Tito acordou em meio a floresta sendo sacudido e ao som das palavras de indignação de Claus.

— Eu não acredito que você o trouxe até aqui apenas para servir de isca! – Gritava ela com toda sua voz que era engolida pela não-luz dentro da floresta. – Eu jamais teria concordado com isso se soubesse de tal plano!

— Embora arriscado, eu tenho que concordar que era a única maneira de te manter longe dos planos de Quione, garota fada. – Disse Mantra de dentro do breu, onde podia se ver apenas seus dois olhos amarelos brilhantes e o som calmo da sua voz.

— Ele poderia ter morr....

— Eu estou bem – Interviu Tito que já estava com a sua cabeça girando e aquela gritaria não estava ajudando muito.

Momento montava uma fogueira baixa ao lado de Thiago que já estava coberto com folhas secas para tentar retornar o calor de seu corpo que havia sido tomado sem seu consentimento. Uma aura de culpa cercava seu ser de maneira explicita, mas ele parecia voltar sua atenção para outras atividades ao invés de refletir sobre os seus atos.

— Está tudo bem – repetiu Tito, mais para si mesmo do que para o grupo. – Se eu ficar para trás era necessário para que Claus escapasse, deu certo no final, não é? – Seu sorriso de lábios azulados demonstrava coragem, mas não felicidade. – Da próxima vez só tentem me avisar antes, okay?

Depois do psedo acampamento ser montado os quatro se reuniram em volta da fogueira e explicaram a situação toda para Tito. Claus era o que o reino das fadas chamava de Fada Caída, uma fada sem asas. Seus poderes eram limitados e sua ligação com a natureza não tão nítida, e Quione nunca permitiria que um dos seus vagasse por Éden de maneira tão deficiente. Todas as Fadas Caídas deveriam permanecer no reino das fadas, e servir aos nobres como escravos ou serviçais, em agradecimento por sua vida ter sido poupada mesmo depois de suas asas terem sido perdidas.

Claus, junto com outras três fadas havia fugido da sua vida de escravidão cerca de três anos atrás, infelizmente perdera contato com todas elas, e agora não sabia mais se estariam ainda em fuga, ou já mortas pelas sentinelas do inverno. A migração na vida de Claus se tornou constante desde então. Ela não poderia mais permanecer onde o inverno estivesse, com a probabilidade de ser encontrada, tinha que fugir de sua casa, de sua natureza, porque parte dela lhe fora arrancada, e defeituosa ela não seria aceita.

— Precisamos sair logo daqui, então. Ir para um lugar quente. Te manter protegida! – Tito não permitiria que alguém pusesse as mãos em Claus. Ela fora o primeiro rosto amigável que conhecera naquele lugar, mesmo em fuga, mesmo sendo maltratada por outros humanos, foi o seu sorriso gélido que aqueceu o primeiro vislumbre de Éden.

— Tito está certo – interveio Mantra – Nós precisamos partir, o quanto antes, não é mais seguro para vocês dois aqui. – Disse Mantra se referindo tanto a Claus quanto a Tito.

— Nós dois? – Claus parecia confusa com o porquê de um novo parceiro fugitivo.

— Tito foi sentido por Quione durante seu encontro e ela o sentiu. Certamente os planos dela eram de que você nunca mais acordasse do seu sono de inverno. Mas aqui está você, de pé, conversando conosco. Tenho certeza de que Momento também percebeu isso em você, — e Momento apenas acenou com a cabeça — seu laço com a natureza é forte, e graças a ele você pôde sobreviver a ocasiões tão adversas. Mas acordar de um sono de inverno antes de o inverno acabar é considerado um grave insulto na para as criaturas gélidas, você não vai querer encontrar Quione novamente até ter certeza de que ela sequer recorde do seu cheiro.

— E você tem um cheiro bem forte – Disse Claus tapando o nariz e sacudindo uma mão em frente ao rosto. – Cheiro de humano.

— Mas antes de mais nada nós temos que te conectar com a natureza, Tito. Você não pode negar o dom que tem, sua ligação é forte, você só precisa de um Guru – Interveio Momento. – Não podemos deixar Claus para cuidar de você, você precisa aprender a se defender sozinho, Éden pode ser um lugar muito perigoso se não visto com os olhos certos.

