Sos mi más bello error
14 Five minutes
Notas iniciais
O baile do Studio finalmente havia chegado.
Entrei no salão timidamente. Nunca tinha estado vestida dessa maneira perto de todos os meus alunos. Vestia um vestido longo, azul marinho. Meu cabelo estava meio preso meio solto, e mais cacheado do que o normal. Eu calçava um salto prateado e delicado, e tinha uma bolsa pequena pendurada no ombro. Tinha muita gente por lá já, dançando na pista de dança. A música era alta. O lugar era escuro, apenas iluminado por aquelas luzes coloridas que piscam pela pista e dois grandes holofotes em cima do palco. Uma banda tocava.
Tentei avistar Pablo, Beto ou Gregório. Qualquer um que me fizesse companhia, já que todos os meus alunos estavam dançando. Mas não vi ninguém. Avistei minha sobrinha rindo com as amigas, então cheguei à conclusão de que German já estava aqui. Não que ele fosse minha primeira opção, mas eu acabei indo procurá-lo. Éramos amigos. Eu havia prometido.
– Psiu — alguma voz soou alto em minha direção. Olhei para a esquerda e ali estava ele. Sentado em uma mesa redonda com três cadeiras. Sorri levemente, me aproximando.
– Oi — me apoiei na mesa e cumprimentei-o com um beijo no rosto. German me olhou de cima à baixo, mas nada disse.
– Senta aí — ele sorriu, e assim eu o fiz. — Bem...
– Está tudo tão lindo aqui, né? — logo me pronunciei, falei qualquer coisa para que mantivéssemos o assunto vivo.
– Realmente. Achei ótima a ideia do baile. — German riu. — Todos arrumados, pessoas dançando. Pena que passei da época.
– Somos dois — sorri, balançando a cabeça. Havia um prato de salgadinho no centro da mesa, então eu peguei um e levei-o a boca. — Na idade deles eu amava isso.
German me olhou sorrindo. — Por que não vamos tentar nos divertir também?! Podemos ser jovens se quisermos.
– Hum, como assim? — devolvi o olhar. Então, ele fez um gesto com a cabeça em direção a uma porta de vidro. Estávamos na cobertura, portanto havia um espaço externo. Assenti com a cabeça, concordando com a ideia. Nos levantamos e nos dirigimos até a porta.
German abriu-a com cuidado e nós saímos do salão para um jardim imenso na cobertura.
– Quer? — ele estendeu uma garrafa de vinho que não sei nem de onde veio, e me entregou uma taça.
– Ahm, não sei não, da última vez que bebemos juntos não acabou muito bem — sorri divertida, e ele me acompanhou.
– Prometo que não vamos passar do limite hoje. — me olhou carinhoso. Então, aceitei. German encheu minha taça e a dele, brindamos e tomamos um gole. — Vem aqui — me pegou pela mão e me puxou até a pequena mureta que rodeava as laterais da cobertura, para que ninguém caísse. Olhei o céu, escuro e estrelado, e a lua, que sorria para nós.
– Que lugar lindo — olhei toda a cidade lá embaixo, iluminada, bonita.
– Essa é nossa querida Buenos Aires — German sorriu — Acho engraçado que todos acham Paris, Londres, Hollywood, e só lugares assim que são merecidos de admiração. Mas se esquecem do seu próprio lar, aquele que a beleza ultrapassa qualquer outra.
– Você tem razão. — me virei para ele, dando um gole no vinho. German mordeu os lábios e me puxou para si.
Uma mão eu levei até seu rosto, e a outra continuava segurando a taça. Com ele, era a mesma coisa. Uma mão com a taça, e a outra em minha cintura. German encostou sua testa na minha, e nós dois fechamos os olhos. Respirávamos fundo, e o cheiro do nosso hálito de vinho se misturava com nossas respirações. A tentação de beijá-lo era imensa.
Não estávamos bêbados, foram apenas alguns goles. Mas mesmo assim eu me sentia capaz de qualquer coisa. Eu não sentia medo. Não sentia receio em beijá-lo. Eu o faria sem pensar. Me sentia livre. Porém, esperei que ele o fizesse. Só que nada aconteceu.
– Vamos voltar lá pra dentro? — sussurrei. — Está frio.
German abriu os olhos junto comigo. Encarou-me por um instante e assentiu. — Vamos.
XX
Algum tempo de festa passara. Pablo e Beto chegaram e me aproveitei disso para escapar da situação com German na mesa. Estávamos agindo como um casal, e ao mesmo tempo não estávamos. Aquilo era irritante. Eu já tinha me decidido, e enquanto ele não sabe o que quer, eu sofro.
