Sonho de amor
3 A conversa.
— Eu não irei..
— Se você não vier eu estarei ai em minutos. – afirmou convicto.
Era sua última jogada, nunca havia falado com ela daquela forma e sabia que o momento era propício, do contrário ela estaria se afastando mais dele.
A jovem compreendia perfeitamente o que ele estava fazendo e aquilo a machucava, porém não tanto quanto continuar a guardar tudo dentro de si. Conhecia o suficiente para saber que não desistiria muito fácil. E talvez fosse o momento afinal, pois tinha plena convicção que se não o fizesse naquele instante eles teriam que se separar de vez, e isso era algo que a impossibilitava até mesmo de respirar.
Então respirando fundo ela abraçou o travesseiro e seguiu de volta para sua cama onde ele permanecia deitado com as costas apoiadas na cama. Sentou infeliz por não ser capaz de encara-lo. Isso seria mais, muito mais que seria possível.
— Olhe...
— Se realmente quer ter essa conversa não me peça isso. Já estou enfrentando um verdadeiro monstro vindo até aqui. – falou respirando com dificuldade devido o choro.
— Ok. – eles ficaram em silêncio novamente. – Quando isso começou?
— Desde a primeira vez que o vi naquele altar. – respondeu com coragem. – Eu soube ali que já era tarde.
— Você esta me falando que esta apa...
— Quando coloquei meus pés na igreja e te avistei ali naquele lugar sagrado eu soube que era tudo o que eu mais queria. Meu coração acelerou, e ao mesmo tempo se iluminou com uma luz ainda não explorada pelos meus olhos. E não era a luz de Cristo. – brincou fazendo-o sorrir baixinho. – Eu soube também que era algo impossível, você era diferente, inalcançável. Que nossa distância era o símbolo disso. E então eu comecei a perseguir você.
— Me seguiu ate minha casa? – brincou ele fazendo-a sorrir em meio a lágrimas.
— Eu fiz algo próximo, como pesquisar onde você morava pelo endereço que tinha disponível em meus arquivos da pastoral. – eles sorriram em sincronia a fazendo-a buscar seu olhar.
— Não deixou de me seguir. – falou maravilhado encarando-a.
— Sim. Poderia me perdoar por isso? – sorriu vendo-o fazer o mesmo.
— Tem outros pecados envolvidos?
— Certamente. – dessa vez eles gargalharam.
— Continue e depois penso no perdão, se conseguira ser absolvida diante de atos tão...ilícitos? – esboçou aquele seu famoso sorriso de lado fazendo-a suspirar.
— Nada ilícito.
— Acredito em você.
— Pedi para uma amiga te adicionar nas redes sociais.
— Por que não fez isso?
— Porque ela era mais popular e muito mais bonita. E você a adicionou em questão de segundos. – ela voltou-se para frente sem mais encara-lo.
— Eu teria aceitado você.
— Não, não teria. – afirmou convicta.
— Você me tem como uma pessoa desconhecida até mesmo para mim. – falou magoado.
— Às vezes temos a tendência de não nos conhecermos. Algumas situações da vida nos proporcionam essas descobertas.
— Odeio quando vem com suas teorias psicológicas. – retrucou bravo.
— Talvez por que seja verdade. – respondeu olhando para algum ponto da janela. – Então passei a ver suas postagens diárias por meio da conta dela. Mas você sempre tão reservado não tinha novidades nenhuma. Isso me enchia. – ela sorriu.
— Enquanto você postava todos os segundos, nunca consegui acompanhar. – eles gargalharam. – Agradeço a Deus todos os dias por sua pós graduação. – ela gargalhou com prazer.
— Ajudou muito. Assuma que você me bloqueou? Muitas pessoas fizeram isso. – falou ela em meio a sorrisos.
— Talvez. – gargalharam juntos. – Então você me perseguia no inbox. – sorriu de lado.
— Não foi bem uma perseguição. Foi uma pequena desculpa que usei para ter um assunto a mais com você, mas foi por meio disso que realmente minha ficha caiu e eu tive a certeza que nada aconteceria entre nós.
— Sempre precipitada.
— Eu diria realista.
