Se ela estava suando? Imagina. Mais nervosa só se estivesse num barquinho a remo cercada de tubarões.

O vestido caía bem nela, mesmo magra como era, destacava bons pontos. Acabava depois do joelho, mas para ela aquilo já seria considerado longo, pois nunca usou um vestido de festas daquela forma. Seu cabelo curto não exigia ser preso em um coque, ela apenas pegou uma presilha com pedrarias e colocou para prender um dos lados do cabelo castanho escuro. Teria de se acostumar um pouco com o tamanho do salto, mas pegaria logo a prática.

Olhou-se no espelho. Nada mal, pensou enquanto deu um rodopio. Era só ir para a arena e uma noite que prometia começaria. Faltava apenas ela, todos já haviam ido, até mesmo Peter, a deixando sozinha para se arrumar ou levá-la. Ao menos ele deixara um pedaço de pano — xale, achava que era aquele o nome — também verde e desta vez transparente, que ela colocou nos braços. Agora era só torcer para não parecer com um centauro com a bunda de cavalo no lugar da cara.

Lea deu um jeito de guardar o coração em sua minúscula bolsinha de mão. Era como seu amuleto agora. Se era para trazer sorte, que trouxesse. Se era para trazer azar, ela desejava que o aluguel do vestido não aumentasse por "danos irreparáveis".

Ryan, como o pretor, deveria permanecer no Festival desde o início até a festa, então Lea teve de chegar sozinha ao evento. Quando entrou na reprodução do Coliseu que era a arena, a decoração do baile era parecida com a do Festival de hoje cedo, só que de uma forma muito mais atual, havendo até mesmo uma boate onde alguns casais dançavam animados. Na mesa principal, onde Ryan estava sentado sozinho, ainda com uma armadura e toga por cima, agora a tradicional da pretoria do Acampamento Júpiter. Mesmo assim, algo dentro dela queria não fazer os tornozelos tremerem por pensar o quão bonito ele era. A expressão dele era sempre tão fria que ela se perguntava se havia um coração batendo por baixo daquele pedaço de metal. Ryan parecia sempre tão... mecânico. Não-orgânico. Mas bem, ela nunca se dera muito bem com coisas orgânicas mesmo.

Antes que pudesse se aproximar da mesa, Peter surgiu sendo ajudado a andar por Andrew e Jeyne, sem conseguir apoiar o pé no chão. Jeyne, diferente de Ryan, usava ainda a toga de pretora, mas desta vez por cima de um vestido roxo que combinava com a vestimenta romana. Ela tinha os cabelos arrumados em um belo coque. Andrew vestia apenas uma camisa social simples e uma calça, com os sapatos em conjunto.

– Tivemos um pequeno problema aqui — Andrew disse, com seus cabelos cacheados e olhos cinzentos. — Ele vai precisar de uma tala e um pouco de descanso, mas vai ficar bem.

– Entende de talas, não é, Chase? — Lea disse.

– Você não faz ideia de quanto — Revirou os olhos para o trocadilho de quando ele tivera de fazer uma em si próprio, um ano atrás, quando seguia em uma missão por Atena. — Belo vestido, aliás.

Peter deu um olhar para Jeyne, que ainda o acompanhava.

– Fique, você é a pretora, não pode ir embora — Disse Peter quando ela anunciou que iria com ele para fora da festa.

Ela pareceu receosa.

– Tem certeza? Essa era para ser uma noite para passarmos juntos — Jeyne segurou melhor o braço direito que apoiava em seu ombro.

Peter assentiu.

– Tudo bem — Falou, depositando um sutil beijo na testa da loira quando ela soltava seu braço e Andrew passou a apoiá-lo sozinho. — Volte para o trabalho, vejo você amanhã.

– Vejo você — Ela se despediu, olhando-o ir para fora do salão ao lado de Andrew.

Ambas agora estavam sozinhas. Jeyne entrelaçou seu braço no de Lea, andando com ela para a mesa da pretoria. Quando Ryan a viu, se levantou e elogiou, dando um beijo na sua mão em cavalheirismo.

Lea levantou uma sobrancelha.

