Sonâmbulos
12 Manu
Na manhã de domingo a cabeça de Thiago girava ao redor de teorias e plots que poderiam ter levado os seus pais a o abandonarem, jamais imaginaria uma história dessas. Sempre tomara para si que era um órfão normal como todos os outros que haviam sido abandonados por pais irresponsáveis. A verdade era a ditadora da realidade, e a realidade de Thiago havia sido alterada em proporções que ele sequer imaginara. O contato de Ana repousava em seu celular e ele se via prestes a ligar para ela a cada cinco minutos, mas sabia que as informações não viriam assim tão rápido e tão facilmente.
Ana citara um projeto em que estava trabalhando, mas não entrou muito em detalhes para não comprometer seu sigilo, então Thiago sabia que ela não teria muito tempo vago para ajudá-lo em sua busca pessoal, ele teria de procurar por algo também, uma mínima pista que ele pudesse entregar a Ana seria de grande ajuda, ela dissera. A internet era um lugar vasto e perigoso, mas recheada de recursos. Coisas inimagináveis e pessoas irrastreáveis habitavam as camadas mais obscuras da rede, e o trabalho dos seus pais, segundo Ana, era impedir tais pessoas.
Thiago sentou em frente ao computador e abriu o Google, se sentiu estúpido por usar uma ferramenta de pesquisa tão simples e tão limitada, mas seu empenho era grande e sua determinação constante. Algumas horas depois Thiago já havia coletado informações de como acessar a Deep Web e como se proteger dela. Quando ouviu a porta sendo batida por alguém do lado de fora estava navegando por fóruns de hacker ativistas, procurando qualquer informação que pudesse reunir sobre os Sonâmbulos.
— Thiago você tá aí dentro? – A voz rasgada e pesada do pai de Júlia cortava através da madeira e dos metais que os separavam.
— Um segundo! – Gritou Thiago de volta para a porta enquanto fechava o notebook frustrado com o resultado de suas pesquisas. – Bom dia, Otávio. Algum problema?
— Eu precisava de um favor seu, na verdade. Julia saiu hoje cedo e ainda não voltou, me disse que iria se encontrar com alguém. E eu precisava resolver uns assuntos com os fornecedores e não tenho ninguém para deixar no café. Você poderia cuidar de tudo para mim? Eu prometo que não vou demorar, devo estar de volta antes das 13h. O almoço é por minha conta.
— Sem problemas, eu só preciso juntar umas coisas aqui.... – Thiago pegou seu notebook, um caderno de anotações e enfiou tudo dentro da mochila. Em menos de 10 minutos ele já estava posicionado atrás do balcão do Café com seu notebook aberto de volta aos fóruns.
Era domingo e ninguém apareceria no Café, como de costume. Então Thiago aproveitaria esse tempo e a conexão mais veloz da internet a seu favor. Suas pesquisas, novamente frustrantes, não demoraram muito para terminar. Ele sabia que poderia encontrar algo, mas talvez estivesse no caminho errado dentro de um novo, e perigoso. Precisava manter sua mente astuta e ligada, então exaurir ela não era uma das melhores opções, chegando a esse raciocínio ele decidiu usar um pouco a internet para se distrair e conversar com os seus amigos do curso e também para ver oportunidades novas de emprego. Seu tempo de seguro estava acabando e ele precisaria vender seu tempo novamente para pessoas que não estavam realmente interessadas nele, mas em suas capacidades. As horas corriam, e quando Júlia chegou no Café acompanhada de seu pai perto do meio dia, apenas dois clientes haviam entrado no café, um deles apenas para usar o banheiro, e Thiago já havia mudado seu foco de pesquisa agora para os vídeos aleatórios que encontrava nas sugestões do Youtube
— Como foi tudo por aqui, garoto? – Otávio não parecia muito contente, talvez as negociações tivessem dado errado.
— Tudo certo. Eu ainda acho que você não precisaria abrir nos domingos, Tio, mas da minha parte tudo certo.
— Claro, claro. – E Otavio seguiu para seu escritório que ficava nos fundos do Café.
— Ele está chateado porque eu estava em um encontro. – Disse Júlia baixinho assim que a porta batera nas costas de seu pai.
— Ele ainda não aceitou tudo isso muito bem, não é?
