Soul
27 Sanguinem et animam
Notas iniciais
O tempo passou. As sessões com Korinna continuaram, ela brincava com a minha mente. Fazia ilusões, estourava suas bombas em meu cérebro, me cortava, enfiava facas finas e longas por todo o meu corpo. Não conheci nada além da dor. Depois ela me curava e eu dormia. Quando acordava, eu comia, tomava um banho e acontecia tudo de novo. Eu nem ao menos lutava.
A pior parte disso, era que quando ela me curava, ainda ficavam as cicatrizes. Retorcidas e saltadas, me destruindo em todos os lugares.
Um dia, enquanto ela vasculhava minha cabeça eu estava sonhando com um campo cheio de flores, enquanto conversava com Aella.
Eu descobri algumas coisas, enquanto Korinna vasculhava minha mente. Uma das primeiras coisas era que ela havia mentido sobre a minha história. Não completamente, mas havia feito.
Aella era minha irmã, tanto por parte de pai quanto mãe. Sim, nossa mãe havia nos matado quando incendiou nossa casa, porque ficou literalmente louca de amores. Por isso ela foi parar nos Campos de Punição. Mas a nossa história não parou ai. Tânatos se compadeceu de nós, por que apesar de tudo nos amava. Ele nos entregou para Hécate.
Então nos tornamos seus Espectros, imortais e vivas, que zelavam e dividiam dos poderes da deusa, ajudavamos ela e cuidávamos de suas sacerdotisas. Com o tempo, ficamos apenas suas amigas, filhas e irmãs ao mesmo tempo. Eu as amava, de todo o coração e sabia que era amada da mesma forma por ambas as outras. E então Korinna veio, ela era sua filha de sangue mas também havia morrido. Ela havia nascido da terra e dos céus, já que é uma deusa virgem como Ártemis.
Ela dividiu novamente seus poderes entre nós, agora de uma forma em que pudesse confiar em cada uma de nós para algo específico. Nós nos tornamos cada uma, uma de suas faces. Ela possuía várias, mas cada uma de nós só tomou uma.
A Lua, o fogo e a magia. A adaga, a tocha e a chave. O cachorro, o cavalo e a serpente. Nós tinhamos vários nomes para aqueles que sabiam de nós, os que adoravam a deusa. Não cheguei a descobri quem era quem na história.
Todas tínhamos um certo domínio sobre a magia, mas aquela que possuía a forma tinha um controle quase igualado ao da própria deusa.
Ainda estava aprendendo o que havia acontecido depois disso, mas tudo era muito confuso ainda.
De volta ao presente, Korinna vasculhava minha mente como de rotina, na memória eu conversava com Aella sobre algum menino, cujo o nome eu não havia entendido ainda. Eu estava a fim dele, pelo que eu percebi. Hécate era uma deusa virgem, sim. Mas ela não nos impedia de ter romances em algumas vezes. E ele era o da época.
Aella era linda. Ela tinha uma pele escura e dourada, bronzeada. Olhos azuis como os meus e os de Korinna e cabelos longos e pesados com cachos grandes nas pontas. Lábios grossos, olhos grandes, maçãs do rosto saltadas mas na medida correta.
A dor estava presente e invadindo cada parte de mim. Havia cortes nos meus braços, uma adaga na minha barriga e um corte em meu rosto. Senti que estava a ponto de desmaiar pouco antes de realmente acontecer. Quando tudo ficou negro, senti o mesmo alívio que sempre surgia.
Quando recobrei a consciência, imaginei que estava entrando em uma das ilusões que Korinna usava para me distrair e me enfraquecer. E como havia feito nas últimas sessões, abracei a ilusão e fui conforme o roteiro. Não matei ninguém.
Mas essa era diferente. Eu sentia a ardência dos cortes, e um cheiro de velas aromáticas no ar. Korinna deve estar aperfeiçoando suas ilusões e tentando técnicas diferentes para me distrair, pensei amargamente.
Abri os olhos, e como na primeira ilusão, estava a bordo do Argo II. Veja bem, os cenários e o que acontecia havia um certo toque de aleatório. Algumas vezes estava na fogueira do acampamento, outras estava de volta ao apartamento. E em uma estive em uma lagoa com Nico.
