Soul
17 Noite não tão boa assim
Notas iniciais
Eu fiquei quase que meia hora lá fora sentada. Fiquei entediada nos primeiros cinco minutos. Tentando resistir aos meus impulsos e vontades sombrias de me transformar em fantasma e invadir a Casa Grande.
O sol já havia sumido e o céu estava naqueles momentos de tie dye uando as pessoas começaram a sair da Casa Grande, senti um misto estranho de alívio e desespero. A vontade de entrar ali havia sumido.
–Você pode entrar agora Sophie. — Quíron disse ao aparecer na porta.
Com dificuldade eu me levantei e manquei até a poltrona que eu estava sentada antes. Bufei irritada, com o meu mal humor eterno. Percy, Annabeth, Jason, Piper, Leo, Hazel, Frank, Nico, Elisa e Elizabeth haviam permanecido na sala. E a cara de mal humor deles não era melhor que a minha.
–Então... — Ele suspirou, massageando entre os olhos. — Suas punições foram decídidas. Foram elas: não poder participar dos jogos do acampamento, como o que teremos na terça-feira e me ajudar a supervisionar o mesmo. Limpar os estábulos e lavar a louça do jantar, ambos durante o tempo que você estiver no acampamento.
Eu não queria participar do jogo bobo mesmo, tentei enganar a mim mesma. Mas isso era impossível. Eu estava ansiosa para jogar, agora não iria mais poder. Mas eu havia odiado com todas as minhas forças a punição de ter que lavar a louça do acampamento e limpar os estábulos. Primeiro que, haviam umas cinquenta pessoas ali. No mínimo. Segundo, era possível sentir o cheiro forte dos estábulos à metros dele. Eu não iria fazer tudo sozinha.
Ao ver a minha expressão boquiaberta e com uma pontada de raiva Quíron continuou a falar.
–Durante a reunião, seus amigos aqui se ofereceram para ajudarem a lavar as louças e limpar os estábulos. — Olhei para eles, dando um sorriso. Eu tinha os melhores amigos do mundo. — Claro que eu não iria negar.a ajuda deles. E além disso, Annabeth e o chalé de Atena se comprometeram a procurar mais sobre seus poderes.
Meu sorriso virou um sorriso envergonhado e logo sumiu.
–Não sei como agradecer vocês. — Murmurei envergonhada por ter amigos tão bons sendo que eu não merecia exatamente.
–Não precisa. Você é nossa amiga, afinal. — Respondeu Hazel.
–Ainda acho que eu não mereço tanta bondade. — Murmurei baixinho.
– Então, vocês podem nos dar licença? — Quíron disse educaamente. — Eu quero conversar com Sophie antes de liberá-la.
Silenciosamente eles deixaram a sala. Mas quando chegaram na varanda e fecharam a porta eles começaram a falar alto, como jovens comuns fazem.
A tensão na sala era tão forte que eu podia quase sacar uma faca e cortar no ar.
–Então, Sophie. — comecou Quíron. — Ouvi muitos rumores sobre você. Se não se incomoda, gostaria de saber a sua história de verdade.
E então as palavras sairam da minha boca como uma água caindo de uma cachoeira. Tirei alguns fatos, claro. Tipo as partes sobre eu e Nico ou meu sonho, embora eu ache que deveria contar pra ele sobre o sonho. Não falei nada pois estava relutante ainda. Talvez mais para frente eu falasse.
Ele ficou uma mistura de maravilhado, curioso, levemente assustado e mais um milhão de coisas que não pude ler em sua expressão e olhos.
–Sophie, — Ele disse depois que terminei de contar tudo. — você nunca soube do seu passado? Nunca quis saber?
–Sempre quis. Mas nunca encontrei nada. Passei anos pesquisando. Não é exatamente fácil saber quem você é quando não sabe seu nome verdadeiro, por exemplo.
–Aqui, você tem mais recursos do que tinha antes. Se desejar, pode tentar achar algo.