Pablo e Beto me distraíram. Ficamos em pé, curtindo as músicas ao lado da pista de dança e conversando um pouco. Comentávamos de Eraldo, o nosso novo patrocinador e super herói. Mas eu não conseguia desviar o olhar de German, que observava a festa toda da mesa. Aquilo me angustiava. Ele não se levantava. Não parecia se divertir.
Até que uma mulher que nunca vi na vida, loira, alta, com um corpão, sentou-se ali, ao lado dele. German olhou-a confuso, mas logo os dois começaram a conversar. Lembro de ele ter dito sobre ter uma queda por loiras e meu coração palpita de ciúmes. Me desconsertei, não conseguia mais prestar atenção no que Pablo dizia, e encarava descaradamente os dois pombinhos sorridentes na mesa.
– Angie — Beto estalou os dedos em minha frente, trazendo-me de volta à realidade. — Por que não vai lá?
– Hã? — estranhei, olhando-os. Os dois me encaravam.
– Qual é, você não para de olhar o German e aquela gostosona — Pablo suspirou. — Vai lá. Mostre para ela o que é seu.
– Ele não é meu, Pablo — balancei a cabeça. — Deixa quieto.
– Se você não fizer nada ele não vai ser mesmo — meu amigo bufou. Olhei para o chão.
– Como se eu nunca tentasse. Estávamos lá fora agora a pouco e ele simplesmente se aproximou, e não me beijou. Parece que faz de propósito. "Nossa, vamos brincar um pouco com os sentimentos da Angie e deixá-la frustrada". — me exaltei. — Quem é ela?
– Ela é filha do Eraldo. — Beto comentou, olhando em direção a mesa. Tentei controlar o ciúme que queria se manifestar.
– Entendi — murmurei baixinho, como se aquilo não fizesse diferença nenhuma pra mim.
– Ah, Angeles, faça-me o favor e vem aqui — Pablo pegou meu braço e me arrastou rapidamente até a mesa, enquanto eu tentava me desvencilhar, sem sucesso. — German! Tudo bem com você? — ele quase me jogou na cadeira vazia da mesa e puxou outra para se sentar. German sorriu simpático, e a loira encarou-nos com cara de nojo. Como eu disse antes, não estava temendo nada. Podia virar-lhe um tapa naquele exato instante.
– Pablo! — sorriu — Que bom te ver aqui. Bem, essa é a Helen. Helen, esta é a Angie e este o Pablo. — German nos apresentou como se nada estivesse acontecendo, e segurou minha mão por cima da mesa. Sorri forçado para aquela garota vagabunda.
– Helen, muito prazer — Pablo sorriu para a mulher. — Já conhece os professores do Studio?
– Hum, na verdade não — Helen se pronunciou.
– Então venha cá, vou te apresentar — ele se levantou, puxando-a consigo, não lhe dando tempo nem de responder. Antes de se afastar, Pablo me lançou uma piscada, e eu acabei rindo.
– O que foi isso? — German me olhou divertido. Me fiz de desentendida.
– O quê? — mordi os lábios, e soltei sua mão. Ele me olhou por alguns segundos e acabou rindo. Claro que havia entendido. Me puxou para perto e voltou a segurar minha mão. Indiretamente, com aquele gesto, eu o senti afirmar que ele era meu.
– Nada, sua ciumentinha, nada. — ele beijou meu nariz.
Ficamos ali por longos minutos depois disso. Conversando, rindo, comendo. E adquirimos um hobbie. Observar os alunos dançando era bem divertido. German, depois do ocorrido, ficara me mimando o tempo inteiro, como se quisesse se redimir. Ou apenas me mostrar que eu não tinha que sentir ciúme.
O tempo passou. E começou a tocar uma música lenta, em meio a tantas músicas agitadas. Muitos saíram da pista por não ter um par para dançar. Sorri vendo que Leon chamara a Violetta. O vocalista da banda que tocava pegou o microfone e começou a falar enquanto seus companheiros continuavam com a melodia lenta e linda.
– Muito bem, meus amigos! Reservamos cinco minutos do show em dedicação a todos os casais presentes por aqui — o vocalista andava pelo palco. — Cavalheiros, convidem suas damas para uma dança. Essa também é a oportunidade para convidar aquela sua paquera de muito tempo atrás! Vamos, homens, não sejam tímidos!