Mas haviam certos toques, certas coisas que me faziam ter certeza de que era tudo coisas dentro da minha cabeça. Eles sempre sabiam quem Korinna era. Eu podia antecipar seus movimentos, sempre sabia o que eles iam fazer, mesmo que seja apenas dar um passo ou bocejar. A imagem e as cores eram vívidas até demais. As expressões, os olhos, eram vazios e um pouco vidrados.
Havia uma luminária daquelas que era uma bola única e branca, pendurada no teto. O teto era de madeira envernizada, com as faixas de madeira bem alinhadas. Pude ouvir conversas, mas não entendi o que estava sendo dito. Ela está mesmo se aperfeiçoando. Quase posso acreditar que é real.
A cama que eu estava deitada era macia, mas estava quente demais porque eu estava coberta sem motivo aparente. A fronha do travesseiro estava molhada.
Fiz um esforço para me sentar, ou ao menos deitar um pouco menos horizontalmente, mas senti uma dor aguda na barriga como algo me machucando. Então soltei um gemido baixo em protesto. Ouvi algo estalando do meu lado e virei o rosto para ver.
Como na primeira ilusão, ele estava sentado em uma poltrona de couro ao lado da minha cama. Mas ele parecia miserável. Estava magro, suas olheiras estavam terríveis, seu cabelo estava desgrenhado e longo, quase chegando na altura do pescoço. Não era o Nico que eu havia conhecido meses atrás, mas não deixava de ser ele.
Seu olhar era como um animal assustado, ao mesmo tempo havia amor neles. Não eram vazios como já foram nas outras visões. Meu coração fez uma dança de alegria quando seu rosto se iluminou.
–Soph. — Ele disse tão baixo que foi quase um sussuro. Ele vai levantar, e sentar aqui na minha cama. Pensei, prevendo comigo mesma o que ele ia fazer. E eu quase acertei.
Levantou quase caindo e veio até a beirada da cama. Mas ao invés de sentar, se ajoelhou do lado da minha cama.
–Sophie. — Ele murmurou novamente. Senti seu hálito em meu rosto, e o quis beijá-lo. Deuses, como eu quis.
Mas eu me sentia paralisada, como se meu corpo estivesse tomando um choque. Sua mão saiu do lado do seu corpo e ele tocou meu rosto, com tanta ternura e tanto desejo que meus olhos se encheram de água. Mal havia notado eu que ele já tinha lágrimas escorrendo pelo rosto.
Não aguentei a falta de contato físico entre nós, então peguei a mão que acariciava meu rosto, apertei e beijei. Estava chorando de alegria e dor ao mesmo. Nada disso importa. É apenas outra ilusão de Korinna.
Ele veio para mais perto de mim, meu coração bateu mais forte com a ameaça de um beijo. Nossos lábios roçaram e ficamos ali em choque, apaixonados. Ele era uma ilusão, em um certo ponto eu tinha que fazer algo para quebrar ela. Mas não agora. Eu podia ficar mais um tempo.
Não aguentando mais, me estiquei, levantei um pouco da cama e o beijei o mais forte que pude. O calor preencheu meu corpo todo e a dor parou de importar. Éramos só nós dois, perdidos no nosso próprio universo. Eu estou beijando minha própria mente, acabei pensando. E isso e fez recuar para muito longe dele.
Isso não estava certo, não era ele de verdade. Não importa o quanto eu estava sofrendo no mundo real, não era normal. Muito menos saudável.
Em um movimento rápido, me sentei na cama e a dor foi tão grande que eu soltei um gritinho. Apertei a mão na barriga e vi que havia um corte na roupa que eu estava usando por baixo havia um curativo. Eu estava com o vestido que normalmente usava na cela, branco e basico. Mas esse estava sujo, cortado e com sangue seco. O mundo girou por alguns segundos, e assim que parou enrolei meu cobertor e formei uma espécie tira.
–Sophie o que você tá fazendo? — Perguntou enquanto levantava e se sentava na beira da cama.
Continuei onde estava por alguns segundos, então peguei o cobertor e enrolei em seu pescoço. Fazer aquilo que estava fazendo, precisou de toda a minha força. Tanto física quanto mental. Gritei, deixando tudo sair.
–Me desculpe, me desculpe... — Murmurei para ele enquanto ele esperneava e tentava tirar o cobertor de seu pescoço. — Eu te amo.
