Sorte | Drarry.
1 Lucky.
Notas iniciais
| POV HARRY |
Hoje é o casamento do Ron e da Mione. Draco deu carona para Luna, Pansy e eu. Quase nos atrasamos, mas conseguimos chegar a tempo. Ufa! Ou Mione teria surtado, com certeza. Afinal, somos os padrinhos.
Sim, pois é. Draco Malfoy e Pansy Parkinson também são padrinhos do casamento dos meus dois melhores amigos. Quem nos conheceu quando éramos mais novos provavelmente não entende como isso aconteceu.
Tudo mudou no ensino médio, quando tínhamos uns 16, 17 anos e a nossa escola resolveu organizar um evento. Por algum motivo, acharam uma ótima ideia colocar alguns alunos como coordenadores.
Draco e Hermione, obviamente, queriam liderar.
No fim, para evitar uma guerra, os dois ficaram com o cargo. Todo mundo achou que aquilo acabaria em assassinato. Dois meses depois, porém, tínhamos um evento incrível e, ainda mais surpreendente, uma grande amizade entre os dois.
E lá se vão quase dez anos desde que os dois grupos de amigos viraram um só: eu, Mi, Ron, Luna, Draco, Pansy e Blaise.
O mais engraçado é que, apesar de todos terem se aproximado, Draco e eu nos tornamos realmente grandes amigos. Talvez até melhores amigos.
E éramos justamente os dois que não se davam bem de jeito nenhum.
Agora, eu o amo tanto quanto amo o Ron. Não deixe o ruivo saber disso ou ele infarta.
Mas, sabe, às vezes acho que o amor que sinto por Draco é um pouco diferente.
Sei lá.
Evito pensar muito nisso, na verdade.
Enfim, voltando ao casamento: o lugar estava lindo demais! Molly, mãe do Ron, tinha transformado tudo em um conto de fadas. Não daqueles com castelos, mas de floresta encantada. O sol começava a se pôr, fazendo as luzinhas penduradas nas árvores ganharem ainda mais destaque e deixando tudo cada vez mais bonito.
Vi alguém acenando e percebi que era Gina, nos chamando. A cerimonialista já estava reunindo os padrinhos e madrinhas para o início da cerimônia.
Segurei a mão de Draco.
— Ali. Vamos!
Saí puxando-o em direção aos outros, com Luna e Pansy nos acompanhando.
Uma hora depois, a cerimônia já havia terminado e tinha sido linda!
Mione estava mais maravilhosa do que nunca. Gina e eu choramos, e acho que Pansy também, embora ela jamais fosse admitir.
Assim que terminou, fomos todos para o salão da festa. O lugar era enorme. Sinceramente, não quero nem imaginar quanto aquele casamento custou. Sorte que, hoje em dia, os Weasley são tão ricos quanto os Malfoy.
Tudo correu bem: entrada dos noivos, agradecimentos, fotos e tudo mais, até que finalmente abriram a pista de dança.
Pansy foi a primeira a se levantar.
Eu sabia que seria. O fogo no rabo daquela menina é surreal.
Ela deu um grande gole no drink e gritou:
— Vamos, porque eu vim pra cá rebolar minha raba!
Agarrou a minha mão e a de Draco, tentando nos puxar para a pista.
Só tentando.
Draco soltou uma gargalhada na mesma hora e avisou que não iria de jeito nenhum. Pansy fez um bico, mas não insistiu. Soltou a mão do loiro, agarrou a de Luna e seguimos nós três para a pista.
Já estávamos dançando havia quase meia hora quando percebi que meu copo estava vazio. Avisei a Gina, que tinha se juntado a nós, que eu iria ao bar buscar alguma coisa para beber.
Ela apenas assentiu e voltou a dançar.
Fui andando distraído na direção do bar. Não estava bêbado, mas já começava a me sentir mais solto e alegre.
A verdade é que o sorriso enorme no meu rosto tinha um motivo muito simples: Ron e Mione tinham se casado!
Eu olhava para os dois, que riam de mãos dadas em meio a um verdadeiro mar de ruivos, quando esbarrei em alguém.
