Sos mi más bello error
9 Waiver and panic
Notas iniciais
O relógio marcava 02:34. German não se importava com o fato de que sua esposa estava dormindo sozinha no quarto, e que ele não a estava dando devida atenção. Outra coisa o atormentava naquele momento. E seu chá o ajudava a pensar.
Ele havia chegado em casa na noite do boliche, trocado de roupa e fora logo dormir. Teve um sonho esquisito. Era escuro, German se lembrava apenas de flashes curtos. Os barulhos de tiros ainda escoavam em sua cabeça, como se alguém desse replay constantemente em uma gravação de áudio. O pouco que ele se lembrava o assustava. Além de tiros, ouvia um grito feminino, e tinha uma rápida lembrança de uma mulher de cabelos loiros sendo arrastada. Familiar demais. Tentava ligar um fato com o outro, mas nada fazia sentido. Bem, na verdade, o fato de tudo fazer sentido demais era o que não fazia sentido.
Quando acordou assustado, não se aliviou por ter sido apenas um sonho. Não parecia um sonho. Parecia um aviso. Uma visão. Olhou Priscilla dormindo ao seu lado e balançou a cabeça. Só conseguia pensar em Angeles e naquele pesadelo que havia sido tão real. Suspirou pensativo, então se lembrou de algo. Na porta do boliche, Angie havia lhe dito que mandaria uma mensagem quando chegasse em sua casa, para informá-lo de que estava bem. Sem pensar duas vezes e sem se importar com o frio que fazia fora das cobertas, German se desvencilhou do edredom quentinho e caminhou até a tomada em que tinha deixado o celular carregando. Uma notificação em seu whatsapp. Aliviou-se um pouco e abriu o aplicativo para vê-la. Mas acabou se decepcionando quando viu que a notificação era de um colega de trabalho. Angie não tinha mandado a mensagem. Intrigado e receoso, clicou na sua conversa com a loira para se certificar que pelo menos ela havia chegado bem. E a surpresa foi ainda maior ao ver o visto por último às 21:18. Eles estavam no boliche a esta hora, ou seja, Angeles não havia entrado no whatsapp quando chegou em casa.
Medo. Será que o sonho havia sido algum tipo de aviso para a Angie? Será que ela apenas se esqueceu ou realmente acontecera algo para que ela não lhe mandasse a mensagem? German não tinha muito controle de suas emoções, e o seu desespero começou a subir acima de sua razão. Olhou o relógio de pulso e bocejou vendo o ponteiro marcar 02:10 da manhã. Sentiu que precisa distrair a cabeça e saiu do quarto cautelosamente, dirigindo-se até a cozinha com o seu celular. Fez um chá e sem nenhuma pressa tomou-o enquanto pensava. Abriu novamente sua conversa com Angie e rolou a tela pra cima devagar. Não costumava conversar muito com ela pelo whatsapp, mas enquanto rolava para cima viu ao menos três mensagens do tipo "já cheguei, viu, estou bem!" de dias anteriores. Ela nunca se esquecia de mandar. E justo dessa vez, sim?!
Agora, ali estava ele, na cozinha silenciosa, observando frustradamente o seu celular. Ainda esperava por uma mensagem. Não conseguiria ir dormir novamente até que se certificasse de que ela estaria bem.
– Pai, o que você tá fazendo aqui? — Violetta murmurou baixo entrando na cozinha — São quase três da madrugada.
– Na verdade, o que a senhorita está fazendo aqui? — o homem encarou a filha.
– Insônia. Vim ver se um chá me daria sono — a menina suspirou. — Agora me responda você.
– Eu tive um sonho esquisito, agora estou aqui tentando acreditar que não era real e que está tudo bem com a sua tia — German deu o último gole no seu chá.
– O que tem a Angie? — Violetta indagou confusa.
– Ela disse que me mandaria uma mensagem quando chegasse em casa, pra dizer que está viva — German riu abafado — Ela diz isso, e ela sempre manda a mensagem. Mas dessa vez... não tem nada — o homem encarou o celular.
