Notas iniciais
Boa tarde a todos! Este é o primeiro dos dois capítulos que compõe essa história e, como minhas demais fics, apresenta diversos conflitos e divergências.

Semana que vem postarei o segundo, então fiquem no aguardo e não esqueçam de favoritar, comentar, acompanhar e recomendar caso achem o enredo interessante.

Boa leitura!

Fazia dias que Beatriz estava ali, sozinha. Não sabia muito bem onde de fato era “ali”, mas a contagem dos dias permanecia em sua mente: já eram vinte e nove. No dia seguinte, completaria um mês naquele lugar horrível.

Um mês inteiro sem ver o mundo exterior... O que teria acontecido em sua ausência?... Pensava em sua família e amigos todos os dias, mas suas reflexões nunca se completavam imediatamente, pois hora ou outra os gritos atormentadores das outras garotas a interrompiam, fazendo sua espinha gelar. Ouvia berros, choros, pedidos de ajuda, e, em seguida, silêncio – que definitivamente era a pior parte.

A sala onde se encontrava era pequena, menor do que um quarto mas maior do que um banheiro, e não possuía nada em seu interior a não ser ela própria. As paredes brancas possuíam algumas manchas amareladas e pontos mofados no teto, mas no geral não era tão ruim. Havia se acostumado a ficar ali, e todos os dias se sentava exatamente no meio do recinto, voltada para o único ponto que iluminava a sala: uma pequena janela com grades de ferro.

De vez em quando desviava o olhar para si mesma, refletindo sobre algumas coisas. Suas roupas, antes brancas, já estavam amareladas e rasgadas, sujas e com um cheiro nada agradável. Seu corpo com inúmeros hematomas e os pés descalços realçavam os maus tratos.

Embora não visse, sabia que não era a única a sofrer daquela maneira. Muitas meninas estavam em condições muito piores que as dela.

Beatriz tinha quinze anos e levava uma vida simples antes de ir parar ali. Evitava pensar no passado o máximo possível para não desencadear sentimentos profundos, mas sabia muito bem como tudo havia acontecido... Ela havia sido sequestrada por um homem e vendida no mercado negro, onde qualquer um que faça parte dele pode simplesmente “dar um lance” pelos anúncios, que iam desde objetos ilícitos a pessoas — que incluíam garotas como ela. Quem oferecer a maior quantia ganha e, consequentemente, leva a mercadoria escolhida para fins pessoais.

Notou que algumas garotas haviam voltado a gritar e colocou as mãos nos ouvidos, tapando-os o mais forte possível e comprimindo os olhos, visando afastar tais sensações estranhas.

Lembrou-se que quando foi comprada, forçaram-na a trabalhar como escrava. Maltratadas tanto fisicamente quanto mentalmente todos os dias, as garotas eram mantidas em quartos separados, exatamente iguais ao dela, trancados por fora. Eram alimentadas com pão e água, apenas uma vez por dia, e nada podiam fazer para se libertar, apenas aceitar o cruel destino e fazer o que seu dono mandava.

Uma repentina tosse interrompe sua divagação. Os sintomas de sua doença estavam voltando. O trabalho forçado debaixo e chuva e sol, juntamente com as inúmeras fraturas das surras que lhe aplicavam a haviam deixado daquela forma: doente, anêmica, indisposta e letárgica. Todas as noites ela se deitava no duro e frio chão de seu quarto, onde nem mesmo havia uma cama ou um lençol, chorando horas a fio, pensando nas pessoas queridas que fora obrigada a deixar para trás.

Incapacitada de trabalhar por conta da doença, passava o dia inteiro fitando a alta janela, longe de seu alcance. Por ela via o sol nascer e se por, dia após dia, assim como a lua crescer e minguar. Sua noite sempre era melancólica, e à medida que a lua iluminava seu pálido e mórbido rosto, ela encarava as estrelas, sonhando em um dia poder alcançá-las... De vez em quando, quando conseguia se levantar, ficava na ponta dos pés e passava um dos braços pelas grades, tentando em vão tocá-las.

Sempre fitando a janela, falava sozinha, em um tom levemente baixo e triste.

Sem aviso prévio, um homem abre a porta, notando sua conversa consigo mesma. Ele revira os olhos, pensando que ela havia enlouquecido. Era o dono de Beatriz, e de uns tempos para cá começara a pensar que ela era doente no sentido literal, pois tais conversas se estendiam por horas, fazendo parecer que realmente havia alguém lá – mas sempre que ele olhava, nada via... O mais interessante era que desde que ele a trouxera para lá, ela nunca havia questionado ou dito alguma coisa a ele ou a outras meninas. Parecia muda. Chorava mas não demonstrava raiva. Não gritava e não agredia, apenas mantinha o olhar tristonho no rosto.

Mas para ele não importava. A garota era fraca e não estava trazendo nenhum benefício. Precisava se livrar dela.

Ele a chama, dizendo algumas palavras, mas Beatriz não responde, mesmo compreendendo. Ele havia dito que sua hora estava chegando, e ela claramente entendera que lhe restava pouco tempo.

Tal homem deixa o quarto e a garota, que sequer havia tirado os olhos da janela para encará-lo, continua sua conversa. Assim que ela é fechada, a figura de um anjo aparece ao lado da porta, encostado na parede com os braços cruzados.

Na verdade, Beatriz nunca estivera sozinha. Este anjo sempre a esteve acompanhando onde quer que fosse, e parecia que somente ela era capaz de vê-lo... De vez em quando conversavam, mas ele não parecia compreender muito sobre os sentimentos dos vivos.