–Tudo bem mesmo? — Perguntei animada, grata e envergonhada. Eu estava sendo mais ajudada do que o normal.
–Claro. Existem registros aqui. Embora eu tenha certeza que nunca houve um filho de Tânatos reclamado, deve ter havido alguém... — Ele murmurou.
–Eu não acho que já houve algum. Os deuses falaram que nunca houve nenhum no dia em que me trouxeram a vida. Era por isso que eles temiam me trazer a vida. Porque eu podia ter poderes perigosos. E aconteceu exatamente isso.
–Você tem que ter alguma coisa, mesmo pequena, que tenha a ver com sua vida passada.
Havia, mas eu temia dizer a ele porque temia o significado. Mas se isso fosse me ajudar a descobrir meu passado, sendo ele bom ou não, eu tinha que tentar.
–Tem uma coisa. — Murmurei esperando que ele não ouvisse e eu não fosse obrigada a contar, mas ele me ouviu porque seus olhos castanhos se voltaram pra mim, sua expressão curiosa.
Então eu contei à ele. Sobre todas as vezes que me chamaram de Espectro e sobre meu sonho.
–Bem, é um bom ponto de início. — Ele murmurou, levemente transtornado.
–Sim, é. — Falei não conseguindo tirar uma questão da mente. — Quíron, porque você não está bravo pelo que aconteceu mais cedo? Deuses você poderia estar irado comigo, ou sei lá o que.
–Porque eu sei que o que aconteceu não foi sua culpa. — Ele respondeu como se fosse simples assim. Mas é claro que não era. Não que eu havia feito tudo de propósito para matar o garoto. Eu fui levada por uma escuridão da qual eu não podia fugir e ansiei pela morte do garoto. Foi isso que havia acontecido.
Apesar de tudo, eu não sentia arrependimento ou remorso pelo que havia feito. Acho que aquilo deveria ser por causa do meu pai, eu deveria ter puxado ele ou sei lá.
–Você sabe que eu não sou inocente. Porque continua achando que eu não tenho culpa?
–Porque não é algo que alguém como você faria.
–Não sou exatamente uma pessoa quente Quíron. Não estou dizendo que fiz aquilo de propósito, mas também não fiz acidentalmente.
–Me diga uma coisa. Você está tentando me convencer de que não é inocente? — Sorri levemente, confusa comigo mesma.
–Não faço ideia do porque estou fazendo isso. Só queria entender porque você acredita tanto em mim.
–Talvez porque tenho fé em você Sophie Seele. E talvez porque não a culpo por sua natureza fria, como seu pai. Faz parte da sua natureza, como filha dele.
Eu finalmente estava derrotada. Eu não conseguia entender perfeitamente porque ele não estava puto comigo. Mas já havia me conformado que não iria entender tão cedo.
–Então, acho que já acabamos por aqui. Tem mais alguma coisa que queira discutir?
–Não. — Respondi calma e lentamente, como se não quisesse sair logo dali porque queria ver Nico. — Vejo você no jantar.
Ele deu um sorriso enquanto eu levantava e saia da Casa Grande.
Ao passar pela porta, respirei fundo, sentindo ar puro desde que havia acordado. Sem o peso em mim.
Fiquei ali parada na porta apenas respirando fundo, até que uma voz que era capaz de despertar os sentimentos mais intensos em mim, se é que podem me entender. Me virei para ele, com o coração batendo forte ou pelo susto ou por sua presença. Eu não podia definir.
–Como foi? Ele te deu uma bronca?
Ele estava com aquelas poses sou casualmente sexy, apenas escorei nessa parede e fiquei parecendo sexy. Eu juro que estava com os nervos em frangalhos, exceto uns poucos que gritavam para que eu agarrasse ele.
–Não. Só ofereceu ajuda para tentar me ajudar a descobrir meu passado. — Respondi caminhando lentamente até ele.
