Sorry To You
2 Don't leave me
Notas iniciais
Eu costumava acreditar,
Que quando eu estendia minha mão
Você poderia esticar a sua
Mas eu acho
Que não consigo te satisfazer sendo assim
Seguimos Clemmy e Bonnie com passos lentos, sem muito ânimo para uma perseguição implacável agora. O que eu mais queria era puxar algum assunto com Ash, mas sentia que se eu fosse falar algo seria extremamente estúpido e desnecessário, então prefiro me manter em silêncio, mesmo me arrependendo parcialmente. Nossas mãos estavam tão próximas... Já havíamos ficado de mãos dadas antes várias vezes, havia se tornado até normal. Era um ato que eu considerava algo mais, mas imagino que ele simplesmente imaginava como um reconforto amigável. A cidade estava coberta por uma leve névoa, que tornava nossa visão turva e de pouco alcance. Não muito longe dali, próximo ao que aparentava ser o ginásio da cidade, estava Bon aos prantos, ajoelhada no chão, e Clemont, que parece meio desesperado, sem saber ao certo o que fazer.
– O que houve? – Pergunta Ash, ao nos aproximarmos dos dois.
– O gorro de Bonnie entrou por uma das janelas do ginásio! – Clem afirma, um pouco alterado.
– EU QUERO MEU DEDENEE!! – Bonnie grita, entre soluços. As lágrimas escorrendo descontroladamente por seu rosto juvenil.
– Mas se o problema é esse, é só entrar e pegar! Não acho que o líder do ginásio se ofenderia. – Digo, como se fosse óbvio. Clemont suspira.
– Você acha mesmo que eu não pensei nisso, Serena? – Pergunta, olhando-me com desdém. Faço um biquinho irritado. – O ginásio está fechado! É semana de feriado, esqueceu?
Ergo as sobrancelhas. Eu havia mesmo esquecido de algo tão óbvio. Ash coça a cabeça, com feição pensativa, como se procurasse uma solução para nosso problema. A cidade estava tão silenciosa e calma que a única coisa que ouvimos é o eco do choro de Bonnie.
Para nossa surpresa, vemos as portas automáticas azuis ciano do ginásio se abrirem. De dentro da estrutura sai uma garota pouco mais alta que eu, usando um maiô branco com detalhes azuis e um curto roupão de banho azul claro por cima. Gotas pingavam de suas roupas e seus cabelos laranjas escuros que iam até os ombros, e calçava apenas chinelos brancos. Uma expressão de raiva e incômodo em sua face. Uma parte de mim se questiona como ele consegue não sentir frio vestindo algo curto e molhado em pleno clima nublado. Em uma das mãos, segurava a touca de Bonnie, e na outra um par de óculos de natação. Noto que Clemont ruboriza levemente ao ver a figura da garota.
– Acho que é isto que vocês estão procurando! – Diz, estendendo a touca em nossa direção. Bonnie rapidamente levanta-se, indo em direção ao item segurado pela garota, abraçando o gorro como se fosse uma pessoa da qual sentia muitas saudades. – Podem parar com o estardalhaço agora? Estou tentando me concentrar!
– Muito obrigado por entregar-nos o gorro de minha irmã, senhorita... – Clemont começa, dando um passo á frente. O modo como ele olhava e sorria para a garota me foi bastante suspeito, fazendo-me ter dificuldades em conter uma risada.
– Misty! – Ela responde, com um pouco de nojo, afastando-se do loiro. Retorna á postura, ajeitando o roupão e cruzando os braços atrás das costas. – Líder do ginásio desta cidade e especialista em tipos água!
– Uma líder de ginásio, hm? – Ele passa a mão pelos cabelos, arrumando-os para trás. Acho que eu nunca tinha visto o Clemont cantando uma garota antes. É hilário! – Sabia que também sou um líder de ginásio? Da cidade Lumiose, em Kalos!
– Legal... – Ela parece meio desconfortável. Não a culpo. Em sua situação, eu também ficaria.
– Olha só, Bonnie! Já tem alguém para casar com seu irmão! – Abaixo-me para sussurrar para a garota, que sorri animadamente de orelha a orelha, colocando seu gorro de volta.
– Misty?? – Ash indelicadamente interrompe os charmes de Clemont para a garota, e ambos o olham com certa curiosidade, assim como eu e Bon. Ele se aproxima dela, ficando frente á frente. Ela ergue uma sobrancelha.
– Eu mesma! Quem é vo... – Misty interrompe a própria frase, arregalando os olhos. Dessa vez, eu ergo uma sobrancelha. Ela dá um passo á frente, tocando suavemente o rosto de Ash com uma das mãos, fazendo-o corar levemente. Isso me incomodou profundamente por dentro, mas não manifestei o incomodo. Ela pega o clássico boné do garoto em seguida, olhando-o de canto a canto, com olhar de certa dúvida. Em um ato que me foi bastante estranho, ela cheira levemente o aroma de dentro do boné, estampando o sorriso mais sincero e feliz que já vi na vida em seguida.
