Sos mi más bello error
5 Endless cycle
Notas iniciais
É apenas atração, ou carência. Era nisso que German se forçava a pensar depois de ter passado a noite em claro por causa de Angeles. Ele não podia nem pensar em considerar o fato de que talvez fosse apaixonado por ela. Isso estragaria tudo. Estragaria sua vida automática e estável, estragaria as barreiras que ele veio construindo ao longo do tempo, estragaria a sua paz. Não que ele fosse completamente feliz com Priscilla. Mas, pelo menos, não tinha uma vida turbulenta e cheia de loucuras. Era.. Uma vida normal, tranquila. Como se Priscilla fosse o escudo dele, a usava para se proteger dos verdadeiros sentimentos e emoções. Já que de todas as vezes que ele havia agido seguindo o que sentia, havia se dado mal no final.
Com Angeles as coisas não eram tranquilas. Com ela existiam problemas seguidos de problemas, confusão atrás de confusão, brigas e mais brigas, uma vida cheia de momentos tensos e intensos. Não que isso fosse muito ruim. Os momentos fora disso eram maravilhosos e lhe traziam alegria. Passar um segundo com ela era como viver uma eternidade de paz, mas as trevas sempre davam um jeito de destruir tudo. Por isso ele precisava evitar. Era covarde demais para enfrentar os sofrimentos e conseguir estar com ela.
Então, tinha que ser atração. German insistia a si mesmo, tentava se convencer e persuadir a própria mente. O que poderia ser verdade. Angie era extremamente bonita, afinal. Eram apenas aqueles olhos verdes, iluminados e alegres, muito ao contrário do que eram os olhos de Priscilla. Ou talvez fosse o sorriso de Angeles, bem mais encantador que o da sua esposa. E também tinha a doce voz que a primeira tinha, e que a segunda fazia questão de não ter.
Merda. Até tentando chegar à conclusão de que era apenas atração ele chegava na conclusão que Angeles o fascinava mais que qualquer outra coisa nesse mundo. Derrotado, bateu o travesseiro de frente com sua cabeça vezes seguidas, querendo gritar e puxar os próprios cabelos. Que tipo de poder era esse que uma mulher conseguia ter sobre ele? Isso nunca tinha acontecido antes. German nunca havia passado uma noite inteira em claro com um único nome em mente. Mas ele estava assim agora. Desde que chegou de sua saída para comer churros com ela na noite anterior, não havia conseguido dormir. Ficou apenas deitado o mais afastado de Priscilla na cama, encarando o teto. Já passava das cinco da manhã e ele estava de fato nervoso. Será que as coisas seriam sempre complicadas para ele?
Não aguentava mais aquela fossa. Levantou-se e foi fazer a higiene matinal, afinal, o sol ia nascer em pouco tempo. Vestiu um suéter de cor vinho e uma calça jeans escura. Passou perfume e saiu da casa sem tomar café ou avisar ninguém. Ainda estava escuro e a cidade começava a acordar aos poucos. Alguns carros já andavam pelas ruas, com pessoas a caminho de seus trabalhos e crianças indo à escola. Já German ia apenas caminhando despreocupado, até chegar a praia. Queria se isolar do mundo e se distrair. Queria se sentir vivo, queria ter esperança de que algum dia ele ficaria bem de verdade. Talvez o nascer do sol pudesse fazê-lo pensar em um recomeço. Ou talvez pudesse fazê-lo apenas se lembrar de que mais um dia iniciava e ele ainda não tinha tido coragem suficiente para enfrentar seus medos e ser feliz.
German sentou-se no calçadão da praia e ficou observando. O sol brotava do horizonte e alguns raios começavam a atravessar o céu limpo de Buenos Aires. Os pássaros iniciavam o canto matinal e as ondas do mar começavam a ir e vir lentamente, enquanto a brisa fresca saía das águas e batia diretamente em German. Ele suspirou ainda pensativo, não tinha o que fazer. Levou um dedo até a areia e fez um desenho qualquer, não importava. Aquilo tudo o aterrorizava. Se havia conseguido se esquecer de Angeles por algum tempo, por que não podia conseguir de novo? Havia sido tão difícil assim? Ele apenas se afastara dela para isso. Apenas se forçou a parar de pensar nela até que isso se tornasse concreto. E, aparentemente, tinha dado certo. German tinha conseguido sua zona de conforto com isso. Se acostumara a viver assim: se não podia tocar a felicidade, se contentava em viver do modo mais acomodado possível.