Seus olhos estavam ficando vermelhos e saltados, seu rosto inchado. Virei o rosto para parar de olhar e gritei novamente. Deixando toda a raiva, frustração e dor sair. Estava chorando com todas as forças que tinha então quando vi que ele tinha apagado, soltei o cobertor de seu pescoço.
A porta do quarto se abriu tão bruscamente que ela até bateu na parede, e um rio de pessoas entraram por lá.
–Sophie! O que...? — Uma das vozes disse. Minha visão estava borrada, mas olhei para cima e vi Leo. Mas não parecia ele. Ele estava diferente. Seu cabelo estava maior, ele havia ganhado uns músculos e parecia mais velho. Seu rosto agora tinha um maxilar definido.
Olhei para todos ali, mas eles eram versões diferentes das pessoas que eu conhecia. Apenas Percy e Annabeth não haviam mudado. Todos os outros pareciam diferentes e estranhos pra mim como se de repente, eu estava em um futuro estranho e distorcido.
A visão deveria ter acabado. Alguma coisa esta errada, ou Korinna esta fazendo algo bem demais.
Eles estavam assustados comigo, o que não deveria acontecer. As visões eram para me confortar, me amolecer e abaixar minhas defesas enquanto Korinna investigava mais a fundo. O que estava acontecendo era quase um pesadelo.
–Nico! — Annabeth gritou ao ver Nico desacordado. Correu até ele para checar seu pulso, ambas ficamos um pouco mais felizes ao saber que ele ainda estava vivo. — Sophie porque você fez isso?
Eu ri. Um riso doentio surgiu de mim, uma gargalhada sem sentido. Nada daquilo fazia sentido, eu estava presa em um pesadelo. E eu estava rindo. Tanto que quando parei, meus olhos estavam cheios de lágrimas.
–Korinna já chega! Você já me destruiu o suficiente. Me deixa em paz! — Gritei para o nada, mas ao mesmo tempo para tudo.
Os semideuses diante de mim se entreolharam, e eu os estudei. As expressões eram de dúvida, e seus olhos pareciam assustados. Não havia nada de vazios nele, a mesma coisa que eu havia notado em Nico.
O cabelo de Elizabeth, liso e preto, estava agora curtinho, como o da Anne Hathaway na época de Les Miserables. Tive um choque quando notei isso. Estava um pouco mais bronzeada, e mais forte.
Já Elisa estava um pouco mais alta e magra, mas com o rosto mais definido. E com um pouco mais de corpo, não que ela não o tivesse no mundo real.
As diferenças, foram as coisas que mais me mataram.
–Quem é Korinna? — Captei Percy perguntando para Leo, que estava do seu lado esquerdo.
–Emily! — Elisa gritou alto. Quem diabos é Emily? Estamos na minha própria mente e tem um personagem que eu não conheço?
Tudo ficou quieto, enquanto eu ouvia os passos acima de nós ecoarem pelo quarto. Então os passos sumiram, para logo eu ouvi-los pelo corredor pra fora do quarto. Emily esta descendo as escadas e andando pelo corredor, estudei enquanto ouvia tudo. Quando a pessoa passou pela porta, meu coração parou.
Me assustei de tanto, que recuei. Mas como já estava na beira da cama, eu cai de bunda no chão. E quando estava no chão, me arrastei para o mais longe que pude. A dor na minha barriga era como uma das facadas de Korinna, mas era mais suportável. Encostei na parede e me encolhi como uma criança se protegendo.
A garota, Emily, era na verdade Aella.
Ela não havia mudado nada, depois de milênios. Ela deveria estar morta. Ela não deveria nem estar nessa visão. Seus cabelos ainda estavam abaixo do meio das costas, negros e com cachos pesados e grandes nas pontas. Sua pele possuía o mesmo bronzeado das minhas memórias perdidas, seu rosto não havia mudado. Ela vestia shorts jeans claros e uma camiseta solta com um desenho de flores envelhecidas, estava descalça como se estivesse em casa.
Ela olhou para mim e nossos olhares se travaram. Posso jurar que vi suas iris azuis idênticas as minhas, ficarem vermelhas como se estivesse diante de chamas.
–Você não devia estar aqui. Como está na ilusão? — Falei baixo demais, mas como o quarto estava quieto até demais, ela ouviu.