– ASH!!
Ela pula no garoto para um abraço apertado, quase fazendo-o cair pra trás com o peso súbito. Ele ri animadamente, envolvendo a cintura da garota com seus braços, enquanto ela também ri, mas com algumas lágrimas se formando em seus olhos, e seus braços envolvendo o pescoço de Ash. Eu, Bonnie e Clemont nos entreolhamos com curiosidade.
– Eu senti tanto sua falta! – Ela tenta dizer por entre soluços.
– Ei, não chore! Eu também senti sua falta. – Ash responde, afagando os cabelos ruivos dela. Após poucos segundos, eles separam o abraço e ela seca as lágrimas que se formaram em seus olhos.
– D-Desculpe, é que estou meio mal... Mas sua chegada já melhorou bastante as coisas!
– Pessoal, quero que conheçam Misty, minha antiga companheira de viagem! – Ele põe a mão sobre o ombro dela e olha em direção a nós. – Misty, estes são Clemont, Bonnie e Serena.
– É um prazer conhecer vocês! Se são amigos do Ash, são meus amigos também! – Misty cumprimenta cada um de nós individualmente, começando por Clemmy. Ele segura a mão dela por mais tempo do que deveria, sorrindo maliciosamente e ajeitando os óculos redondos na face. Ash parece se constranger com a situação. Após conseguir se soltar, Misty cumprimenta á Bonnie e á mim. O contato de sua mão molhada com a minha me faz subir um frio intenso e desconfortável pelo corpo.
– Como você consegue nadar em um clima frio desses? – Me atrevo a perguntar, tirando a conclusão de que estava nadando devido ás roupas que usava. O sorriso em seu rosto se torna uma expressão triste.
– Eu me sinto livre quando estou nadando. E no momento eu estou na necessidade de me livrar de um fardo muito grande... – Abaixa o olhar, fitando o chão asfaltado em que pisávamos.
– O que houve, Misty? – Ash questiona, preocupado.
– É uma longa história. Melhor entrarmos, está muito frio aqui fora. – Afirma, apontando para o ginásio. Ela passa pelas portas automáticas, fazendo sinal para entrarmos, e assim o fazemos. Dentro do mesmo havia uma enorme piscina retangular com pequenas boias demarcando o espaço de cada nadador na mesma, apesar de estar completamente vazia. Não só a piscina, como o ginásio inteiro, estava vazio, o que já era de se esperar por ser feriado. Algumas boias e óculos e toucas de natação estavam espalhadas pelo chão. Iluminado apenas pela fraca luz que era emitida do lado de fora pelas muitas janelas, o lugar parecia morto e triste. Pergunto-me quão gelada a água deveria estar em um clima como esse.
– Não liguem para a bagunça, os treinadores daqui saíram sem nem mesmo arrumar as coisas ontem. – Misty afirma, com as mãos na cintura. – Não posso dar bronca neles, afinal, eu também fiz isso. Havíamos combinado de nos reencontrar aqui para arrumar o ginásio um dia antes de o feriado acabar, mas tive que vir aqui antes para me acalmar.
– Nossa, Misty! Seu ginásio está muito maior e mais bonito do que da última vez que vim aqui! – Ash afirma, meio surpreso. Olhando para Misty em seguida. – Parece que acompanhou o ritmo da líder...
Ela ri, suas bochechas adquirindo uma tonalidade avermelhada, assim como as dele, que ri em conjunto.
– O que houve, afinal? – Uma parte de mim já estava impaciente com a intimidade deles, e como sou curiosa (e um pouco fofoqueira, mas isto não vem ao caso), quis saber o que havia acontecido. Ela suspira.
– Eu tive um pequeno desentendimento com meu namorado. – Abro um sorriso. Eu gosto de fofocas sobre relacionamento. Relacionamento e brigas: O melhor modo de render uma boa resenha! Ash parece ficar chocado, arregalando os olhos e ficando completamente enrubescido. – Não exatamente pequeno, mas... É modo de falar.
– N-Namorado? – O nativo de Pallet questiona, com um tom um pouco sofrido. Ergo uma sobrancelha. – Desde quando você tem namorado?
– Ora, há quase dois anos! Depois que você seguiu sua jornada, eu voltei a manter contato com Tracey, e terminamos ficando juntos. Ele é bem fofo!
A face de Ash não exibia nada além de desespero em sua forma mais pura. Ele cambaleia e apoia o braço no ombro de Clemont, que estava ao seu lado, como se estivesse prestes a desmaiar. Misty ergue uma sobrancelha, assim como eu, que não entendia nada da situação. Afinal... Ele gosta dessa garota?
– E-Está tudo bem, Ash? – Pergunto, aproximando-me dele e segurando seu braço.
