Sonho Mortalmente Vívido
2 Ato II - Amanhecer
Notas iniciais
Poucas horas depois, Beatriz acordou, não conseguindo conter a ansiedade. O dia não havia nascido e ela não tinha nem ideia de que horas eram, mas estava disposta a esperar pela vinda do anjo. Embora soubesse que pouco tempo havia se passado, estava sem sono algum.
Quando começou a se questionar se o anjo a havia enganado ou pregado uma peça nela, ele aparece do lado de fora da grade da janela, voando como dissera que podia fazer, passando seu fino braço por entre as barras e estendendo mão para a menina. Ela imediatamente sorri e corre até ele, ficando na ponta dos pés e segurando sua pálida mão, que gentilmente enlaçou a sua.
A mão do anjo estava levemente quente e, ao notar tal fato, a menina começava a se perguntar o quanto eles eram parecidos com os humanos. Esperava ver algo frio e sem vida, mas naquele gesto conseguira sentir calor e compaixão, embora soubesse que provavelmente estava errada... Mas preferia acreditar em seus instintos mesmo assim.
Beatriz olhou para o céu, que começava a clarear. Com uma tranquilidade extrema, o anjo a puxou para perto de si, suavemente. Ele sorria de lado, e parecia ligeiramente feliz por ela.
A garota começa a deixar lágrimas de felicidade rolarem pelo rosto, emocionada. Agora, ela flutuava junto a seu salvador, sem sequer tocar o chão. Se sentia mais leve que uma pluma e agradecida pelo anjo ter tornado seu último desejo realidade. Juntos, ambos iniciam uma viagem rumo às estrelas, que brilhavam intensamente, como se esperassem por eles. A lua ainda estava imponente no céu, e os iluminava da forma mais bela possível. Ela o encara e ele corresponde, sorrindo.
Mas, as vezes, a realidade se mostra diferente de nossos desejos, sonhos e divagações. Assim como o feitiço da Cinderela, que acaba com o anúncio da meia-noite, que nada mais é do que um dia que termina e um outro que começa, o que difere o começo e o fim da vida é quando o último grão de areia da ampulheta do tempo cai, deixando somente o vazio para trás. Um corpo sem consciência é um corpo sem alma, e é nesse momento que a vida e a morte, eternamente apaixonadas uma pela outra, tem permissão para se encontrarem novamente, podendo coexistir ao mesmo tempo. Juntas ambas dão as mãos e iniciam uma sutil dança, valsando salão à dentro.
A vida veste o branco, e a morte o preto. A luz gera um presente e cuida dele até crescer, acompanhando seu desenvolvimento ao decorrer dos anos apenas para que a escuridão o tome para si, guardando-os para sempre... E, como no final de toda valsa, há uma reverência. Na hora da despedida, há a dor da separação, mas também a certeza de que, cedo ou tarde, um reencontro acontecerá, e elas poderão enfim continuar sua eterna e tão esperada dança, que une, mas que também separa.
***
Instantes depois, o dono de Beatriz entra pela porta do quarto. Sua expressão se torna confusa e ele chama pela garota, mas ela não responde. Ele vai até o meio do recinto e solta um profundo suspiro.
Logo a sua frente, a menina está deitada no chão, que agora é tão gelado quanto seu corpo, que havia perdido quase todo o seu calor, a não ser pelo mínimo sorriso que seus arroxeados lábios esboçavam.
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