Sonâmbulos
3 Momento
Dessa vez quando Tito acordou não havia sol nenhum, inclusive tentou voltar a dormir instantaneamente quando percebeu a escuridão ao seu redor, mas falhou em regressar pois o sono lhe havia escapado e aquele breu de certa forma o inquietava. Decidiu se levantar e caminha até o disjuntor mesmo não enxergando um palmo a sua frente.
Com as mãos esticadas ele deu cinco passos em direção a parede e no instante em que deveria ter alcançado o disjuntor dessa vez ele alcançou algo diferente, que faz um pio absurdamente alto e então Tito só pode ouvir o bater de asas de afastando enquanto a escuridão ia diminuindo ao seu redor e ele se sentia mais familiarizado com os seus arredores. No Oeste o primeiro sol verde nascia e com ele as criaturas noturnas retornavam aos seus esconderijos para aguardar a luz fazer o seu espetáculo celeste e então voltarem a se alimentar durante a noite, seja o que for que elas comessem.
O terreno mesmo familiar ainda era distinto da última vez em que Tito estivera ali, onde estaria Claus, se perguntou. Agora a ravina verdejante onde uma vez dormira estava certamente morta sob a neve que agora pintava tudo do mais puro branco fazendo os olhos de Tito doerem por causa da mudança repentina de cenário. Levou alguns segundos para que pudesse enxergar realmente ao seu redor e notar que estava sozinho, e com frio.
Decidindo não permanecer parado para não congelar até a morte Tito seguiu o caminho em direção a floresta, onde poderia conseguir algum tipo de madeira para se aquecer e talvez até encontrasse alguém que pudesse lhe ajudar. Para a felicidade de Tito, alguns instantes depois que havia adentrado a floresta ele encontrou as duas coisas que estava procurando.
Correu mais à frente para alcançar uma pilha de gravetos que havia avistado caídos no chão. Após ter coletado alguns pegou um que parecia diferente e quando levantou seu punho, Tito já deveria ter se acostumado, o graveto estava mole em sua mão e dormia profundamente emitindo sons que pareciam com o uivar do vento, mas de alguma maneira lembravam roncos.
— Hey você, acorde! – Tito falou e balançou o graveto levemente na sua mão para ver se ele respondia.
— Só mais cinco minutinhos, mãe... – Respondeu o graveto sonolento na mão de Tito, e tentou se virar para o outro lado para evitar de ser incomodado novamente no seu sono, mas ineficazmente, pois estava contido por uma mão desconhecida. – Mas o q..... Quem é você?! Me solte!
Tito segurou o graveto por mais um instante observando-o se debater até que decidira colocá-lo no chão. Agora que ele parara para reparar, o graveto tinha um corpo humanoide onde suas raízes se tornavam pernas e pés, o seu tronco era seu corpo, seus braços pequenos galhos, e na sua cabeça havia uma folhinha amarela do que um dia deveria ter sido seu cabelo de folhas.
— Me desculpe, eu achei que você fosse um galho normal, sabe, está frio por aqui. Meu nome é Tito. Me desculpe. – Disse recolhendo o restante dos galhos que ele não havia pego ainda. – Espere, tem mais algum de vocês aqui?
— Claro que não, humano. Quando foi que você viu mais e um Ente dormindo numa pilha de galhos? Humanos...... – Disse o galho se limpando da neve e olhando profundamente para Tito com um olhar incrédulo e de reprovação. – Meu nome é Momento, mas não posso dizer que foi um prazer.
— Você é um Ente bem ranzinza, Momento.
— Você é um Humano bem ignorante, Tito. – Disse o Ente entoando uma voz quase idêntica à de Tito, porém com um ar de deboche.
— Eu ainda não entendo muito... – Demorou um tempo para lembrar o nome do lugar onde estava. Éden, certo? Eu não nasci aqui.
— E de onde você é, menino? Como se perdeu nessa floresta durante esse inverno não sendo daqui?
— Para falar bem a verdade eu.... – E então Tito foi interrompido por um grito agudo longínquo de terror e ele e Momento de olharam por meio segundo antes de correr na direção de onde vinham mais do que gritos agora, mas também fumaça.