– Voltamos ao século XVIII? — Disse, enquanto ele não demonstrara nenhuma reação pela frase dela, convidando-a a sentar-se com eles.

Ryan se sentiu forçado a perguntar à Jeyne:

– E Peter? — Disse, tentando não deixar Lea tão de lado, ainda segurando sua mão. Ela sentia um frio transpassar o braço e chegar a todo o seu corpo com o toque. Não... Ryan estava realmente querendo ser afetuoso com a acompanhante, mas Lea podia ver em seus olhos o quão interessado estava em saber sobre o filho de Afrodite.

Jeyne suspirou.

– Ele não vai ficar. — Disse, crispando os lábios, fazendo a pequena cicatriz se destacar — Insisti para ir com ele, mas Peter disse que eu deveria ficar. Eu sou a Pretora. — Falou a última frase como se fosse um peso a suportar.

– Você é a Pretora e, como tal, deve ficar — Ryan repetiu. Suspirou. Lea tamborilava os dedos na mesa, mais como uma mania para fazer algo sempre. Ryan observou o tamborilar de dedos, se perguntando o que queria dizer. Ela se divertiu com a ideia de ele pensar que Lea estava entediada. No entanto, voltou a falar com Jeyne.

– Ficar sozinha para o resto da noite não é uma boa escolha — Ele disse.

– Melhor que ficar na mesma mesa que Otaviana, você diz — Lea mencionou, e Jeyne sorriu para aquilo, confirmando com a cabeça. Ela poderia jurar que viu Ryan se controlando para não contrair os lábios.

Lea olhou para a pista de dança, cheia de pessoas e casais. Ela olhou para Ryan, que rondava toda a arena com os olhos, mas às vezes se prendia na imagem de Jeyne ao seu lado. Lea odiava se sentir deixada de lado. Invisível. Mesmo continuando ali, mesmo ao lado de Ryan, ela era completamente invisível para ele.

– Vamos dançar — Ela disse, puxando Ryan para a pista, que deu um pequeno passo para trás educado e respondeu.

– Eu não sei dançar esse tipo de música. — Falou, buscando compreensão da outra. A música era eletrônica, com batidas fortes e que faziam as luzes da boate ficarem sempre alterando e fazendo os olhos negros dele se alterarem de pretos para azul e vermelho.

– Não sabe balançar o corpo feito um sátiro que comeu enchiladas apimentadas demais? — Lea sorriu, ainda parada com ele. Ambos eram os únicos parados em meio a adolescentes dançando em puros hormônios. Ao contrário de Ryan, Lea era realmente fã de música eletrônica. Ela adorava as batidas, a energia, todo o clima techno e computadorizado. Não era a melhor dançarina, mas gostava de dançar quando podia, e este estilo era o seu preferido.

– Não significa que eu deva fazer isso — Ele rebateu, continuando a não dançar.

Lea cruzou os braços, apoiando o peso do corpo em uma das pernas e batendo o outro pé impacientemente no chão. Ele a deu um olhar altivo, negando, e ela bufou. Como ele é tão cabeça dura! Para sua sorte, Will Solace, do chalé de Apolo, mudou a música para uma mais lenta. Lea deu um sorriso de satisfação.

– E que tal agora? — Ela falou, dando um passo para mais perto de Ryan. Ele era muito mais alto que ela, além de mais forte e esguio, a fazendo se sentir uma formiguinha em comparação à ele.

A música era lenta, com uma voz feminina cantando, e a letra penetrou na mente de Lea. Ela deu outro passo para mais perto dele, tentando pegar sua mão e chamá-lo para uma dança. Parecia que ele se esgueirava, não querendo aceitar, mas quando ela tocou a mão dele e segurou em seu ombro, Ryan não podia mais fugir.


Provavelmente isso é o melhor para você



Só quero o melhor para você


E se não for o melhor, então você está preso


A mão dele em sua cintura era fria, os dedos gelados tocando o tecido do vestido. A outra mão era puro gelo, enquanto a de Lea, total calor. O choque térmico a fez ter um arrepio perpassando a espinha. Ela se perguntava se ele sentiu o mesmo.