–Sério? Isso é ótimo. Talvez com isso tudo podemos entender um pouco sobre seus poderes.
Demorei mais alguns segundos, depois disso, para chegar até ele. E quando cheguei ele deve ter percebido o cansaço atrás dos meus olhos pois abriu os braços — mesmo eu sabendo muito bem que ele não gostava de abraços — e passou os braços ao redor dos meus ombros. Me aconcheguei em seu abraço frio, visto que ele não tinha uma pele exatamente quente. Encostei a cabeça em seu peito sentindo seu coração bater. Ignorei todas as sensações ruins que isso trouxe, as que diziam que aquele coração não devia estar batendo.
–Está tudo bem? — Ele perguntou e eu assenti, embora não tivesse certeza que ele pudesse ver. — Quer dar uma volta? Você já foi para a praia?
Me separei dele lentamente. Olhando para ele. Mas meus braços ainda estavam em seu ombro e os suas mãos na minha cintura. Olhei para os lados, vendo que o Acampamento estava movimentado naquele horário. Aliás haviam vários campistas passando por nós e que nos olhavam e murmuravam um para o outro. Olhei para Nico para ver se ele estava percebendo os outros campistas e obviamente ele estava vendo, porque quando eu virei o rosto para olhar para o lado ele também olhou. Mas não estava ligando. Muito menos eu.
–Eu adoraria. — Sorri levemente. Ele milagrosamente também esboçou um sorriso. — Você está sorrindo! — Brinquei e ele rolou os olhos, seu sorriso quase mostrando os dentes. Quase.
Então, inesperadamente porém era algo que eu desejava, ele me puxou pela cintura e me beijou. Na frente de todos que passavam por ali e quem quisesse ver.
Como sempre acontecia eu me esqueci de tudo ruim que estava acontecendo, e me foquei apenas em mim e nele. Era apenas um beijo até que eu senti uma necessidade estranha e muito forte de que precisava dele mais perto de mim. Minhas mãos foram parar em sua nuca, apertando-a. Em resposta, sua mão deslizou pela base das minhas costas por baixo da minha blusa, me trazendo mais perto ainda e fazendo meu corpo todo arder. Aquilo tudo me deixou sem ar e incapaz de formar um pensamento sequer, então um pensamento que não era exatamente meu foi parar em minha cabeça.
Devagar.
E não fui eu quem recuou. Foi Nico.
–Você...? — Comecei a perguntar, ofegante e sem conseguir formar frases corretamente.
–Ouvi? Sim. Acho que era meu pai. — Muito agradável ver que o pai do seu namorado está observando vocês enquanto vocês se beijam. Muito agradável.
Ele estava com o rosto corado e abaixou o rosto. Eu não deveria estar muito melhor. Só pelo calor que eu sentia em todo o meu corpo e principalmente meu rosto eu deveria estar parecendo um pimentão. Soltei sua nuca e me afastei apenas um pouco, para prender meu cabelo em um coque preso com ele mesmo. Quando terminei abanei meu rosto, percebi que estava trêmula também para completar. Ótimo.
–É meio perigoso nos deixar sozinhos. — Murmurei tentando acalmar minha respiração e diminuir meus batimentos. — Deveriamos ser proibidos de fazê-lo.
–É, deveriamos. — Ele murmurou com um tom estranho até que percebi que ele estava com um meio sorriso. — Você usa conjugações que ninguém usa. — Ele murmurou em um meio sorriso.
–Pobres conjugações inutilizadas. — Brinquei.
Senti alguém me abraçar por trás e não me preocupei em me virar para olhá-lo. Ao contrário da situação que estávamos dois minutos antes, não havia mais a mesma malícia. Eu me sentia confortável e protegida ali.
–As pessoas nos viram e estão nos vendo, você sabe. — Murmurei. Não estava querendo fazer ele recuar e sim queria entender porque ele havia mudado de idéia tão de repente.