— Ah, me desculpa, eu não vi o senhor...
Parei assim que ouvi uma risada.
— Que senhor, Harry? Tá bêbado já?
Levantei o olhar.
Draco.
Comecei a rir e passei os braços pelo pescoço dele, aproximando nossos rostos para olhar no fundo daqueles olhos azuis quase cinzentos. Tão, tão lindos.
— Você sabia que é um dos meus melhores amigos? — falei.
— Ih... respondeu à minha pergunta. Tá bêbado mesmo.
Ele apertou a ponta do meu nariz, soltando aquela risada gostosa. Como eu amava aquela risada.
— Deixa só o Ronald ouvir você falar isso! — continuou, gargalhando ainda mais.
Ver Draco daquele jeito me fez rir também. E me bateu uma felicidade tão grande por ter aquele cara maravilhoso como amigo que, de repente, simplesmente falar não pareceu suficiente.
Então fechei os olhos e encostei meus lábios nos dele em um selinho rápido.
♦
| POV DRACO |
Eu já estava acostumado com toda aquela melação que Harry fazia quando bebia.
Nossa amizade tinha ficado cada vez mais forte ao longo dos anos. Quando éramos mais novos, com uns 19, 20 anos, houve algumas noites de bebedeira em que Harry me abraçava e dizia, com toda a naturalidade do mundo, que queria me pegar.
Eu morria de rir da cara de pau dele, mas sabia que era coisa da bebida e da intimidade que tínhamos.
Quer dizer, era só por causa disso, não era?
Então, mesmo quando ele me roubava alguns selinhos, como acabara de fazer, eu respirava fundo e tentava abstrair.
Se eu sentia borboletas na barriga? Talvez.
Se começava a suar frio? Pode ser que sim.
Mas ignorava.
Afinal, era o Harry.
Ele afastou o rosto e ficou me encarando.
Então riu.
E, quando Harry ria daquele jeito, eu sabia que vinha alguma besteira.
— Sua boca tem gosto de... cinzeiro com balinha de menta.
Eu ri. Tinha acabado de fumar um cigarro.
Mas então o sorriso dele desapareceu.
Harry ficou me olhando como se conseguisse enxergar através da minha alma. Percebi sua respiração ficando um pouco mais acelerada.
Ele estava corando?
Eu ia perguntar alguma coisa, mas, antes que conseguisse abrir a boca, Harry sacudiu a cabeça, desviou os olhos dos meus e disse:
— Vou lá no bar pegar uma bebida... ou pegar o barman. Ainda não decidi.
Piscou para mim, riu e se afastou.
Fiquei olhando enquanto ele ia embora.
Só percebi alguns segundos depois.
O que tinha acontecido ali?
E, espera...
Eu estava com ciúmes?
♦
| POV HARRY |
Parei diante do bar, mas era como se não estivesse realmente ali.
Tinha sido apenas um selinho com Draco. Já tinha feito aquilo outras vezes. Nós tínhamos intimidade suficiente para isso.
Por que, então, meu coração estava tão acelerado?
Por que eu tinha ficado com as bochechas quentes?
Só saí dos meus pensamentos quando percebi que o barman estava parado diante de mim com uma taça vazia na mão.
— Alô... senhor? Olá? O senhor está bem?
— Oi... desculpa. Estou, sim. Só me distraí um pouco.
Passei a mão pelos cabelos e finalmente prestei atenção nele.
O homem à minha frente era bonito. Devíamos ter mais ou menos a mesma idade.
Ri sozinho.
Alguns anos atrás, eu provavelmente já estaria pensando em dar uns beijos nele.
Mas, de uns tempos pra cá, simplesmente não me interessava mais por ninguém.
Eu não queria admitir, mas pensava em Draco mais do que parecia normal.
— Foi um loiro que distraiu você, né? — perguntou o barman, tentando conter o riso.
Eu poderia ter mandado aquele desconhecido cuidar da própria vida. Em vez disso, senti minhas bochechas esquentarem ainda mais.
— D-do que você está falando?
Dessa vez, ele se permitiu rir enquanto começava a preparar uma bebida, embora eu nem sequer tivesse dito o que queria.
