Sonâmbulos
13 Sai
Tito acordou com o bocejo de Mantra que levantava na primeira luz da manhã e entoava seus sons como um despertador carinhoso que abraçava todos aqueles que adormeceram na relva marrom do final de outono e os tirava de seus sonhos como uma mãe tira seu filho do berço. As pedras da fogueira ainda estavam quentes e todos se aproximaram para se aquecer antes de partir em direção a casa de Ebling e seguir rumo a cidade mais próxima, Isador. Lá comprariam suprimentos e então se encontrariam com um amigo de Mantra, que ele dizia saber de um bom lugar para esconder Claus e treinar Tito.
O caminho se seguiu quase completamente em silêncio. Tito andava ao lado de Claus, tentando não pensar de mais no fato de que de agora em diante eles viveriam juntos por um tempo no mesmo lugar. Em seu ombro ia Momento, ainda sonolento em sua forma de bolso e em sua cabeça Claus pensava que não queria se aproximar da cidade, humanos ainda lhe eram desagradáveis até no olhar, com exceção de Tito. Mantra mantinha o passo firme e altivo no outro lado de Claus, pela primeira vez não fazia som nenhum, sua presença ali poderia ser categorizada como apenas visual, pois caminhava de olhos fechados e nem suas pegadas, nem sua respiração emitiam som algum.
Ebling sabia que Claus partiria em breve por causa da chegada do Inverno, mas não achou que seria tão cedo, ela gostava muito da companhia da Fada, mas quando soube que Mantra partiria junto com Tito também ela não conseguiu controlar as lágrimas. Mantra havia acompanhado ela em toda a sua trajetória desde que decidira abandonar o mar, nunca esqueceria aquela noite chuva na praia. Tito sentiu pena de levar consigo dois grandes amigos da Sereia, e se fez uma promessa mental de que voltaria ali para tomar um chá com Ebling e eles falariam sobre essa noite e muitas outras que foram e que ainda viriam. Ebling como uma boa anfitriã não deixou que eles partissem sem uma boa refeição, então comeram, Ebling e Momento discutiram como seria aquele inverno e que estariam juntos para qualquer coisa, como sempre estiveram os três que agora eram dois.
Depois de se despedirem com longos abraços e mais algumas lágrimas Mantra, Tito e Claus seguiram na direção contrária do lugar de onde Tito havia acordado pela primeira vez, aquele dia parecia ter acontecido a muito tempo atrás. Também foi o dia em que conhecera Claus. E agora cá estavam eles, juntos de Mantra Tito pensou que eles poderiam ser o grupo mais estranho de Éden, mas então lembrou de todas as criaturas que conhecera desde que pusera os pés a primeira vez naquele lugar, e teve certeza que de qualquer afirmação que ele fizesse estaria propensa a deixa-lo perplexo com o quão longe da realidade ela se encontrava.
O grupo andou cerca de meio dia, pararam para comer duas vezes e para descansar uma. Enquanto andavam Mantra ia mostrando as paisagens para Tito e o situando da situação geográfica de Éden. Mais ao norte havia um vale curto por onde corria um rio de lava do vulcão mais próximo. Era um lugar sagrado para das Fadas do Fogo e as Fadas da Terra, um local para confraternização ou lutas, o que no mundo das Fadas é basicamente a mesma coisa. Quando saíram da floresta avistaram montanhas onde, segundo Mantra, viviam grifos e dragões nos céus e goblins e anões no subterrâneo. Mas o caminho que tomaram não os levava nem as fadas, nem aos céus, e nem aos subterrâneos. Isador ficava a cerca de mais um quarto de dia de caminhada após alcançarem a Estrada de Três Rodas, que ficava de costas para o córrego de lava e a direita podia se avistar aves pequenas voando acima das montanhas. A estrada era pequena e formada apenas por três caminhos evidentemente feitos pelo tráfego de carroças, árvores podiam ser vistas a distância e movimentos na relva por insetos ou qualquer coisa que pudesse viver ali. Claus, por ordem de Mantra, ensinava Tito a entrar em contato com o espírito da água e como fazê-lo fluir pelo seu corpo, ele deveria aprender a sentir a fluidez da água antes de trabalhar na rigidez do gelo. Mas Claus também não era uma das Fadas do Inverno que corroborava com suas irmãs do verão, a água sempre fora para ela mole e molhada de mais, seu espírito era rígido e seco, mas não gélido. Encontraram com poucas pessoas no caminho, um comerciante humano passou por eles e tentou lhes vender algumas roupas e queijos incrivelmente cheirosos, mas tiveram que recusar, pois não tinham dinheiro até chegarem na cidade, onde Mantra dissera que tinha uma maneira de arranjar dinheiro, apenas não disse qual. Era o primeiro humano que Tito vira desde que chegara em Éden, bem, pelo menos o primeiro que não estava tentando mata-lo ou a seus amigos. Ele tinha o rosto castigado pelo tempo e esforço, mas tinha um sorriso no rosto e vários queijos, não parecia perturbado, apenas cansado e assim partiu puxando a sua própria carroça em direção ao próximo viajante. Viram também um grupo hipogrifos pousando nos campos próximos a um grande lago onde lá mergulharam para pescar e lavar suas penas. Tudo era tão usual e ainda tão novo aos olhos de Tito que ele pouco prestou atenção nas lições de água de Claus, que também ficou feliz com o desinteresse do humano nas suas aulas e admirou o olhar deslumbrante de Tito para o mundo que há muito tempo havia, e ainda assim guardava muitas coisas novas.
