Soul
2 Garoto de jaqueta preta
Notas iniciais
Eu estava na entrada da escola, olhando os alunos novos desse ano. Eram quase os mesmos. As líderes estavam perto de mim, examinando todos. Eu vestindo apenas uma camiseta branca e short preto seria julgada por elas com toda a certeza. Os que praticavam esportes estavam cantando as meninas. Idiota. Se eles soubessem o quanto soam vulgares parariam. Sim, sou antiquada.
Até que ele chegou. Na verdade ele não era o único Semideus, e eu me surpreendi. Podia sentir suas auras do ponto onde estava. Estranho. Havia dois casais, e um garoto além dele. Eram seis semideuses. Ok, eram muitos. Fiquei assustada. Eles atrairíam uma quantidade enorme de monstros. Uma garota tinha cabelos encaracolados e olhos dourados. Outra tinha cabelos lisos repicados de um jeito irregular e olhos de uma cor que eu não coseguia definir. Um garoto loiro de olhos azuis, outro grande de cabelos e olhos castanhos, e mais outro de cabelos castanhos e olhos brilhantes castanhos. Ai o garoto que usava jaqueta de couro chamou minha atenção. Tanto pela sensação estranha que eu tive ao vê-lo, quanto pela sua beleza. Pele branca, olhos grandes castanhos, cabelo preto bagunçado como se estivesse acabado de deixar a cama. Era algo incomum de se ver. Abaixo de seus olhos não haviam olheiras de uma noite mal dormida ou sono agitado. Ele estava completamente de preto. Calças jeans, coturnos, camiseta e jaqueta. O grupo não chamou apenas a minha atenção, já que todos olhavam. Mas o mais surpreendente era que no meio de tudo aquilo, eles conversavam sorrindo entre eles, mas o garoto de jaqueta preta apenas sorria de leve, ou esboçava um sorriso. Eu achei aquilo no mínimo interessante.
Então eles chegaram mais perto de mim, e ele olhou pra mim.
Me assustei. Será que ele me viu? Olhei para trás e não tinha ninguém. Era realmente um olhar pra mim.
-Nico, o que você está olhando? — Perguntou a garota de olhos dourados e cabelo encaracolado. Nico. Esse era o nome do filho de Hades que era amigo de Percy e Annabeth. Se esse era o mesmo Nico, ele deve realmente ter me visto.
-Nada, Hazel. — Sua voz era rouca. Eu adorava isso. Incrível que tudo nele parecia apenas o que eu gostava. Aprendi o nome de dois, faltavam quase todos.
Eles passaram por mim, e eu não pensei duas vezes antes de segui-los. A escola era grande, e como todas as outras. Uma quadra, gramados, pátios que ninguém usava, salas e corredores. As cores da escola eram azul e amarelo, o que me lembrava muito um hospital. Eles foram para seus armários, todos próximos. O que era no mínimo suspeito. Nico enquanto pegava seus livros olhou pra mim. Pude ver um misto de curiosidade, medo, e uma leve ansiedade. E se ele continuasse a me olhar assim eu ficaria com mais medo do que já estava, porque seus olhos eram escuros e penetrantes.Eles conversavam animadamente, o garoto de cabelo cacheado fazia muitas piadas. Descobri todos os nomes deles em um minuto, porque eles não calavam a boca. O de cabelo cacheado se chamava Leo, a garota de olhos de várias cores chamava Piper, o loiro era namorado dela, o loiro, Jason. O garoto com cara de chinês era Frank e sua namorada era a de olhos dourados, Hazel. E havia Nico, claro.
-Eu vou dar uma volta. — Nico falou. — Conhecer o lugar.
-Só não se perca. — Brincou Piper, e ele deu um de seus esboços de sorriso.
Ele saiu andando, e eu senti como se devesse ir atrás. Engraçado, nunca havia sentido isso. Fui atrás dele, passando através de algumas pessoas por preguiça de desviar. Como é isso? Escuro. Apenas isso. Eu não sabia se a intenção dele era conversar comigo, ou sei lá. Ele vagava sem rumo, mas eu sabia para onde ir. Passei ao lado dele, chamando sua atenção, e sem dizer nada entrei em um corredor. Ele confuso, me seguiu. Ele realmente queria algo comigo.
Mais alguns metros, e chegamos á uma porta de vidro. Era um dos pátios quase nunca usados, e eu não sabia bem o porque. Provavelmente as pessoas não gostavam de ficar no ar fresco, ou o Wi-Fi não chegava até aqui. Havia uma grama bem aparada para a volta ás aulas, árvores grandes. Percy e Annabeth costumavam ficar aqui. Parei em frente á uma árvore alta e grande, que ficava no centro, cercada pelas outras árvores.
-Quem é você? — Ele perguntou pra mim. Sua voz agora soava autoritária, como se estivesse me dando uma ordem. Eu estava de costas para ele.