— É que o bar tá meio parado, sabe? Eu estava olhando o pessoal da festa e vi você e o loiro conversando ali... Não vou mentir, não tem como não reparar em vocês dois. São o casal mais lindo daqui!
— Não somos um casal! — respondi rápido.
Talvez rápido demais.
O barman parou de despejar vodka no copo, a garrafa ainda suspensa no ar.
Olhou para mim como se estivesse fazendo um raio-X da minha alma.
— Mas você queria que fossem, não?
Senti meu rosto inteiro esquentar.
— Nem precisa responder.
Ele mesmo respondeu, rindo, e voltou a preparar a bebida, acrescentando groselha à vodka.
Eu ia responder que não. Juro que ia. Mas a palavra simplesmente ficou presa na garganta.
Será que ele estava certo?
Talvez fosse uma péssima ideia contar para um desconhecido toda a confusão que estava acontecendo dentro da minha cabeça.
Mas que mal faria?
— Somos melhores amigos... — falei. — Mas não sei. Ele torna as coisas fáceis quando a vida fica difícil.
O barman empurrou a taça com a bebida vermelha na minha direção e abriu um sorriso enorme, como se já tivesse entendido tudo sem precisar ouvir mais nada.
— Então, sorte a sua por estar apaixonado pelo seu melhor amigo!
Apaixonado.
Olhei para ele.
Depois para a bebida.
Eu estou apaixonado por Draco.
Meu coração disparou.
Eu estou apaixonado pelo meu melhor amigo.
Ouvi o barman me chamar novamente, trazendo-me de volta à realidade.
Ele se inclinou um pouco sobre o balcão e falou mais baixo:
— E, sabe... do jeito que ele não para de olhar pra cá e pela expressão de quem quer me bater, acho que ele também gosta de você.
Piscou para mim e se afastou para atender outra pessoa.
Peguei a taça e dei um pequeno gole. A bebida estava deliciosa. Bem doce, do jeito que eu gostava. E eu nem fazia ideia do que tinha ali dentro.
Virei devagar na direção da mesa onde meus amigos estavam. Encontrei imediatamente os olhos de Draco presos em mim. Para minha surpresa, alguns segundos depois, ele desviou o olhar.
♦
| POV DRACO |
— Incrível! — bufei, desviando os olhos de Harry e encarando a mesa.
Eu tinha certeza de que apenas pensara aquilo. Pelo jeito, não. Luna ouviu. Só estávamos nós dois na mesa naquele momento.
— O que foi, Draco? — perguntou enquanto tirava um dos sapatos.
Ela tinha dançado tanto que os pés provavelmente já estavam doendo. Luna já havia reclamado mais de uma vez que não entendia por que não era socialmente aceitável simplesmente ir descalça aos lugares.
— Nada. É só que...
Parei. Talvez fosse melhor ficar quieto. Mas era Luna. Eu confiava nela. E, às vezes, parecia que aquela garota conseguia entender as pessoas sem que ninguém precisasse dizer absolutamente nada.
— Eu não entendo essa cisma do Harry com barman.
Luna arregalou levemente os olhos.
— Não acredito...
Tentou segurar uma risada.
— Você finalmente está admitindo em voz alta que sente ciúmes do Harry?
— O quê? Claro que não!
Peguei minha taça de vinho e levei-a até a boca. A verdade é que nem queria beber. Só precisava de alguma desculpa para não encarar Luna.
Ela colocou a mão sobre a minha, apoiada na mesa, e se aproximou um pouco, obrigando-me a olhar para ela. Quando falou, sua voz saiu quase em um sussurro.
— Sabe, eu não entendo por que as pessoas acham tão ruim se apaixonar por um amigo. Olha só pra mim e pra Gina. — Luna virou o rosto na direção da pista, onde sua namorada ruiva dançava. — Às vezes acontece. Não precisa ter medo. As pessoas não sabem quanto tempo pode levar esperar por um amor assim.
As palavras ficaram ecoando na minha cabeça.
Soltei o ar e só então percebi que o tinha prendido.
Respirei fundo.
Que sorte.