Eu soltei uma risada baixa, para mim mesma. Aquilo era uma graça. Vi muitos casais irem juntos para a pista, alguns casais de amigos e outros que realmente namoravam. Vi que Diego puxava Francesca, com um braço na sua cintura. Maxi estava com a Naty. Federico estava olhando triste para a Ludmila, querendo dançar com ela. Eles ainda estavam separados, mas todos sabiam que ainda se gostavam. Pude ver Broduey com uma garota qualquer e Camila com outro garoto, pareciam querer fazer ciúmes um ao outro. Mordi os lábios e balancei a cabeça, sorrindo. Juventude...
E de repente, minha clara visão da pista de dança foi tampada por alguém. A pessoa estava de pé, e eu sentada. Então levantei levemente a cabeça e me deparei com um German sorrindo carinhoso para mim. Não havia nem percebido que ele tinha se levantado da cadeira.
– Vamos dançar? — questionou rindo, estendendo a mão para mim.
– Quê? Eu e você? — estremeci internamente. Meu coração disparou só em imaginar como seria ficar tão perto dele.
– Por que não? — German continuou sorrindo. — Vai, Angie, ou você quer ficar aqui sentada na mesa a festa inteira, sem fazer nada? — ele falava simpático — Por favor, música assim é a única coisa que eu sei dançar — riu. Abri um sorriso.
– Você dança, é? — levantei as sobrancelhas, segurando a risada.
– Bem... É. — sorriu tímido — Talvez, bem melhor do que aquela fez na noite de faxina no Studio. Então, vamos? — ele ainda mantinha sua mão estendida.
– Mas isso não é para casais? — questionei, e mesmo assim segurei sua mão. German me puxou levemente, fazendo-me levantar.
– Vamos como amigos, não tem problema — ele sorriu e me guiou até a pista. Fiquei meio tímida. Éramos dois adultos no meio de muitos adolescentes. German e eu nos posicionamos num canto.
– Muito bem, muito bem — o vocalista sorria vendo os casais se posicionarem. — Agora vamos, comecem. Quero que sintam a música. Mulheres, aproximem-se de seus companheiros. Não sejam tímidas. Homens, ajudem suas companheiras a perderem o medo — o homem riu sozinho — Mostrem-nas que são queridas. Abracem-as. Puxem-as para perto. Sintam a conexão dos corpos.
Eu podia ter paralisado ali, naquele momento. Ficar perto. Abraçar. Isso era brincadeira comigo, só podia ser. Meu corpo congelou assim que eu senti os braços quentes de German envolvendo meu quadril e me puxando para pertinho.
– Wow — murmurei baixinho com a proximidade. Não era para German ter escutado. Mas ele escutou, e riu.
– Se não quiser não tem problema — ele disse divertido.
– Não, não, tudo bem — sorri meio nervosa. Estávamos praticamente colados.
– Só isso, homens? Encostem nas suas companheiras! Não tenham medo de tocá-las! — o vocalista continuava depois que todos seguissem suas instruções. Deus do céu. Meu coração devia estar a mil por hora. Pude sentir German respirar fundo e apertar um pouco mais o abraço, fazendo que agora ficássemos completamente colados. Olhei para ele e percebi que ele mantinha o olhar sobre mim. Sorri timidamente. — Muito bem! — o cara continuou depois que todos os casais estivessem naquela mesma posição. — Agora, mulheres, é a vez de vocês. Com seu companheiro abraçando-a, abrace-o também!
Abraçar. Ok. Respira fundo, Angeles. Você consegue. Você é capaz. É só uma dança.
Levantei meus braços, colocando-os em volta do pescoço de German, sem demonstrar nenhuma reação. Eu estava tensa. German parecia estar na mesma situação que eu.
– Isso, isso! — o vocalista continuava falando no microfone. A banda continuava tocando a melodia lenta de fundo. — Agora a parte principal — ele sorria — Homens e mulheres, por favor, olhem diretamente nos olhos de seus companheiros. Olhem-se nos olhos e não desviem o olhar até a dança acabar. Vocês precisam sentir o que o outro está sentindo. Sentir a emoção. Sentir a melodia. Deixem-se levar esta noite, para onde o destino os queira levar. Não tenham medo de se arriscar. Vivam essa música enquanto ela toca. E, agora, antes que ela comece, vou pedir mais uma coisa. Quero que elogiem seus companheiros. Diga alguma coisa para ele ou ela. Se está bonita, se está elegante. Vamos! Estou esperando.
German e eu, que olhávamos para o cara falando, voltamos a nos olhar. Um elogio? Bem, eu podia fazer mil se precisasse.