-Se está tentando me obrigar a falar, não está funcionando. Acho que seus poderes não funcionam muito bem comigo. — Falei me virando pra ele. Ele me olhou com expressão confusa, boca entreaberta. — Mas como sou educada, ao contrário de você, vou me apresentar. Meu nome é Sophie. E eu não sei o que sou.
-Porque está aqui e não no Mundo Inferior?
-Devo ter caído do caminhão de transporte. Eu não sei, grosso. Mal me conhece e me trata assim? — Ele passou a mão pelo rosto. Impaciente.
-Irritante. — Ele murmurou e eu fiquei irritada. Cruzei os braços. — Ok, vamos recomeçar. — Ele bufou. — Meu nome é Nico di Angelo, eu sou...
-Semideus filho de Hades, eu sei. — Completei.
-Se sabia, porque me pediu isso? — Eu dei um sorriso triste.
-Porque eu nunca conversei com ninguém. Queria fazer a conversa durar mais. Desculpe. — Eu queria chorar mas não podia. Não conseguia.
-Tudo bem. — Sua barreira de "me obedeça, alma" parecia ter caído. Agora era um garoto mais normal. — Então, porque está aqui?
-Porque eu não tenho pra onde ir. Não sei o que sou. — Repeti. Pressionei meus lábios.
-De onde me conhece? — Expliquei como já tinha conhecido Percy e Annabeth. — Eu não sei o que perguntar. — Ele deu um de seus meio sorrisos. — Quantos anos tem?
-75. Até onde me lembro. — Sentei na grama, e encostei na árvore. Eu aprendi a tocar objetos depois de muito treino. Ele ficou impressionado ao me ver encostada e eu ri. — Que foi? Sou velha e desocupada. Aprendi a fazer alguns truques. Quantos anos tem?
-Está muito bem pra uma pessoa de 75 anos. — Ele brincou, me fazendo sorrir tímida. — Aparência de 16 mas tenho 86.
-Oi? — Não entendi direito.
-Você entendeu. — Ri com o choque.
-Como? — Consegui perguntar.
- Longa história. — Ele murmurou sentando ao meu lado. Depois suspirou.
Ficamos em silêncio. Absorvendo tudo. Ele parecia estar longe, mas quando falou, ele falou algo que me chocou.
-Eu sei que quer viver. — Murmurou ele e eu apertei meus olhos, esperando que ele desaparecesse.
-Como deduziu?
-Alguém que nunca viveu vai querer fazê-lo. Enquanto outros ficam se matando por aí, você ficou assim?
-Você fala como se eu tivesse escolha. — Falei assustada.
-Mas você quer? — Ele insistiu em sua frase inicial.
-Muito. — Fui sincera.
-Eu posso te ajudar. — Virei atônita pra ele. Ele arrancava a grama e a picava em pedaços. Eu imaginei qual seria a sensação de sentar na grama. — Se estiver disposta a fazer o que eu te pedir.
-O que quer que eu faça?
-Me obedeça. — Era algo pequeno, mas importante.
-Ok. — Cedi sem hesitar.
-Pode aparecer para as pessoas?
-Posso. — Ele se levantou. Levantei também por instinto. — Vem. — Ele tentou pegar meu pulso, mas sua mão passou por mim. Ele ficou levemente envergonhado. — Bem, pelo menos daqui há algum tempo vou poder fazer isso. — Ri.
-Vai mesmo fazer isso? — Perguntei descrente.
-Você merece uma chance.
-Eu não vou ter como agradecer. — Admiti, e ele sorriu de leve.
-Tudo bem. — Ele pareceu se recompor. — Vamos?
-O que vamos fazer? — Fiquei curiosa.
-Chamar Percy e Annabeth, depois achar os outros.
Ele começou a andar, e como agora devia ser obediente a ele, o segui. Fomos para um pouco mais longe da escola. Ele tirou um smartphone do bolso.
-Semideuses não deveriam ter celular. — Falei por instinto.
-Eu sei. — Ele falou colocando o telefone no ouvido.
Ele falou com Annabeth. Enquanto isso o observei. Sua expressão era de concentração, ele parecia discutir com ela.
-Cacete Annabeth, me escuta. — Ele olhou pra mim com uma sobrancelha erguida. — Desculpe. — Sussurrou. Eu ri alto. Ele continuou com sua expressão, só que agora havia um pouco de curiosidade.
-Eu não sou uma princesa, Nico. Até falo alguns palavrões as vezes. — Ele deu um sorriso grande. EU CONSEGUI FAZER NICO DI ANGELO SORRIR.
-Desculpa Annie, me distrai. — Ele me deu um olhar me censurando e eu sorri.
Depois de dizer várias vezes pra ela que era uma emergência, ele desligou e jogou o celular na parede. Annabeth fazia isso as vezes. Não atraía monstros desse jeito. Ele se virou pra mim.