Olhei novamente na direção de Harry.
Eu estou apaixonado pelo meu melhor amigo.
— Vem, vamos dançar!
Antes que eu pudesse responder, Luna, agora completamente descalça, agarrou minha mão e me puxou para a pista.
♦
| POV NARRADOR |
Todos os amigos estavam reunidos na pista: Draco, Harry, Luna, Gina, Ron, Mione, Pansy e Blaise.
Tudo bem que Pansy e Blaise estavam mais ocupados se pegando do que dançando, mas estavam ali.
Então conta, não conta?
A animação por estarem todos juntos era tanta que já estavam um pouco suados de tanto dançar, cantar e pular.
Depois da euforia de algumas músicas agitadas, uma melodia lenta começou a tocar. Naturalmente, os casais se juntaram. E sobraram Harry e Draco.
"Do you hear me, I'm talking to you"
(Você me ouve? Estou falando com você)
"Across the water, across the deep blue ocean"
(Através das águas, através do profundo oceano azul)
"Under the open sky, oh my, baby, I'm trying"
(Sob o céu aberto, oh, nossa, meu bem, estou tentando)
Era Lucky, de Jason Mraz e Colbie Caillat.
Olhos azuis encontraram verdes. Draco se aproximou sem dizer nada e apenas estendeu a mão. Harry sorriu antes de segurá-la.
"Boy, I hear you in my dreams"
(Garoto, te escuto em meus sonhos)
"I feel you whisper across the sea"
(Sinto o seu sussurro através do mar)
"I keep you with me in my heart"
(Te guardo comigo em meu coração)
"You make it easier when life gets hard"
(Você torna as coisas fáceis quando a vida fica difícil)
Draco observava cada detalhe do rosto do melhor amigo.
Conhecia todos aqueles traços havia anos e, ainda assim, continuava fascinado com o quanto Harry era bonito.
Não saberia dizer quanto tempo passou perdido naqueles olhos verdes.
Quando percebeu, estavam ainda mais próximos.
Por alguns segundos, os dois esqueceram completamente o resto do mundo.
Parecia que estavam sozinhos.
Mas não estavam.
E seus amigos não perdoavam nada.
— Ahhh, pelo amor de Deus! Ninguém aguenta mais! Se beijem logo! — gritou Blaise, ainda com um braço em volta da cintura de Pansy.
O restante do grupo imediatamente aderiu, gritando e incentivando os dois.
A barulheira fez Harry e Draco despertarem daquele transe.
Trocaram um sorriso sem graça e olharam ao redor, percebendo que todos os amigos os encaravam.
— Q-que beijar o quê? Vocês tão loucos? Somos melhores amigos — protestou Harry, vermelho como um pimentão.
Curiosamente, não se afastou de Draco.
— E daí, Harry? Eu e Ron também éramos melhores amigos! — lembrou Mione, lançando um olhar apaixonado para o homem que tinha sido seu melhor amigo e agora era seu marido.
— É, Harry! Beija logo a doninh... o Draco! — completou Ron, corrigindo-se rapidamente depois de receber um beliscão da esposa.
"Lucky I'm in love with my best friend"
(Que sorte eu estar apaixonado pelo meu melhor amigo)
"Lucky to have been where I have been"
(Que sorte eu ter estado onde estive)
"Lucky to be coming home again"
(Que sorte eu estar voltando pra casa novamente)
Harry nem teve tempo de responder ou de entender direito o que estava acontecendo. Draco já tinha encostado os lábios nos dele.
Mas, diferente do selinho amigável de antes, daquela vez havia uma pergunta no beijo.
A língua de Draco pediu passagem delicadamente.
Harry não sabia por que permitiu.
Mentira.
Era claro que sabia.
As mãos do loiro seguraram firme sua cintura, como se ele não pretendesse soltá-lo nunca mais.
E nem precisava.
Harry não queria ir a lugar nenhum.
Afinal, estava apaixonado pelo seu melhor amigo.
Ao fundo, a música continuava:
"They don't know how long it takes"
(Eles não sabem o quanto demora)
"Waiting for a love like this"
(Esperar por um amor como esse)
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