Soul

19 Exesso de viagem nas sombras


Notas iniciais
Eu to triste e feliz ao mesmo tempo. Feliz porque minhas duas fics, Princess of Sky e Soul bateram mil acessos. Mas também estou triste porque não recebi nenhum review no ultimo capítulo. E eu fiquei triste demais. Apesar dos pesares, aqui está o próximo capitulo.

Soltar da mão de Nico fora meu maior erro.

Eu havia soltado para abraçar ele, mas quando fui procurar por sua cintura ele não estava lá. Ele estava abraçando minha cintura, sim, mas minha mão não conseguia alcançá-lo.

Para melhorar, meu estômago estava como se estivesse sido batido em uma máquina de lavar. Estava completamente escuro e haviam sussurros, gritos, uma brisa fria como o ar ao redor de uma geleira e ainda por cima sentia mãos me tocarem as vezes.



Nico!– Eu gritei em pleno pânico. O braço em minha cintura se apertou mais, e eu pude sentir um hálito quente em meu ouvido quando ele falou. Ele fez aqueles barulhos tranquilizadores.

–Shh. Estou aqui Soph.

–Não me solta.

–Nunca.



Eu fechei os olhos, não sentindo muita diferença de quando estavam abertos. Encostei minha cabeça em seu peito e tentei sentir sua presença ao máximo.

Só notei que acabou quando outro braço passou pelas minhas costas. Subitamente abri os olhos e olhei para cima. Ele estava lá. Não havia escuridão além da de seus olhos que me observavam com cautela.

Abracei ele com força enquanto ele subia uma de suas mãos e passava ela por meu cabelo.



–Eu pensei que ia cair. — Murmurei com a voz abafada no tecido da camiseta dele.

–Se depender de mim eu nunca vou te deixar cair.



Me afastei apenas o suficiente e me estiquei para beijá-lo. Um beijo de verdade. Diferente dos que havíamos tido o dia inteiro. Um daqueles que você se entrega de verdade, perde a noção do que acontece ao redor e onde está. Que te faz conhecer a paz mesmo que por um minuto.



–Onde estamos? — Perguntei ao abrir os olhos e acabar com nossa pequena paz.



Era uma espécie de corredor. Lá na frente eu poderia ver uma rua movimentada.



–Na entrada de um apartamento. Achei que seria estranho se nós aparecessemos em uma rua super movimentada do nada.

–Acho que não iriam nos ver por causa da névoa. Você queria é me dar uns beijos. — Falei entre risos.

–Não nego.



Ele me puxou para ele dessa vez. Passei os braços por cima de seus ombros e entrelacei minhas mãos em sua nuca. Nos beijamos e novamente veio aquela sensação boa.



–Nós precisamos ir. — Murmurei entre os beijos.

–Queria que você não tivesse que fazer isso.

–Eu sei.



Dei um último beijo e me soltei dele.

O puxando pela mão, andei pelo corredor com pressa. Quando passei pela porta e fui para a luz do sol meus olhos queimaram como se eu estivesse olhando para o próprio sol. Me arrependi de não ter trazido o óculos que eu pensei em trazer.

Depois que os meus olhos se acostumaram, assim como a minha audição, eu olhei em volta e descobri que não ia ser tão fácil quando eu tinha pensado.

Era o cruzamento de uma rua com uma avenida. Havia trânsito indo para os quatro lados. O Best Buy ficava em uma das quatro esquinas e na que eu estava ficava o Bank of America. Nas outras duas esquinas ficavam lojas comuns. Havia gente passando pelas calçadas e atravessando a rua. Não eram muitas mas o suficiente para eu ter certeza de que seria difícil encontrá-la.



–Que horas são? — Perguntei ansiosa. Meu coração batia muito rápido. Parecia que era eu quem estava morrendo.

–Espere um pouco.



Ele soltou minha mão e eu olhei sem entender para onde ele estava indo. Quase ri quando ele educadamente parou um homem de terno que caminhava pela calçada e perguntou algo. O homem olhos para o relógio de pulso e o respondeu. Fiquei boquiaberta. Nico Di Angelo havia parado alguém na rua para perguntar as horas.

Quando ele voltou eu estava com um meio sorriso e uma sobrancelha erguida em uma forma de humor.



–2:10 P.M. — Ele disse fingindo que não estava vendo minha expressão humorada.

–Que educadinho. — Brinquei. Ele me olhou e depois rolou os olhos. Eu ri baixo.

–É normal pessoas fazerem esse tipo de pergunta para os outros, Sophie.

–É normal para os outros, não você.



Desperdiçamos um tempo conversando sobre coisas sem sentido. Depois que o assunto acabou começamos a reclamar da vida.