– Ah, pai, relaxa, ela estava cansada e deve ter se esquecido. — Violetta tentou acalmá-lo.
– Tem mais. Ela estava meio nervosa quando estávamos indo embora — ele comentou e a menina lembrou vagamente de estranhar a expressão da tia — Parecia saber de algo. E agora a pouco eu acordei de um sonho terrível. Ela estava em perigo.
Violetta suspirou — eu acho que isso é tudo uma coincidência, papai. Angie está bem, é normal que ela tenha se esquecido e você acabou tendo esse sonho porque pensou demais nisso.
– Não, Vilu, não foi só um sonho! Foi real! Eu juro que foi!
– Pai, quantos anos você tem? Está parecendo uma criança teimando. — Violetta bufou.
– Mas eu estou falando sério. E se tiver acontecido alguma coisa? — ele olhou para filha expressando algo que não era medo, era.. preocupação. Por Angie.
– A probabilidade disso ter acontecido é de uma em um milhão. — a menina cruzou os braços.
– É, mas lembre-se, a uma dentre um milhão sempre cai em alguém. — o homem se levantou de deixou a xícara de chá na pia.
– Olha, me escuta — Violetta andou até o pai — Por que não vai dormir, dar uma relaxada? Amanhã resolvemos isso, vai. Você deve estar todo preocupado aí sendo que a Angie deve estar no vigésimo sono.
– Mas.. — German suspirou.
– Mas nada — a filha interrompeu — Vai dormir. Eu vou ligar pra Angie logo cedo e te provar que está tudo bem, ok?
– Ok — ele disse derrotado — Boa noite.
– Boa noite, pai.
German saiu da cozinha e Violetta suspirou. Não queria acreditar naquela história, não fazia sentido. Mas as palavras de seu pai despertaram um receio esquisito dentro de si. Do bolso da calça de moletom que vestia, tirou seu celular. Dane-se o horário, Angie sempre atende a sobrinha. Então ela ligou. E a chamada, bem, nem tocou. Foi direto para a caixa eletrônica. Estranhando, a menina tirou o telefone do ouvido e encerrou a chamada.
– É só coincidência. Isso. — ela mordeu os lábios e saiu da cozinha, voltando para o seu quarto e tentando dormir mais uma vez.
XX
A última coisa que ela se lembrava era de ter sido jogada para dentro de um carro estranho, e de ter inalado algo que a fez dormir. Mas agora, abrindo os olhos devagar, não tinha nem ideia de onde poderia estar. Estava tudo escuro, seus olhos demoraram para se acostumar e conseguir enxergar algo.
Mas na realidade, não tinha muito para enxergar. Ela estava em uma sala completamente vazia, com um cheiro de mofo e algumas teias de aranha nos cantos. Angie tentou se mover, mas suas mão estavam amarradas, e suas pernas também. Ela estava sentada no chão, não fizeram questão nem de colocá-la em uma cadeira. Sua boca, pelo menos, não estava tapada com fita, pano, ou algo do tipo. Estava completamente livre. Havia uma janela no alto da parede, porém era pequena e estava encostada no teto. Angie rapidamente associou aquele lugar onde estava como um porão. Estava escuro lá fora também, devia ser madrugada.
A mulher estava calma demais para quem havia sido sequestrada. Olhava cada detalhe do cômodo como se estivesse analisando, tranquilamente. Ou era pelo menos isso que tentava fazer. Sentiu fome. E então pensou que talvez não comeria por um bom tempo. Lembrou-se de que não tinha nem ideia de quem era o homem que a havia sequestrado, e pensou estar tão vulnerável a qualquer coisa naquele momento. Ele podia entrar naquele quarto e fazer qualquer coisa com Angeles. Podia dar-lhe um tiro. Ou uma facada. Ou torturá-la e até mesmo abusar de seu corpo. A loira se encolheu ao pensar nisso. Desesperou-se. Ela devia estar no meio do nada. Ninguém saberia de seu sumiço, ninguém a encontraria. Por que com ela? O que ela havia feito de errado? Angeles sentiu uma lágrima quente percorrer toda a sua face. Nunca se sentira tão fraca antes, nunca sentira tanto medo. Aquela lágrima não veio sozinha. Toda a mulher forte que Angie havia se imposto a ser nos últimos meses, que havia se mostrado para o mundo, tinha acabado de se desmoronar. A mulher começou a chorar, chorar muito, desesperada e compulsivamente.