Eles começaram a dançar, em passos lentos e em acompanhamento à música. Ryan a encarou por muito tempo, e ela não entendia o por que daquilo. De fato, os olhos de obsidianas dele a deixavam muito nervosa. Quando eles giraram enquanto seus corpos dançavam, o rosto de Ryan se fixou em Jeyne, sentada ainda na mesa dos pretores. Ela encarava ele sem um sorriso sequer. Lea não conseguia ver, estava mais concentrada em conseguir colocar a cabeça em seu peito para tentar ouvir o coração dele. Para Lea, ele ainda não aparentava ter um coração batendo. Ela não conseguiu fazer aquilo, seja por falta de coragem ou por pensar que ele não permitisse.



Tentei romper os laços



E acabei unindo feridas


Como se você jogasse sal nos meus cortes


Quando a volta se concluiu novamente, ela pôde ver Jeyne desviando os olhos dos dois. Olhou para Ryan, que tinha o olhar baixo, nem para ela nem para Jeyne. Ótimo, ele não queria mesmo vir comigo. Aquilo a fazia perder toda a vontade de dançar com ele, mas ela continuou, gostando da respiração dele batendo em sua cabeça quando a pousou em seu peito. Ele veio comigo, não com ela, era o seu mantra do momento. Ryan não pareceu surpreso ou desconfortável, mas algo dizia que ele preferia que fosse a loira ali ao invés da morena.



Mais uma vez, ela se perguntava se o elmo dele estava apertado demais para a chamar para o baile do Festival da Fortuna. Se ela pudesse ao menos ler mentes! Jeyne era sua melhor amiga, e aquilo a fazia querer enfiar a própria cabeça numa privada por sentir ciúmes dela. Mas o que ela podia fazer? Você nunca escolhe por quem se apaixona. Pode ser o mais rico ou o mais pobre, não há escolha. E Lea, para seu azar, se apaixonou por alguém que gostava de outra pessoa. Estava começando a achar que Fortuna lhe dera o azar. E que também fora azar o idiota do Will Solace colocar uma música romântica.



E os meus band-aids acabaram



Não sei nem por onde começar


Pois não se pode fazer curativo nesse ferimento

Você nunca vai poder realmente consertar um coração


O coração de Ryan estava completamente estilhaçado. Então, ela percebeu que o coração que achara no desfile era realmente algo dado a ela por Fortuna. Não fora Lea a quebrá-lo, muito menos o coração de Ryan. Mas como pudera achar que ganhar algo quebrado poderia ser sorte? Ela obviamente tirara o azar. E ela, obviamente, não poderia consertá-lo. Lea gastou todas os seus band-aids para consertá-lo. Desde a época da guerra, desde antes da morte de amigos. Ela sempre gostara de Ryan, e aquilo era explícito, seja numa cantada que ela jogava para ele ou seja em mais uma de suas milhões de brigas.



Lea tirou a cabeça de seu peito, encarando-o com seus olhos amendoados.


– Por que me chamou para ser seu par? — Ela disse, sentindo a mão suar na de Ryan. O pretor a olhou de forma forte, quase que com pena. Ela odiava que tivessem pena dela, é como se dissessem "E aí? Você está sofrendo muito e tudo que eu quero é que você sofra mais com meu olhar triste! Tenha uma péssima noite!"- Você sequer aguenta ficar do meu lado na mesma mesa.

– Isso não é verdade — Ele disse, com sua voz calma e pacífica, guiando-a enquanto dançavam. Lea notou que ele estava tentando apenas manter as coisas estáveis. Porém, ambos sabiam que estavam totalmente instáveis.

– Então por quê, Sr. Vestido? — Lea continuou. — Você tem escolha e sabe disso. Está apenas sendo gentil comigo.

Ryan queria poder negar, mas era verdade. Ele não conseguia ser tão à vontade com ela quanto era com Jeyne.


Apesar de saber o que é errado



Como posso ter tanta certeza


Se você nunca disser o que sente


Ele a encarou novamente, planejando uma resposta digna.



