Soul Angel
6 A morte fala
Notas iniciais

Capítulo 6 — A morte fala.
Não havia um som no chalé de Hades que não fosse os sons dos beijos que Will Solace e Nico di Angelo trocavam. Os dois estavam bem espremidos na parte de baixo do beliche de Nico, suas roupas no chão. Devia ser bem tarde, mas os dois não se importavam. Tudo que Nico sabia era que nunca mais queria sair dos braços dele.
Will parou o beijo ficou lhe encarando em baixo dele. Então abriu um sorriso. Nico lhe afagou o rosto com a ponta dos dedos.
– O que foi?
Will tirou seus cabelos negros dos olhos.
– Eu estou apenas tão feliz. Com você.
– Eu também estou — Nico sorriu para ele.
Will lhe acariciou as costas com a outra mão. Nico se arrepiou.
– Posso lhe perguntar uma coisa?
Nico levantou as sobrancelhas debochado.
– Pode. Antes você não me pedia permissão. Está aceitando o seu papel como passivo?
Will riu alto, e então num movimento rápido, se virou e rolou para cima dele, segurando suas mãos.
– Não abuse da sorte, está bem? — disse ele no seu ouvido — Ainda vou te fazer gritar muito o meu nome.
Nico deu um impulso e rolou para cima dele outra vez.
– Claro.
– Como você pode ser mais forte que eu sendo metade do meu tamanho? — Will falou meio indignado.
– Eu sou um lutador, você é um médico — Nico riu.
– Arqueiro — Will o corrigiu.
– O que você ia me perguntar? — Nico acariciou seus cabelos.
Will desviou com um sorriso meio encabulado, o que não era muito próprio. Nico pressentiu que algo estava por vir.
– Eu estava me perguntando... Se você quer ser meu namorado?
Nico o encarou meio perplexo. Will voltou a lhe encarar.
– E então?
– Considerando o que acabamos de fazer você me pede em namoro agora? Eu tinha impressão que meio que já tínhamos aceitado isso silenciosamente.
Will rolou os olhos.
– Muitas pessoas transam sem nenhum compromisso. Mas se você acha que então já selamos um laço sagrado, podemos começar a adotar! — Will sorriu brincalhão.
Nico corou.
– Não foi isso que eu quis dizer.
– Mas então, o que me diz? — Will acariciou o lado de seu rosto.
– Está bem. Posso bater em qualquer um que se aproxime de você agora?
– Há! — o sorriso de Will deu lugar a uma expressão cheia de irritação — Mais fácil eu socar a cara de Jackson do que você ter que se preocupar com isso.
Nico suspirou.
– Pare com isso, como foi que chegamos aqui mesmo?
– Você ainda gosta dele, não é mesmo? — Will olhou para o lado, para evitar encará-lo.
–Ei — Nico fez o mesmo que Will fizera com ele tantas vezes. Pegou seu rosto na mão e o fez olha-lo — Eu amo você.
– Sério? — Will lhe deu um sorriso enorme.
– Sim — Nico sorriu — Acho que não sei viver mais sem você me irritando o tempo inteiro.
– Eu também te amo, te amo muito, muito, muito! — Will lhe disse entre beijos.
Nico olhou para o relógio na parede.
– São três da manhã. Alguém pode notar que você saiu.
Will mordeu o lábio, como se criasse coragem para lhe dizer algo.
– Nico... Eu sei que é meio cedo pra falar disso. Mas sabe, eu tenho quase dezoito anos. Acabei a escola. Meu pai... Quer dizer, meu padrasto disse que eu posso ir morar com ele se quiser, mas não é isso que eu quero, porque eu realmente queria ter uma vida como todo mundo... Ter minha casa sabe? E isso nunca seria possível aqui, nem no mundo real. Será que um dia... Você e eu... Talvez pudéssemos construir uma casa em Nova Roma, e viver juntos. Eu fazendo minha faculdade de medicina e você estudando. Tenho certeza que você gostaria de voltar para o colégio.
O coração de Nico bateu mais rápido. O futuro que Will estava lhe oferecendo era simplesmente um sonho. Ele nunca imaginara isso pra ele. Algo tão simples e ainda assim tão difícil de se alcançar para os semideuses. E ao lado de Will. Ele sacudiu a cabeça aturdido.
– Você gosta de mim tanto assim? Não estamos tanto tempo juntos assim.
Will lhe encarou mais sério que nunca.