–Eu quero um refrigerante. — Ele mudou de assunto.

–Poderíamos passar na Lady M Confections. – Falei a confeitaria que me veio a cabeça quando liguei meu GPS mental. — Fica só nove quadras daqui. Claro que andar nesse sol não vai ser muito bom, mas vai valer a pena. Pelo tanto que eu já ouvi falar de lá parece ser muito bom.

–Eu não trouxe minha carteira. — Ele soou meio desapontado. — Se der eu posso ir buscar rápido lá no acampamento e voltar.



Só de pensar em viagem das sombras novamente eu quase tive um ataque de pânico. Eu iria voando no caminho de volta do acampamento. Sem viagem nas sombras.



–Só se você for sozinho. Porque eu estou traumatizada. — Ele riu de mim. Ele realmente riu da minha desgraça. — Eu sei que você ficou com o coração na mão também.

–Sophie eu nunca iria te soltar nem vou. Não vou perder minha namorada em uma viagem nas sombras por que não quero ver você virar uma história de tragédia grega, e nem eu quero virar uma. Prefiro que você morra heroicamente.

–Discurso profundo Di Angelo. Espera. Namorada? — Falei enquanto abria um sorriso.

–É. Nas histórias eles provavelmente nos colocarão como um casal de namorados, jovens, apaixonados e bla bla bla. — Ele não conseguia disfarçar por que estava lutando contra um sorriso.

–Precisa aprender a disfarçar melhor. Com urgência. Mas desde quando sou sua namorada?

–Eu só estava falando no ponto de vista das histórias. Você sabe disso.

–Vou fingir que acredito. — Falei rindo em um bom humor estranho.



As pessoas passavam por nós na rua e nos olhavam com olhares estranhos. Dois adolescentes na rua conversando faz um bom tempo. Parecia que a gente tinha algum problema ou sei lá. Mas aquilo era New York. Ninguém prestava muita atenção no que o outro fazia, muito menos interferia por que eles tinham mais o que fazer. Estávamos um de frente para o outro mas podíamos ver a rua só de virar um pouquinho a cabeça.



–Quero salvar Anne logo e ir pro chalé dormir. — Murmurei.

–Não vai ser fácil assim Soph.

–Eu sei.

–Pode não acontecer o que você quer que aconteça.

–Eu sei! — Gritei. A rua em que estávamos estava pouco movimentada então pouca gente me deu atenção. — Eu sei que essa droga pode não dar certo e eu posso ferrar com os meus sentimentos mas eu tenho que pelo menos tentar. Não vou dar as costas á possibilidade de salvar ela.

–Não fique brava comigo. — Ele falou em um tom calmo que usava quase sempre.

–Desculpe. Eu só estou... — Bufei irritada. Esfreguei as mãos em meu rosto. — Deveríamos estar procurando Anne. Não...

–Sophie?



Ouvi a voz e a frase ficou no ar. Minha boca entreaberta, congelada no meio da frase. Me virei para encontrar os olhos e cabelos castanhos que eu estava temendo ver.



–Hey Anne. — Murmurei extremamente desnorteada.

–Nico também está aqui? Vocês não deveriam estar na Europa ou sei lá?

–Alemanha. — Corrigi. — É uma longa história.



Eu não tinha pensado na forma que iria abordar ela. Não é algo que você planeja exatamente. Não existe um livro Coisas Para Se Dizer Para Alguém Que Você Sabe Que Vai Morrer Se Você Não Conseguir Impedir ou algo do gênero. Então tive que ir sutilmente.



–O que faz aqui? — Perguntei tentando ser sutil. Mas ela respondeu com um tom ríspido e magoado. Provavelmente por termos mentido pra ela.

–Vou no Best Buy ver se acho um fone de ouvido novo e melhor. E quando e você? Porque não está no outro lado do mundo?

–Eu realmente não sei como explicar.

–Porque? As mentiras são tão profundas que não sabe por onde começar a desmentí-las?

–Não é isso. É só que é complicado.

–Descomplique caramba. — Era raro vê-la falar um palavrão. Isso me deu uma noção do quão puta ela estava.



Eu não tinha uma resposta para aquilo. Olhei para Nico em busca de ajuda e ele logo se colocou à postos.



–Anne vamos lá pra casa. Ai explicaremos tudo.

–Eu prometo. — Completei.

–Eu quero explicações aqui e agora. Porque estão mentindo para todo mundo? E para a escola!?

–É muito difícil de explicar.

–Se você não falar logo eu juro que vou embora.



Um alarme soou em minha mente. Ela não poderia ir pra longe de mim agora. Queria ter um relógio em mãos apenas para saber até quando eu tinha que mantê-la comigo.