– S-Sim, claro! – Ele rapidamente se solta, voltando ao lado de Misty, que caminhava até um dos bancos do ginásio. Não posso negar que isso me machucou um pouco, afinal, normalmente a reação dele seria maior que isso. Ele agradeceria pela preocupação e exibiria o sorriso mais puro e sincero do mundo em face, como sempre faz. O sorriso que mais me encanta. Mas, dessa vez, ele preferiu simplesmente me ignorar e seguir a ruiva. Bonnie me olha de canto com um pouco de pena, como se notasse minha situação. Ele se senta ao lado dela no banco. – E... O que houve entre você... E o Tracey...?
– Desde que começamos a namorar e o apresentei aos meus pais e irmãs, eles começaram uma demanda para que nos casássemos o mais cedo possível para eu me tornar responsável e iniciar uma família. Eu sempre negava, claro. Apesar de eu o amar muito, eu não desejava esse tipo de coisa ainda. Mas, ontem, ele simplesmente resolveu me pedir em casamento na frente de toda a minha família! O que me deixou horrorizada e com muita raiva porque, de agora em diante, vão me pôr ainda mais pressão para me casar com ele! Então acabamos brigando e cada um seguiu seu caminho, e não nos falamos mais desde então. Não tenho certeza se ainda estamos juntos, mas eu sinto falta dele...
– Afinal de contas quem é esse Tracey? – Clemont interrompe, fazendo a pergunta que eu também desejava fazer.
– Um antigo amigo nosso, que agora trabalha como ajudante no laboratório do Professor Oak. – Ash responde, ainda meio afetado.
– Eu sei que a errada da situação fui eu... – Misty admite. O olhar deprimido fitando o chão, enquanto as mãos com os dedos entrelaçados eram mantidas frente aos lábios, com os cotovelos apoiados nos joelhos. – Mas meu orgulho, o qual tanto desprezo, me impediu de aceitar isso no momento. E, talvez, agora seja tarde demais.
– Ei, anime-se! Cadê a boa e velha Misty que eu conheço? – O de fios negros tenta anima-la. Ela ergue a cabeça, olhando-o nos olhos, agora estampando um sorriso animado.
– Tem razão! Afinal, não quero passar uma má impressão! – Levanta-se do banco, levando as mãos á cintura e olhando em direção a mim, Bonnie e Clem. – Então, vocês. Nunca os vi por aqui. São todos de Kalos?
Assentimos com a cabeça.
– Hm. Turistas! Fico feliz em recebê-los! Quanto tempo ficarão em Kanto?
– Apenas uma semana. – Ash responde antes que pudéssemos dizer qualquer coisa. – Ficaremos aqui por hoje e amanhã iniciaremos nosso tour pelo resto da região! Eu agradeceria se pudesse me ajudar a apresentar a cidade de Cerulean para eles.
Um sorriso sincero aparece na face da ruiva.
– Seria um prazer para mim! – Ela pega um shorts jeans e uma camiseta azul que estavam em um cabide ao lado e os veste rapidamente por cima do maiô, caminhando até as portas do ginásio em seguida, sendo seguida por Ash. Fico um pouco hesitante com a ideia. Claro que é bom ter uma nativa da cidade apresentando-a para nós, mas eu não me senti agradada com a intimidade que ela tem com o nativo de Pallet e com o modo com que eles interagiam constante e animadamente. O caminho todo em nosso pequeno tour pela cidade, eles conversavam sobre coisas do passado que viveram juntos, rindo de suas aventuras passadas. Ela é como quem eu desejava ser com o Ash. Poder conversar com ele sem me sentir idiota ou gaguejar.
Em apenas duas horas, ela nos mostrou a bela ponte dourada ao norte da cidade e nos contou histórias e mitos sobre uma caverna que ficava próxima á mesma, depois do lago de fortes correntezas. Segundo ela, um Pokémon lendário clonado geneticamente de outro da mesma magnitude residia naquela ruína, um tal de Mewtwo, e ninguém ousava se aproximar dela, pois a lenda dizia que o clone mataria brutalmente aquele que não fosse puro o bastante para comungar de seu poder. Até que, dois anos atrás, um corajoso garoto chamado Gold entrou naquela caverna e saiu de lá com uma Pokébola em mãos, na qual estaria o poderoso clone psíquico. Ela também contou que o mesmo garoto, após pouco tempo, derrotou o até então mestre mundial de Pokémon, conhecido como Red. Ash pareceu surpreso ao ouvir tal informação. Clemont tirava fotos freneticamente de tudo que via, e Bonnie abraçava seu Dedenne, que havia retirado da Pokébola para tomar um pouco de ar fresco, olhando em volta com um sorriso juvenil e animado. Eu simplesmente seguia atrás dos quatro, ouvindo parcialmente as informações ditas. Apenas observava o modo como Ash a olhava, como seus olhos brilhavam cada vez que mantinham contato visual... Algo que me causava o cúmulo do desconforto.
Mas sem você eu não posso viver!
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