– Você está maravilhosa — German foi primeiro. Sorridente. Carinhoso. Aquele sorriso me derretia inteira. Era a coisa mais iluminada que eu já tinha visto. Estava muito escuro, mas o holofote ali perto permitia que eu o visse. Eu via seus olhos brilharem também. Eu via algo que eu nunca tinha visto. Não era algo visível, muito menos concreto, mas eu via.
– Obrigada — sorri envergonhada. E você... está.. muito cheiroso — ri baixinho. O perfume de German já tinha me embriagado por conta da proximidade. Ele sorriu.
Era possível escutar todos os outros casais elogiando-se. Aquilo era romântico até demais para dois amigos que resolveram dançar só porque não queriam ficar a festa inteira sem fazer nada.
– Obrigado — German sussurrou.
– Ótimo — o vocalista continuou. — Já ajudei-os no passo inicial. Agora é com vocês, homens e mulheres. Dancem! Aproveitem!
E então, ele começou a cantar a letra da melodia da música. Era em inglês, mas era maravilhosa. Como instruído, German e eu nos olhamos diretamente nos olhos. Não estávamos sendo obrigados a fazer isso. Mas algo dentro de ambos queria. E assim começamos. Dois passos pra lá. Dois passos para cá. Eram passinhos lentos e pequenos, quase não saíamos do lugar. E engraçado era que nem se eu tentasse eu conseguia tirar os olhos dos dele. Era algo que me prendia. Havia uma conexão intensa. Não posso deixar de comentar que minha barriga formigava.
Pisei sem querer no pé de German uma hora, de tão distraída que eu havia ficado com seus olhos profundamente castanhos. Me desesperei. Não queria estragar a clima bom que havia se formado.
– Calma, está tudo bem — German disse baixinho ao notar minha cara de assustada. A música cobria sua voz, mas nossos rostos estavam próximos, eu consegui escutar. Sorri. Eu tinha a sensação de que ele me apertava cada vez mais contra seu corpo. E, pra falar a verdade, eu também o puxava.
Quando chegou no refrão, German me fez dar um giro no lugar, segurando minha mão. Quando voltei para seus braços ele voltou a me abraçar da mesma maneira que antes. Não hesitei em recolocar os braços em volta de seu pescoço. Estava sendo divertido. Eu jurava que German estava sentindo a mesma coisa que eu, não era possível que aquilo estivesse acontecendo somente comigo.
Respirei fundo e repousei levemente minha cabeça no ombro dele. Óbvio que eu estava meio receosa em fazer isso. Mas eu precisava. Precisava estar mais perto. Meu coração pedia mais. Eu precisava me sentir mais tranquila. E consegui o que queria. Assim que o fiz, German apertou mais ainda o abraço e encostou sua cabeça levemente na minha, continuando com os pequenos passos. Ele estava correspondendo a tudo! Ou eu estava iludida demais e vendo coisas que não existiam. Confesso que isso me desgastava. Mas, sabe, naquele momento eu decidi não me importar.
Levantei a cabeça depois de um tempo. German me olhou sorrindo. Começou o solo da música. E enquanto isso o vocalista começou a gritar entre os acordes da guitarra.
– VAMOS! O momento está acabando! Vamos! Sintam! Fechem os olhos se precisar. Agora é o momento. Não desperdicem!
Eu e German rimos com o desespero do cara. German então encostou sua testa levemente na minha. Fechei os olhos involuntariamente. Senti que ele também fechara os seus. Dançamos um pouco mais dessa maneira, e agora eu estava mais nervosa ainda. Nossos narizes se encostavam. Nossas bocas tinha no máximo dois centímetros de distância. E pareciam se aproximar. Eu não estava louca! Ele estava se aproximando! Eu sentia! Eu sentia o calor subir por nossos corpos. Sentia a atração. Sentia que ele também sentia o mesmo frio na barriga que eu. Sentia nossas respirações quentes misturadas. Eu tinha certeza. Ele estava se aproximando. Seus lábios estavam cada vez mais perto. Não era um sonho. Não era ilusão. Era realidade. German finalmente encostou seus lábios nos meus.
