Sonhando Acordada (Interativa)
2 Capítulo 1 – Era Uma Vez |Once Upon a Time|
Notas iniciais
Charlotte Henley sempre teve uma vida pacata até seus dezessete anos. Seus pais se amavam muito, e amavam também Charlie e seu irmão Thomas. Tinham empregos bons, casa própria, e até um carro que tinham acabado de quitar. Quando pequenos, Charlie e Tom esperavam todas as noites antes de dormir para que sua mãe lhes contasse histórias de um velho e grosso livro. Todas envolviam heróis, vilões, e mocinhas. Charlie gostava das que tinham heroínas. Adora quando a mãe mudava a voz e fazia “efeitos especiais” enquanto contava a história. Tom, naquela época, tinha pouco mais de três anos, não entendia boa parte da história, mas se divertia com as caras de bocas da mãe, e as gargalhadas da irmã. Quando o garoto adormecia, mãe e filha saiam do quarto, indo para seus respectivos, e tinham um sono relaxado, depois de tantas aventuras.
Quando Charlotte completou doze anos, ela começou a se cansar das histórias. Thomas, por outro lado, estava com sete, e queria sempre saber mais. Agora ele já sabia ler, e às vezes ele mesmo lia as histórias, porém de outros livros. O velho e grosso livro já havia sido terminado, e agora estava guardado em algum lugar. Charlie agora desconfiava que o livro estive guardado no porão, e que ela havia aberto ele há alguns segundos atrás, e por conta disso, estava ouvindo o discurso de um grilo sobre cuidados com os seres menores.
“Alguém me ajude. Eu devo ter entrado na mente do Thomas!” Charlie pensou, enquanto ainda ouvia o grilo ralhar com ela.
– Desculpe. – ela o interrompeu, levantando uma mão, o chamando a atenção. – O que está acontecendo aqui?
– Ora, achei que já havia ficado claro que você quase me esmagou e...
– Não, eu quis dizer, que lugar é esse? Não reconheço nada aqui. E você fala, você não deveria falar, não é? E pare de reclamar de eu ter quase te esmagado, você não podia ter saído do caminho quando me viu chegar?
– Você fala como se não estivesse aqui segundos atrás. – ele riu, mas parou assim que viu a expressão no rosto da garota. – Tudo bem. Eu estava andando normalmente, quando você apareceu do nada e quase me esmagou. Posso ser pequeno, mas vejo de longe quando vocês humanos estão vindo, e saio do caminho.
– Escute. Eu estava no porão da minha casa há alguns minutos atrás. Eu abri o livro que tinha lá, e fui sugada para dentro dele. Agora estou aqui conversando com uma criatura que não devia ter o dom da fala!
– De que mundo você disse que veio mesmo? – ele perguntou, em dúvida.
– Eu não disse. – ela retrucou, mas bufando respondeu.- Vim da Terra.
– Ah, acho que posso ajudar você. Há alguns anos, uma garota também apareceu nessas terras, dizendo vir da Terra e não sabendo o que estava fazendo ali. Na verdade, ela parecia bem mais surpresa e encantada do que você.
– E o que essa garota estava fazendo aqui?
– Ficamos muito tempo conversando, ela basicamente me contou a vida inteira dela. Ela me falou um pouco sobre um livro, que a trouxe para esse lugar. –ele ficou encarando-a, pasmo. – Está acontecendo com você o mesmo que acontecia. Você esta até começando a sumir, como aconteceu com ela.
– Eu estou o que? – ela perguntou, assustada, vendo que realmente estava ficando transparente. – O que eu faço?
– Se realmente acontecer com você o que aconteceu com a outra garota, eu diria apenas que você deve ir acompanhando o que acontece, e fazer o que acha que deve fazer. Ajude as pessoas quando puder, e haja de acordo com as histórias.
– Histórias? Que histórias? – Charlie já estava desesperada, ela mal conseguia ver sua mão estendida na frente de seu rosto.
– Você descobrirá. Provavelmente nos encontraremos em breve.
Charlotte ouviu a voz do grilo falante bem baixa e distante. Ela estava desaparecendo. Ele estava sendo distanciado dela. Charlie se sentia novamente como se fosse sugada para dentro de algo, mas dessa vez ela não enxergava o livro em lugar nenhum. Para onde estava sendo levada? E por que o grilo não lhe deu mais informações se sabia o que estava acontecendo com ela?