– Não vou mentir para você, eu já tive outras pessoas na minha vida, e iria entender se você não quisesse ter tanto compromisso no seu primeiro relacionamento. Mas eu posso te dizer que nunca senti por nenhum dos outros o que eu sinto por você. E olha que eu já tive namoradas também. Mas Apolo é o deus dos solteiros, e por mais que eu ficasse com essas pessoas, eu sentia como se preferisse ficar sozinho no final. Nunca durava. Em geral, os filhos de Apolo sabem quando encontram... O amor de suas vidas por assim dizer. É diferente. Eu não consigo mais imaginar o futuro sem você.
Nico baixou a cabeça pensativo.
– Nunca antes eu cogitei um futuro tão... bom pra mim. Se durarmos até lá... Eu ia adorar Will. É a melhor coisa que eu poderia imaginar — ele lhe sorriu — Acho que devo te dar um presente também?
Will riu.
– Mas que presente eu te dei?
– Você me deu o que eu nunca tive Solace. Uma escolha. Um futuro.
Nico se sentou na cama e fechou os olhos se concentrando, as mão fechadas em concha. Hades era o deus dos metais e pedras preciosas, e Nico era seu filho. Se Hazel conseguia fazer isso, ele também conseguia. Com algum esforço, ele sentiu toda a prata presente nas proximidades do solo deixarem o chão e irem até sua mão. Nico abriu os olhos. Fechou a mão, e quando abriu, dois anéis finos de e simples de prata reluziam em suas mãos.
Ele sorriu para Will e lhe mostrou a palma. Will boquiabriu-se.
– Como você fez essa droga?
Nico se ofendeu um pouco.
– Sei que não sou nenhum artista, mas não está tão ruim.
– Não foi isso que eu quis dizer! — Will bufou revirando os olhos — Você invoca coisas caras?
– Prata. Ela fica sob os domínios do mundo inferior — Nico pegou sua mão e colocou o anel em seu dedo.
Will estendeu a mão a sua frente sorrindo.
– Meu namorado sabe fazer trecos preciosos saltarem do chão! Quero petróleo! — ele riu gostosamente.
Nico colocou o outro anel no próprio dedo. Will apontou para ele.
– Pode me dar isso aí.
– O quê, você está namorando comigo ou consigo mesmo? — Nico lhe falou irritado.
– Eu tenho que por no seu dedo, senão dá azar.
Nico tirou o anel do dedo e lhe entregou.
– Tudo bem, que seja.
Will pegou sua mão carinhosamente e colocou o anel em seu dedo.
– Que você não cresça mais que eu para que todos achem que eu que mando aqui.
– E que fique bem claro o "achem".
Nico abriu os braços para ele e Will o abraçou.
– Obrigada, é lindo — ele disse em seu ouvido, enquanto Nico beijava seu pescoço.
– De nada.
Will se levantou.
– Onde você vai? — Nico lhe questionou meio incomodado.
– Eu ia adorar dormir aqui com você, mas infelizmente não posso — disse Will enfiando a cueca e as calças — Você viu a minha blusa?
– Hmmm... Você gostava muito dela? Eu acho que eu rasguei um pouco. Mas eu posso te emprestar uma minha, elas são largas.
– Tudo bem, pega aí para mim que eu vou no banheiro — disse Will subindo as escadas.
Nico se levantou, vestiu as calças e foi até o armário. Catou uma blusa preta com três caveiras desenhadas na frente que achou que serviria em Will, então sentiu que o garoto voltara e estava andando as suas costas.
– Olha eu... — mas ao se virar, Nico gelou.
Não era Will que estava ali. Era Hades. Seu pai. O garoto se encostou na cômoda para não cair.
– Oi filho — disse Hades em deu tom de voz imponente, sentando-se numa poltrona ao lado da escada.
Nico queria morrer. Só havia um motivo para Hades estar ali. Ele sabia, e iria arrastar Nico pelas tripas até o tártaro.
– Pai? O quê você está fazendo aqui?
Hades revirou os olhos.
– Se aparecemos, vocês reclamam, se não aparecemos, vocês reclamam também. Onde estão as boas vindas?
Nico se desencostou da cômoda e limpou o suor de nervoso que brotara em sua testa.
– Não, é muito bom te ver, de verdade. Mas você não devia estar ocupado com todas aquelas coisas de mundo inferior?
– Você é mais importante filho — ele falou olhando em volta — Que lugarzinho deprimente, diga que não foi você que fez isso.
– Não, eu não fiquei aqui para decorar o lugar — disse Nico coçando a cabeça nervoso.