–Ilusão? — Sua voz era forte, podia dar ordens que um exército inteiro ouviria, mas podia também confortar um bebê com uma canção de ninar. Haviam vasculhado o suficiente nas minhas memórias para que eu tivesse contemplado as duas situações. Era incrível.
–Vocês não são reais, não podem ser. — A dor que eu estava sentido, me fez começar a chorar. Não era uma dor física e sim psicológica. — Vocês todos estão muito longe, ainda procurando por mim, se arriscando, lutando contra os monstros de Korinna. Nesse exato momento eu estou desacordada e presa a uma maca, enquanto Korinna me fatia e vasculha minha mente. Isso tudo não é de verdade.
Meu coração doía de milhares formas, eu queria que aquilo tudo fosse verdade mas não era.
Aella/Emily veio até mim, quase correndo e se ajoelhou no chão na minha frente. Seus olhos estavam cheios de água. Ela colocou uma mão de cada lado do meu rosto e limpou minhas lágrimas.
–Você está aqui de verdade, acredite em mim. Sou eu, sua soror.– Irmã. Nos chamávamos assim desde pequenas, e ouvir o apelido mais do que velho me fez chorar mais. Comecei a solução. Ela me abraçou e sussurrou algo em meu ouvido. — Purgare mens.
Rapidamente reconheci as palavras, era um comando, uma magia básica de comando usada para quando se precisava acalmar alguém. Acalmar a mente, é a sua tradução literal. Haviam várias outras, simples que podiam ser feitas por nós sem esforço nenhum.
Foi como se um vento batesse e levasse tudo de ruim que havia na minha mente. A dor cessou, assim como o choro.
Naquele segundo eu soube, que não era uma visão. Eu estava a salvo e com eles. Se eu não estivesse sob o efeito de um comando teria começado a chorar de novo, dessa vez de alegria.
–É você mesmo. — Consegui dizer, enquanto afundava meu rosto em seu ombro e senti seu cheiro de cidreira. Até isso não havia mudado.
–Sim, não vou te deixar de novo. Nunca mais.
Fiquei junto dela pelo que pareceu uma eternidade, mas ela me afastou para olhar pra mim.
–Ela te destruiu. — Algumas lágrimas haviam deixado um rastro em seu rosto. — Você precisa descansar, seus pontos abriram.
Só percebi isso quando ela me falou, então olhei para baixo e vi uma mancha enorme de sangue fresco saindo de meu vestido. Mas eu senti pouca dor, não era nada comparado ao que eu havia passado.
Ouvi alguém pigarrear atrás dela, e encontrei todos nos olhando com os braços cruzados. Ao ver aquilo, fiz algo que eu não havia feito por meses. Dei o maior sorriso que conseguia dar.
Me levantei meio cambaleante e fui até eles. Todos me abraçaram de uma vez e eu me senti em paz. Estava presa entre uma montanha de pessoas e estava feliz e me sentindo bem por isso, quem diria. Quando me soltaram, parti para os abraços individuais. Comecei por Leo, e ele me apertou tanto que até esqueceu que eu estava com um corte aberto na barriga. Para ser franca, eu também. Elisa e Elizabeth me abraçaram ao mesmo tempo enquanto falavam coisas como tipo "vamos te colocar em uma caixa de vidro e nunca mais tirar os olhos de você", o que seria muito engraçado se eu não tivesse acabado de sair de um cativeiro. Annabeth quase me bateu enquanto escondia umas lágrimas de alegria, porque eu "nunca deveria fazer aquilo de novo". Percy deu um sorriso enorme e eu sorri também, como se fosse humanamente possível. Seu cheiro de mar me deu saudade do acampamento.
Quando a sessão de abraços acabou, eu olhei para Nico desmaiado na cama. Me senti extremamente culpada e queria que ele acordasse logo, para que eu pudesse beijá-lo, dessa vez sem medo de acordar em uma maca.
–Eu posso cuidar dele, se quiser. — Aella/Emily disse.
–Cuidar? — Leo perguntou completamente perdido. — Como assim cuidar?
–Longa história. — Respondi, para evitar que eu tivesse que contar tudo naquele exato momento.