–Não vá. Por favor. Nós só... — Eu comecei e não consegui terminar.

–Que cacete Seele. Se não vai me contar tudo bem. Na verdade não está tudo bem. Quem vê pensa vocês estão aqui bolando outro plano nazista contra o mundo ou sei lá.



Eu queria dar um tapa nela simplesmente pelos fatos:

1- Eu não era nazista.

2- Muito menos alemã.

3- Aquele piti dela estava me dando nos nervos.

Mas ela acreditava nas mentiras que eu contava. Então isso me fez não ficar com raiva por muito tempo.



–Não é isso Anne! Eu juro. É só que a história é longa demais e eu não posso gritar ela aos quatro ventos.

–Que tipo de vida secreta você leva para não poder contar nada e mentir do tanto que você está mentindo? Vocês ao menos são alemães?

–Na verdade eu sou italiano. — Nico não estava mentindo completamente. Ele era italiano.

–Eu cansei. Se eu fosse mesmo sua amiga você não teria mentido em primeiro lugar.



O desespero me preencheu. Eu estava perdendo ela. Aquilo não podia acontecer. De jeito nenhum.



–Nós tivemos um problema com os passaportes ok? Não queriamos que soubessem. — Nico mentiu. Eu queria com todas as minhas forças parar de mentir para todo mundo e não queria que ele se envolvesse naquilo.

–Acha mesmo que eu acredito? Pelo tanto que vocês se recusaram a contar tudo pra mim eu sei que isso é só mais uma mentira. Quando vão parar de fazer isso?



E ela deu as costas. Estava quase tendo um treco ali. Se ela chegasse a atravessar eu havia perdido. Olhei para Nico desesperada.



–14:26 Sophie. Ainda da tempo. — Ele me alertou.



Anne já estava na esquina. Corri até ela. O mais rápido que pude.



–Eu não sou quem digo que eu sou ok? — Exclamei. Ela se virou pra mim. Pude ver seus olhos cheios de raiva e tristeza. — Não queria te contar por que queria você longe disso.

–O que é então? Você e terrorista?

O que?! Não! Esqueça a droga do terrorismo. Eu quero te manter longe do meu mundo Anne. Ele não é bom.

–Não me importo.

–Minha família... Eu não sou completamente humana ok?



Ela deu uma risada tão amarga que meu coração doeu. E pude jurar que senti um frio na barriga também.



–Você não consegue ser menos infantil. Minta melhor!

–Eu vim aqui para te salvar.



Pude ver o seu sadismo se apagar como uma vela quando batia o vento.



–Você o que?

–Não posso te contar muito. Só por favor... Fique perto de mim apenas por um tempo a mais.

–Você é louca.

–Por favor...

–Não implore. Não vai conseguir colocar sua loucura na minha cabeça.



Ela deu as costas e deu um passo para atravessar a rua. Segurei seu braço. Meu corpo inteiro estava tenso e entrando em colapso.



–Me solta. — Ela forçou seu braço para baixo e se soltou de mim.



No fundo eu sabia que era tarde demais. Eu sabia que não iria conseguir. No fundo eu já havia entrado de luto por uma morte iminente e inevitável que aconteceria. Só não achei que iria doer tanto em mim. Acho que não se podia evitar a morte afinal de contas.

Aconteceu muito rápido. Difícil para eu acompanhar e digerir.

O carro bateu com tanta força que eu pude jurar que havia ouvido seus ossos se partindo. E o seu grito foi o pior de tudo. O carro bateu nela seu corpo dobrou na frente do carro com o impacto. Ele parou no instante em que se deu conta de que havia atropelado alguém.

Gritei como se compartilhasse da dor que ela estava sentindo. Cobri meu rosto com as mãos em pleno desespero e choque. Seus gritos de agonia no meio da rua só me faziam chegar à beira das lágrimas.

Eu fiz o que deveria fazer.

Me concentrei e quando senti meu coração parar, arquejei. Queria puxar o ar mas não conseguia. Olhei para as minhas mãos e as vi se tornando translúcidas. Eu tinha que chegar perto dela e falar com ela pelo menos mais uma vez. Pedir desculpas. Olhei para trás e vi as asas atrás de mim.

Corri até ela do jeito que pude. Atravessei as pessoas que começavam a cercá-la, ligando para a emergência e pedindo ajuda em lojas. Só eu sabia que aquilo era inútil.

Me ajoelhei ao lado dela. Eu queria chorar. Mas fantasmas não choram. Algo que não é matéria não podia produzir matéria. Ao invés disso senti a agonia extrema atrás de meus olhos, em meu peito e cabeça. Era como se eu estivesse implodindo.