— Não, mas ele está melhorando aos poucos, foi uma surpresa para ele. Mas depois de tantos anos de segredo acredito que hoje as coisas estão muito melhores. E grande parte disso é graças a você. – Disse Julia sorrindo discretamente através das dores do passado.
Thiago se mudara para o prédio de Julia para dividir o apartamento com a pessoa que já vivia lá. Julia morava com seus avós antes de vir para a cidade para estudar. E Manu sempre morou naquele prédio, até o dia em que seus pais faleceram e ela ficou sozinha, por isso precisaria de alguém para dividir. Os três amigos se conheceram praticamente ao mesmo tempo. Exploradores da cidade e quebradores das próprias regras viveram muitas histórias juntos, inclusive histórias de amor. Júlia e Manu eram parceiras para todas as coisas, Thiago nem sempre podia estar presente nas aventuras dos três por causa do seu trabalho na época, mas Julia e Manu sempre arranjavam um tempo para se encontrar.
Quando percebeu, Thiago foi a primeira pessoa para quem Júlia contou sobre seus sentimentos, sentimentos confusos e até reprimidos por ela mesma e por uma sociedade criada para operar, não para pensar. Incentivada pelo seu amigo e a crença de que o amor consegue vencer todas as barreiras Julia contou para Manu como se sentia. Manu não era tão reprimida quanto aos seus desejos e sentimentos, então aceitou a declaração da maneira mais sincera que era capaz, e juntas elas começaram a namorar em segredo. O apartamento de Manu e Thiago se tornou a fortaleza dos três. Onde poderiam se reunir a conversar sobre qualquer coisa, onde estariam seguros do mundo e de qualquer realidade que tentasse os ferir.
Foram tempos bons, onde nem mesmo a obrigação do trabalho e a autoimposição dos estudos podiam sacudir as estruturas da amizade dos três. Até o dia em que Otávio descobriu tudo, e as cenas decorrentes não são dignas de serem recordadas, mas houveram muitos gritos e lágrimas. A incompreensão estava presente em todos os cantos da até então fortaleza e desmoronou quase tudo que conseguiu tocar. Júlia foi proibida de ver Thiago e Manu. Mas não cederia tão fácil, sempre que podiam os três davam um jeito de se encontrar escondidos em algum lugar e relembrar os bons tempos.
Infelizmente a ausência de Júlia e sua indisponibilidade de ir contra o seu pai e sua incoerência começaram a pesar na relação, e começaram a vir as brigas, as acusações. Sem solo pra florescer o amor das duas foi começando a murchar, e quando Manu foi aceita em uma faculdade distante, ela não pensou duas vezes em arrumar suas coisas e deixar o apartamento e o coração de Júlia para Thiago cuidar. Ele entendia ambas, discordava e concordava com ambas, em aspectos distintos, mas o peso emocional que foi deixado nas suas costas ainda fazia com que ele sentisse um pouco de decepção por Manu. Quando Manu se mudou foi instaurado a regra do ex-colega-de-quarto-sobre-o-qual-não-se-fala e o pai de Júlia liberou-a novamente para frequentar o apartamento de Thiago, os próximos meses foram seguidos de choros e conselhos. Julia entrou em depressão e começou a receber ajuda profissional, isso também ajudou com que seu pai começasse a aceitar mais as coisas que não poderiam ser mudadas e hoje ele lidava melhor com tudo isso, mas ainda nem tanto.
— Então quer dizer que já podemos nos livrar da regra do ex-colega-de-quarto-sobre-o-qual-não-se-fala?
— Melhor ainda não, foi só um encontro, nada de mais, embora ela seja incrível! Vamos subir que eu vou lhe contar tudo enquanto você prepara algo pra gente comer!
— Mas.... Seu pai disse que o almoço era por conta dele hoje – Disse Thiago decepcionado pela ideia de ter que cozinhar.
— Você não vai querer meu pai cozinhando com esse humor. Venha! — E Júlia puxou Thiago para fora do balcão e escadas acima.
No apartamento de Thiago eles conversaram e fumaram enquanto o almoço era preparado. Comeram macarrão, porque Thiago não tinha nada mais prático para cozinhar, e se deleitaram com as histórias, com o almoço e com a fumaça que pairava sobre suas cabeças. Anúbis apareceu mais tarde para acompanhar os dois, e quanto a tarde começou a bater na porta decidiram fechar as cortinas e descansar seus corpos e suas mentes em um lugar mais tranquilo, nos braços um do outro.
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