Something Blue
1 Something old, something new, something borrowed...
Mia acordou com um estrondo ensurdecedor. Ela levantou a cabeça com rapidez, ainda atordoada com o barulho e sem ter certeza do que estava acontecendo. Ela conseguia perceber, pela textura macia debaixo de seu rosto, que estava caída em um chão de carpete, mas o cômodo estava envolto na escuridão. A garota se pôs sentada e olhou para trás. Um feixe de luz entrava pela janela entreaberta, iluminando um único ponto. Mia engatinhou até lá e impulsionou-se com a ajuda do batente da janela, ficando de pé.
Uma dor lancinante tomou conta de seu corpo quase que instantâneamente. Através da luz da lua, a garota notou que seu corpo estava coberto de feridas superficiais e hematomas. Além disso, ela usava um vestido. Um vestido branco. Era hoje. O dia. Em seus pés não havia sapatos, mas as unhas estavam bem feitas e pintadas de azul.
Ao abaixar a cabeça e notar as manchas de sangue em seu vestido, Mia não conseguiu segurar o enjoo e vomitou para fora da janela. O vômito saiu líquido e rosado, indicativo de que não havia nada de sólido em seu corpo. Além disso, havia uma acidez característica em sua boca, a qual ela imediatamente reconheceu como gosto de vinho. Não um vinho qualquer. O vinho que o pai de Ethan havia trazido especialmente para celebrar o casamento deles.
Um súbito pânico tomou conta de Mia. Ela começou a procurar desesperadamente um interruptor de luz, mas não o encontrou. O mais próximo disso era um isqueiro, caído ao lado de onde ela esteve deitada. Com a luz do objeto, a garota notou que estava no quarto de hóspedes da fazenda dos pais de Ethan, onde ela e as amigas estiveram mais cedo se aprontando para a cerimônia. Não havia muitos objetos ali, com exceção de uma cama de casal antiquada e arrumada, um guarda-roupas velho, uma penteadeira com um espelho repleta de objetos e diversos quadros pelas paredes. Na cama havia uma mala aberta, com diversas roupas de Mia. Lingeries, em sua maioria. Em cima da penteadeira havia um tablet.
O sangue em seu vestido, na região abdominal, era o que mais preocupava Mia. Ele não parecia vir de algum corte, o que significava que aquele sangue não era seu, ou... O bebê. Esse era o maior temor de Mia. Com a ajuda do isqueiro, ela caminhou até o interruptor, mas logo percebeu que não havia energia elétrica. A garota bufou e parou diante do espelho da penteadeira, tentando ter uma visão melhor de seu corpo. Mas então uma mensagem escrita no espelho, com batom, atingiu-a como um soco no estômago.
Eles vão matar todo mundo.
Aquela caligrafia era sua, Mia reconhecia. A garota subitamente sentiu as lágrimas formando-se em seus olhos e retirou o vestido com rapidez, tentando equilibrar o isqueiro em sua mão. Não havia qualquer corte profundo em seu corpo, mas uma enorme quantidade de sangue seco podia ser visto em sua área genital. Tremendo, Mia retirou a calcinha. Sua visão ficou turva por conta das lágrimas, e ela não conseguiu compreender o que estava acontecendo. Ela não sentia nenhuma dor particular em seu abdomen, mas o sangue era um indicativo claro de que havia acontecido alguma coisa com o bebê.
Mia nunca fora capaz de realmente sentir algo se mexendo dentro de sua barriga, o que os médicos diziam ser normal para a quantidade de semanas em que ela estava grávida. Isso, porém, tornava impossível a tarefa de saber se o bebê ainda estava em seu ventre. O vinho. Um quarto de uma taça, mas foi suficiente. Oh...
Ou poderiam ter sido os remédios. Mia correu até sua mala de viagem e começou a retirar todas as lingeries, encontrando o frasco amarelo escondido no fundo dela. Em uma etiqueta do lado de fora lia-se: “Paxil”. Sua psiquiatra havia dito que ela precisava interromper o tratamento com o remédio de maneira gradual, agora que estava grávida, mas Mia não havia sido capaz de deixar de tomá-lo. O único dia em que abdicou do comprimido, sentiu-se impossivelmente ruim. Ela precisaria conversar com a médica. Elas buscariam outra solução.
