Notas iniciais
Tema da Rodada 4: Personagens Históricos (Luis XIV, Martinho Lutero ou Alexandre, O Grande) Meu personagem escolhido foi o Martinho Lutero.

Depois da visita inesperada de mamãe, fiquei pensando sobre a mentira que contei. Não, eu não tenho um emprego ainda. Mas como é que eu ia falar uma coisa dessas pra minha mãe? Ela tem uma mentalidade super conservadora e tradicional, típica da sua época. O que ela mais quer é que eu arrume um trabalho formal, de carteira assinada e tal. De preferência, um típico emprego em um escritório, trabalhar durante cinco dias da semana, oito horas diárias, com seguro-saúde, com seguro de vida, com a aposentadoria garantida e não sei mais o quê.

Em certa época, eu estudava pra caramba para tentar passar em um concurso público. Infelizmente, descobri que não é pra mim, pois ficava muito ansiosa ao fazer as provas e acabava indo mal nos exames. Atualmente, tenho frequentado tantas entrevistas de emprego que mal consigo contar. É muito frustrante ser rejeitada como se eu não prestasse pra fazer nada disso.

Mas quer saber de uma coisa? Pra mim já chega!

Não quero mais seguir esses dogmas que minha mãe e esse povo do século passado seguem. Preciso fazer que nem aquele cara lá, o Martinho Lutero (pois é, ainda bem que fiz um trabalho sobre ele no Ensino Médio, se não eu não estaria falando sobre ele, não é mesmo?).

Primeiro de tudo, devo escrever minhas 95 Teses e fixá-las na porta da igreja, ou seja, na porta da casa dos meus pais. Ah, acho que vai surtir mais efeito se eu só enviar uma foto por whatsapp pra eles, ao invés dessa ideia de pregar papel (ninguém mais lê coisa impressa hoje em dia). Hmmm, e talvez 95 seja um número muito grande de teses, o povo vai ficar com preguiça de ler. Que tal umas dez, doze no máximo? Posso fazer um texto e postar no facebook (modo "público") pra compartilhar com o resto do mundo.

Cadê meu celular? Tenho que gravar um vídeo pro youtube. Ou talvez um podcast. É preciso esclarecer a mente das pessoas, principalmente dos mais jovens, a respeito da lavagem cerebral que eles passam desde a infância sobre suas carreiras profissionais. Vou falar algo do tipo "meus jovens, vocês devem seguir seus sonhos e ter uma vida profissional feliz, como vocês bem entenderem". É isso! Sou uma gênia. E... sabe que eu bem que poderia tentar uma carreira de Youtuber ou de Vlogger? Bom, vou pensar melhor sobre isso depois.

Começo a colocar o plano em prática. Acabo de escrever as teses, em sua maioria, condenando todas as clássicas atitudes de pais que empurram os filhos pra empregos formais, que eles não querem. Envio por e-mail e por whatsapp para os meus pais, acrescentando que eu menti para eles ao fazê-los acreditar que eu tinha arranjado um trabalho.

Depois de umas horas, minha mãe é a primeira a responder. Ela está muito magoada, como esperado, e chega a ameaçar me deserdar, caso eu não mude de opinião. Escrevo um texto grandão em resposta, com o título "A Liberdade de uma Filha no século XXI". Penso em uma frase de efeito para dar destaque, acabo colocando: "Eu não me submeto ao que meus pais mandam ao interpretar o que eu quero pra minha própria vida".

Perfeito. Próxima coisa: o vídeo. Pego o celular e gravo um vlog para divulgar minhas opiniões contra esse regime opressor. Satisfeita com o resultado, faço o upload no youtube e aguardo pelos comentários. No final do dia, o vídeo tem impressionantes treze visualizações e um like! Está começando a se espalhar...



Acordo no meio da noite. Tenho a impressão de que tive um pesadelo estranhíssimo. Melhor voltar a dormir.