Minha visão girou por alguns segundos. Fechei meus olhos com força para evitar que ficasse pior. Como se lesse minha mente, talvez ela lia na verdade, Aella surgiu do meu lado e passou meu braço por seus ombros e me apoiou.
–Você está perdendo sangue, droga Aimée. — Ouvi Annabeth sussurrar "Aimée?" para alguém. — Alguém tira o Di Angelo daqui?
Soltei o ar pelo nariz por que Aella havia chamado Nico pelo sobrenome. Ciúmes era novidade.
–Com ciúmes, soror?
Abri os olhos para ver Leo e Percy carregarem Nico para fora do quarto e fechando a porta atrás deles. Aella me sentou na cama e saiu andando pelo quarto em busca de alguma coisa, talvez um kit de primeiros socorros.
–Tira o vestido. — Ela ordenou. — Até onde eu saiba todas aqui gostam de garotos, então você pode ficar calma.
–Ha ha. — Falei sem humor algum.
Comecei a tirar o vestido, mas uma coisa me parou. As cicatrizes. Eu pareço o Frankenstein. Elas iam me achar um monstro? Parei e pensei. Não, não iriam. Elas me amam, se não o fizessem não estariam aqui. Então eu o tirei.
A reação delas foi quase assustadora. Elas pareciam chocadas, preocupadas, como se estivessem vendo um filhote ferido. Annabeth puxou o ar e esqueceu de soltar, Elisa cobriu a boca com a mão em choque e Elizabeth tentou não encarar muito. Meus olhos se encheram de água de novo e eu encarei o chão de madeira.
–Sophie... — Elisa começou mas não teve coragem ou criatividade de começar, e eu entendi ela, de verdade.
–Te torturaram por lá? — Elizabeth fez a pergunta de um milhão de dólares. Apenas balancei a cabeça e apertei meus olhos para evitar as lágrimas.
Aella apareceu de novo e ao ver meu corpo, teve um misto de raiva e preocupação. Ela me fez deitar na cama enquanto ela dava os pontos.
–Korinna vai pagar. — Ela murmurou enquanto preparava a agulha. Fiquei quieta, em pânico com medo da agulha e dos pontos. — Eu posso dar um comando novamente, se quiser.
–Não, eu estou bem.
–Eu posso te dar um vinho então. — Ela disse quase rindo.
–É, eu gostaria de um pouco. — Disse rindo um pouco.
–Hey ninguém vai beber nada por aqui! — Annabeth agiu mais como responsável do que a minha irmã que estava a fim de me embebedar. — Mas é melhor vocês começarem a explicar as coisas.
Olhei para Annabeth, que nos encarava com os braços cruzados e quase mal humorada. Depois olhei para a minha irmã que queria me embebedar. Ela estava colocando álcool em um algodão. Droga.
–Eu acho que vou querer um comando. Ou o vinho. — Falei apressadamente quando ela estava com o algodão à centímetros do meu corte.
–Annabeth?
–Sem vinho! — Ela disse quase assustada com a minha vontade de beber vinho.
–Aimée sempre corajosa, mas com medo de agulhas e álcool. — Aella disse enquanto largava o algodão. Colocou a mão em cima do corte e eu soltei um grunhido de dor. — Sine dolore.
Era como se tivessem aplicado um anestésico, bem forte. Fiquei mais calma e respirei fundo. Não doía nada.
–Sem dor, ela disse. O que é isso? Magia? — Elisa se pronunciou.
–Eu vou contar tudo para todo mundo mais tarde, o máximo que eu puder. Mas alguém pode ir checar o Nico? — Perguntei, antes que me perguntassem mais coisas.
–Eu vou. — Elizabeth disse e saiu quase que correndo.
–Ela não gosta muito de agulhas, eu imagino. — Aella murmurou dividindo sua concentração entre o que acontecia e em limpar o corte. Enquanto isso eu sentia apenas cócegas.
–Aterrorizada.
O quarto ficou em silêncio. Havia muita dúvida no ar, elas estavam curiosas quanto a mim e Aella, eu estava curiosa para saber o que tinha acontecido enquanto estava... fora. Eu também queria saber quem era Emily, a garota que Aella se passava. Ela era só uma semideusa preocupada ou era minha irmã? Ou um pouco de ambos?