— Pessimista.
— Alguns falam que ambos são muito próximos, até mesmo irmãos. – ela sorriu sabendo que mesmo de costas conseguia sentir o sorriso dele de lado.
— Você não sabe de nada!
— Verdade! – eles sorriram.
Por alguns minutos ouvia-se apenas o som da chuva e da respiração deles.
— Eu exultava quando você me respondia.
— Mesmo por coisas tão banais?
— Era tão bom saber que você tinha tirado um pequeno tempo e tinha me respondido. Tinha ilusão que você estava pensando em mim.
— E eu estava. – confessou ele atraindo a sua atenção. — Eu lembrei de você exatamente como estava no dia anterior. Porque não me olhou?
— Ai... você lembra disso? – ela sorriu escondendo o rosto na almofada fazendo-o gargalhar.
— Foi tão obvio aquela situação. – ele falou em meio a sorrisos.
— Eu sou tão...tonta!
— Você somente é...- ele começou sob o olhar atento dela.
— Tonta! – eles sorriram mais. – Não se preocupe com alguma definição para minhas atitudes equivocadas. Sabe o quanto sou lenta e...
— Para! – ordenou serio sentado agora ao seu lado. – Estou cansado desses papinhos seus. Você é uma pessoa tão especial, tão inteligente, sabia, altruísta, emotiva e simples, mesmo sendo tão gigante. – falou encarando-a.
— Eu não...
— Sim você é! E ninguém me contraria. Sabe disso. – continuou sério agora o fazendo encara-lo.
— Sempre me pareceu o mais sensato entre nos dois.
— E sou. – ele sorriu recebendo outro em troca.
O jovem acariciou o rosto dela novamente, contornando seus grossos lábios com o polegar. Vendo-a fechar os olhos ele continuou com a carícia.
— Eu sou tão idosa.
— És tão sabia!
— Tem tantas melhores por perto.
— Tantas incluindo você.
— Não! – falou ela ciente do toque e extremamente emocionada. – Não tenho a beleza tão aclamada que suas “amiguinhas” tem. – ele sorriu ao ouvi-la enfatizar a palavra.
— Abra seus olhos! – pediu com carinho vendo-a encara-lo com lagrimas.
— Mas eu sou sua grande amiga, não sou!?
— Sim você é!
— Prometa que pelo menos isso nunca vai tirar de mim? – pediu agora entre pequenos soluços.
— Não tirarei esse posto de você. – e então naquele momento os olhos do jovem abriram para uma realidade cruel.
Soube que se a beijasse não a teria por inteiro, como era seu desejo desde então. Não queria apenas aquele momento. Queria por todo resto da sua vida e para tal precisava provar que cada lágrima valia a pena no final.
Em contra partida ela sabia que ele não a beijaria porque estaria colocando um ponto final á sua amizade, pois seria somente aquele momento e não teriam outro mais. Ali era o início e o fim. Só a ideia do fim fazia seu coração sangrar. Então o olhando profundamente acariciou sua face com carinho e depositando um beijo em sua bochecha o envolveu em seus braços com amor.
— Nada é mais sagrado que isso! – afirmou ainda de olhos fechados. – Minha amizade por você é de valor inestimável, perde-la vai ser meu fim. Porém...
— Jamais irá perdê-la. – afirmou emocionado ainda retribuindo o abraço.
— Mesmo depois que construir sua família? Que encontrar a garota perfeita? – falou sorrindo.
— Palavra de fé! – falou vendo-a encara-lo. – Confia?
— Completamente. – afirmou sentindo ele enxugar suas lágrimas. – Preciso descansar.
— Eu também! Posso dormir com você? Do contrário vou para minha casa. Eu não consigo dormir sozinho. – falou sorrindo.
— Com quem dormi na sua casa? – ela perguntou enquanto se acomodava na cama e vendo-o fazer o mesmo.
— Quer mesmo saber? – perguntou sorrindo de lado e vendo-a ficar seria.
— Não! – falou deitando de costas impossibilitando de ver ele morder o lábio para sufocar a gargalhada.
— Ok! – finalizou a conversa deitando ao lado oposto do dela.
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