Não vou sair viva. O que está acontecendo? O desespero tomou conta de Angie. Medo era pouco para descrever o que sentia.
– Dá pra você parar de chorar? — um homem abriu a porta bruscamente, gritando com Angeles. Ela olhou para cima assustada, tentando enxergar seu rosto. A mulher não tinha percebido o quão alto seu choro estava. — Tem sorte de eu não ter feito nada com você. Quer que isso mude?!
Angeles reconheceu aquele sotaque. Frederick.
– N-não — ela murmurou engolindo o choro. Frederick se aproximou dela em passos lentos, e se agachou em sua frente. Angie desviou o olhar para o chão, com medo.
– Fica calma, docinho — o homem tocou o queixo da loira, fazendo-a olhá-lo. A mulher quis tirar aquela mão de seu rosto, mas suas mãos estavam amarradas. — Vai ficar tudo bem, se seu namoradinho colaborar. — ele riu divertido passando a mão pela lateral do rosto da loira até chegar nos seus cabelos. Angie, além de assustada, tinha raiva no olhar.
– Não tenho namorado nenhum — ela virou o rosto para o lado, tentando se esquivar da mão do homem. Ele soltou uma risada.
– Ah, não? Beijinhos no boliche, carinho na perna, abracinhos pela cintura, mãos dadas... Não sei você, mas isso não me parece uma atitude de amigos — Frederick sorria malicioso.
– Você estava lá? — Angie sussurrou. — Escuta, se isso é algum tipo de vingança planejada por aquela monst..
– Olhe bem como usa as palavras, docinho — ele a interrompeu.
– Não me chama de docinho! — Angeles murmurou. Frederick se levantou ainda rindo.
– Você não está no direito de pedir nada, docinho– ele caminhou de volta até a porta.
– Espera, o que você fez com o meu celular? — ela lembrou-se de seu aparelho. Lembrou-se da mensagem que disse que mandaria a German, e rezou para que ele percebesse que havia algo errado.
– Está comigo, gata — Frederick tirou o celular da mulher do bolso e clicou em um botão, fazendo a tela acender — Uhm, três e vinte da manhã. Parece que ainda tem um longo tempo até o sol nascer, não? Por que não tenta dar uma dormida? — o homem ria divertido — Este chão parece tãooo confortável... — ele disse sorrindo e finalmente saindo do cômodo. Bateu a porta e trancou-a.
Novamente sozinha, Angie mordeu os lábios pensativa. Seu estômago roncou. O sono bateu. Estava frio. Ela se apoiou na parede e fechou os olhos. Não sabia nem por que tentava, o frio a impediria de dormir. Então ali ficou, de olhos fechados, pensando, ou pelo menos tentando, em alguma coisa boa, até que o dia amanhecesse.
XX
– Bom dia, papai — Violetta sorriu descendo as escadas. German encarava sua torrada.
– Dia — ele disse baixo. A menina se aproximou e se sentou à mesa.
– O que foi? — ela lembrou-se da conversa deles de madrugada — Ainda com isso?! Pai, a Ang..
– Violetta, são dez da manhã, ela não olhou o whatsapp ainda, ela não dá sinal! — ele exclamou.
– Me deixe tentar — a menina deixou-se convencer e pegou o próprio celular. Discou o número da tia e apertou chamar. German a olhava esperançoso enquanto Violetta esperava que a mulher atendesse. Mas, novamente, foi direto para a caixa eletrônica. — Tá, o celular dela tá desligado, sem sinal, ou algo do tipo, mas não significa que ela esteja correndo perigo, pai!
– Você não vai acreditar em mim. — German bufou.
– Onde está a Priscilla? — Violetta olhou em volta, tentava ligar um fato com o outro. Estava começando a se preocupar, mas não queria que seu pai soubesse.