— E-eu não estou certo de que tenho essa tal capacidade que vocês tanto dizem – se defendeu Tito das expectativas do grupo enquanto as imagens dos espectros povoavam suas memórias, ele não queria se tornar aquilo, não queria mexer com magia totalmente, mas também não queria ser um peso para Claus – Aconteceu apenas uma vez, sabem? E foi totalmente involuntário.

— Você está enganado, Tito. – Agora era a vez de Claus falar. – Desde o instante em que eu pus os olhos em você eu senti que você não era afetado pela minha aura gélida como os outros, inclusive, você porta um pouco mais de energia a cada instante que passamos juntos. Obviamente você não é capaz de ver e nem sentir, porque é uma energia pequena e inofensiva por enquanto, mas está em você, eu posso sentir.

— Mais enganado do que pensa. — Interveio agora Mantra. – Tudo que acontece em Éden é derivado do constante fluxo de energia que nós emitimos e recebemos, meu pequeno, observe.

E mais uma vez Mantra começou a entoar uma de suas canções, uma de suas invocações. A sua voz era densa e quase palpável, de uma energia sublime que fazia com que o frio abrandasse e a escuridão se afastasse. Seus olhos flamejavam em reflexo a fogueira e suas patas pisavam firme na terra enquanto ele aquecia todos ao seu redor com sua própria energia em clamor a uma energia externa. Seu pelo se eriçava em suas costas e seu rabo chicoteava o ar. Em resposta ao seu canto a fogueira começou a trepidar e tremular de forma excessiva para uma floresta onde não havia vento.

— Seu canto é sempre um encanto, Mantra. – Disse uma figura pequena de voz aguda com uma silhueta de chamas e palco de madeira. A criatura tinha a aparência parecida com a de Claus, e as duas se olharam por um instante. A Fada do Fogo tinha suas asas abertas em agradecimento a canção de Mantra, como um sinal de amizade. A Fada do Inverno tinha uma dor irreparável em seus olhos. – Para aqueles que não me conhecem, eu sou Suzy. – Cumprimentou a fada olhando um pouco para cada um dos integrantes daquele grupo tão seleto, Tito por último, deixando seu olhar se demorar mais sobre ele.

— É sempre um prazer te reencontrar, Suzy. Espero que aceite minha canção como uma oferta e me conceda uma simples resposta. – Mantra se voltara para a fogueira e agora sentava em frente a mesma.

— Com todo o prazer, meu bom amigo.

— Por que você salvou a vida do nosso amigo humano aqui? – E ele olhou em direção a Tito para a surpresa de todos.

— Bem... – Suzy pareceu envergonhado, mas havia feito um voto com Mantra e devia uma simples resposta a ele – Eu sei bem que humanos são incapazes de acordar de sonos de inverno, mas esse garoto... Ele tinha frio dentro de si tanto quanto fora, ele não estava dormindo, estava acordando. Eu não salvei a vida dele, eu estava apenas assistindo.... Sinto muito – Suzy se retratou ao perceber que confessara que o deixaria dormindo pelo tempo que fosse, mesmo que não houvesse mais tempo – Eu estava acompanhado os unicórnios de perto, criaturas fascinantes, mas os perdi de vista e acabei seguindo sua energia de volta até aqui. Até esse garoto que estava mais quente a cada instante. — Suzy olhou para Tito como quem espera algum tipo de explicação, mas como ela não veio, continuou – Instantes depois vocês apareceram, e eu me escondi até ouvir o canto de Mantra e saber que era seguro tomar uma forma física.

Tito estava perplexo, assim como os seus amigos, com exceção de Mantra. Desde o primeiro instante em que Tito pusera os pés em Éden ele vinha absorvendo e transmitindo energia inconscientemente, o que será que ele poderia fazer se tivesse domínio dessas habilidades? O medo dos espectros ia diminuindo conforme sua confiança ia aumentando. Se ele pudesse manipular a energia assim como Claus ou Momento, ou mesmo parcialmente como eles, ele não seria mais um peso, inclusive poderia proteger Claus em algum momento.

