Sonhos ao Vento

1 O Desafio, Os Sonhos e O Vento


Em um outro mundo — que não pertence a ninguém e menos ainda pode ser tocado — havia uma pequena vila, onde uma garota desafia a si mesma a possuir os mais belos e nobres sonhos — possíveis e impossíveis.

Ela então parte e desaparece floresta adentro, prometendo a seus amigos que voltaria quando conseguisse a resposta para o seu dilema. Implorando aos deuses que lhe concedessem esse desejo, encontra a árvore mais alta entre todas as árvores e passa toda a tarde a escalar. O topo era o seu objetivo, pois diziam que ali era o local onde os céus poderiam tocar a terra. Chegando lá, completamente exausta, encontra espaço sobre um galho forte e resistente e adormece, observando o sol ceder espaço à escuridão.

Para o que todos os outros moradores da vila era uma simples noite, se tornou a mais marcante e complexa da vida da nossa jovem. Os deuses atenderam sua súplica e encheram sua mente com imagens, sons, aromas e possibilidades. Os sonhos sempre mudavam, giravam, rodopiavam, enquanto as cores e as sensações desconhecidas para qualquer outra pessoa vibravam e aqueciam unicamente todo o seu ser, de forma que ela nunca sentira antes. Quando acordou e desceu da árvore, a Sonhadora sorriu e tomou o rumo de volta para casa.

Com a cabeça cheia de sonhos e expectativas, ela imagina seus amigos a recebendo com grande festa, fogos de artifício e muita música. Foi o primeiro grande sonho que lhe ocorreu depois daquela noite e seria o maior sonho que teria até o fim de sua vida.

Quando chega, entretanto, mesmo aqueles que sabiam de sua partida haviam ignorado esse fato e observam a jovem se aproximar com desdém e repulsa. Triste e decepcionada, ela tenta contar aos outros as milhares de visões noturnas que tivera e dessa vez ela não é só tratada rudemente como ignorada. (A garota percebe, um pouco tarde demais, que por toda a sua vida havia morado onde o costume local era tratar a realidade como a única coisa relevante e qualquer forma de idealização como um crime.) "Se deseja sonhar, que sonhe sozinha." — lhe diziam, e a partir desse momento, por anos, a jovem viveu isolada do resto do mundo. Trancando as imagens, formas e possibilidades em sua mente, sem saber o que fazer com elas, sem saber o que fazer para voltar a ter a atenção das pessoas que uma vez a amaram.

Muito tempo depois, sentada em uma colina em meio a um piquenique, a garota vivia já seus quase 16 anos e havia se tornado bela como os sonhos que concebia. A Sonhadora sente o vento acariciar-lhe o rosto e os cabelos e uma melancolia profunda a invade — ela ansiava por ter alguém que a compreendesse acima de qualquer coisa, por ter alguém que tocasse nela como o vento fazia, que não tivesse medo, ódio ou repulsa a ela.

E a jovem mulher fechou os olhos e deixou os sonhos fluírem, tomando conta dela, apesar de saber que como todas as outras vezes só sonhar não seria suficiente. Ou seria? Minutos se passaram e ela continuava ali, de olhos fechados, pois não havia mais nada que se pudesse fazer em qualquer outro lugar. Foi quando as carícias sutis do vento se tornaram carícias reais e mãos reais encontraram os cachos da garota. Ela levanta o olhar, em choque e profundamente assustada, e nota um rapaz que nunca vira antes sorrindo para ela. (Talvez tivesse se aproximado em silêncio, talvez fosse apenas outra ilusão, mas no momento não importava. Nada mais importava.)

Notas finais
Espero que tenham gostado, logo posto a continuação :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.