– Saiu logo cedo. — ele deu um gole no seu café. Violetta encarou-o indignada.
– Como assim? Ela foi para onde?
– Não sei, filha, ela só disse que estava saindo e eu estava ocupado demais pensando na sua tia para lembrar de perguntar aonde ela ia. — o pai da menina bufou.
– Pai! Eu não acredito! Como você é lerdo! — Violetta ligou todos os pontos. Agora sim ela tinha motivos para se preocupar.
– Quê? Não entendi — ele olhou-a. A menina pegava a sua bolsa e a ajeitava no ombro. — Vai sair?
– Vou, consertar a merda que você deixou acontecer. — ela pegou uma maçã e colocou-a no bolso do casaco grosso. German a olhava com cara de quem não estava entendendo nada. — Pai, me promete uma coisa.
– O quê?
– Que não vai sair de casa até eu voltar. Por favor. Promete. — Violetta quase implorou.
– Mas.. — German continuava confuso.
– Confia em mim. — a menina comprimiu os lábios. O pai respirou fundo, desistindo, e assentiu. — Ótimo. Obrigada. Eu volto já — então Violetta saiu correndo pela porta da frente.
Ela havia entendido tudo. O fato de Angeles estar nervosa na noite anterior, olhando ao redor buscando algo suspeito. Priscilla ter chegado tarde e ter saído cedo. Angie ter sumido. Fazia todo sentido. Se Priscilla estivesse mesmo armado tudo aquilo, com certeza era para atingir German. E por isso mesmo que, por segurança, ele não podia sair de casa. Violetta só precisava de uma simples confirmação.
Pegou um táxi até a casa da tia. Sentiu um pouco de medo. Se fosse realmente o que ela estivesse pensando, o que ela faria? Não podia simplesmente procurar a tia sozinha. Não era seguro. Violetta bufou, por um segundo queria não ter apenas dezoito anos. Ficou olhando pela janela do táxi até que o carro parasse em frente à casa de Angeles. E as provas eram cada vez maiores. O carro da mulher não estava ali. Dentro da casa estava tudo escuro e silencioso. Não conseguia acreditar, precisava de mais uma confirmação. Pediu ao taxista que a levasse no boliche em que estavam na noite anterior. Quando chegaram, Violetta quis gritar. Ali estava o carro vermelho de sua tia, estacionado no mesmo lugar da noite passada. Agora sim, com certeza, Angeles estava em perigo.
– Leon? — Violetta ligou para o namorado, enquanto pagava o taxista e saía do carro.
– Oi, amor — ele disse preocupado pelo tom de voz da namorada — Aconteceu alguma coisa?
– Sim, aconteceu — a menina respirou fundo, nervosa. Olhava o carro da tia e procurava por alguma pista — Você pode me encontrar em frente ao boliche de ontem, ahm, tipo, agora? Eu preciso muito da sua ajuda.
– Estou indo — Leon rapidamente desligou preocupado, e saiu correndo de casa para encontrar a namorada. Parecia algo sério.
Violetta deu a volta no carro e viu algo no chão. Abaixou-se e pegou. Era um chaveiro, com a chave do carro, do Studio e da casa da loira.
– Isso é mau. Péssimo. — a menina respirou fundo. Sua tia corria perigo, Violetta não podia perder mais algum parente. Estava disposta a qualquer coisa.
XX
Pov Angie
Eu dei algumas cochiladas. O sono conseguia superar o desconforto, mas eu acabava acordando com dor nas costas por ter dormido de mal jeito. Eu senti tanta falta da minha cama. Do meu próprio quarto. Da minha casa. Aquele lugar era fedorento, sujo, frio. Eu queria tomar banho, queria trocar de roupa, queria sair e andar. Já havia amanhecido, eu olhava a claridade na pequena janelinha no topo da parede, pensando em todas as coisas que poderiam acontecer comigo neste novo dia, afinal, eles não me sequestraram só por sequestrar, certo? Um pouquinho de luz solar adentrava aquele porão, então me arrastei até o local do chão que a luz atingia. Era o único jeito de me esquentar.