Os hematomas em seu corpo não pareciam ter alguma explicação lógica. Mia abaixou-se diante da penteadeira e notou as marcas espalhadas por todos os seus membros, embora seu rosto estivesse intacto, com exceção da fraca maquiagem borrada. Quem quer que houvesse machucado-a, não batera em seu rosto.
O tablet em cima da penteadeira chamou a atenção da garota assim que ela sentou-se na cadeira. Mia desbloqueou o aparelho e abriu a galeria de fotos, tentando encontrar alguma explicação lógica para o que estava acontecendo. A última foto havia sido tirada às 16:51, mostrando ela, Jennifer, Amanda e Lucas sorrindo diante do espelho. Mia estava com o vestido de noiva, mas não havia qualquer mensagem no espelho ou hematomas no corpo. Segundo o relógio do aparelho, naquele momento eram 22: 51. Exatamente seis horas depois.
Assim que voltou para a tela inicial, Mia foi confrontada com uma imagem dela e de Ethan abraçados, de pé em frente à um templo indiano. Ela tinha uma flor nos cabelos e o noivo usava óculos escuros. Havia sido naquele dia que ele a pedira em casamento. Ver o sorriso de Ethan na fotografia foi suficiente para fazer a garota desabar em lágrimas. Ela abaixou a cabeça e começou a esfregar a barriga, deixando que as gotas escorressem por seu queixo e caíssem em sua coxa.
Mia colocou a calcinha e instintivamente voltou a vestir-se com o traje do casamento, como se isso fosse capaz de trazer certa normalidade para a situação. Ela temia não saber o que estava acontecendo e o que podia ter acontecido com Ethan. Mia sabia que o noivo era capaz de se cuidar sozinho, mas ela nunca deixava de preocupar-se. Acreditava que faria isso independente da condição dele, mas era difícil ter certeza. Ethan fora o seu primeiro namoro sério. Ele era o homem da sua vida.
Ethan era cego, consequência de uma tragédia familiar grave, sobre a qual ele não gostava de falar. A verdade é que o pai de Ethan não era realmente seu pai, mas seu padrasto. Seu pai biológico havia suicidado-se quando o rapaz tinha nove anos de idade, logo após atirar contra os dois filhos e a esposa. A mãe de Ethan, Beth Ann, sobrevivera ao disparo de espingarda e conseguira chamar socorro. Seu filho mais velho, Elliot, falecera instantaneamente, com um tiro na cabeça. O disparo contra Ethan, porém, não fora fatal. Apesar disso, fora o suficiente para tirar sua visão. Ele não tinha cicatrizes visíveis em seu rosto, já que o dano fora interno, mas jamais seria capaz de voltar a ver.
O motivo fora descoberto em uma carta deixada pelo pai ao lado de seu corpo. Ele decidira matar toda a família e suicidar-se porque estava falido. Achando-se incapaz de sustentar o alto estilo de vida da mulher e dos filhos e mergulhado em uma profunda depressão, aquela parecera a única solução. Ethan e Beth Ann sobreviveram, mas metade de sua família havia partido. Aquele era um dano irreparável.
Mia reconfortava-se em saber que Ethan havia superado tantas coisas. A vida dela havia tido a sua parcela de pequenas tragédias, era verdade, mas nada se comparava ao que o noivo havia vivido. Seu pai falecera cedo, em um acidente de carro, e ela fora criada pela mãe e pela avó, junto do irmão. Os três estavam indo até a fazenda para o casamento, mas Mia não se lembrava de tê-los encontrado antes do desmaio.
A noiva caminhou até a janela de maneira lenta, sentindo o carpete debaixo dos pés. Seu vestido era elegante e simples, um legítimo Vera Wang, caro demais para ela, mas um presente dos sogros. Vê-lo sujo daquela forma era triste, mas Mia não conseguia importar-se com seu valor material. Tudo o que importava era o que aquilo significava. Um sonho desfeito. Uma tragédia no dia mais feliz de sua vida.