E isso funcionaria se não existisse certa mulher loira que parecia que possuía a missão de desconfigurar todo o seu manual e seu sistema de métodos criados para se sentir bem.
– Você aqui? — German escutou uma voz baixa vinda de cima dele, afinal, ele estava sentado. Nem precisou olhar para o alto para reconhecer a voz. Quis se bater naquele momento. Por fora tudo o que ele menos queria era vê-la agora. Mas no fundo ele sabia que apenas aqueles olhos verdes lhe traziam esperança. — O que aconteceu? — Angie continuou e se sentou no calçadão ao lado dele. German olhava fixamente para o sol se expondo pouco a pouco, mas a mulher insistia em olhar para ele, com os olhos um pouco cerrados por conta dos raios de luz que a atingiam.
– Nada com o que se preocupar — German respirou fundo e ela ficou em silêncio, é óbvio que não insistiria. — O que faz aqui?
– Eu que te pergunto. Passo por aqui todo dia antes de ir para o Studio, gosto de ver o sol nascer. — Angie olhou para baixo e sorriu vendo o desenho abstrato que ele havia feito na areia. — Algo me diz que você está confuso.
– Está enganada — German finalmente olhou-a. Mechas loiras eram jogadas levemente para trás por conta do vento. Ela balançou a cabeça e riu abafado.
– Eu te conheço, German — o olhou também e segurou uma das mãos dele com força — E queria que você confiasse em mim. Gostaria de te ajudar. Mas sei que não dá — ela suspirou. — Então o máximo que posso fazer é desejar que você fique bem. — fez uma pausa — Eu preciso ir, está bem? — concluiu e German apenas assentiu com a cabeça. — Bem, se notarem seu sumiço eu posso dizer que você está bem e seguro? — Angie falou divertida, mas German nem assim sorriu muito.
– Diga que eu já estou voltando para a casa. Não adiantou dizer que passa sempre por aqui, eu sei que é mentira e que a Violetta pediu sua ajuda para me procurar — German falou naturalmente, arrancando uma risada da mulher ao seu lado.
– Hum, você também me conhece bem, hein? — ela sorriu e olhou para frente. Faltava pouco para o sol aparecer completamente, e Angie ficou ali sentada em silêncio, assistindo com German esse fenômeno acontecer como se não fosse algo que se visse todo dia. Quando o celular de Angeles tocou e ela avistou "Violetta" na tela, se tocou que passara tempo demais ali. Beijou o rosto de German e saiu correndo sem dizer nada para atender ao celular e ir de volta à mansão.
De novo sozinho, o homem apenas decidiu acompanhar o caminho das ondas até areia. A maré estava bipolar. Subia e abaixava, como se parte de suas ondas quisessem ir longe e as outras tinham medo, decidindo-se por secar o quanto antes possível. Exatamente como estava German naquele momento. Indeciso, com dois sentimentos completamente opostos dentro de si. Ele não entendia como aquilo era possível, mas ele queria Angie perto e longe ao mesmo tempo.
– Não é atração — murmurou pra si mesmo, se conformando com o fato. — Mas também não é amor — disse em tentativa de auto consolo. — Não ainda.
Ele então pensou que, se conseguiu parar isso uma vez, podia parar de novo. Talvez não fosse isso que ele quisesse, mas talvez isso fosse o necessário a se fazer. Não podia cometer o escândalo de se apaixonar sendo casado com outra. Não queria mais confusão. Se sua vida queria ser um ciclo, onde ele se apaixonava e desapaixonava pela mesma pessoa várias vezes, não havia muito o que fazer além de seguir esse ciclo sem fim.
XX
Pov German
Parece meio egoísta, eu sei. Andar apenas pelos trilhos que me convêm pode afetar outros, eu também sei. E sei que nesses outros, Angie está incluída. Eu sei que não posso brincar com os sentimentos dela, mas se for pensar assim, eu também não posso brincar com os meus. Não tenho escolha, e garanto que isso vai ser o melhor para nós dois. Hoje pode ser que não, mas quem sabe lá na frente.
Sim, eu estou me baseando em incertezas. Eu prefiro arriscar uma incerteza boa do que uma certeza má. Porque com toda certeza, deixar esse sentimento crescer só tem um único destino: catástrofe. Por isso é melhor freá-lo enquanto eu posso. Já está decidido, assim eu faria. Ou, pelo menos, tentaria.