Eu já havia chorado tudo o que podia. De medo, de raiva, de agonia. Desespero. Ficar em um lugar tão escuro e pequeno me proporcionava fobia. Eu me sentia sufocada. Gritei algumas vezes, chorei mais, dormi, acordei, e chorei de novo. Meu Deus, como eu queria ter sido mais cuidadosa. Eu não sei como, não consigo entender como sabiam que estaríamos no boliche, como que nos observaram o tempo todo e ninguém notou. E agora, o que aconteceria com eles? Com German e Violetta. Merda, eu devia ter avisado-os antes.
Agora aqui estou eu. Sinceramente, não consigo ver além disso. Não consigo me imaginar livre daqui. O que eu quero dizer é que não consigo me ver viva depois disso. Não faz sentido. Eu vou morrer aqui. Tenho certeza. Por um pequeno descuido todas as minhas esperanças escorregaram de minhas mãos, e agora até o minuto seguinte parecia embaçado ao meu ver. Eu já devia ter aprendido. Um simples deslize pode acabar com o nosso maior sonho. A pior parte é a desilusão. Eu estava começando a confiar, a pensar que seria possível, e agora me machuco em pensar no tudo o que poderia ter sido, e não vai ser.
Podia ser muito pessimismo. Mas eu parei de acreditar no otimismo há muito tempo. Agora, eu prefiro a dor da convicção de um não do que a desilusão do quase. Acreditar e nada acontecer quebra expectativas. Não acreditar e algo acontecer surpreende. Se eu tiver que escolher entre a esperança e a desistência, por tão boa que a esperança seja, eu prefiro me surpreender do que me decepcionar. Não vou arriscar de novo.
– Bom dia, minha querida — ouvi um tom de voz irônico soar brincalhão da porta que se abria. Levantei o rosto e vi Priscilla. Minha vontade era me levantar correndo e voar naquele pescoço, esmagando-o com minhas próprias unhas. Mas eu não me rebaixaria a este nível.
Nada respondi, e voltei a olhar para a janelinha.
– Como foi sua noite? — aquela desgraçada sorria de uma maneira que me dava ânsia. — Dormiu bem? — Priscilla riu.
– O que você vai fazer com eles? — cuspi as palavras. Ela me encarou e demorou a responder.
– Com eles? Ah... me divertir um pouquinho — sorriu maliciosa — Nada que te interesse. — aquela monstra, então, me jogou uma sacola. Olhei dentro. Havia um pão e uma garrafa de água. Olhei-a. — Quê? Preciso de você viva! Se algo vai te matar vou ser eu, e não a fome. — ela ria, enquanto eu permanecia séria. — Ah, doce Angie, é só uma brincadeira.
– Eu preciso ir ao banheiro. — murmurei. Priscilla me encarou por uns segundos e suspirou.
– Por aqui. — ela me guiou para fora do quartinho e me jogou para dentro de um banheiro que havia ao lado dele. Consegui ver um pouco do que havia fora do meu quarto-porão. Havia uma escadaria, e a entrada da casa provavelmente era lá em cima, onde Frederick deveria estar. Olhei o banheiro. Sujo. Eu podia pegar uma infecção fácil ali. Por isso, não toquei em nada, apenas fiz xixi e me olhei rapidamente no espelho. Olheiras, olhos inchados, maquiagem borrada, cabelo bagunçado, pele pálida. O que havia acontecido comigo? Nem eu me reconhecia daquela maneira. Me ver naquele estado me fez querer chorar novamente, mas eu estava tão desidratada que nada veio. Saí, então, do banheiro, e Priscilla me jogou de volta no cômodo fedido. Rapidamente me arrasei até a sacola e peguei a garrafa d'água. Minha boca estava seca, tomar aquilo foi um alívio. Depois, peguei o pão, sem nenhuma manteiga ou geleia para acompanhar, e dei algumas mordidas. Priscilla me observava comer atentamente. — Você parece tão solitária aqui — ela começou.
– Ah, que isso, estou com você — falei irônica e revirei os olhos. Ela fez cara de ofendida.