Ele iniciou um beijo bobo. Não hesitei em corresponder da melhor forma. O beijo evoluiu de intensidade, mas continuou lento. Era lento e profundo. Calmo e carinhoso. Doce e caloroso. Segurei a nuca dele. Ele apertou a minha cintura. E o beijo era cada vez mais gostoso. Nem preciso dizer o quanto de saudade eu estava daqueles lábios, não é? Eu havia até me esquecido de como eram bons. Por um minuto, quis congelar o tempo. Quis ficar ali, apenas beijando-o para sempre, sentindo aquela língua quente tocar a minha, sorrindo e mordendo seus lábios. Ficar daquela maneira até o mundo acabar. Mas infelizmente, todo momento tem um fim. E com esse não foi diferente. A música acabou. E foi aí que soltamos os lábios. Respiramos ofegantes. E finalmente nos afastamos por completo. Já de olhos abertos, desenlacei os braços de seu pescoço e ele fez o mesmo com a minha cintura, bruscamente, como se acabasse de se dar conta do que havia acontecido. Os batimentos cardíacos dele deviam estar tão acelerados quanto os meus. Parecia que meu coração ia pular para fora. Me faltava ar. Eu tentava assimilar. Enquanto isso, nos encarávamos. Devemos ter ficado muito tempo nos encarando, que nem ouvimos o que o vocalista disse quando a música terminou.
Quem olhasse acharia que estamos em uma espécie de transe, mas na verdade um transe é quando você realmente paralisa, o mundo congela. E não era isso o que estava acontecendo. Eu tinha completa noção do que acontecia ao meu redor, e minha mente metralhava informações sem cessar. Pensei em um bilhão de coisas. Era muito para eu poder sequer me mover. Logo outra música começara, e dessa vez agitada. Os casais dispersaram e todos voltaram a dançar cada um por si só. Apenas aí que German e eu escapamos dos barulhos internos.
– Eu.. er.. ham.. — German gaguejava. Pelo jeito ficou tão alterado quanto eu. — Angie..
– Eu.. acho que.. te sujei com o batom — suspirei e limpei o canto de seus lábios delicadamente com meu polegar. German me olhava seriamente.
– Obrigado. — ele falou baixo. — Eu.. er.. eu vou buscar alguma coisa pra beber. Você quer?
– Er.. hum.. s-sim, sim. Um suco de laranja. — tentei sorrir, mas estava nervosa demais para isso.
– Ok. Vou buscar. — German saiu quase correndo dali. Andei ainda meio tonta até a mesa que estávamos antes. Mas antes que eu pudesse me sentar, escutei um berro e um corpo se jogando nas minhas costas. Não precisei nem me virar para reconhecer.
– ANGELES! — Violetta me virou pra ela, gritando euforicamente como se tivesse acabado de descobrir a cura do câncer. Eu sabia que ela havia visto. Sabia que muitos haviam visto. Então, apenas soltei uma risada. Definitivamente, meu humor havia mudado muito de um segundo para o outro. — VEM AQUI AGORA! — Violetta puxou meu braço e me fez correr até o banheiro.
Lá o som, que era alto, ficava abafado e era possível conversar sem ter que berrar. E também havia luz, coisa que no salão da festa não tinha muito.
– MEU DEUSSSS, ME EXPLICA TUDO! — ela dava pulos na minha frente.
– Não tem o que explicar! — mordi os lábios sorrindo. — A gente estava dançando, e ele me beijou..
– E O QUE ELE DISSE???
– Menina, para de pular! — exclamei rindo para a sobrinha. — Calma, calma, ele não disse nada, só foi um beijo.
– Foi O beijo, isso sim. Aliás, seu batom está borrado — a menina comprimiu os lábios querendo rir.
– Af, sério? — me virei para o espelho e vi claramente as marcas do beijo. Além do batom ter saído todo para os lados, meus lábios continuavam vermelhos e latejando. Abri a torneira para limpar o borrado, e no mesmo instante Violetta me virou para si com o batom vermelho em mãos. Ela segurou meu rosto e começou a passar em mim sem eu nem poder dizer nada.
– Como eu disse antes da festa, e pudemos ver que eu estava certa: a técnica do batom vermelho nunca falha. Você tem que ficar gostosona, ele vai até te levar pra cama. — ela dizia enquanto passava o batom em mim.
– Violetta! — a repreendi, surpresa.
– Shhh, não mexe a boca! — ela terminava de passar nos cantinhos e então me virou novamente para o espelho. — Batom: confere. Cabelo.. — a menina jogou meu cabelo para trás suavemente — confere. Decote.. — minha sobrinha abaixou levemente o meu vestido.
– Ei! — exclamei sem reação.
– Aprenda uma coisa. Homens gostam disso — ela apontou para os meus peitos quase saltando para fora. — O papai já gosta de você inteira. Imagina quando ver isso, então!