Levantei-me do calçadão da praia e pensei aonde iria agora. Não voltaria para a mansão, porque pelos meus cálculos Angie estaria lá. Então, já que eu não havia tomado café e estava faminto, caminhei até uma padaria que abria cedo. Entrei, sentei-me em uma mesa e pedi um café e um croissant para a garçonete. Enquanto esperava, olhei para o balcão de doces. Sorri sem pensar ao ver maçãs carameladas espetadas em palitos atrás do vidro do balcão-geladeira. Eram tantas lembranças que qualquer coisa podia fazer-me lembrar de Angie. Eu não podia reclamar, havia acabado de tomar uma decisão e era óbvio que as coisas não mudariam num passe de mágica. Talvez nunca mudassem completamente. E talvez fosse isso que fizesse o ciclo se repetir, que fizesse o amor não apagado e sim diminuído voltasse a crescer. Mas, se viver nesse esquema estava funcionando por enquanto, eu não mudaria a tática.
A comida chegou rápida e fresquinha, essa é a vantagem de se ir em uma padaria assim que eles abrem. A comida está sendo feita na hora e chega ao seu prato segundos depois de ter saído do forno. Ou eu estava realmente faminto, ou aquele salgado era tão bom que eu fiz questão de pedir outro. Depois pedi um suco de laranja. Seguido de um pedaço de bolo. Comi tanto que parecia que eu não comia há dias, mas passar a madrugada pensando de fato dava fome. Assim que a minha refeição acabou, me levantei, peguei uma maçã caramelada para viagem, paguei a conta e saí. Olhei o relógio de pulso, era sete e meia da manhã. Estava cedo, mas na hora certa em que eu podia voltar para a casa. Olhei para a caixa branca em minhas mãos, que continha o doce que Angie tanto gostava dentro. Então em vez de ir para casa, corri até o Studio. Já estava aberto, as aulas começavam às oito horas. Fui até a sala dos professores e deixei a caixa com a maçã em cima da mesa. Arrumei uma caneta e escrevi "para Angie" no papelão branco, então saí correndo antes que alguém me visse. Era meio contraditório um ato desses depois de tudo o que eu havia pensado nas últimas horas, porém infelizmente eu ainda sentia aquele carinho por ela. Para ir para casa, peguei um caminho diferente, evitando cruzar com Angie e Violetta na rua. Essa era a hora que elas costumavam estar saindo para ir ao Studio. E eu estava certo, assim que cheguei na mansão, elas já não estavam mais lá.
Cruzei com Priscilla e fingi não ver a cara não muito boa com que ela me encarava. Eu tinha quase certeza de que Angeles dissera que havia me encontrado, e tinha mais certeza ainda que a cara feia de minha esposa era por isso. Priscilla não tinha ciúme, tinha obcecação. Isso me assustava às vezes. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, me enfiei no quarto depois no banheiro. Parei um pouco e me apoiei na pia. Olhei meu reflexo no espelho e vi um homem exausto, acabado. Droga, se eu estava fazendo isso tinha que fazer direito. E presentear a tia da minha filha com uma maçã caramelada com certeza não estava dentro disso. Espera, o quê? O que foi isso? Que diabos estava acontecendo comigo? O que eu estava fazendo? Tinha a sensação de que estava fazendo tudo errado. Mas, por outro lado, isso parecia tão mais fácil.
Talvez, eu fosse de fato um covarde. Quem olha não percebe, mas por dentro, eu tenho mais medos que uma menina de cinco anos.
XX
Pov Off
Angie entrou na sala dos professores e a primeira coisa que seus olhos captaram foi seu nome escrito no topo de uma caixa branca. Se aproximou curiosa e abriu a caixa. Sorriu encantada ao ver seu doce favorito enrolado em papel alumínio. Riu divertida, já sabia quem havia sido. Considerou aquilo como um agradecimento por ela ter tentado confortá-lo no mesmo dia mais cedo. Pegou a maçã pelo palito e mordeu-a. Sentiu o gosto de infância descer pela garganta e continuou comendo. Aquilo estava estranho até demais, o universo havia resolvido ser legal com ela nas últimas doze horas. German, os churros, e agora esse presente. Angie havia quase certeza de que havia algo errado, mas era melhor nem dizer nada, assim não corria o risco das coisas ruins acontecerem e ela ficar com o peso de "foi só porque eu disse" na cabeça.