— Eu quero aprender! – Disse Tito de supetão. – Por favor, me ensinem a manipular a energia ao meu redor, eu quero ser um Mago. – Tito havia se decidido, e agora nada podia mais pará-lo. Levaria Claus para um lugar seguro, aprenderia mais sobre magia e sobre esse mundo. Não tinha mais dúvidas do que queria hoje, a proteção de sua amiga.

Mantra e Suzy se olharam por um instante, e mantra acenou com a cabeça.

— Vamos ver do que você é capaz então, humano. – Disse Suzy saindo da fogueira e crescendo em tamanho assim como Claus fazia. Seus passos eram firmes e graciosos. Suas pegadas deixavam a grama chamuscada. Tinha olhos verdes e a pele dourada, seu cabelo era um moicano de fogo e seu sorriso era malicioso e ao mesmo tempo amigável. – Use a energia de fogo que você já tem dentro de você e tente sintonizar com a minha!

Tito se levantou do chão e então ficou de frente para Suzy. Os dois garotos de naturezas diferentes agora se olhavam como iguais, e Tito podia sentir a atração que seu corpo sentia pelo corpo da Fada. Como se ambos estivessem se chamando, como se ambos fossem fagulha, mas ainda não chama. Suzy começou então a fazer movimentos ondulares com seus braços e Tito o seguiu, os movimentos eram leves, mas calculados, como uma dança. Quando Tito obteve a sincroniza necessária com os braços Suzy começou a movimentar a suas pernas, dando o toque final a dança das chamas.

— O fogo é nossa alma, humano, se você souber balançar ela com cuidado e precisão, será sua arma mais destrutiva. – Suzy ia introduzindo movimentos novos assim que Tito assimilava os antigos. – A dança é o nosso corpo em movimento, você precisa colocar o corpo em movimento para sintonizar ele com a sua alma, você precisa dançar, assim como o fogo. – Repentinamente Suzy fez uma série de movimentos complexos e de execução perfeita, deu piruetas no ar e troca de passos incríveis. Quando pousou de seu último salto à frente da fogueira apoiado em um joelho e de cabeça baixa o fogo se apagou totalmente, dando espaço a escuridão novamente. Então levantou a cabeça e olhou para Tito, seus olhos eram de um azul incandescente e atrás de si a fogueira explodiu em um pilar de fogo azul em direção ao céu noturno. As estrelas pilharam e todas as criaturas da floresta temeram Suzy naquele instante, inclusive Tito. – Sua vez. – Finalizou Suzy enquanto a fogueira voltava ao tamanho e cor originais.

Os outros integrantes do grupo assistiram maravilhados as manobras e a sincronia de Suzy. Ele era a fada do fogo mais habilidosa que Mantra conhecia, e não falhara na missão de ensinar Tito a sentir sua essência. Então a noite adentrou ainda mais enquanto os amigos de Tito conversavam e iam atrás de alguma coisa para comer. Quando retornaram com algumas frutas Tito já havia dançado inúmeras e inúmeras vezes ao redor da fogueira, tentando sentir o fogo, se sintonizar com ele. E em uns momentos tivera certeza de que o fogo o sentia de volta, seus movimentos iam ficando mais naturais, mas mútuos e por volta do meio da noite ele dançava em par com a fogueira, não criara labaredas, sequer mudara a cor das chamas, mas sentia o calor dentro de si, e emitia calor para fora de si. Suzy satisfeito com o aprendizado de uma noite disse que precisava se retirar para cuidar de outros assuntos, mas que era sempre um prazer confraternizar com Mantra e seus amigos e então partiu.

— Incrível, Tito. Eu nunca vi uma dança como a de Suzy, e ainda assim, você manejou encontrar seu ponto de equilíbrio com ele, com a chama e consigo mesmo. Incrível! – Disse Mantra, realmente impressionado com o avanço do garoto em tão pouco tempo. – Mas ainda existe muito o que aprender, sobre muita coisa, por isso eu irei seguir nessa viagem com você e Claus.

O resto da noite foi preenchida por discussões de rota e destino sobre a viagem, passariam na casa de Ebling para se despedir, e Momento os guiaria até a orla da floresta por uma rota segura para longe de Quione. O Sol nasceria em algumas horas, e depois de terminadas as discussões Tito dormiria em alguns instantes.