Thiago acordou amarrotado na sua cama com Anúbis aos seus pés. Os livros permaneciam abertos, mas Julia não estava mais ali. Se levantou e se dirigiu até o banheiro pequeno para escovar os dentes e jogar uma água no rosto. Era metade da manhã de sábado, sabia o que deveria fazer, mas adiava fazê-lo. Depois de preparar algo para comer e dar uma geral na casa deixando ela suficientemente limpa para não o atrapalhar durante suas perambulações de um cômodo para o outro. Inevitavelmente sentou-se em frente ao seu notebook e o abriu.

Seu e-mail estava aberto na caixa de entrada, a lista já visualizada pelo celular em outro momento ainda pendia como primeiro correio eletrônico. Deu dois cliques e lá estavam os nomes que recebera, a dúvida que se negava ter, quem seria seus verdadeiros pais. A primeira coisa que fez foi colocar o nome das pessoas que estavam na lista no Facebook, não ficou surpreso com os resultados baixos que teve, as redes sociais não eram muito utilizadas pelas pessoas mais velhas no lugar onde ele vivia, muito menos nas cidades vizinhas que eram ainda mais carentes de tecnologia. Conseguiu alguns telefones, e contatos em comum, de um dos casais e de uma outra mulher de nome solitário na lista. Procurou pelos nomes em listas telefônicas online e nos obituários logo após conseguindo apenas mais um contato e deixando para segunda pesquisa aquele outros três que encontrara no obituário.

Decidiu dar uma pausa antes de tomar coragem para entrar em contato com os nomes, e enquanto perambulava como de costume pelo seu apartamento sendo seguido por Anúbis e perdido em pensamentos, levou um susto com o bater bruto e rápido na porta.

— Acorda Thiago! Nós temos que ver aquela lista e eu sei que você ainda está dormindo! – Gritou Júlia do outro lado da porta. Thiago realmente deveria estar dormindo a essa hora da manhã de sábado. No entanto se dirigiu a porta e a abriu com um sorriso e uma xícara de café na mão. – Você acordou cedo hoje, tinha pulgas na sua cama?

— Eu ando acordando sem sono nos últimos dias. Aceita um café? – Júlia se dirigiu então para dentro do apartamento. Já havia tomado seu café mais cedo, inclusive ficara com alguns minutos ansiosa em casa deixando Thiago dormir um pouco mais para depois tentar resolver o que fariam com a lista. Aparentemente ele estava disposto a descobrir as verdades, e ela estava feliz por ele.

— Eu já comi. Me diz, o que você já encontrou? – Então Thiago mostrou a ela os dois perfils do casal que havia encontrado. Eles não estavam mais juntos hoje, mas na lista seus nomes pendiam lado a lado. Um amigo do seu pai adotivo que conhecera a alguns anos atrás e tentava ao máximo se manter atualizado era amigo em comum com um terceiro nome na lista, esse nome tinha um perfil muito privado, então deveriam chegar até ele através desse amigo, e por final um simples telefone. – Você só encontrou esses?

— Encontrei três nomes no obituário da cidade também. Mas não quero procurar por esses agora, vamos focar no que nós temos.

Agora a ansiedade crescia dentro deles a cada passo que davam de um lado para o outro e novamente para um. Discutiram tipo de abordagem e como se aproximariam dessas pessoas, Thiago não sabia se nutria esperança ou amargura pelos nomes. Ter sido abandonado nunca fora um problema para ele, pois nunca lhe faltara amor, mas pensar que alguém seria capaz de fazê-lo, talvez essa não fosse uma pessoa boa.

— Você está fazendo a sua cara de contradição, Thiago, o que houve? – Júlia sabia ler todas as expressões de seu amigo. E aquela não era uma das boas. – Thiago então explicou a ela como estava se sentindo e que não sabia como guiar tais sentimentos dentro de si mesmo. – Você tinha esse mesmo julgamento sobre aquela enfermeira, lembra? Como as coisas terminaram no final?

Júlia estava certa, como quase todas as vezes em que ela se preocupava em defender um ponto. Thiago agradecera por ela estar do seu lado mesmo depois de tudo que havia acontecido, agradecera na sua mente e no seu coração, mas expressou tal sentimento apenas com um abraço e um bagunçar de cabelo mal recebidos pela sua melhor amiga.

— O que pensa que está fazendo? Vamos nos focar nas abordagens. Agora que decidimos quais as melhores, qual você quer tentar primeiro? – Eles iriam entrar em contato com o casal separado através da internet mesmo, usando a página do café para parabenizando-os por terem ganho uma promoção e dizendo que teriam que retirá-la no endereço o mais rápido possível. As mensagens foram enviadas, mas depois de 20 minutos esperando uma resposta e não recebendo nada decidiram mover para o próximo nome.

O amigo do pai de Thiago fora rápido quanto a resposta e prestativo em passar informações sobre o próximo nome. Ele era um homem que já fora empregado por Roger, amigo em comum, mas que tivera que sair da sua empresa porque ia se mudar para um estado diferente, no entanto deixara o contato que foi repassado para Thiago e Júlia. Agora eles tinham dois telefones e duas respostas para receber, e não sabiam o que fazer com nenhum dos dois. Thiago que queria fazer o primeiro contato por telefone, tinha um certo receio com ligações, elas o deixavam extremamente desconfortável. Então foi acordado que Júlia ligaria para os dois números após o almoço enquanto Thiago apenas ouviria.

Desceram até o apartamento de Júlia então onde o almoço seria preparado por ela, já que seu pai estava no café. Júlia era uma eximia cozinheira, e Thiago era um exímio sonhador, então juntos faziam pratos inigualavelmente gostosos. Enquanto se aventuravam pelos temperos e pelas panelas da casa de Júlia os dois amigos não viam o tempo passar e nem o mundo girar lá fora. Só existia o sabor e os cheiros os envolvendo. Os chiados e as risadas cozinhavam enquanto a cumplicidade deles fervia em fogo brando até que estivesse pronto. Encontrões e esbarrões aconteciam durante o processo criativo tão grande que envolvia aquela cozinha tão pequena.

— Você tem que tomar mais cuidado com as cebolas Thiago! – Disse Júlia olhando para ele enquanto chorava ao cortar as cebolas a sua frente.

— Você tem que tomar mais cuidado com essa tampa!

— Que tamp... Filha da puta! – A tampa do sorvete que Thiago jogara na direção dela agora grudada em sua testa era a marca vermelha de que ele deveria sair do alcance das mãos dela.

Júlia abaixou o fogo do fogão e partiu para cima de Thiago que ainda com lágrimas nos olhos sequer pôde ver para onde corria e foi capturado rapidamente pelas mãos rápidas de Júlia que o metralharam com uma saraivada de cócegas por todo e qualquer pedaço exposto do seu corpo. Ele era completamente vulnerável quando se tratava dela, não podia fazer nada para afastá-la, nem queria. Por mais que as cócegas fossem atordoantes, a presença dela fazia tudo ficar suportável, e o riso dela era tão melódico quando seus pedidos de socorro.

Thiago foi salvo pelo chiar de uma panela e Júlia correu para a cozinha para anunciar que o almoço estava pronto, e que ela prepararia uma marmita para o seu pai. Antes de sair pela porta em direção ao café Júlia prometeu a Thiago que se ele comesse antes que ela voltasse cócegas seriam o menor dos problemas dele. Assim ela fechou a porta e ele pegou uma batata frita e decidiu esperar por ela jogado no sofá.