–Anne. -Falei acariciando seu rosto de leve. Eu não sabia se ela podia sentir aquilo. Atrás de sua cabeça havia um rasgo que sangrava. Eu tinha certeza que era um traumatismo craniano.

–Sophie... — Ela murmurou fracamente entre as lágrimas. As pessoas ao redor exclamaram. Eles acreditavam que ela estava tendo aqueles delírios antes de morrer. — Você é um anjo?

–Está mais para morte. — Forcei um sorriso. Ela começou a chorar de soluçar. — Me perdoe. Eu imploro.

–Está tudo doendo. Por favor faça parar. — Ela falou em um fio de voz. Não queria vê-la sofrer mais.

–Se é o que deseja.



Não precisei de muito esforço para fazer as minhas mãos se tornarem as mãos de uma ceifadora. Os veios pretos logo apareceram. Era mais fácil usar meus poderes enquanto fantasma do que enquanto semideusa.

Então, gentilmente toquei-a. Tirando os cabelos do seu rosto sujo de sangue. Acariciando sua bochecha.

Pude ver o brilho de sua alma a deixar. Meus lábios tremeram e eu queria me jogar do Empire State sem asas. A luz suave e dourada que deixou seu corpo flutuou até a esquina em que eu havia segurado seu pulso para tentar impedir ela de atravessar.

Me levantei de leve. Meu corpo todo tremia. Nico se aproximou de Anne e eu também.

Ela estava assustada. Eu sabia disso por causa de seu olhar e de sua imagem que piscava levemente.



–O que você é? — Sua voz soou tranquila. Ela estava se forçando a ficar tranquila.

–Você conhece bem mitologia grega. Eu sou semideusa. Filha de Tânatos.

–A morte? — Assenti. — Por isso você sempre foi linda. Ainda mais com essas asas. A morte é bonita não é?



Ela se forçou a dar um sorriso e aquilo me doeu como um corte feito pela espada de Nico.



–O que acontece agora? Minha vida antiga eu.. — Ela parou subitamente.

–Eu não sei Anne. Realmente não sei. Você tem duas opções. Ficar aqui, ver como tudo é afetado pela sua... Ida. Ou me tocar novamente e ir para onde quer que seja.

–Não quero ver minha família sofrer. — Seus lábios e mãos tremiam quando ela falava.

–Então você quer seguir em frente? — Nico se manifestou pela primeira vez na conversa.

–Como...

–Eu sou filho de Hades. Posso ver os mortos. — Ele falou em um tom baixo, provavelmente para não chamar atenção. Mas todos da rua estavam cercando o... Corpo de Anne.

–Você não estava mentindo então?

–Não. Não é sua culpa não ter acreditado.

–É sim.

–Nenhuma das duas devem se culpar. — Nico interviu. — Foi apenas o destino. — Ele olhou diretamente pra mim. — Não sei pode curvar o destino à sua própria vontade.



Eu queria respirar fundo. Chorar. Queria fazer mil coisas e não estava mais aguentando aquela agonia de retorcendo dentro de mim.



–Acho que estou pronta. — Ela murmurou.



Me aproximei dela. Eu tremia por completo quando abracei ela. A sensação foi como se eu estivesse abraçando ela de verdade. Apenas não havia o calor de antes. Mas ainda era ela. Minha Anne.



Eu te perdôo.

–Adeus. — Eu murmurei quando senti que ela estava indo.



Uma luz dourada brilhou por uns segundos e logo ela não estava majs lá. Ela havia ido.

Como se o meu corpo não aguentasse mais toda aquela pressão dentro de mim, me permiti voltar a ser carne e osso.

A dor do meu coração voltando a bater foi ruim. Realmente ruim. Ao mesmo tempo veio a dor avassaladora da perda e do sofrimento.

Meu corpo sucumbiu com a dor vinda de vários lados e quando eu estava prestes a cair no chão senti os braços de Nico passarem ao meu redor.

Me agarrei à ele passando meus braços ao redor de seu pescoço e colocando meu rosto na curva de seu pescoço e ombro. Chorei como se ao fazer aquilo a dor sairia de mjm. Mas eu sabia que não ia melhorar. Não muito.

Ele me pegou no colo, me tirando do chão. Eu nem me incomodei mesmo não gostando de ser pega no colo. Naquele momento aquele gesto foi mais consolador do que realmente era. Ele beijou minha cabeça e eu o abracei com mais força.



–Vamos para casa.



Foi tudo o que ele disse antes do mundo se tornar escuridão completa.

Notas finais
Me mandem mais reviews dessa vez ein. Digam o que acharam do capitulo. Choraram? kkkkkk. Curtiram ou não?