– Porque eu vi que não era o único solitário — Disse, observando Jeyne de relance, num ponto em que Lea não conseguiria vê-la. — Posso não me dar muito bem com você, Lea, mas eu estou tentando. Não se consegue nada sem tentar.


– Deveria levar no elogio ou está me chamando de forever alone? — Ela falou. Odiava quando aquilo acontecia: A personalidade dela se sobressaia e tudo acabava mal, Lea não podia ser ao menos sensível, era difícil se segurar. Mas era aquele o jeito dela de lidar com as coisas, com uma piada qualquer ou trocadilho para poder evitar se sobrecarregar. Ryan a olhou totalmente descrente, como se ela estivesse o xingando.

– Você consegue ao menos levar isso a sério? — Ele rosnou, começando a mostrar a sua parte que não suportava o bom humor dela.

– Oh claro, o reizinho de Nova Roma pode brincar com os sentimentos de uma forever alone qualquer. — Ela rebateu, a mão agora segurando com força na dele conforme a temperatura de Lea aumentava — Não sei se a vossa majestade se lembra, mas fui eu quem te acolhi quando não havia mais ninguém.


Devo ter segurado sua mão tão forte



Que você não teve vontade de lutar


Acho que você precisava de mais tempo para se curar


Pela primeira vez naquela noite, ela o fez ficar sem resposta. E com razão: Quando, uma vez totalmente sozinho e desolado, Ryan deixou cair-se em batalha numa missão, era Lea quem estava lá para apoiá-lo. Ele repetia o nome de Jeyne sem parar, mas fora ela quem o acolhera e acalmara. Ela nunca se esquecera de quando ele a elogiou pela primeira vez. "Boas ataduras para alguém que não é bom com formas orgânicas de vida". "Eu sou boa em muitas coisas fora tirar meleca do nariz", ela respondeu, pura alegria enquanto o outro fazia uma cara de nojo.



Baby, os meus band-aids acabaram



Eu não sei nem por onde começar


Pois não se pode fazer curativo nesse ferimento

Você nunca vai poder realmente consertar um coração


Ryan respirou fundo. Agora a mão dele também suava na sua.



– Se eu tenho escolha — Ele disse, retomando a antiga fala dela — Qual diria para eu seguir?


Lea pensou um pouco. Mais uma volta completa, e ela viu Jeyne ainda sozinha. Por que ela tinha aceitado ir com ele para o baile mesmo? A verdadeira acompanhante dele estava ali, tão perto. Por mais que ela gostasse de Peter e Jeyne juntos, ela sabia que devia dar espaço para a loira. A pretora era tão mais bonita que Lea! E tão mais bem reconhecida e vista. Quem em sã consciência iria preferir uma mecânica suja e de orelhas élficas ao invés da bela e corajosa pretora? Não Ryan. Ryan sempre tivera a plena consciência de tudo.

– Uma bem melhor que eu. — Falou em voz baixa, soltando a mão de Ryan e se separando da dança. Seu olhar se fixou no chão enquanto, bem rapidamente, andava para fora do lugar.


Você deve ser um milagre



Andando e xingando pra todos os lados


Não se pode consertar o que já foi quebrado

Por favor não jogue minhas esperanças fora, não não

Baby, me diga como você pode

Ser tão cruel


Lea odiava sua vida, odiava Fortuna, odiava Jeyne e seus perfeitos cabelos loiros e odiava a si mesma. O que poderia ser a melhor noite do ano virara a pior da sua miserável e traumatizanteridiculamente amorosa. Ela pegara sua bolsinha, na qual o coração de vidro continuava ali. Olhou para trás, Ryan ainda a encarava à distância. Quando Lea virou o rosto, ele se dirigiu à Jeyne e a chamou para uma dança. Não foram nem cinco segundos parada de costas, bastou olhar novamente para trás e ambos já estavam numa dança. Ryan a puxava para mais perto, mas ela parecia hesitante. Ele havia feito sua escolha, e ele esperava que Lea aceitasse a dela. E ela só queria o melhor para ele. Se ela não fosse o melhor, ela aceitaria aquilo e tentaria seguir em frente.



