Notas iniciais
Demorou? Sim, mas quando sai, ninguém segura :p

Ás vezes podemos dizer que temos uma sensação que nos faz lembrar os dias antigos como se fosse ontem, a sensação que eu quero nesse momento é vivenciar os dias atuais como se fossem sonhos realizados.

Eu só queria poder continuar a sonhar dia após dia, mas a realidade me chama com tanta força que os sonhos se quebram no despertar do dia. Mas logo ao acordar podia então saber que o brilho do sol é algo especial.

As doces palavras que compartilhamos em poucos momentos, sonhos que já haviam sido abandonados. Ilusões que talvez eu tivesse medo de vivenciar. Medo que a alma carregava de uma tristeza antiga.

Mas a voz dele me libertou e me fez encontrar em um lugar novo e esplêndido. Com a confiança de um novo começo. Era assim que eu parei logo após aquele convite a pensar enquanto admirava o lindo pôr do sol.

O lindo pôr do sol que há tanto tempo eu não via, ocupado, preso e sem nenhum tipo de reação sobre ele. Eu não podia rir, não podia realmente demonstrar que amava estar admirando tal paisagem. Mas isso não é para ser comentado agora, minha infância não foi tão estimada como gostaria de mostrar. Mas agora a sensação de calma logo se transformaria em paixão, mais uma vez...

Recebi uma mensagem no meu celular, foi à única coisa que podia me tirar daquele sonho que transbordava com a luz do crepúsculo.

“Encontre-me ás oito, no restaurante e cafeteria que a gente se conheceu... Espero-te lá, meu pequeno...”.

Não importava bem a hora do momento, eu ainda tinha um pouco de tempo para contemplar, e logo depois iria arrumar toda aquela bagunça deixada por todos os lados.

Mas como o tempo passa rápido logo comecei a organizar nas pastas as minhas anotações e a fechar cada um dos arquivos em suas respectivas pastas no notebook. As outras pastas foram colocadas em cima da minha cama, podia ser considerada uma cama de pastas agora.

Tomei meu banho e quando sai podia ver que faltava vinte minutos para ás sete e meia. Com a toalha envolta da cintura comecei a pegar algumas possíveis roupas que eu iria vestir, mas a preguiça foi maior e não estava com toda aquela vontade de ficar minuto após minuto trocando de roupa e vendo se ficaria boa. Coloquei uma camisa preta, e uma calça jeans azul, baguncei um pouco o cabelo pelo motivo de que não gosto quando ele está muito baixo e como tinha cortado recentemente ele estava bem baixo. Meus olhos pareciam brilhar enquanto me arrumava, o castanho ganhava agora uma nova vida e o tempo parecia querer se apressar pra acompanhar.

Sai faltando ainda vinte minutos para ás oito. Chegar lá não seria tão demorado, mas eu estava nervoso e fui o mais devagar que podia. Ou pelo menos o que eu achei que era devagar. Ainda andava apressado. E cheguei lá faltando três minutos. Queria pelo menos chegar atrasado, seria uma boa forma de confirmar se ele estaria lá. Sou culpado por ter esse pensamento, desculpas serão ditas algum dia.

Cheguei e fiquei na porta do estabelecimento esperando, e lá vinha ele. Na distancia não podia observar, até que ele se aproximou um pouco mais e então eu podia ver.

Podia ver nitidamente ele se aproximando, seus cabelos vermelhos bagunçados, como na primeira vez que nos vimos, seus olhos negros pareciam agora um portal para um lugar desconhecido, poderia até mesmo ser dito que era para a alma dele que alguém estaria olhando. Uma camisa vermelha com a gola em v, em seu peito as letras estampadas em contraste ao preto que demarcava as palavras em inglês “Free to be”, um colar com a estrela de Davi. Ao perceber o colar só consegui voltar a focalizar a partir da corrente e ir vagarosamente pelo pescoço, ver a forma perfeita como os ombros estavam largos, dando a ele uma forma que o melhor a se dizer não era bruto, mas escultural. Como se acabasse de ser esculpido. Uma calça jeans preta desenhava o percurso das formas das pernas, torneadas, e... Estou olhando demais. Não podia ficar parado ali e observa-lo por mais algum tempo? Acho que não com a proximidade que ele está.

– E gato demais pra ser descrito...

A não ser que eu tenha comentado em voz baixa e ele não tenha escutado, o rosto dele se tornou vermelho e logo percebi o motivo. Ele já estava próximo o suficiente de mim para me escutar. Um olhar cheio de vergonha foi desviado, como se no mínimo comentário fosse algo que não deveria ser feito tão precipitadamente.

Fique calmo, deixe que o coração diminua o ritmo que acabou de entrar, não estou em uma maratona para estar tão agitado assim.

– Acho que estamos, mas você ainda está mais gato do que qualquer outro daqui...

Quando comecei realmente a ficar calmo, o comentário dele fez com que eu ficasse com o rosto totalmente vermelho e dessa vez desviar o olhar.

Tentei finalmente começar uma conversa, mas não saiu como eu esperava. Apenas uma palavra foi o que eu consegui pensar. Logo após eu a pronunciei:

– Então...

– Então...