– Aonde você aprendeu essas coisas, garota? — olhei para ela, assustada. — Eu continuo sendo sua tia, sabia?
– Ah, por favor, duvido que você não está se corroendo toda para que ele olhe para esse lugarzinho. — a menina disse sorridente, apontando para meus peitos novamente. Fiquei sem resposta. — Ah, falta uma coisa! — ela rapidamente tirou um delineador da bolsa e retocou a maquiagem dos meus olhos, dando-os um incrível contraste. — Perfeita ainda é pouco. — ela cruzou os braços contentes. — Meu trabalho de fada madrinha está feito. Vamos, seu príncipe encantado lhe espera. — Violetta foi me empurrando para fora do toalete. O som alto voltou a preencher nossos ouvidos, e eu tive que gritar para minha sobrinha ouvir minha resposta.
– Você é doida! — e ri. Ela sorriu pra mim e me empurrou para que eu andasse de volta para a mesa. Então eu fui. Sentei-me e fiquei encarando o nada por um bom tempo.
Ele me beijou. Ele me beijou. Ele me beijou. Era só isso que eu conseguia pensar naquele momento. E era só isso que eu queria pensar. Não sei se isso foi um momento passageiro ou se ia levar a algo maior, mas de uma coisa eu sabia: aqueles 5 minutos foram os melhores da minha vida. Eu nunca, nunquinha, ia me esquecer daquele beijo.
– Aqui seu suco — German voltou e me entregou o copo. — Desculpa a demora, tinha uma fila imensa.. — Quando fui pegar da mão dele, nossos dedos se tocaram levemente, e por impulso trocamos um olhar. Seus olhos, porém, logo abaixaram e pairaram justo no decote. Percebi que ele engoliu em seco, e então arrepiei levemente. German tirou os olhos dali e sorriu nervoso.
– Obrigada... — falei ainda meio nervosa e tomei um gole do suco. Depois disso, sem que ele visse, abaixei um pouco mais o vestido. German sentou-se na outra ponta da mesa e ficou olhando fixamente para a pista de dança. Não observava algo específico, ele devia estar em outro mundo dentro de sua mente.
Mordi meu lábio levemente, ainda sentindo o gostinho do beijo dele. Eu jurava estar sonhando. O toque de sua boca me proporcionava uma sensação inexplicável, que até agora estava me tirando a lucidez e me fazendo sonhar acordada. Sério que ele não ia comentar nada?! Não ia falar nada sobre o que aconteceu? Bem, ele devia estar confuso. Eu daria espaço para que ele pensasse. Se ele não queria falar sobre, eu também não falaria. Aliás, até eu precisava colocar os pensamentos em ordem. Um beijo só foi capaz de bagunçar tudo.
Uma garçonete passou servindo uma mini tortinha de frango. Eu estava morrendo de fome e peguei uma para mim. Dei uma mordida.
– Aonde pegou isso? — escutei a voz de German falar comigo. Ele parecia ter voltado para o planeta Terra. Virei o rosto para ele.
– A mulher está passando servindo — disse e tentei avistar a garçonete novamente. Mas ela já havia sumido. — Bem, você quer um pedaço? — estendi meu pedaço de torta para ele. German assentiu e deu uma mordida no salgado em minhas mãos. Suspirei.
Eu estava morrendo por dentro. Não sei se eu conseguiria aguentar. Precisava perguntar por que ele me beijou. Precisava saber. Precisava saber o que ele sente. A essa altura, eu precisava entender.
Pov German
Que merda eu acabei de fazer? Eu beijei a Angie. Eu me deixei levar pelos sentimentos novamente. Não que isso fosse ruim, eu amei aquele beijo. Mas esse é o problema! Eu não podia amar este beijo! Era um beijo proibido, fora de meu alcance. Eu não podia tê-lo pra mim. Depois do mês que passou, eu percebi que eu e Angie não era pra ser. E agora, mais que nunca, o que eu quero é poder ser dono desse beijo. Merda. Isso não devia ter acontecido. Vai machucá-la e machucar a mim também. Isso é o que eu menos quero.
Eu precisava dar uma explicação para Angie, mas o que eu diria? Não podia simplesmente dizer que aquilo foi um erro. Angie é tão frágil aos meus olhos, como uma pedra preciosa que quebra só de cair no chão. Ela me parece tão desprotegida, tão vulnerável, e a última coisa que eu quero é me aproveitar disso. Ela não merece.