– Eu não ligo. — Ele me respondeu, falando baixo no pé da minha orelha. — Você liga?
–Nem um pouco. — Respondi me sentindo calma e protegida pela primeira vez no dia. Não me sentia mais como se milhares pessoas estivessem assistindo a minha mudança, enquanto eu ganhava meus poderes e perdia o controle.
Encostei a minha cabeça em seu peito, minha cabeça indo para frente e para trás sutilmente quando ele respirava.
–Nós ainda vamos à praia? — Eu pergunto.
–É meio perigoso nos deixar sozinhos. Deveriamos ser proibidos de fazê-lo.
Ri e ele quase me acompanhou. Porque pude sentir o ar saindo de seu nariz, em uma daquelas risadas silenciosas.
Um barulho alto soou, como uma trombeta ou sei lá. Me separei dele olhando para os lados e tentando entender o porque daquele barulho, se era um alarme de algum problema ou sei lá. Nico ao ver minha cara de confusão logo disse:
–É só o aviso do jantar.
–Ah. — Murmurei envergonhada.
Durante o caminho até o pavilhão eu me preparei psicologicamente para enfrentar os olhares, o silêncio. Mas no fundo eu sabia que não havia como me preparar porque eu só tinha uns meses de vida. Não sabia nada sobre sobreviver na sociedade, ser aceita por ela. Sabia na teoria mas não na prática.
Ao chegar lá o silêncio reinou. Me lembrei da tarde. Você quase matou o garoto. Chegou perto de ser uma assassina, idiota.
Respirei fundo,afundando minhas unhas na palma da minha mão ao apertar. Não estava apertando forte o suficiente para elas cortarem minha mão mas estava quase. Meu coração bateu de um jeito irregular. Os olhares estavam me deixando em pânico. Era a segunda vez que eu sentia um pânico tão forte, sendo a primeira vez o momento em que eu acordei depois de quase matar o garoto (que eu ainda não havia lembrado o nome).
Além do silêncio, haviam os olhares. Julgando, me examinando, como se eu pudesse explodir como uma bomba atômica e matar todos ali. Me senti tão mal que senti vontade de voltar para o meu chalé e não sair dali tão cedo.
Então, fazendo a última coisa que eu esperava, Nico pegou minha mão e a apertou levemente. Era um lembrete. Eu estou aqui pra te ajudar, ele dizia.
Me senti mais calma depois que ele segurou minha mão. Era uma sensação incrível. Ter alguém que te faça sentir bem e confortável não importa o quão ruim esteja.
Sutilmente ele me puxou pelo refeitório, as pessoas nos olhando a cada milímetro que andávamos. De certo modo fiquei feliz por fazer as meninas que sofriam uma queda enorme por ele se morderem de raiva. Ergui o rosto, mostrando que não os temia mais. Na verdade eu me sentia bem. Nem tanto mas ainda sim me sentia bem. Deuses como eu sou má! Fico feliz de provocar sentimentos ruins nas pessoas. Pensei quando estava chegando na minha mesa. Mas antes que eu me separasse de Nico, ele se abaixou um pouco e sussurrou em meu ouvido:
–Parabéns. Você atravessou o refeitório.
Dei um meio sorriso enquanto ele soltava minha mão e ia para a dele, não muito longe da minha. Dei a volta na mesa e me sentei, já não me sentindo tão bem porque ele não estava lá. Eu estava como aquelas menininhas que não desgrudam do garoto.
Um prato surgiu na minha frente, com um macarrão ao molho branco com pedaços de bacon e dois pedaços de frango assado, não muito grandes. E ao lado havia um copo, que ao encostar nele eu desejei uma Schweppes citrus. E ao observar os outros antes de comer, vi que eles se levantavam e jogavam algo do prato no fogo. Oferendas.