– Estou falando sério, sua ingrata. Eu estava pensando em te trazer companhia e você me trata assim? — disse com uma voz irritante. Parei um pouco para pensar. Companhia?
– Não! — entendi o que ela quis dizer e a olhei piedosamente. — Por favor, não faz isso, com ela não — tentei me levantar, eu precisava fazer alguma coisa.
– Ah, a titia vai tentar dar uma de heroína agora? — Priscilla ria.
– Por favor, não coloque ela nisso — eu fiquei de joelhos. Sim, eu me humilharia a este ponto por Violetta. — Ela é só uma adolescente. Priscilla, por favor — senti meus olhos arderem.
– Não estou nem aí para o que ela é — a mulher sussurrou com certa raiva no seu tom de voz — Sua companhia estará aqui logo, logo — Priscilla sorriu maliciosamente, e sem esperar minha resposta ela saiu e fechou a porta, me trancando sozinha mais uma vez.
Me joguei no chão derrotada e voltei a chorar compulsivamente. Violetta não tinha nada a ver com isto, ela não merecia. E aqui estava eu, impotente, assistindo tudo acontecer e não podendo fazer absolutamente nada.
XX
Pov Off
– O que uma mocinha tão jovem faz nesta rua tão deserta a essas horas da manhã? — um homem que Violetta nunca vira na vida se aproximou dela. A menina estava apoiada no carro da tia, esperando o namorado chegar. Estranhou o homem e se afastou discretamente.
– O que você quer? — o coração de Violetta acelerou levemente. Aquele homem não a fazia se sentir segura. Seus instintos diziam que havia algo errado.
– Ah, nada, anjo — o homem se aproximou ainda mais dela e, enquanto Violetta tentava se esquivar, ele a prensou no carro. Ela ia gritar, mas ele tapou a sua boca. — Shhhh, eu estou com um revólver bem aqui. Um pio sequer e você morre, beleza? — sussurrou no ouvido da garota, que assentiu com a cabeça enquanto sentia o choro de pânico começar a vir. Já pensando em alguma maneira de se salvar, deixou seu celular cair de propósito. Leon estava vindo, e precisava de pistas. — Ótimo — o cara sorriu malicioso e puxou a menina pelo pulso até um carro preto. Não havia ninguém na rua. — Entra aí — ele apontou o revólver para ela.
– Ah, meu Deus, quem é você? — Violetta começou a chorar em desespero, não sabia se olhava para o homem ou para a arma.
– Entra! — ele gritou sem paciência, fazendo com que Violetta pulasse para dentro do carro sem pestanejar.
O homem deu a volta no carro e entrou no banco do motorista. Deixou o revólver no banco do passageiro e deu a partida. Violetta não conseguia captar a situação. Olhava para fora desesperada, depois olhava para o homem de sotaque esquisito e a arma no banco ao lado dele. O que era aquilo? Para onde ele a estava levando?
– Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus — Violetta sussurrava em meio a lágrimas, enquanto tremia e soltava alguns murmúrios inquieta.
– Dá pra você calar a boca? — o cara que dirigia bufou. Entraram em uma estrada de terra, desconhecida, o que gerou mais pânico na garota.
– Ai, meu Deus — ela só conseguia dizer isso e chorar piedosamente.
– Meu Deus digo eu! Cala a boca, pirralha, pior que a tia! — ele gritou. Tia? Violetta parou de chorar no mesmo instante e parou pensativa. Olhou o revólver no banco e não pensou duas vezes. Pegou a arma num movimento rápido e apontou para o homem.
– Quem é você e o que você sabe sobre a minha tia? — ela dizia tremendo tentando segurar aquela arma. Ele riu.
– Qual é, garota, você nem sabe usar uma arma. Devolve isso pro titio, devolve — falou como se ela fosse uma criancinha.
– Eu tenho dezoito anos, e posso muito bem aprender agora mesmo como que se atira — os dedos de Violetta tremiam enquanto se posicionavam no gatilho. O homem parou o carro.