Ela inicia um diálogo, virando-se para trás e olhando para ele:

— Sabe, você tem me acompanhado durante toda minha vida, mas nunca me disse seu nome.

— Eu já tive um quando era vivo, mas não me recordo dele. – respondeu ele. – Me chame como quiser.

— Então... todos os anjos já foram pessoas um dia? – pergunta, voltando-se para frente.

— Não sei. Acho que alguns sim, mas outros não.

— Você tem alguma memória de quando era vivo?

— Eu deveria? Não se leva nada da vida passada, nem mesmo a memória... Mas isso não importa. Pra mim não faz diferença.

Ela desvia o olhar para o chão, distante.

— Isso deve ser bom...

— Por quê diz isso?

Beatriz sorri levemente.

— Se você não tem memórias, não tem más recordações... Não tem nenhum peso na consciência, não se lembra de coisas que gostaria de ter esquecido, não tem momentos ruins ou tristes em sua mente... Você não carrega nenhum arrependimento em seu coração.

O anjo ri da possibilidade.

— Eu não tenho um coração.

Ela se vira, encarando-o.

— Mas o coração nem sempre fica dentro do peito, sabia?

— O que quer dizer? Onde fica o seu coração?

Ela se volta para a janela.

— Deixa pra lá, você não entenderia mesmo se eu explicasse.

O anjo não responde e os dois ficam em silêncio por alguns segundos.

— Pensando bem, não ter lembranças é muito triste também. – falou ela, sem fitá-lo. – Você nunca vai poder sorrir ao recordar das coisas boas que passou ao lado das pessoas que ama, nem saber como foi sua história de vida e se ela valeu a pena ou não. As pessoas que você um dia jurou levar consigo até o fim desaparecerão num passe de mágica... Sem memórias, não existem sentimentos.

— Por quê você insiste em falar sobre essas coisas com alguém que não entende?

— Me desculpe, eu não quis irritar você.

— Eu não estou irritado, só não sei por que você continua dizendo isso. Parece que quer que eu compreenda o seu mundo.

— Não, eu jamais iria querer que você compreendesse o mundo humano. É muito injustiça e destruição por aqui, um anjo não aguentaria passar nem mesmo um único dia como mortal... — ela fez uma pausa. — Embora eu pense que não ter sentimentos possa ser doloroso, tê-los é ainda pior.

O anjo franze o cenho.

— Você é uma garota estranha.

— Obrigada. – ela responde.

O dono de Beatriz volta a entrar no quarto, segurando uma bandeja de metal nas mãos, contendo um pedaço de pão e meio copo com água. Ele a põe no chão e diz:

— Toma aqui, garota. Essa é sua última refeição.

Beatriz sequer se vira para ele. O anjo continua ali, mas o homem não é capaz de vê-lo.

— Tsc. Se fingir de surda não vai adiantar. Você vai morrer do mesmo jeito... – ele segura a maçaneta da porta. – Eu voltarei amanhã bem cedo, então aproveite bem as suas últimas horas.

Ele a fecha e o anjo se aproxima um pouco da garota.

— Não vai comer?

— Não estou com fome.

Ele acompanha seu olhar, que vai na direção do céu noturno.

— Por quê você continua observando as estrelas dia após dia por essa minúscula janela?

— Você é cheio de perguntas, não é mesmo?

— Só estou curioso.

— Tudo bem... É que isso me faz lembrar como era o mundo lá fora antes de eu vir parar aqui... Eu sempre admirei as estrelas. Espero poder me juntar a elas um dia.

— Você sabe que eu posso ir lá fora quando eu quiser, não é?

— Sim, eu sei.

— Eu posso inclusive me aproximar das estrelas. Eu posso voar, sabia?

— É, eu imaginei... Não faria sentido um anjo ter asas se não pudesse usá-las.

— Isso te deixa triste? Ver um ser que pode fazer tudo o que você não pode bem ao seu lado, vivendo uma realidade totalmente diferente?

— Não. Eu fico feliz por isso... As pessoas têm muitos sonhos em vida, então, depois que você morre, acho que pode realizar alguns deles... Talvez um dia chegue a minha vez.

— Se você quiser, eu posso te ajudar a sair daqui para vê-las mais uma vez antes que aquele cara volte.

A garota imediatamente se vira, com os olhos esperançosos e um sorriso inocente no rosto.

— Você pode mesmo?

— Claro, mas você tem que me prometer uma coisa.

— O que quiser.

— Quando você passar para o lado de cá, terá que fazer o mesmo com alguém que ainda esteja vivo.

— Com “fazer o mesmo” você quer dizer exatamente o quê?

— Na hora você descobrirá... Então, aceita ou não?

— Mas é claro que sim!

— Tudo bem então. Assim que o sol nascer, olhe pela janela. Você me verá do outro lado e eu irei tirá-la daqui. Juntos, iremos ver as últimas estrelas da manhã.

— Combinado! Estarei esperando! – disse, animada.

— Certo. Eu preciso ir agora... Não se esqueça do nosso acordo, tá legal?

Beatriz concorda com um movimento com a cabeça e o anjo desaparece misteriosamente, como toda vez. A jovem se ajoelha no chão e reza, agradecendo a tudo e a todos que Deus colocara em sua vida.

Depois de rezar, deita-se no chão e fecha os olhos em seguida, dormindo sem nem mesmo tocar na comida.

Notas finais
E então, o que acharam até agora? Será que Beatriz conseguirá realizar seu último desejo?

Estarei esperando seu review e prometo responder com muito carinho! Até o próximo capítulo!