Para um graveto magrinho e minúsculo, Momento corria extremamente rápido, como se deslizasse através da neve. Corria alguns passos à frente de Tito e conforme ia cruzando a floresta o caminho que ele deixava para trás derretia e por instantes as folhas das arvores descendiam das suas copas até a trilha que ele ainda cruzaria. A aura sonolenta dele havia desaparecido e mesmo sem enxergar o rosto do Ente Tito sabia que ele estava tenso e alguma coisa estava extremamente errada.
Depois de alguns minutos e muitas árvores passadas se depararam com uma clareira em meio a floresta onde havia uma cabana azul em chamas e três figuras sombrias assomavam sobre a voz apavorada de uma senhora de idade. Seus cabelos brancos estavam bagunçados e sua boca amordaçada por um tipo de gosma negra.
— Você realmente acha que pode esconder ela de nósssss, peixinho? – Disse uma das figuras com uma voz sibilada e de som quase inaudível.
— Você acha que pode queimar algo na minha floresta e não sofrer as consequências, Espectro?! – Gritou Momento no instante em que saia da floresta chamando a atenção das três criaturas e um sorriso cansado da senhora e nesse momento Tito ficou feliz por não ter acendido sua fogueira porque no momento em que Momento terminou sua frase seu corpo começou a crescer até ter o dobro do tamanho de Tito.
— Você acha que é capaz de enfrentar nós três sozinho, Ente? – Disse o segundo Espectro que espalhava suas sombras ao seu redor emergindo e imergindo do solo branco como uma poça de piche em ebulição.
— Quem disse que eu estou sozinho, criatura negra? – A voz de Momento era cantada e os pássaros reapareceram, pássaros do inverno, de penas brancas e bicos afiados. E com eles uma figura azulada de uma criança furiosa descendia do céu em flocos de neve e granito até ficar visível para todos que estavam no local, Momento realmente não estava sozinho, Claus estava ali, e a paz dela com o pavor dos espectros se misturou no coração de Tito e perplexo ele só pode assistir a batalha se desenvolvendo enquanto Momento e Claus transformavam a natureza em suas armas para fazer rajadas e lanças de gelo ou armadilhas de raízes e projéteis de espinhos, enquanto os espectros engoliam tudo ao seu redor com as suas sombras desaparecendo e reaparecendo em lugares diferentes.
Aquele mundo tão tranquilo possuía criaturas tão poderosas, era maravilhoso e aterrorizante ao mesmo tempo. Ele assistia à virada da batalha a favor das criaturas mágicas, queria chamá-los de amigos, mas não sabia se podia. A luta durara menos de um minuto, mas na cabeça de Tito durara dias, cada movimento, cada golpe ou defesa foi captado por ele da orla da floresta então no instante em que ele vira dois dos Espectros baterem em retirada e Momento e Claus começarem a se dirigir a idosa ele também viu o primeiro Espectro desaparecer na direção contrária. A próxima coisa que sentiu foi o calor da lâmina sombria encostando no seu pescoço.
— E quem serie essssse pequeno essssspectador? — O corpo de Tito se tencionou que por um instante ele se sentiu como uma rocha, e realmente acreditou que aquela lâmina não poderia penetrá-lo. Mas o Espectro o empurrou para frente se dirigindo para dentro da clareira com a vitória novamente descrita em seu sorriso de presas. – Acho que eu tenho algo que lhesssss pertence.
— Tito! – Claus exclamou soltando um dos braços da idosa que agora estava de pé apoiada em Momento e correndo na direção dele.
— Ãh, ãh, fadinha, nem maisssss um passssso. – Disse o Espectro apertando a lâmina mais forte contra a garganta de Tito e o forçando a parar de andar ao mesmo tempo que Claus também congelava.
— Você não tem nenhum assunto com esse garoto, sua criatura imunda, deixe-a em paz! – Era uma voz nova para os ouvidos de Tito, e diferente do seu grito ela era leve e cantada, benévola. – A luz desse mundo não lhe pertence. As sombras desse mundo não lhe merecem. Em ferir nem pense. O garoto suas memórias esquecem.
No instante em que a Sereia iniciava o seu Canto Tito sentira a tensão do Espectro atrás dele e soubera que a criatura não cairia sozinha. Ele seu corpo enrijecer novamente conforme o calor da lâmina no seu pescoço se tornava cada vez maior e insuportável. No momento em que o Canto terminou dois corpos vieram ao chão, e nenhum deles era do Espectro.
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