Foi dar as suas primeiras aulas, e no intervalo para o almoço estranhou não ter visto German ainda, ele costumava chegar cedo para ajudá-la com as coisas do Studio. Tentou ligar em seu celular, mas ele não atendia. Então foi até um restaurante próximo para almoçar, já que ela tinha que dar mais duas aulas à tarde e não estava a fim de desmaiar de fome. Quando voltou ao Studio, finalmente encontrou German na sala dos professores. Lá estava ele, sentado em frente ao seu notebook, concentrado com seus óculos grandes. Angie sorriu, adorava aquela expressão séria dele.
– Você veio – ela comentou sorridente, puxando a atenção do homem para si. Ela usava um vestido branco em cima, mas a saia dele era preta, e batia um pouco acima de seu joelho. Os olhos de German prenderam um pouco nela, e óbvio que ela havia notado. Angie sentou-se de frente para ele. – Pensei que não te veria mais hoje.
German tinha considerado a opção de não aparecer no Studio naquele dia, mas se deu conta de que fugir era a mesma coisa que deixar as coisas como estavam. Então decidiu ir, apenas para mostrar à loira que o que eles tinham era estritamente profissional.
– Vim – ele falou baixo, porém firme. Assim voltou sua atenção ao computador. Nada mais disse, ao contrário do que Angie esperava.
– Que bom. Obrigada pela maçã, eu adorei – ela falou divertida, esperando por ver a expressão no rosto dele ao notar que ela sabia quem tinha sido.
– Que maçã? – German respirou fundo, tentando esconder a situação. Não diria que havia sido ele.
– Não adianta fingir, eu sei que foi você – a loira sorriu.
– Não, desculpe informar, mas não eu não fui. – respondeu curto e grosso, voltando a atenção para o seu computador. Angie levantou as sobrancelhas estranhando o comportamento do homem.
– E aí, como estão as coisas? Ah! Eu comprei uma cera nova pra gente passar hoje, a moça da loja disse que escorregava demais e eu pensei que nossas brincadeiras de patinação iam ficar mais interessantes – Angie riu divertida. German quis sorrir, adorava quando ele e Angie deslizavam em cima de panos no chão da sala cheia de cera, patinando e limpando ao mesmo tempo. Mas ele não sorriu. A partir de hoje, não podia mais se permitir ter esses momentos tão simples mas que significavam tanto para si com Angie.
– Obrigado por me lembrar, não estou me sentindo muito bem e não vou te ajudar com a faxina hoje, desculpe. – ele murmurou sem tirar os olhos do teclado em que digitava. Tinha algo errado, ela sentia.
– Poxa, mas seria tão divertido. Aí depois eu ia te mostrar um lugar que vende churros que minha amiga me falou, deve ser bem melhor do que você me mostrou ontem – ela sorriu, tentando ignorar o fato de que ele estava sendo grosso.
– Não, Angeles. – German se levantou, fechando o notebook. – Escuta – ele finalmente olhou-a. Respirou fundo, doía ter que dizer aquilo. – A partir de agora nossa relação é apenas profissional. Tenho que ir, até. – e então ele saiu da sala, deixando Angeles intrigada naquela cadeira.
O dia passou com ela tentando entender o que ele quis dizer com aquilo. Quando suas aulas acabaram, saiu do Studio e andava até sua casa pensando. Profissional? Se era mesmo o que ela havia entendido, não entendia o por quê.
Aquilo a angustiara, era lógico. A afetava diretamente, e German sabia disso. Sabia que Angie se machucaria, mas seu sistema de auto defesa falou mais alto naquele momento. Não podia se permitir sofrer mais, era isso que ele pensava. Mas, o que ele não sabia era que talvez o que o fizesse sofrer fosse justamente a distância. Estava mais do que claro que todas as células de seu corpo gritavam por Angie, e ela podia fazê-lo feliz se ele permitisse. Mas German nunca sairia do seu ciclo sem fim.
Angeles andava confusa e irritada. Não gostou e não entendia a forma que German a tratara. Não estava tudo bem ontem mesmo? Às vezes os homens conseguiam ser mais complicados que as mulheres. De longe, Violetta avistou a tia e chamou o nome dela algumas vezes, mas esta não ouviu. Então a menina correu até a mulher, pulando em suas costas.
– Angiiie — Violetta abraçou a tia pelas costas. Angie assustou-se mas logo abraçou a menina também.
