Eu costumava chamar aquilo de compartilhar sentimentos. Os braços finos, mas ao mesmo tempo carregados de uma força sobrenatural, rodeavam-me a cintura, sempre me abraçando de modo prisioneiro, por mais que isso não fosse nescessário. Seus cabelos negros eram bagunçados e as pontas caiam-lhe em várias camadas, algumas atingindo o pescoço e outras quase chegando às costas, enquanto que alguns fios despenteados de sua franja cobriam uma de suas sobramcelhas, em uma bagunça tão grande quanto meu interior. Ele não era bagunçado, nem confuso, como eu. O garoto à minha frente — ou não tão garoto assim, já que pelo menos eu sabia da verdade e me concedi à cumprir com todas as consequências pra desvendar tal segredo — era confiante, sempre tinha certeza absoluta do que quer. Seus olhos traziam essa confiança. Eram de um verde oliva hipnótico, de certo modo, superior. Ao contrário de alguns vampiros que se lamentavam do que faziam, aquele à minha frente não carregava nenhum remorso por fazê-lo, apenas dizia que fazia parte da sua natureza e, que assim, devia obdecer o que fora destinado à sua espécie. Mas nunca havia vontade de mudar ali. Eu sabia que ele fazia aquilo porque gostava; a ponta dos seus caninos rasgando minha pele enquanto que sua lingua invadia pelo meu corpo era o que lhe trazia mais prazer, e por mais estranho que isso parecesse, também me causava o mesmo desejo que ele tinha. Talvez nós fossemos mesmo feitos um para o outro. Ou talvez eu poderia ter uma vida mais saúdavel se o mundo fosse normal como deveria ser, sem criaturas encantadas e grotescas; talvez eu seria um humano melhor, mas isso não me importava agora. Uma das suas mãos que antes segurava com firmeza minha cintura, agora deslizava sobre meu corpo à caminho de seu lugar predileto. Meu pescoço. Onde reunia a maior quantidade de sangue que qualquer vampiro poderia desejar, e o único lugar onde poderia se matar uma pessoa. De certo modo, eu sempre esperava por aquilo, a morte não me assustava mais. Seu hálito soprou gelado contra meu rosto e com as pontas dos dedos ele acariciou de cima à baixo meu pescoço, os lábios repuxando-se para o lado em um sorriso de satisfação, um sorriso demôniaco. A boca, de cor clara quase chegando ao esbranquiçado, entreabriram-se em sede, e os dentes cresceram em uma velocidade que eu não achava ser possível. O carinho cessou, seus dentes me rasgaram, sua lingua me sugou. Aquilo, realmente, era compartilhar sentimentos. Quando minhas pernas começaram a estremecer eu estava compartilhando o medo, a dor, e estava visívelmente mostrando como era fraco. Meus gemidos mostravam que eu era apenas um corpo sem alma alguma, e que minha vida havia sido destinada àquilo, à sustentar um vicio, à morrer. Mas eu ainda me sentia humano porque, afinal, humanos sempre demonstram essas fraquezas mesmo sem ter um vampiro ao seu lado, e sempre abaixam o tom e o dom da vida por algum vicio. Eu gostava de viver assim. Eu viveria assim até a morte. Seus lábios abocanharam a ferida, roubaram meu sangue e tiraram completamente o dom da minha vida, como o vicio sempre nos faz. Minhas pernas se encontraram com o chão. Não voltei à superficie.

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