Isador apareceu no horizonte quando o primeiro dos dois Sois de Éden estava começando a se pôr, e os três viajantes apressaram o passo para não serem engolidos pela noite sem a proteção das muralhas da cidade. Isador era uma cidade de pedra, com tuas torres altas no centro da cidade, sua muralha era baixa e as entradas da cidade estavam abertas enquanto as pessoas caminhavam por dentro delas e cuidavam dos seus interesses no presente. Tito ficou surpreso com o número de humanos que habitavam ali, o tamanho daquele era gigantescamente minúsculo, seus olhos vagavam pelas vielas e pelas vestimentas, pelos rostos e pelos gostos, pelos cheiros e pelos estrangeiros. No meio do tráfego de pessoas as vezes se conseguia ver uma criatura mágica flutuando ou rastejando, algumas inconfortáveis no meio dos humanos, outras altivas no meio daqueles humanos.
— Não falem com ninguém a não ser que eu diga que podem, mantenham a cabeça abaixada, mas olhem por onde andam. – Disse Mantra no instante em que cruzaram o portão. – E isso vale para comigo também. – Disse ele no instante em que viu uma dúvida se formando nos lábios de Tito.
Tito e Claus se olharam e assentiram, então seguiram em silêncio através das ruas de Isador, a cidade tinha construções de madeira que se destacavam em meio a tantas pedras e pessoas apressadas que se destacavam em um lugar que parecia estar em sintonia com o tempo, qualquer que ele fosse. Andaram umas cinco ruas antes de pararem de frente para uma porta pequena dentro de uma viela. Pequena do tamanho do próprio Mantra, que bateu na porta com sua pata e aguardou. De lá de dentro ouviu-se um baralho e então a porta deslizou para dentro e de lá saiu um gato dourado muito parecido com Mantra.
— Olá, meu bom amigo – Disse o gato dourado, dando a volta em Mantra para cheirar o seu traseiro.
— Olá, Sai, parece que você continua com esses hábitos de baixos felinos. Como tem estado?
— Estou bem, meu amigo, porque vocês não entram? – E Sai se dirigiu para dentro de sua casa novamente e Mantra o seguiu.
Claus tomou a frente e então foi diminuindo a cada passo até ter o tamanho suficiente para passar pela porta, e Tito apenas assistiu sem falar uma palavra, por causa de uma estúpida proibição, andou até o mais perto da porta que conseguiu e então se abaixou e olhou para dentro da casa de Sai onde estavam os três aconchegados em almofadas que pareciam muito confortáveis.
— Ah, mil perdões, como é seu nome mesmo? – Disse Sai olhando para o olho de Tito.
— Tito, senhor(?) – A última palavra saiu sem certeza de estar sendo colocada corretamente.
— Apenas Sai, está ótimo. Sinto não poder te aconchegar em minha casa, tendo em vista que és amigo de um grande amigo, tens minha consideração.
— Que tal irmos logo ao ponto, Sai? – Interrompeu-o Mantra. – Vá buscar o dinheiro que me deve, e preciso que me passe os endereços de encontro.
— Você como sempre pulando as cortesias. Tudo bem, já estou indo.
Saíram então da casa de Sai alguns minutos depois de ele ter trazido um tipo de gema que foi posta no pêlo de Mantra e instantaneamente se aconchegou lá sem dar a menor pista de que havia mais do que pelo nas costas daquele gato. Juntos também vieram dois pedaços de pergaminho escritos em uma língua que Tito desconhecia. Na rua novamente Mantra os guiou até a pousada mais próxima. Onde pediu que Tito retirasse de seu pelo a joia que recebera de Sai. Tito simplesmente dirigiu sua mão até as costas de Mantra e mergulhou-a em uma poça de pelo, no fundo dela estava a joia que foi entregue ao Taberneiro para pagar a estadia deles para aquela noite, mais dois sacos de provisões. O homem agradecido disse que providenciaria os melhores quartos da casa e levaria os sacos para eles assim que estivessem prontos.
Subiram então para o andar de cima da Taberna onde se encontravam os quartos.
— Quanto tempo vamos levar para chega a partir de hoje? – Perguntou então Tito, achando que agora já estariam seguros para emitir palavras.
— Você levará cerca de mais dois dias, Claus estará em casa amanhã ainda. – Disse Mantra, depois de repreende-lo com um olhar.
— Como assim, estamos indo para lugares diferentes? – Então era isso que eram aqueles dois papeis, dois endereços, diferentes. Ele não ficaria com Claus.
— Vocês precisam estar seguros, a melhor maneira de fazer isso é separando-os. – Mantra não pareceu entender o porquê de Tito estar tão surpreso.
— Mas, e como eu vou ensinar Tito a se conectar com a água e com o gelo depois? – Disse Claus entrando para o time de surpresos onde Tito já estava perdendo.
— Eu vi as suas lições hoje, sinto lhe dizer que elas não vão ser de muita ajuda agora no quesito do elemento da água, Fada Claus. Vocês precisam descansar agora, vão para os seus quartos e durmam. Amanhã a viagem será longa, para ambos vocês.
Tito e Claus se olharam uma última vez naquele corredor e então entraram em seus quartos enquanto Mantra os observava. Tito se jogou em sua cama incrédulo com a falta de sorte que poderia ter, depois de tudo que passaram juntos, eles não deveriam se separar, estariam mais seguros juntos, sim. Ele aprenderia a se conectar com as forças da natureza e juntos ninguém os ofereceria ameaça. Confrontaria Mantra amanhã pela manhã, usaria argumentos sólidos e evidentes. Não queria se separar de Claus agora, e não deixaria que ninguém o fizesse, a não ser o sono que chegava fulminante e arrebatador por todo o seu corpo.
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