– Meu nome é Frederick. — ele disse primeiramente. Mas logo em seguida, numa fração de segundo, arrancou a arma das mãos da menina e deu-lhe uma cotovelada, fazendo-a cair no banco de trás novamente. — E eu quero que você fique quietinha. Ou vai ser pior. Não está nos planos, mas se você não colaborar, eu te levo para o meio daquele mato e te estupro. Estou doido para por as mãos nesses seus seios maravilhosos — Frederick sorriu malicioso e Violetta engoliu em seco. — Isso mesmo, fica bem quietinha — ele sorriu satisfeito, voltou a acelerar com o carro e seguir até seu destino.
XX
– Viluuu? Amor? — Leon gritava olhando para todos os lados — Violetta! — ele andava pela rua do boliche, confuso. — Não foi aqui que ela me pediu para encontrá-la? — o menino parou e coçou a cabeça.
O moreno jurava que a namorada havia dito "no boliche de ontem". Não fazia sentido que ela não estivesse ali. Leon se preocupou, pois ele, por sua vez, não é lento e logo pensou no que poderia ter ocorrido. Violetta estava preocupada no telefone. E se algo houvesse acontecido com ela também?
– Nah, não é possível, é só um desencontro — Leon disse a si mesmo e pegou o celular. Discou o número da namorada, ligou umas quatro ou cinco vezes, mas ninguém atendeu. Insistente, ele resolveu ligar para a mansão.
– Olá? — German atendeu com uma voz fraca, como quem estava desanimado e apreensivo.
– German, oi, é o Leon — o garoto disse nervoso. Olhou para o boliche e viu que estava fechado, afinal, era de manhã. Onde Violetta poderia estar?
– Fala, Leon — German estranhou a ligação.
– A Violetta está em casa? — ele comprimiu os lábios.
– Hum, não. Ela saiu faz uns quarenta minutos. Por quê? — ele estranhou e se levantou da cadeira. German já pensou no pior.
– Há vinte minutos ela me ligou preocupada com algo, e me pediu para que eu a encontrasse na frente do boliche que viemos ontem. Aí eu vim e, bem, ela não está aqui. Sumiu. — Leon coçou a cabeça.
– Sumiu? — German já foi correndo para o quarto colocar um casaco — Eu estou indo aí, fique bem parado onde você estiver — ele desligou e desceu as escadas correndo. Saiu da mansão, entrou no carro e dirigiu tão rápido que em cinco minutos chegou no local.
Primeiro Angie, agora Violetta? Tinha algo muito errado.
– German — Leon caminhou até o carro preto que estacionava em um lugar vazio, que pertencia à seu sogro. — Foi rápido.
– Tem algo errado, Leon — ele saiu correndo do carro — Primeiro a Angie some. Agora a Violetta? Eu não posso deixar que nada aconteça com nenhuma delas!
– A Angie sumiu? Puts, então era por isso que a Vilu estava estranha no telefone, faz todo o sentid..
– Angie! — German exclamou olhando para um ponto fixo e Leon ficou confuso, olhando ao redor — O carro da Angie! — ele correu até o veículo vermelho parado no mesmo lugar da noite anterior. Leon correu até ele.
– Você acha que ela pode nem ter chegado a ir para a casa? — o garoto suspirou com medo.
– Eu sabia que tinha algo errado! Sabia! — German gritou sem saber o que fazer — E deixei Violetta sair pra investigar sem mim! Que tipo de pai eu sou? — ele lançou a Leon um olhar desesperado.
– Calma, German, nós vamos encontrá-las. Precisamos manter a calma. — o menino olhou para baixo, avistando sem querer um objeto familiar. — Olha! — ele andou até o celular e se abaixou. — O celular de Violetta. Ela esteve aqui!
German se aproximou — E deve ter deixado cair. Por que ela deixaria o celular cair e sairia sem ele?
– Para deixar uma pista, talvez — Leon olhou para o sogro. No fundo estava segurando o berro que queria dar. Ele deveria ter chegado mais cedo! — Ela sabia que eu estava vindo para cá.