Mas ver como Ryan estava tão mais feliz tendo Jeyne em seus braços fez seu estômago ser puxado por uma força invisível.



É como se você jogasse sal nos meus cortes



Saindo de vez da arena, ela caminhou o máximo que podia para chegar a seu bunker e se jogar no primeiro indício de uma engrenagem. Tiraria seu vestido, colocaria suas típicas roupas de mecânica e passaria toda a madrugada cuidando da cabeça de Festus, se fosse preciso. Pisou em falso com o salto e ele quebrou. Mais uma coisa quebrada, como se seu coração não bastasse!



Oh não



Você nunca vai poder realmente consertar um coração



Antes de chegar perto do bunker, ela ouviu um som de água caindo no silêncio da noite em que apenas os grilos cantavam. Olhou para o lado. Ali estava uma fonte um tanto... Excêntrica. Baco, gordo e de fralda, estava numa posição constrangedora soltando água pelo seu jarro de vinho. Lea sempre achara aquela imagem muito divertida, mas agora, quando só havia as estrelas de testemunha, ela poderia dizer que o lugar era sim bonito.



Tirou os saltos, um deles quebrado com o salto pendendo na ponta. Sentiu a grama úmida entre os dedos dos pés e decidiu se sentar ali, na fonte do cara do vinho. Tocou sua bolsa, vendo que ela estava anormalmente quente. Quando tirou o coração de vidro dali, ele estava soltando fumaça de tanto fogo dentro dele. Mas não doía, suas mãos nunca se queimaram. Parecia um tanto masoquista, mas ela gostaria de sentir a dor de uma queimadura. Como era mesmo a passagem de um tal livro? "Sem dor, como poderíamos reconhecer o prazer?". Ah sim, A Culpa É das Estrelas. Olhou para o céu, com milhares de pontinhos luminosos.


– A culpa é toda de vocês, suas bolas de fogo insignificantes — Ela praguejou, apoiando a cabeça na mão, observando elas brilharem em resposta.

– Está no meu lugar — Uma voz disse, e Lea quase acreditou que fosse uma estrela a respondendo.

Ryan chegava ali, andando em direção à fonte e se sentando ao lado de Lea. Ele se mostrava frio e sem expressão, e ela reconhecia aquela expressão quando significava que ele estava triste. Quando Ryan ficava triste, ele se blindava por completo. Pelo visto Jeyne havia o recusado por uma última vez. Ela levantou uma sobrancelha.

– Seu nome está escrito na fonte? — Levantou o nariz, virando o rosto para o lado enquanto cruzava os braços.

– Para sua sorte, não — Ele disse, no mesmo tom.

Sorte. Humpf. Lea não acreditava mais em sorte.

– Grande droga, essa Fortuna. — Continuou emburrada, a fala amassada enquanto apoiava novamente o queixo no punho.

Ryan deu um pequeno sorriso sem dentes, levantando as sobrancelhas em negação. Ele olhou para ela com seu olhar de alguém que poderia ser xingado e ainda encontraria honra para dizer o contrário numa forma elegante. Ele era tão... Formal. Isso, formal. Como um rei, para falar a verdade. Lea estava mais para a plebeia que come todo dia o pão que Gaia amassou.

– Os deuses são comparados aos homens — Ele começou com seu discurso — Pois nós, seres humanos, somos feitos à sua imagem. O homem é bom. A vida o corrompe. Os deuses são bons, Lea Valdez. Assim como nós, eles têm frustrações e infelicidades, mas isso não os faz deixarem de ser bons. Você pode estar infeliz, mas ainda continua uma pessoa boa. Fortuna é a deusa das riquezas e da sorte. Mesmo que tenha recebido o azar, isso é uma dádiva. Nunca esqueça que você é como um deus ou deusa. Fortuna é boa.

Lea ponderou um pouco o que ele acabara de dizer. Ryan havia estudado tanto os deuses, as línguas — na boa, ele sabia falar grego tanto quanto latim, uma coisa inédita vindo de um semideus romano — e, com doutorado e mestrado nessa matéria, a vida.