Não conversamos mais durante a festa, não sobre isso. Às vezes trocávamos algumas palavras, mas nada demais. Até que Pablo e Beto chamaram-na para dançar lá na pista com os outros alunos. Obviamente ela aceitou, devia estar querendo fugir de mim de algum jeito ou de outro.
Eu sou um grande babaca. Devia ter falado alguma coisa. Não posso fingir que nada aconteceu. Angie devia estar com raiva agora. Ela merecia uma explicação. E agora ela se foi para a pista de dança, e eu tinha certeza que não voltaria. Até que eu vi que ela deixou seu celular na mesa. Ele estava vibrando. Olhei para a tela e vi que Violetta a chamava. Ia atender, mas a própria Violetta apareceu ali na minha frente.
– Vilu — sorri triste — sua tia está lá na pista... Deixou o celular aqui.
– Eu vi — a menina suspirou e se sentou na cadeira que Angie estava antes. — Quero falar com você.
– Fale então — falávamos um pouco alto por causa da música alta que tocava.
– Eu vi o que aconteceu — Violetta foi direto ao assunto. Olhei-a meio receoso. Ótimo, era tudo o que eu precisava. Uma bronca da minha própria filha. — Não acho isso justo com a Angie, papai.
– Eu sei, Violetta, eu sei — balancei a cabeça — foi por impulso. Não era minha intenção.
– Acredito em você. Mas você precisa dar uma explicação a ela. Fiquei de olho em vocês e vi que não trocaram mais quase nenhuma palavra. Poxa, pai, ela está sofrendo com isso. Você tem que falar com ela. — minha filha me encarou.
– Eu vou falar. Ainda hoje eu vou falar, te prometo.
– Ah, e se você machucá-la, eu te largo sozinho e vou morar com ela — a menina se levantou. — Pense bem no que vai dizer — e então saiu. Assenti para mim mesmo e coloquei a cabeça nas mãos. Drooooooga.
Eu precisava pensar um pouco. Coloquei o celular de Angie no bolso e fui para a parte externa da cobertura. Sem barulho. Sem gente. Apenas eu, meu vinho e o céu estrelado.
XX
Pov Angie
Enquanto ria com Pablo, Beto conversava com Helen. De longe, vi passar a garçonete com a mesma tortinha de frango que German queria. Sorri levemente e fui até ela. Peguei uma com o guardanapo e voltei à mesa para dar a German. Mas ele não estava lá. Bufei pensativa. Jardim. Estrelas. Era a cara dele sair para pensar.
Fui até a porta de vidro e sorri por estar certa. German estava apoiado na muretinha. Olhava a cidade com a taça de vinho em mãos. Aproximei-me devagar.
– Beber muito e comer pouco faz mal, sabia? — falei sorrindo e me posicionando ao seu lado. Entreguei-lhe o salgado enrolado no guardanapo.
– Obrigado — German riu abafado e deu uma mordida. Ficamos um tempo em silêncio. — Angie — ele se virou para mim.
– Quê? — olhei-o.
– Você.. — German fechou os olhos, pensativo. Respirou fundo. E acabou me surpreendendo. Achei que ele diria algo idiota, ou desistiria de falar. Mas ele fez algo melhor. Me beijou. Mais uma vez. E com força. Beijou-me como se fosse a primeira vez, e então me prensou na mureta, que chegava até metade das minhas costas.
E ficamos por ali. Um tempo incalculável. O nosso tempo. Aquele tempo eterno, porque cada momento com German dura uma eternidade. Uma eternidade que acaba. Mas que, enquanto dura, se faz longa até o último segundo.
– O que está acontecendo com a gente? — eu sussurrei enquanto ele me prensava contra a mureta, depois que nos afastamos. Mantinha minhas mãos em seu rosto enquanto as dele estavam em minha cintura. Nossas testas e narizes se tocavam. Sua respiração era quente e ofegante.
– Não sei — ele respondeu também num sussurro, procurando fôlego. — Tem algo errado.
– Uhum — murmurei — cunhados não devem se relacionar dessa forma — sussurrei divertida e mordi o lábio dele levemente.
– Angeles, não faça isso — ele falava baixinho.
– Por quê? — sussurrei contra seus lábios.
– Porque.. porque sim — German falava no mesmo tom. Estávamos de olhos fechados.
– Porque sim não é resposta. — murmurei, roçando nossos lábios. A intenção era voltar a beijá-lo. E, por um segundos, o fizemos. Mas antes mesmo de voltarmos a intensificar, ele se afastou. Olhei-o, estranhando.