– Oi, princesa — a loira sorriu meio triste e as duas começaram a caminhar pela praça abraçadas. — Posso te fazer uma pergunta? — Angie olhou-a.
– Claro — a morena levantou a cabeça para olhar nos olhos verdes da mulher.
– É que.. seu pai está meio estranho, sabe se aconteceu alguma coisa? — Angie forçou a dizer da forma mais natural possível, não queria parecer preocupada muito menos chateada pela forma como ele a tratou. Violetta não precisava saber.
– Na verdade eu ainda não o vi hoje, quando você disse que o encontrou na praia fomos para o Studio e eu ainda não fui pra casa — respondeu ela, a mulher assentiu. Não faria mais perguntas. Então de repente Violetta puxou Angie para um carrinho de churros.
– Não! Não quero isso, obrigada — a loira disse olhando para os churros e soltando um suspiro decepcionado. German tinha o poder de estragar até o seu doce preferido.
– O quê?!?! Você tá recusando churros? — Violetta quase gritou, boquiaberta — Ok, vamos para o hospital, você está doente — a menina pegou a mão da tia e tentou puxá-la. Angie brecou-a e riu desanimada.
– Só não estou a fim. — deu de ombros enquanto a menina a encarava de forma suspeita.
– Você nunca recusa churros. — Violetta cruzou os braços.
– Talvez eu tenha enjoado — Angie tentou convencê-la com um sorriso.
– Duvido! — Violetta exclamou fazendo bico, e conseguiu fazer a loira rir de verdade.
– Olha, eu prometo que outro dia eu como com você, está bem? — a mulher falou a ela com calma e carinhosamente, como se Violetta fosse uma menina de cinco anos mimada.
– Então vamos pelo menos tomar um sorvete? — Vilu mordeu os lábios e juntou as mãos, fazendo sua cara mais fofa para a tia. Angeles riu.
– Sorvete? Hummmm... — Angie fez cara de pensativa — Topo! Vamos, sobrinha linda — ambas riram e Angie esticou o braço para a menina, e Violetta rapidamente cruzou o seu com o da tia. Assim, as duas saíram juntas até a sorveteria mais próxima. Violetta era uma boa maneira de Angie se distrair um pouco. E agora mais do que nunca ela precisava disso.
XX
German estava discutindo com Ramalho na sala quando Angeles e Violetta entraram na mansão rindo e tomando o resto de seus sorvetes. Era final de tarde, logo a mulher teria que voltar sozinha ao Studio para fazer a faxina sozinha, porque German se deu ao luxo de largá-la nessa também. As mulheres se assustaram ao se deparar com a gritaria, e ficaram encarando os dois homens até eles se darem conta.
– Ei, ei, ei! Que zona é essa? — Violetta gritou se metendo no meio da briga. German respirou fundo e passou as mãos pelo cabelo, nervoso. Olhou para o lado e viu Angie. Quis gritar mais ainda.
– Não é nada. — Ramalho abaixou tom de voz, dizendo de uma forma série enquanto encarava German. Depois, se retirou para o escritório. Angie tinha as sobrancelhas arqueadas e os braços cruzados, calada. German estava numa posição parecida.
– Pode me dizer o que estava acontecendo aqui? — Violetta olhou para o pai. Ele demorou para olhá-la.
– O Ramalho já disse que não é nada, não ouviu? — bufou. A menina respirou fundo e se calou. O silêncio dominou por uns segundos, um silêncio de respirações pesadas e olhares fixos entre os três. Angie olhou o relógio e percebeu que já devia ir.
– Já está tarde, eu tenho uma faxina a fazer — ela riu irônica. — Aliás, dá próxima vez que não quiser me ajudar, German, não precisa inventar desculpa. Eu tô vendo o quanto você está doente — balançou a cabeça em reprovação e virou-se para sair da casa.
– Tia, espera — Violetta correu até ela — Eu te ajudo, não vou deixar você fazer tudo sozinha.
Angie sorriu e suspirou — Está bem, vamos.
As duas saíram sem nem sequer olhar pra trás. German subiu as escadas, irritado. Ele sabia que Ramalho tinha razão em tudo o que havia dito. Como um bom amigo, Ramalho tinha percebido o que acontecia com German em relação a Angie, e foi lhe dar uma bronca por brincar com os sentimentos dela assim. Mas German se irritou e então jogou na cara dele a situação com Olga. Ambos começaram uma discussão e foi aí que Angie e Violetta chegaram para interromper.