–Então Emily, você não estava mentindo sobre conhecer Sophie. Mas sobre o que você mentiu? — Annabeth soou cautelosa ao perguntar isso, como se estivesse lidando com uma bomba ao invés de uma pessoa.
–Tudo menos isso, na verdade.
–Deuses, o que disse para eles? — Fiquei curiosa.
–Que meu nome era Emily, que conhecia você e que você ia confiar em mim no momento em que me visse. Que eu era uma ninfa que trabalhava para os deuses e podia ajudar.
–Uma ninfa chamada Emily? — Eu ri alto mas Aella fez um barulho me repreendendo por me mover.
–Eu não sou muito criativa, você sabe disso. — Ela riu comigo. Nós estávamos quase que compartilhando piadas internas. — Continuando, Annabeth, eu menti e peço desculpas por isso.
–Então eu estava certa sobre você. Sabia que tinha algo errado. A única razão que estou confiando em você é porque está curando Sophie e você ajudou Percy quando bateu a cabeça. Não sei como fez aquilo, mas me dá motivos para confiar em você.
–Você podia confiar em mim, e pode continuar fazendo. Eu só menti porque não conhecia vocês. Enfim, começando tudo de novo. Meu nome é Aella.
–Inventou um nome? — Elisa estava incrédula.
–É. Se soubessem meu nome antes, poderiam ter pesquisado sobre mim. Dai a história ficaria complicada.
–Você é fugitiva ou algo assim? — Indagou Annabeth, já colocando a mão no bolso em busca da sua adaga.
–Não, claro que não. É só que vocês fariam muitas perguntas, que eu não estava exatamente com paciência para responder. Agora eu estou.
–Então tá. Quem diabos é você?
–Ela é a minha irmã. — Falei rápido antes que ela dissesse algo.
O choque percorreu a expressão das meninas e elas pareciam perplexas também. Também, não era algo muito fácil de entender.
–Sanguinem et animam. Sangue e alma. Não sou só filha de Tânatos, mas dividimos também a mesma mãe. — Aella me olhou com uma certa ternura e eu tentei dar um sorriso, mas estava preocupada com milhares de coisas.
Bem na hora, Elizabeth abriu a porta e colocou a cabeça dentro do quarto. Ela não estava exatamente feliz, mas acho que era porque não queria entrar ali de jeito nenhum.
–Nico já está acordado, mas está mal humorado.
–Sophie consegue lidar bem com o mal humor dele. — Elisa brincou e me deu um olhar malicioso. Forcei um sorriso e torci para soar verdadeiro. Estava preocupada com como lidaria com ele, na verdade.
–Terminei! — Aella anunciou e eu quase gritei de alívio. — Você deveria tomar um banho. Mas como eu acabei de te costurar, não é uma ideia tão boa assim.
–Eu to fedendo ou algo assim? — Perguntei, preocupada com isso de verdade.
–Não. Só está suada e suja, mas é compreensivo. — Elizabeth disse, ainda fora do quarto mas com a cabeça dentro. — Vou pegar uma roupa pra você.
E ela saiu do quarto. Esperamos em silêncio e ela voltou alguns minutos depois, trazendo uma dessas calças de tecido largas com uma estampa que imitava jeans e uma camiseta branca soltinha. Estava prendendo meu cabelo com uma borrachinha que estava no pulso de Annabeth quando bateram na porta.
–Posso entrar? — Disse a voz do lado de fora. Droga, era Nico.
–Vamos esperar vocês lá em cima. — Aella disse enquanto abria a porta e fazia todas as meninas saírem.
Nico entrou e fechou a porta atrás dele, enquanto me olhava de uma forma quase indecente de tão intensa. Seus olhos mostravam tantas emoções que eu não conseguia identificar uma sequer. Seu pescoço estava em um tom vermelho arroxeado cheio de marcas. Ele estava usando uma camiseta branca, calças pretas e coturnos militares, só havia notado agora.
Eu queria tocá-lo. E não de uma forma indecente. Queria sentir sua pele fria e macia de novo. E eu queria beijá-lo. Já isso, não era de uma forma decente. Lutei para manter o controle.
–Oi de novo. — Ele disse e deu alguns passos na minha direção. Eu dei um passo para trás sem nenhuma razão aparente.
As coisas seriam complicadas de se lidar e de se ter o controle. Respirei fundo.
–Oi pra você. — Consegui responder.
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