– Você recebeu uma dádiva de Fortuna. — Ele falou, se referindo ao coração na mão dela.

– Como você...? — Lea se embaraçou. Então lembrou que Ryan era observador e que suas deduções poderiam ser extra rápidas — Deixa pra lá. Mas é algo quebrado. Não se pode considerar uma boa sorte achar algo quebrado!

Ryan a olhou com as obsidianas brilhando à luz da noite. Logo acima deles, havia a constelação Caçadora. Lea já ouvira algumas histórias sobre ela.

– Tem certa razão nesse quesito — Ele continuou, pedindo para mostrar o coração com um olhar. Lea estendeu para ele com a esquerda, totalmente sem vontade, ainda apoiando o peso da cabeça na mão. Ela o espiou pelo canto do olho.

Ryan franziu o cenho e, quando viu que ela o observava, tentou naturalizar sua expressão, mas Lea já havia notado o suficiente: Ryan havia visto o fogo ali dentro. Ela sabia que tinha! Sempre soube!

Ele pousou o coração ao lado de Lea, bem entre os dois.

– Você deseja saber se é sorte ou azar — Ryan disse. Lea assentiu, desanimada — Só há um jeito de saber. Fique com ele.

Lea deu uma risada seca, sem humor.

– Foi a mesma coisa que Peter me disse para fazer — Falou, revirando os olhos — E olha no que deu — Ela pegou o sapato de salto que estava ao seu lado, colocados da melhor forma possível.

Lea se arrependeu de mencionar o nome do namorado de Jeyne. Ela já deveria saber.

– Foi mal se eu... — Começou, articulando um pouco os braços, querendo se desculpar por tocar num assunto delicado.

– Não. — Ryan a interrompeu. Ele olhou para o céu de forma forte. Retirou alguma coisa do bolso, mas sua mão estava completamente fechada, escondendo o que seria. — Sem azar, como poderíamos reconhecer a sorte?

Ela deu um pequeno sorriso. Ryan não.

– Às vezes — Ela disse — Eu só queria poder chamar a atenção do universo. Ele tenta chamar nossa atenção. É que nem uma velinha num bolo de aniversário: Quando você consegue acender, dura tão pouco que logo se apaga e os fósforos vão se acabando um a um a cada tentativa. — Lea olhava para Ryan, e completou a frase esperando que ele a entendesse — E, muitas vezes, um fósforo ou outro quebra quanto mais força você coloca na hora de riscar na caixinha. Crack.

O pretor a encarou, e ela pode notar um pouquinho de satisfação vindo dele. Mas nenhuma reação a mais. Ela queria 'quebrar o gelo'.

– Certo, já ouviu essa? — Começou: — O que uma impressora disse para a outra? "Essa folha é sua ou é impressão minha?"

Nem um esboço de sorriso, mas o rosto de satisfação continua. Ryan a olha de uma forma que ela se arrepiou desde o mindinho do pé até o último fio de cabelo.

– Você tem sua sabedoria, Lea Valdez, e eu aprecio isso.

– Você tem uma cabeça dura que nem uma noz — Ela falou, dando um olhar do tipo 'fala sério'. Mas sorriu logo depois — Eu aprecio isso.

Ryan não sorria com muita frequência, como nesse exato momento. Ele estava completamente sério, com o punho fechado sobre a coisa que Lea não sabia o que era.

– Uma armadura que não é feita de metal pode ser uma proteção mais eficaz que qualquer outra — Ele disse.

Mas uma grande proteção atrapalha a liberdade, pensou, se controlando para não o contradizer em voz alta. Ela não estragaria o momento. E sem liberdade, não há felicidade.

Ryan finalmente abriu a mão. Os olhos castanhos dela não poderiam estar mais arregalados e as sobrancelhas já naturalmente arqueadas pareciam ocupar toda a testa. Sua boca se entreabriu. Quando os dedos dele se abriam um a um, ela podia ver alguma coisa brilhando na luz da Caçadora. Um pequeno coração de vidro, faltando uma parte bem maior que o vermelho de Leo, era o que havia. Era azul e gélido quando ela o tocou.