-Agora é a garota que fala palavrões também? — Ele falou um pouco sério, pra mim soou até um pouco bravo.
-Ah, vai a merda. — Eu juro que soltei sem querer. Não foi de propósito pra brincar com ele.
-Vamos achar os outros. Sabe onde podem estar?
-Que horas são?
-8:40 — Ele respondeu consultando um relógio que eu não tinha visto antes porque estava coberto pela jaqueta.
-Ginásio.
No Ginásio ocorria todo primeiro dia de aula uma espécie de Orientação. Era chato, muito chato, e eu nunca assistia. As arquibancadas estavam milagrosamente lotadas, e os presidentes de classe estavam lá embaixo se apresentando. É, eles eram eleitos no fim do ano anterior para estarem prontos para a Orientação no ano seguinte. Isso começou a acontecer alguns anos atrás, quando havia muitos alunos perdidos e/ou excluídos.
Os semideuses amigos de Nico o viram antes de acharmos eles. Eles vieram em nossa direção, causando uma bagunça pela quantidade de pessoas.
-Todos tem 16 ou 17 e estão no segundo ano. — Nico falou baixo perto de meu ouvido.
-Onde estava cara? — Perguntou Leo.
-Eu descobri uma coisa e é melhor virem comigo. — Seu tom soou mais sério do que ele estava usando comigo.
-O que foi? — Hazel perguntou.
-Melhor não falar aqui. — Ele virou pra mim. — Eu não me lembro do caminho, vamos na frente.
-Eles vão te achar louco. — Respondi preocupada e ele deu de ombros.
-Nico você tá bem? — Perguntou Frank.
-Ótimo. — Viramos e eu caminhei lado a lado com ele.
-Acho que você precisa de uma namorada. Pra te distrair um pouco. — Jason disse e eu não gostei da idéia. A não ser que essa namorada fosse eu. Deuses, eu mal conheço o garoto, porque estou assim?
-Não, eu to bem assim. — Respondeu Nico.
-Ok, se pretende morrer sozinho. — Jason murmurou e eu ri. Nico me ignorou.
-Eu não pretendo morrer sozinho. — Nico respondeu novamente.
-Credo que fim infeliz, Nico. — Eu brinquei e ele me fuzilou com o olhar. Sorri.
-Eu estou te ajudando. — Ele me lembrou.
-Desculpe. — Disse.
-Você não tá bem. — Insistiu Piper.
-Eu tô sim. — Ele respondeu pela milésima vez.
Eles decidiram se calar enquanto nos seguiam. Mas nessa hora, eu fiquei com medo. E se as coisas derem errado? E se eu não conseguir aparecer pra eles? Eu não conseguiria o que quero, Nico seria taxado como louco.
-Eu tô com medo.
Porque? — Ele perguntou preocupado.
-De algo dar errado, eu não conseguir aparecer. Tudo.
-Sou só eu que estou ouvindo um sussurro? — Perguntou Jason e eu olhei pra Nico alarmada. Estávamos entrando no pátio. Deixei Nico guiar o caminho a partir dali.
-Na verdade não. — Respondeu Hazel, levemente assustada.
-Isso tem a ver com esse sussurro. — Nico disse.
Paramos no ponto em que Nico fez a ligação e destruiu o celular. Viramos para eles. Eles olharam para os destroços do celular, e depois se entreolharam confusos.
-Nico, você usou o celular? — Hazel perguntou assustada.
-É. — Ele respondeu como se tivesse confirmado que foi ao Cinema.
-Nico, você não está bem. Vamos voltar pro Acampamento agora. — Hazel pegou seu pulso para puxá-lo.
-Não. Me escutem, aí depois podem me arrastar até para um Manicômio se quiserem. — Ele parecia mais sério do que quando estava tentando me obrigar a falar. Ele puxou seu pulso.
-Fala logo então. — Exigiu Jason.
-Vamos pelo menos esperar Percy e Annabeth. — Ele disse se encolhendo de leve.
-Você chamou eles também? — Leo quase gritou com ele.
-É. — Ele respondeu no mesmo tom, fazendo Leo se encolher.
Então uma enorme sombra apareceu. Era um Cachorro Infernal, com duas pessoas montadas em cima. Uma loira com os cabelos longos e enrolados na ponta, e olhos cinzas. E um garoto de cabelos pretos e olhos verdes. Eles estavam á alguns metros, e tudo o que podia sentir era medo do Cão Infernal. Porque ele podia me morder.
-Droga. — Nico murmurou.
-Nico... — Murmurei, e fui para trás dele. — O Cão rosnou, e Percy e Annabeth estranharam. Ele deveria ser amigo.
-Eu sei. — Me encolhi mais ainda atrás dele. — Sra.O’Leary, não. — Nico ordenou, mas não adiantou muito. Porque o Cachorro Infernal partiu para me atacar.
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