German engoliu em seco — O que fizeram com elas? — sua voz se embargou. — Minha filha. — ele pegou o celular da menina das mãos de Leon e olhou a tela de bloqueio. Era uma foto de Violetta com Angie, ambas sorrindo. German sentiu a dor de uma facada ao olhar aquilo. — Angie. — ele sussurrou e fechou os olhos.
– Precisamos fazer alguma coisa. — Leon cruzou os braços preocupado. — Elas correm perigo.
XX
Violetta foi amarrada e retirada do carro. Frederick a conduziu para a cabana de madeira que se encontrava no meio do nada, enquanto ela olhava em volta assustada. Viu uma porta se abrir e Priscilla sair dela. Violetta quis gritar, mas o homem novamente tapou a sua boca.
– Lembre-se, quietinha – Frederick sussurrou no ouvido da menina e jogou-a para Priscilla – Toma, essa pirralha. – ele bufou e limpou as mãos – Deu trabalho.
– Ela sempre dá – Priscilla revirou os olhos, virando Violetta para si. – Surpresa, amorzinho da mamãe – ela falou irônica, segurando o rosto da menina. Vilu a encarava com o olhar queimando em raiva. Não tinha medo de virar um soco na cara de Priscilla naquele exato instante.
– Você é um monstro – a morena murmurou baixinho, e a madrasta arregalou os olhos.
– Ah, é? Você vai ver agora o que é ser um monstro – Priscilla pegou um caco de vidro do chão, fazendo Violetta estranhar aquilo completamente. Que tipo de casa era aquela que havia coisas quebradas por toda a parte? A mulher loira continuou o que estava fazendo. Passou o pedaço de vidro levemente pelo rosto da enteada, quando de repente cravou-o na bochecha dela, arrastando-o pra baixo. Violetta soltou um gemido dolorido, enquanto a mulher e Frederick riam divertidamente. O rosto da menina começou a sangrar e arder bastante, mas isso não era algo que os dois adultos ali se preocupavam. Priscilla abriu a porta pela qual tinha saído e puxou Violetta consigo. Dava para uma escadaria que descia e, no final dela, havia duas portas. Uma que era o banheiro, e a outra era o cômodo onde Angeles estava. – Fique bem aí. Só não vale papo, ou isso – Priscilla apontou para o corte profundo no rosto da menina – Vai se repetir. – ela abriu a porta do cômodo e jogou Violetta lá dentro com tamanha força que a fez cair sentada no chão. Angeles viu a sobrinha caindo e comprimiu os lábios para não chorar. – Oh, querida, olha quem chegou! – Priscilla se dirigiu para a loira encolhida num canto do quarto. – Sua companhia.
XX
German e Leon não sabiam o que fazer. Não chamaram a polícia, e não foi por falta de vontade. Se fosse por German, isso teria sido a primeira coisa a fazer, mas Leon o impediu, convencendo-o que era melhor não colocar mais lenha na fogueira. Talvez, com a polícia, seria pior para elas.
Os dois voltaram para a mansão, precisavam pensar no que fazer e ficar dando voltas na cidade não era uma maneira que ajudava muito. Os dois estavam quietos demais, apreensivos, nervosos e preocupados. Sentiam-se impotentes.
German entrou na mansão primeiro, e caminhou até o escritório para deixar suas coisas. Leon caminhou lentamente até a sala, olhando cada detalhe e lembrando de cada momento com a namorada que passaram ali. Ele suspirou. Foi quando olhou para o piano. Ia sorrir nostálgico, porém algo a mais chamou a sua atenção. Havia um papel apoiado em cima do instrumento, com algo escrito em letra feminina. Como um bilhete.
– German, vem aqui – Leon pegou o papel, lendo-o e estranhando. O homem rapidamente saiu do escritório e caminhou até o garoto, tirando o papel das mãos dele.
Ele quis derrubar tudo o que via pela frente ao ler o que tinha escrito e, principalmente, ao reconhecer a letra da esposa. Com raiva, amassou e jogou longe o papel que dizia...
20 mil. Em dinheiro. Por cada uma. Cuidado, conte à polícia e eu vou poupar apenas uma delas...
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