Ela se sentiu caindo novamente na grama, e por um segundo pensou que estivesse de volta a floresta em que encontrou o grilo, mas não. Estava de noite, muito escuro, e o local onde estava também era uma floresta, porém com árvores muito maiores, e maior quantidade.
Depois de alguns segundos ainda em choque, ela finalmente se recompôs e começou a andar. Aquelas viagens estavam acabando com ela, e a deixavam muito tonta. Charlotte escutou um uivo distante, e se preocupou. Aquilo significavam que tinham lobos naquela floresta e que ela precisava sair logo dali, mas pra que lado ir? Com aquelas árvores tão altas ela não conseguia enxergar o céu. A luz ali era muito pouca, só alguns feixes de luz lunar.
Após poucos metros, ela escuta novamente o uivo, e apressa o passo. Charlie escuta um farfalhar de folhas a sua direita, não parecia muito longe. Seu desespero aumenta, e ela começa a ficar com falta de ar pela quase corrida. Ela sente seu corpo ser empurrado para o chão, por algo muito pesado, e em seguida cai com tudo no chão úmido da floresta. Ela sente um odor muito forte, e uma respiração quente próxima ao seu pescoço. Charlotte então se lembra do uivo que ouviu segundos atrás, e pensa no pior.
O peso que tinha sobre ela é retirado repentinamente. Ela escuta um ganido, e vê o lobo caindo a alguns metros dela. Charlie se levanta rapidamente, na esperança de fugir, mas vê uma pessoa parada ao lado dela. Claramente era uma garota, mas ela usava uma capa e que não permitia que Charlie visse seu rosto. O lobo se recuperou, e investiu novamente contra elas. Charlotte se preparou para fugir, mas da manga da roupa da garota desconhecia sua uma forte luz, formando um escudo em volta das duas.
O lobo pareceu se desinteressar pela caça, deu meia volta, e correu entre as árvores. A garota encapuzada bufou, e se virou para Charlie, que ainda estava em estado de choque com tudo aquilo.
– Como você fez isso? – Charlotte perguntou a garota, assustada e ofegante. O lobo se afastava e corria na direção oposta das duas garotas.
– Está querendo se matar, garota? – a garota com a capa perguntou, quase gritando com Charlotte, e ignorando a pergunta- Quem é você, e o que faz desse lado da floresta? Não sabe que esse lugar é proibido?
– Meu nome é Charlotte. E eu não vivo aqui. Aliás, onde estamos? E quem é você? E por que aquele lobo estava aqui?
– Perguntas demais, garota. – a menina bufou, tirando o capuz da capa que usava. Seu cabelo era ruivo, ondulado e curto, seus olhos eram verdes e brilhantes, ela era bem magra e alta. – Meu nome é Amelie. Você está na floresta que rodeia a casa da minha família, lugar proibido para qualquer morador da vila aqui perto, por ser muito perigoso. Você disse que não é daqui. De onde é?
– Não sei se eu saberia explicar. É um lugar bem longe, em outro mundo. Chamado Terra. – Charlie se encolheu, ainda assustada com tudo aquilo. Há poucos minutos ela estava em sua casa, se preparando para uma faxina, então ela foi sugada para dentro de um livro, conheceu o grilo falante, e agora havia literalmente escapado da morte por uma garota que do nada fez um campo de força. O que estava acontecendo?
– Nunca ouvi falar. Vamos, vou tirar você daqui e levá-la até a vila, onde é seguro. Eu tenho que continuar atrás daquele lobo. – Amelie pediu, fazendo sinal para que ela a seguisse.
– Se o lobo é perigoso, por que você vai atrás dele?
– Para evitar que machuque outras pessoas.
– Você ainda não me respondeu como foi que fez aquela barreira. – Charlie reclamou.
– A única coisa que te interessa é que se você falar o que viu para alguém, eu vou atrás de você e te largo nessa floresta sozinha. Ouviu bem? Ninguém pode saber! – Amelie se virou para Charlie, com raiva, e nervosa por tantas perguntas. – Agora vamos, eu ainda tenho que achar a minha irmã.
– Ela vai te ajudar com o lobo? – Charlotte perguntou, confusa.
– Ela quem? – Amelie perguntou, distraída.
– A sua irmã.
– Ah, sim. Ela vai me ajudar com o lobo. Sim. – Amelie agora estava nervosa, ela então continuou a andar, fazendo com que Charlie a seguisse- Vamos continuar, não tenho muito tempo sobrando.
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