– Fortuna é sempre retratada com os olhos vendados, pois distribui seus bens aleatoriamente. — Ryan repetiu a frase que ela já tinha ouvido várias vezes.

– Está quebrado. — Lea disse, sem nada melhor para falar, enquanto colocava seu coração em chamas em cima do banco da fonte. Ainda faltava a outra metade. A metade de Ryan.

– Está quebrado — Ele falou. Alguma coisa dizia a Lea que ele não se referia ao coração de vidro, e sim ao seu de verdade.

Ela tocou o braço dele, os dedos quentes sobre a tatuagem de tocha. Quando ela se deu conta que o símbolo de Bellona incluía uma tocha, já era tarde demais. Seus dedos não queimavam ou doíam no braço dele. Era como uma chama acendendo uma tocha, sem dor, somente a madeira ficando incandescente aos poucos.

– Minha mãe me disse uma vez que não há nada que não possa ser consertado. — Sua voz estava baixa. Seus olhos encarando os de Ryan. Castanho no negro, ambos brilhantes e opostos ao mesmo tempo. Eles estavam tão próximos. — E não tem nada que Lea Valdez não possa consertar.

Lea fechou os olhos, esperando que a sorte estivesse a seu favor e os olhos de Ryan também se fechassem. Mas AH! COMO O AZAR ME AMA!

– O Pretor está sendo convocado no Baile do Festival da Fortuna — Disse a voz de uma das pessoas que ela, e Lea tinha certeza que Ryan também, mais odiava em, tipo, um milhão de anos. Otaviava estava em sua toga de áugure encarando os dois com cara feia. Aquele ar cínico de que iria contar tudo para o papai.

Ryan iria se levantar, parecendo um tanto desconcertado, mas Lea interferiu. Ela acendeu uma chama em seu dedo indicador.

– Otaviana, quantas vezes sua toga precisa pegar fogo para ficar com um cheiro tão ruim quanto seu cabelo? — Lea disse, fazendo a garota magricela ficar roxa de raiva.

Lea mandou um beijo para ela, soprando com a mão. Mas, ao invés de sair somente ar na direção de Otaviana, uma rajada de fogo foi junto, fazendo a legado de Apollo sair em disparada xingando Lea de graecus idiota e coisas do gênero. Ryan queria rir com gosto. Santas porcas hidráulicas de Hefesto, ele não poderia ser menos bonito sorrindo?

Ela o olhou.

– Você não cumpriu sua promessa. Ainda está de vestido.

Ryan apenas sorriu para ela e beijou sua mão, formal como sempre, para então voltar para seu lugar de pretor.

Lea estava novamente sozinha. Encarava a Caçadora na fonte de Baco, novamente sendo gordo e patético (que ele não a ouvisse pensando aquilo). Olhou para o lado e viu que Ryan havia deixado o coração de vidro dele ali também. Ela o tocou, conseguindo ver minúsculos flocos de neve caindo ali, assim como o fogo em seu próprio coração vermelho.

Ela subitamente teve uma ideia. Juntou ambas as partes e então, com um leve brilho, surgiu um coração completamente novo em suas mãos. Diamante — forte e valioso. Muito mais que dois pedaços quebrados.

Perguntava-se se aquilo era sorte.

Quer saber?, disse a si mesma, jogando o diamante dentro da água da fonte, Do que serve a sorte sem o azar? Eu faço minha própria sorte.

Pegou sua bolsa e sapatos quebrados, indo em direção à casa, mas não sem antes olhar uma última vez para o Coliseu por cima do ombro, imaginando que Ryan estaria ali em algum lugar. Pôs-se a caminhar.

E Lea se perguntava se na manhã seguinte ele a visitaria novamente em seu bunker e dessa vez, só dessa vez, eles tivessem pelo menos um pouquinho mais de... sorte.

Notas finais
Último capítulo dessa short que eu adorei fazer. Li A Culpa É das Estrelas em umas poucas horas e simplesmente adorei toda a filosofia da coisa. Espero que tenham gostado e que venham mais fics genderbend como essa!
Adios, muchachas.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!