Nada mais nada menos foi citado durante os próximos segundos. Era como se a mesma palavra sendo dita por ambos naquele instante não passasse de uma confirmação de que ninguém ali sabia como recomeçar uma conversa.

Com um sorriso meigo no rosto foi ele quem novamente quebrou o silêncio constrangedor.

– Que bom que você veio. Estava pensando em como te encontraria... Mesmo que tenha passado pouco tempo...

– Eu também... Não sabia exatamente como reagiria... Ainda não sei...

– Fofo... – Ele fez esse comentário com o maior de todos os sorrisos, seus olhos brilhavam. Eu por outro lado parecia envergonhado com tal comentário.

Entramos no estabelecimento, agora com uma pequena variação, a área parecia ter sido colocada para um ambiente mais casual, não como da primeira vez que estramos ali, me lembrei dos dias que fui com a minha família à noite, as paredes pintadas de um amarelo claro agora estava azuis com símbolos brancos. Fora isso o resto parecia totalmente igual. Só não digo quem trabalhava lá, porque nem eu mesmo sei se prestava atenção nisso.

Ele me levou até uma mesa no lado direito e afastado do estabelecimento. Muito longe da mesa ao qual nos encontramos. Mas tínhamos uma visão dela. Começamos a conversar e a deixar que a conhecer-nos mutuamente. Perguntas iam perguntas vinham e alguns podiam ser até engraçadas para uma conversa daquele tipo.

– Então vai dizer que não gostou que eu ficasse de regata o tempo todo?

– Na verdade não... Talvez um pouco, mas isso não vem ao caso agora.

– Certo, então não tem problema se eu levantasse a camisa agora não é? – Ele segurou a parte de baixo da camisa e começou a levantar, eu estava sentado na frente dele, me levantei e fui par ao seu lado e coloquei a camisa de volta no lugar. Já estava no peito quando eu consegui abaixar. – Ah, então não posso?

– Não, não pode.

– Porque não? Ah, já sei, sou apenas seu não é? E só você pode me ver sem camisa? – Ele beijou o meu pescoço. Exatamente quando chegaram com o jantar. Bonito fazer isso assim. A garota corou um pouco. Mas não diria que ela se sentiu ofendida. Foi a mesma que estava comentando com a amiga sobre eu e ele no outro dia. O nome dela era Bianca.

Assim que ela se afastou voltamos a conversar.

– Não estou dizendo que não pode, só estou querendo que não tire as roupas aqui. Sei que gosta de liberdade, mas não sabia que era um stripper.

– Que egoísta. – Ele começou a rir, deixou que a alegria dele me contagiasse também. – Não sou stripper, mas pra você posso até ser.

A cena a seguir não vai ser muito legal e vai estragar o pensamento de muitas pessoas. Mas assim que ele disse isso cuspi toda a bebida que estava tomando naquele momento. Comecei a rir, ele que ainda não havia parado só achou graça da minha franqueza em não acreditar no que ele estava falando.

– Que idiota.

– Seu idiota, meu pequeno.

As luzes se apagaram para poder começar a comemoração de um aniversário que estava ocorrendo algumas mesas depois da nossa. Movimentos inconscientes, inclinação ao lado, meus lábios tocaram os dele. Como uma sensação única, o braço dele estava sobre os meus ombros naquele momento, um aperto forte mais delicado. Uma leve mordida no lábio inferior antes de nos separarmos, e bem a tempo das primeiras luzes dos parabéns começarem a se acender.

– Você... É meu.

– Além de ser idiota é possessivo. Surpreenda-me mais. – Tentei falar em um tom sério, mas meu riso no final entregou o jogo.

Um sorriso de canto de rosto se formou. Já tínhamos terminado de jantar quando fiz tal comentário.

Saímos meio que sem rumo, ainda não marcava nem às dez e meia da noite. Mas já tínhamos que nos separar.

– Ei pequeno, lembre-se de uma coisa. Seus sonhos não podem falhar, porque eu estou agora do seu lado e vou até o fim para poder te ajudar.

– Eu também estou do seu lado, grandão idiota e possessivo. Acho que esse apelido vai pegar... Meu.

– E eu sou o possessivo né? – Rimos um pouco, ele me beijou antes de se afastar, voltou-se para mim e disse. – Somente seu.

– Exato, somente meu.

Em um tchau um pouco demorado, cada um seguia o rumo que a noite preparava. Ele sussurrou algo ao longe e eu consegui escutar com um sorriso no rosto.

Podíamos até deixar tudo acontecer da maneira mais simples ou complicar com tantas palavras, mas ainda existia algo que eu queria experimentar. Experimentar um amor que eu desconhecia se poderia existir.

Não queria fingir que ao lado dele eu não estava, queria deixar pelo menos de lado um pouco da preocupação do sábado. Só saberia que a vida não deixaria que a felicidade pudesse ser tão duradoura. Mas ainda esperava que os anos passassem lentamente.

– Algum dia semelhante a essa noite, você será meu de uma maneira nova.

Essa foi à pequena frase de despedida dele... E a que me deixou com um milhão de pensamentos a fluir.

Uma vez para cada noite, um dia a menos para conhecê-lo antes de sua partida, e uma doce luz a mais no mundo para dizer que a vida é bela...

Notas finais
Até o próximo capítulo!