German entrou no quarto e ficou feliz por Priscilla não estar lá. Se jogou em sua cama e espirrou seu perfume no ambiente, para cobrir o cheiro forte e enjoativo do perfume de Priscilla, que ele detestava. Então se encolheu no cobertor e tirou o celular do bolso. Desbloqueou a tela e foi na galeria de fotos, subindo o máximo que podia. Precisava se lembrar do que era a felicidade. Pelo menos isso. Encontrou uma foto bem antiga dele, com Angie e Violetta. Nessa época ele ainda nem sabia a verdade sobre ela ser irmã da Maria. No fim das contas, usou isso como desculpa para se afastar dela no ano seguinte, sabendo que no fundo era uma simples covardia. Ele sorriu olhando para a foto, depois de tantos anos nunca teve coragem de apagá-la. Levantou-se e caminhou até o closet do quarto, abrindo uma gaveta de meias e tirando do fundo dela um chaveiro pom-pom, colorido. O que Angie usava para por a chave da mansão na sua época de governanta, e que German tirou dela no dia em que ela entrou na casa à noite sem permissão. Ele guardara aquele chaveiro, era a única coisa que tinha dela. Uma recordação. Sabia que um dia ele precisaria daquele objeto para tomar uma decisão, se lembrar de algo ou até mesmo como forma de consolo. Era como se uma parte de Angie pudesse estar ali com aquele chaveiro, uma parte de Angie estava ali com ele.
German apertou o chaveiro fofo em suas mãos, encarando-o. Encostou-se no batente da porta do closet e deslizou até se sentar no chão com os joelhos dobrados. Suspirou e olhou para o teto. Se xingou de todo o tipo de palavrão que se lembrara, se odiando por não conseguir mudar nunca. Não era possível que pudesse existir tanto egoísmo dentro de uma só pessoa. Ele sabia que tinha sido egoísta tratando Angie daquela maneira, pensando apenas no bem próprio e não no bem dela. E agora, teria que consertar. Era o mínimo que podia fazer.
XX
– Vilu, é sexta à noite. Você é jovem, devia sair, se divertir. Não precisa ficar aqui me ajudando — Angeles dizia à menina enquanto ambas pegavam os produtos de limpeza no quartinho do Studio.
– Você é mais importante do que qualquer passeio por aí. Posso sair com as meninas outro dia, mas não vou te deixar aqui sozinha de jeito nenhum! — a menina colocou a cândida dentro do balde. — Aliás, você também é jovem, Angie, devia sair e se divertir tanto quanto eu.
– Não me sinto tão jovem assim — a loira riu e balançou a cabeça. Elas saíram do quartinho de limpeza e se posicionaram no centro do Zoom.
– Pois devia! Você é jovem, linda, tem uma alegria contagiante e é muito meiga. Qualquer homem cairia aos seus pés. — Violetta começou a passar pano de chão no local, enquanto Angie empilhava as cadeiras.
– Talvez não o homem que eu queira — Angeles respondeu meio triste.
– Posso te perguntar que homem seria esse? — Violetta olhou para a tia, sorrindo. Ela riu.
– É melhor deixar pra lá — Angie balançou a cabeça. — Vamos acabar logo com isso, aí então nós duas podemos sair e se divertir como você disse. O que acha? — a mulher sorriu para a sobrinha.
– Eu concordo completamente! — a menina exclamou e as duas riram, voltando ao trabalho.
Foram rápidas, mas sem deixar de serem perfeccionistas. O Studio ficara com um ar de novo, após uma semana inteira de uso. Angie adorou passar um tempo com a sobrinha, mas não deixou de sentir falta de German. Com o tempo ela e ele criaram maneiras de se divertirem juntos enquanto limpavam, e as risadas que ele a fazia dar eram mais verdadeiras do que qualquer outra. Infelizmente, tinha que se contentar com as lembranças, pois pelo que parecia a noite anterior foi a última vez que o homem a ajudaria com isso.
Não passava de 20h quando elas acabaram. Guardaram tudo no quartinho de limpeza e saíram na rua tranquilas. Decidiram ir a uma pizzaria, depois de tomarem um banho, claro. O céu estava imensamente escuro, e nenhuma estrela aparecia. Deviam ter muitas nuvens cobrindo, mas nenhuma era possível de se enxergar.
Até que de repente um trovão ecoou por toda Buenos Aires, assustando a tia e a sobrinha que conversavam descontraidamente na rua.