– As pessoas acham que meus filhos são vampiros, é a única explicação — Hades bufou irritado.
Nico quase caiu para trás. Will desceu as escadas logo atrás das costas de Hades. Ele abriu a boca para falar quando avistou Hades e seus olhos se arregalaram. Nico balançou a mão negativamente para Will de um modo que Hades não notasse.
– Bem pai, eu... fico realmente feliz que você se preocupe, mas não precisava ter se incomodado com a viagem... Podia ter mandado um e-mail...
Will recuou e se escondeu atrás da escada.
– Não, o que eu tenho para lhe dizer não pode ser dito de outro modo que não seja pessoalmente e a sós. Por isso, por favor, faça o favor de vir até aqui Solace — Hades disse agitando a mão sem olhar para onde Will se escondia.
Nico sentiu as pernas amolecerem. Ele voltou a se segurar na cômoda. Will saiu de trás da escada meio trêmulo, mas se encaminhou até eles e parou ao lado de Nico. Então fez uma referência para Hades.
– Senhor Hades.
Nico lhe estendeu a mão com a camisa. Ter Will sem camisa na frente do seu pai era a provavelmente a coisa que ele teria posto na primeira posição da lista de "Coisas que nunca devem acontecer". Will enfiou a blusa rapidamente. Hades os observou, então fez outro sinal com a mão.
– Sentem-se.
Mas Nico sentia vontade de gritar para que Will saísse correndo dali, o mais longe que pudesse. Will se sentou na poltrona a frente de Hades, enquanto Nico ficou de pé.
– Então assim que é você — Will falou.
– Perdão? — Hades lhe perguntou como quem não o ouvira direito.
– Nada. Só achei que quando o visse estaria morto. Você veio me matar? — disse Will com a voz controlada.
Nico caminhou até a frente da poltrona de Will.
– Pai, eu posso explicar. Não é nada do quê...
– Eu estou pensando? — Hades completou arqueando as sobrancelhas — É óbvio que é.
Você é um garoto corajoso Will Solace, eu admito isso. Mas eu não vim para matá-lo. Vocês dois tem uma visão bem errada de mim.
E os três ficaram calados por um momento.
– Sente-se filho — Hades indicou a terceira poltrona.
Nico achou melhor não contrariá-lo uma segunda vez, principalmente depois de Hades ter concordado em não matar Will. Então se sentou. Hades estalou os dedos e começou.
– Eu sei que estão juntos. Me deixe falar — ele levantou um dedo para silenciar Nico quando o garoto abriu a boca — Eu sei que estão juntos. E eu também não tenho nada com isso, ou contra isso. Eu só quero que você seja feliz filho. Não importa o jeito que você tenha que encontrar essa felicidade. Eu tenho muito orgulho de você. Você é o meu filho mais corajoso, poderoso e amado. Não duvide disso.
Nico boquiabriu-se.
– Pai...
– Eu não terminei — ele levantou o dedo para calá-lo de novo — Vocês tem a minha benção. Apolo inclusive está muito feliz — comentou Hades amuado — Está me enchendo o saco inclusive.
– Como meu pai está, ele foi castigado? — Will perguntou preocupado.
– Não. Graças ao seu amigo... — ele apontou para Nico — Como é mesmo o nome dele? Jesse?
– Jason.
– Isso. Jason o convenceu a perdoá-lo. Aliás... foi Apolo quem me disse para vir aqui — Hades torceu as mãos.
– Meu pai pediu ao senhor que viesse? — Will se surpreendeu.
– Sim. Mas infelizmente não foi por causa de vocês dois, embora ele tenha pedido para mim dizer que ele manda seus parabéns e um abraço. É um outro assunto, entre mim e meu filho. Só aproveitei a vinda para deixar claro que não me importo, já que estava aqui Solace — Hades suspirou — Quisera eu que fosse por isso.
Nico se arrepiou com o tom sombrio do pai.
– Bem, quero que cuide bem do meu filho Solace. Eu irei atrás de você se você não tratá-lo como ele merece. E não se preocupe filho. Eu não me importo. Você devia saber disso. Saber que eu só quero seu bem. Não sei se você sabe, mas antigamente, na época da guerra de tróia, havia uma terra que era comandada por dois reis — Hades balançou uma mão irritado — Eu já amei homens também filho, embora com certeza prefira as mulheres.
Nico corou até as orelhas.
– É informação demais pai. Eu agradeço por tudo. Por entender.