– Angie, me desculpa — German sussurrou com a voz embargada. Encarei-o sem entender nada. Esperei que dissesse mais alguma coisa, porém ele simplesmente se retirou dali. Foi embora da festa. Sem falar um tchau sequer.
Não tinha mais o que fazer. Quis gritar? Quis. Quis chutar a porta do toalete? Sim. Quis quebrar a cara dele? Também. Mas ao mesmo tempo eu queria correr atrás dele, e perguntar o que havia acontecido. Sorte que, por pelo menos alguns segundos, a razão tomou a frente da emoção e me fez ficar na festa, para ao menos tentar me divertir com meus amigos.
XX
Pov German
Deitei-me na cama e soltei um alto suspiro. Peguei meu celular e fiquei encarando a tela por um bom tempo. Fui na lista de contatos e apertei no primeiro contato da lista: Angie. Olhei sua foto e abri um sorriso um tanto apaixonado. Angeles era minha paixão platônica. Deve ser por isso que a beijei involuntariamente. Ela era uma paixão que eu sempre ia ter, mas nunca ia estar ao meu alcance. Era boa demais para mim, um homem que só sabe errar.
Só que ela precisava de explicações. E eu deveria o fazer rápido. Respirei fundo, tomando coragem para apertar em chamar.
Pov Angie
Fim de festa. De volta à minha doce casa. Fingia que havia me esquecido de tudo o que acontecera. Apenas fingia. Eu havia acabado de tirar a maquiagem e colocar o pijama. Me joguei na cama, exausta. Foi aí que ouvi meu celular começar a tocar. Procurei-o por entre as cobertas e vi que era German que me chamava. Suspirei e demorei um pouco para atender. Não falei nada até que ele o fizesse.
– Angie? — German falou depois de uns segundos em silêncio.
– Oi — murmurei meio cansada.
– Achei que você não ia atender — ele suspirou alto. Fechei os olhos. Escutar sua voz era tão relaxante. — Eu te acordei?
– Não, não — respirei fundo — Estou acordada. Cheguei em casa faz pouco tempo. — eu falava baixo.
– Ótimo. Podemos conversar? — ele tentava falar carinhosamente, mas eu podia perceber que estava meio nervoso.
– Uhum — murmurei e me ajeitei na cama, esperando que ele falasse. Me cobri e fiquei encolhida embaixo do edredom.
– Angie, você.. me desculpa? — German falou baixo.
– Pelo quê? — respondi no mesmo tom. Escutei-o respirar fundo.
– Por ter te beijado... — sua respiração estava ofegante.
– Te desculpar pelos cinco melhores minutos da minha vida? Hum, acho que não. — murmurei com um leve tom de divertimento, mas nem eu nem ele rimos. Ficou um silêncio por alguns segundos.
– Ah. Eu não sei o que dizer, Angie, eu te devo uma explicação mas nem eu sei que explicação dar. Foi tão por impulso... eu..
– German, me responde uma coisa? — o interrompi.
– Fala... — ele suspirou. Fechei os olhos para fazer a tal pergunta, eu podia me arrepender da resposta.
– Você.. gostou dos beijos? O que você sentiu? Por favor, responda com sinceridade — suspirei. Mais uns segundos em silêncio.
– Sinceramente? Bem, eu vou te dizer. Angie, não tem beijo melhor que o seu. Ninguém nunca conseguiu ter esse efeito sobre mim antes... Eu senti um frio na barriga tremendo, e desejo de mais.
– Obrigada. Era só isso que eu precisava saber. — interrompi-o novamente.
– Eu...
– Se você quiser podemos esquecer que isso aconteceu — sugeri, ainda falando baixinho.
– Eu não sei... vai ser difícil esquecer isso. — ele respondeu.
– E você acha que para mim vai ser fácil? — murmurei. Enquanto segurava o celular com a mão direita perto da orelha, com a esquerda eu brincava com o detalhe do meu pijama.
– Sim... você tem razão. Vai ser menos doloroso se esquecermos em vez de ficar convivendo com isso. — German suspirou.
– Ótimo, então. Obrigada por essa noite. Durma bem.
– Boa noite... — ele falou como quem não queria desligar. E então eu mesma desliguei. Essa conversa foi como arrancar uma parte de mim. Estava doendo. E muito. Eu precisava por pra fora, não aguentaria por muito tempo.
E então as lágrimas vieram. Constantemente e sem cessar. Joguei o celular longe e afundei o rosto no travesseiro. Fiquei chorando e chorando por horas, até finalmente pegar no sono.
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