– Vai chover, tia, vamos, corre! — Violetta apertou o passo, puxando a mão de Angeles junto. A loira não tinha ânimo pra correr, mas quando sentiu as primeiras gotas de chuva caírem pela sua cabeça, apertou o passo até alcançar a sobrinha.
– Ah, que ótimo! — Angie bufou, cobrindo a cabeça com sua bolsa. Violetta riu.
– Cadê seu espírito jovem que gosta de tomar chuva, hein? — a morena sorria enquanto corria.
– Já disse que não me sinto tão jovem! — Angie falou um tanto alto pelo fato de um outro trovão tomar conta de seus ouvidos. Ela sentiu aquele arrepio na espinha, aquele medo que só German sabia que ela tinha. Estava chovendo constantemente no último mês, para a tristeza dela. Os trovões eram cada vez mais barulhentos.
E dessa vez não foi como na última. Ela sabia que não seria. Sabia que German não ligaria tentando confortá-la para que ela conseguisse se acalmar.
– Estamos quase em casa, mais um pouquinho! — Violetta gritava com os olhos cerrados por conta das gotas de chuva que caíam em seus olhos como se eles fossem um alvo.
– Vilu, não consigo! — Angie parou de correr quando sentiu seu tornozelo virar levemente. Olhou para seus sapatos e bufou quando viu o salto quebrado. Violetta parou de correr e voltou alguns passos até a tia. Um clarão inundou o céu rapidamente, seguido de outro trovão. Angie mordeu os lábios nervosa. — Quebrou o salto. — ela disse a menina. — Eu vou andando, vai na frente mesmo, só cuidado para não escorregar!
– Não, tia, eu vou com você, não tem problema — Violetta tentou ajudá-la a andar.
– Você vai ficar gripada, não quero isso. — Angie caminhou com ela até um canto da calçada coberto por um detalhe de um prédio e colocou os cabelos já completamente molhados para trás. — Anda logo!
– Tem certeza? — a menina disse preocupada.
– Sim, vai, nos vemos na sua casa e depois pedimos para o Ramalho nos levar na pizzaria, ok? Porque com essa chuva ir andando não vai dar certo.
– Não quer que eu ligue para o papai vir buscar a gente aqui? Assim não tomamos mais chuva! — Violetta acompanhava a mulher, que já tinha saído do local coberto e voltado a andar na chuva.
– Alguém falou em mim? — German assustou-as de um modo que elas berraram. Ninguém esperava que ele estivesse por ali.
– Que susto, caramba! — Violetta se virou para o pai, que estava completamente encharcado também. Angie colocou a mão sobre o peito pelo susto, mas nada disse. German riu. — O que você faz aqui?
– Eu estava indo ao Studio procurar vocês, mas as vi no meio do caminho e atravessei a rua pra chegar aqui. — German olhou para Angie, que tinha os lábios roxos de frio. — Posso falar com você? — ele se dirigiu à mulher. Violetta olhou-os.
– Certo, eu vou indo, não esquece da pizzaria, hein, Angie! — Violetta saiu correndo sem dar tempo para a tia protestar. Angie bufou.
– O que você quer? — ela murmurou ao homem. Cruzou os braços com frio e tossiu levemente. Mesmo na escuridão noturna, toda encharcada e com todas aquelas gotas de chuva caindo sobre ela, ele a achava linda.
– Primeiramente você está com frio. — ele tirou o casaco que usava e colocou sobre ela.
– Obrigada. — ela murmurou num tom quase inaudível. — Agora fale logo, eu quero sair dessa chuva. — continuou grossa e olhou em volta. German respirou fundo.
– Eu queria pedir desculpas. Sabe, não quis fazer isso com você. Eu fui um idiota.. de novo, eu sei, mas me perdoa, Angie, por favor.. — German disse baixo e ela soltou um riso cansado. Realmente não acreditava. Encarou-o e demorou a responder.
– É sempre assim. — disse balançando a cabeça — Você faz merda, pede perdão e eu te perdôo. Aí somos amiguinhos por um dia até você fazer merda de novo. E então eu perdôo. E assim vai. Você ta entendendo? — encarou aqueles olhos profundamente castanhos que ele tinha — Chega, eu cansei desse ciclo sem fim. Não quero mais fazer parte desse joguinho, German. Sinto muito, mas dessa vez eu não vou te perdoar.
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