– Só não deixe ninguém achar que você é menos por ser o que é. Mostre a eles o quão respeitável e perigoso você é filho. Mostre a quem devem temer. Que você faz o que quiser e continua sendo superior — disse Hades em um tom assassino, e então olhou para Will.
– Eu amo seu filho — Will lhe encarou — Nunca faria mal a ele.
– Faria sim — suspirou Hades — de formas que você não pode entender. Agora saia Solace. Preciso falar com Nico em particular.
Will pareceu curioso quanto ao que Hades tinha dito, mas aceitou que tinha sido dispensado e se levantou.
– Obrigado por entender. Por ser tão bom com o Nico — Will lhe disse — Ele merece, você sabe.
Hades assentiu e Will saiu sussurrando um "até amanhã" para Nico. Então tudo ficou em silêncio. Seu pai brincou com um anel no dedo indicador.
– Tem alguma bebida?
Nico sabia que o pai não o censuraria, então pegou da geladeira o resto do Drury's que Will lhe dera de presente e serviu o pai.
– Não vai se servir?
– Não sei se devo.
– Beba um pouco com seu pai criança — Hades fez um copo aparecer e lhe entregou — Não é todo dia que eu posso vir aqui.
Nico se serviu e sentou-se na frente do pai.
– Você sabe o quanto sinto orgulho de você filho. Vai ser um grande homem. Poderoso — e bebeu um pouco. Nico não sabia o que responder, então tomou um pouco de seu copo também — Eu realmente estou feliz por você estar feliz. Mas você sabe que...
– Você não veio aqui só por isso? Eu sei. Não estou reclamando pai. O que foi?
Hades se sentou melhor.
– Não é bem assim. Na verdade o assunto tem integralmente a ver com você. Você é meu filho preferido Nico. Não só dos que estão vivos. De todos.
– Tenho mais irmãos? — Nico levantou as sobrancelhas.
– Não semideuses, outros tipos de híbridos. Tipo os cíclopes de Poseidon, embora eu ache meus filhos mais bonitos. Dois olhos, mas tem asas. Asas são bonitas.
Nico preferiu não perguntar com que tipo de monstro seu pai andava saindo.
– E o que é tão importante pra fazer você vir aqui hoje?
Hades terminou seu copo em um gole. O rosto parecia bem triste.
– Esqueça, vamos fingir que eu nunca vim aqui.
– Pai — Nico se sentou na ponta da poltrona, o encarando corajosamente — Eu tenho o direito de saber.
E Nico pode apreciar como Hades, o deus da morte, parecia tão humano nesse momento. Como um pai, realmente. Ele passou a mão na testa para limpar o suor e começou a falar.
– Você sabe que Apolo sugeriu que eu viesse.
O dom dele voltou. Estávamos conversando sobre vocês, ele estava lá em casa. Me contou que Will estava pedindo para ele para que o ajudasse a fazer você olhar para ele. Eu estava tão feliz filho, tão feliz que você estava conseguindo ter uma vida boa e normal... Mas então os olhos dele — Hades fez um gesto com as mãos — Começaram a soltar aquele brilho verde estranho. Ele escreveu isso aqui. Quando voltou ao normal, disse que tinha certeza que era sobre vocês dois.
Hades tirou um papel do bolso e lhe entregou como se não quisesse vê-lo. Estava escrito em grego antigo, mas Nico conseguia ler. Sua alma gelou.
– Isso não é nada, é o trecho de um livro.
– Eu sei. É um trecho da Ilíada — Hades apertou a ponte do nariz.
– O que isso tem a ver comigo? — Nico encarou o papel nauseado.
– Apolo disse que tem a ver — Hades gesticulou irritado — Você sabe da história, o que aconteceu com o companheiro de Aquiles. Essas foram suas últimas palavras sobre ele — ele apontou para o papel.
Nico lhe devolveu o papel.
– Me desculpe, mas eu não posso aditar nisso.
Hades lhe encarou por um momento.
– Talvez seja melhor assim.
– Enfim, Apolo deve estar confuso — Nico disse irritado, andando de um lado para o outro.
Hades se levantou e suspirou.
– Eu espero que esteja certo. Eu espero que as parcas não deem a vocês a mesma sina que tiveram Aquiles e Pátroclo. Porque se for...
E então o pai se dissolveu no ar, deixando o papel cair no chão. Nico o juntou e leu outra vez, só pra ter certeza.
"E A MORTE NÃO REVELOU NADA NELE QUE NÃO FOSSE BELO"
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