Com fome e preguiça eu me levantei. Atravessei o refeitório, de cabeça erguida e tentando parecer não ligar para o silêncio que surgia assim que eu passava pela mesa. O que não era verdade porque toda vez que isso acontecia era mais batidas irregulares do meu coração. Joguei os dois pedaços de frango.
Para todos os deuses que aceitaram que eu voltasse a vida ou a recebesse pela primeira vez, eu não sei. Perdoem-me por desapontá-los e trazer problemas.
Voltei para minha mesa e comi meu jantar.
Ao terminar, logo Elisa e Elizabeth apareceram na minha mesa. Quando eu vi elas chegando perto da minha mesa eu já respirei fundo para não me estressar.
–Você vai nos contar tudo enquanto lavamos as louças. — Elizabeth chegou dizendo. Deuses ela estava puta comigo. Eu podia ver uma raiva leve atrás de seus olhos. Eu quase me esqueci de que eu tinha que lavar as louças.
–Aham. — Eu apenas respondi.
Me levantei. Fiz menção de pegar meu prato e Elisa não muito delicadamente me disse que as louças vão magicamente para a cozinha. Massageei entre meus olhos, irritada e não entendendo o porque elas estavam putas comigo. Eu ia contar pra elas a tarde, depois do tour pelo acampamento. Só que as coisas não saíram como eu pensei. Mas elas não iriam dar brecha para que eu me explicasse. Não importa o motivo elas iam achar alguma falha nas minhas desculpas. Não as conhecia à muito tempo mas já tinha visto várias meninas assim. as coisas não saíram como eu pensei. Mas elas não iriam dar brecha para que eu me explicasse. Não importa o motivo elas iam achar alguma falha nas minhas desculpas. Não as conhecia à muito tempo mas já tinha visto várias meninas assim.
Segui elas porque elas sabiam onde estavam indo, ao contrário de mim. Antes que a gente até mesmo chegasse ao lugar para lavar as louças elas começaram a discutir comigo. Assim, do nada.
–Quando você ia nos contar? — Elizabeth disse entre os dentes.
– Depois do tour. Lembra que eu queria conversar com vocês?
–Não podia ter contado antes?? Por telefone? — Elisa falou igual a irmã, só que um pouco mais exaltada.
–Não. Eu não estava preparada ainda. E a gente está... junto, faz pouco tempo.
–Quanto tempo? — Elisa perguntou novamente.
Deuses elas estavam irritadas por algo estúpido! Não era grande coisa! E se o fato de eu não ter contado a elas isso prova que a amizade não é verdadeira elas estavam muito erradas.
–Uma semana, mais ou menos.
Elas ficaram quietas depois disso. Acho que estavam pensando se aquilo valia a pena. Eu ficaria feliz se esse fosse o motivo pelo qual elas ficaram quietas.
Chegamos em uma sala quente. Muito quente. Ela era quase toda aberta, com grandes vãos na parede do tamanho de portas, uma em cada lado da sala. Havia algo vermelho, borbulhando no canto da sala, em uma grande área que formava um retângulo alto. Aquilo seria nossa pia?
–Pra que é isso? — Perguntei muito assustada e mais um pouco.
–Eles lavam a louça na lava por aqui. Deixa os pratos bem limpos.
Elas me jogaram duas luvas e um avental ambos um material diferente com uma textura emborrachada. A noite ia ser longa.
×××××
Lavar a louça na lava não foi tão torturante quanto eu pensei que seria. Apenas o calor que batia no rosto incomodava e eu ficava com medo do meu cabelo se soltar do coque e pegar fogo. E de bônus eu arrumei as coisas com as meninas. Elas entenderam finalmente que eu não havia escondido delas, só não estava preparada para contar à elas.
Quando estava indo para o meu chalé descansar, sentindo a temperatura baixa do ar contrastar com a que eu estava sentindo antes, ouvi uma música alta. E uma grande quantidade de vida ali, podia sentir. Caminhei em direção à ela, mudando meu rumo apenas um pouco.
