conta suas histórias de batalha o tempo todo, mas o senhor já sentiu medo?
Josh se arrependeu de ter perguntado para o tio, bêbado, uma coisa dessas. Pois quando ele bebe, ele costuma passa horas contando dos seus feitos heróicos. O garoto imaginou que iria ganhar uma reposta óbvia, mas depois de terminar mais um copo de whisky, a resposta do tio não foi como de costume.
—Claro que sim, senti medo mais vezes do que não senti em toda a minha carreira.-Com todas as histórias que o garoto já tinha ouvido, essa resposta parecia absurda.
—Mas então porque você fez todas essas coisas perigosas?
—Alguém tinha que fazer, senão várias pessoas iriam morrer
—Então o senhor queria ser um herói?- a pergunta do garoto fez o tio gargalhar alto, empesteando mais um pouco a cozinha com o cheiro de álcool
—Claro que não garoto, isso não passou na minha cabeça nenhuma vez. Várias pessoas já me chamaram de herói, mas eu nunca me senti dessa forma.
—Então eu não entendo.
—Olha, de todas as pessoas que eu já conheci que podemos chamar de heróis, nenhuma delas parecia ter a vontade de praticar heroismo. Herói é uma coisa muito pomposa, você pensa em estátuas, festas, lendas, mas sempre que eu arrisquei a minha vida, eu tinha um sentimento bem simples na cabeça.
—Simples?- Josh tinha sentado em outra cadeira na cozinha enquanto conversava com o tio.
—Sim, um sentimento que eu aposto que você conhece.
—Que sentimento?
—Amizade, eu nunca arrisquei a minha vida sem pensar nos meus amigos. E agora que eu parei para pensar, nenhuma pessoa que eu conheça que arriscava a vida sem pensar duas vezes tinha algo muito diferente disso na cabeça. Acho que se você quer arriscar a vida, se você quer tentar algo impossível, se você quer ser um herói, você antes de tudo tem que ser um bom amigo.
—Bons amigos não sentem medo?
—Claro que sim, mas o medo do perigo nunca é maior do que o medo de perder os amigos. Esse medo que fez que eu corresse em direção da morte diversas vezes ao longo da minha vida.
A conversa continuou por mais algum tempo até que o tio foi até o sofá da sala para dormir, abraçado com a garrafa de whisky. Josh não tinha certeza se ele iria se lembrar disso no dia seguinte.
O sol já havia se posto há algum tempo mas a mãe de josh não havia chegado ainda, deixando o garoto sozinho com os próprios pensamentos. Será que a Lisa iria mesmo pra casa depois de ver aquelas pessoas destruindo aquilo que ela estava cuidando com carinho à tanto tempo? Quanto mais pensava nisso, menos sentido fazia para ele imaginar a amiga sendo passiva em relação à isso. Se ela já tinha ficado com o olho roxo antes, significava que ela ja tinha os enfrentado antes, talvez ela soubesse que era impossivel fazer qualquer coisa sem se machucar e convenceu ele a ir embora para encará-los sozinha. Pensou no que o tio tinha dito, e em como a garota tinha protegido ele de se machucar num embate contra aqueles adolescentes, pensou se era capaz de fazer o mesmo. O que o incomodava mais? A ideia de ser espancado ou a ideia de deixar lisa apanhar sozinha? A resposta o levou até a porta de casa, e fez com que corresse, à noite, todo o caminho até a reserva florestal.
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