De longe pude ver a fogueira. O fogo estava alto, vários semideuses estavam em volta dele. Uns três que estavam no centro estavam com o violão e cantando. Eles estavam cantando Up in the Air eu acho.
Mas havia gente demais lá. Eu não iria chegar mais perto de onde eu estava porque não queria gente me olhando pelo canto do olho, ou não tendo nem mesmo a discrição de olhar de canto do olho e acabar me encarando.
Então eu dei meia volta e fui para o meu chalé.
Chegando lá, eu apenas parei na porta. Porque havia alguém lá dentro. Novamente, eu podia sentir. Era algo forte, diferente da vida dos humanos e semideuses. Era como a de Quíron. Forte e imponente Havia alguém imortal em meu chalé.
Peguei a pedra em meu bolso e a apertei com mais força do que precisava. Entrei no chalé como se estivesse tudo bem, mas estava com espada em mãos e pronta para atacar quem quer que viesse.
Antes que eu pensasse em quem poderia ser eu ataquei. Coloquei meu braço no peito da pessoa (a idéia era colocar no pescoço mas eu não alcançaria nunca) e apertei com força, prensando o indivíduo, que era um cara na verdade, na parede. Coloquei a ponta da minha espada no pescoço do cara. Tudo isso antes de notar as asas negras nas costas do homem.
–Tânatos? — Perguntei exaltada, lutando contra o impulso de chamá-lo de pai.
–Suponho que não pretende me matar de verdade não é? — Ele disse e eu soltei ele lentamente.
–Como se eu pudesse.
–Você pode matar qualquer coisa se quiser. Talvez não um deus, mas qualquer outra coisa.
–Grande ajuda a sua. O que esta fazendo aqui? Não tem alguém para ceifar a vida, ou sei lá?
–Tenho. Mas tenho gente que faz isso pra mim. — Ele disse como se fosse simples assim. — Eu vim conversar com você.
Eu não estava a fim de conversar, de verdade. Eu queria mais é dormir. Mas como eu não podia fazer isso porque ele não me deixaria em paz ou ficaria com raiva, tive que aguentar. Então apenas respirei fundo, fechei a porta e me sentei na cama sentindo o cansaço me atacar.
–O que você quer? Quando eu preciso de você, você não está aqui. Quando eu não quero você por perto você aparece.
–E você não me quer por perto porque...?
–Não estou exatamente a fim de ouvir sermão.
–Como se eu tivesse aqui pra gastar meu tempo falando coisas idiotas tentando te corrigir. Acho que você já tem idade suficiente pra cuidar de si mesma. Até porque se eu não achasse que seus 75 anos de vida sozinha eu seria extremamente super protetor.
–Mas eu só estou viva há uns meses. — O lembrei.
–É verdade. Mas você sabe cuidar da sua vida mesmo assim. Enfim. Vou falar sobre o que me interessa. — Ele se aproximou de mim e me estendeu a mão. Nela ele segurava uma folha branca e dobrada. — Quero você ali amanhã, as 14:20.
–Pra que?
–Pegar alguém. — Ele disse dando de ombros.
–Pegar? — Não fazia ideia do que ele estava falando, mas logo me toquei. — Ah.
Ele queria que eu matasse alguém.
–Quíron não vai me deixar sair.
–Eu lido com ele.
–Como eu vou para lá? Não tem como.
–As suas asas são de enfeite? — Quando ele disse isso eu o fuzilei com os olhos. — Então é só isso. Até a sua próxima missão.
E ele sumiu deixando para trás uma névoa escura. Que pai carinhoso. Aparecia apenas para me dar uma missão. E ainda por cima a missão era ceifar a alma de alguém.
Olhei para o papel em minhas mãos. Quando o abri, foi como se meu coração parasse de bater. A sensação era parecida com a que eu senti quando mudei para Fantasma.
Anne Klinsmann, 17. Avenida Lexington com a Rua 86. As 14:20.
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