A boca de Mia abriu-se em uma expressão de choque ao ver o céu. A lua era o único ponto branco numa imensidão vermelha. A noite tinha uma cor rubra profunda e inexplicável, capaz de fazer a garota sentir-se sem fôlego. Não era o tom vermelho de um fim de tarde, mas uma cor mais... Sufocante. Mia nunca havia nada semelhante em sua vida.
Tomando coragem, a noiva correu para fora do quarto, carregando o isqueiro consigo. Não havia qualquer som ali, nem mesmo o característico barulho dos grilos da fazenda. A escuridão era total, com exceção das luzes provenientes da lua, que entravam através das janelas abertas. Mia caminhou pelo andar superior por alguns instantes, e então ouviu um barulho de estática e a voz entrecortada de uma mulher. A noiva seguiu o som até o andar inferior, onde a televisão estava ligada.
Mia prostrou-se atrás do sofá, alguns metros distante da sala, e tentou identificar o que estava sendo dito na televisão. Ela conseguia ver, entre chuviscos, a imagem de uma jornalista asiática bastante bonita, vestida de maneira elegante e segurando um microfone. A mulher dizia, entre cortes constantes:
— Pesquisadores do Centro... não são capazes de dizer se o fenômeno... ou se pode ter sido causado pela passagem do cometa... O fenômeno sem precedentes parece ter tido como consequência também... Delegacias de polícia de todo o estado tem informado... embora não seja possível afirmar com certeza se... A Presidente dos Estados Unidos Hillary Clinton informou, em comunicado oficial... e que pretende... Continuamos sem mais informações... — E então a estática tomou conta e nada mais foi visível.
Subitamente, Mia percebeu que o que estava acontecendo era algo muito maior do que ela poderia imaginar. A garota caminhou lentamente até o sofá da sala, sentindo as narinas sendo invadidas por um cheiro metálico vagamente familiar. E então ela viu.
Estirada no sofá estava Beth Ann, com a garganta cortada e uma infinidade de sangue seco tomando conta de seu vestido azul. A mulher tinha os cabelos castanhos desgrenhados e os olhos escuros abertos, encarando o teto. Mia soltou um grito estridente, afastando-se alguns metros e segurando-se no batente da porta. Suas mãos tremiam de maneira espasmódica.
Subitamente, Mia sentiu sua visão ficando turva. Ela já havia experimentado aquela sensação antes, quando a sua pressão caía. Decidida a manter-se acordada, a garota deixou-se escorregar até o chão, sentando-se com as costas encostadas no batente. Ela não se surpreendeu ao notar, em seu campo de visão, o corpo de um dos tios de Ethan caído no meio da cozinha com uma faca de cozinha cravada no peito. As lágrimas caíam de maneira involuntária.
Mia sabia que Ethan ficaria arrasado ao descobrir o que havia acontecido com sua mãe. Ele não suportaria perder mais ninguém em sua vida. O bebê em sua barriga deveria estar vivo. Aquela era o único jeito de Mia conseguir salvar Ethan.
Decidida a encontrar o noivo, a garota levantou-se de onde estava, secando as lágrimas. Mia correu até a cozinha, desviando do corpo e abrindo todas as gavetas. Ela encontrou somente uma faca de cozinha grande e afiada, que deveria ser suficiente para ela se defender de quem quer que tivesse matado a família do noivo. O isqueiro em sua outra mão mantinha a iluminação do local, embora a noiva imaginasse que ele logo fosse se apagar. De qualquer forma, a energia parecia estar funcionando parcialmente, já que a televisão mantivera-se ligada.
Assim que abriu a porta da casa, Mia deparou-se com uma imensidão verde coberta de corpos ensanguentados. A noiva gritou a plenos pulmões, deixando o isqueiro cair no chão. Ela conhecia cada uma daquelas pessoas, embora não conseguisse ver sua mãe, seu irmão ou Ethan. Os corpos de Amanda, Jennifer e Lucas eram visíveis, caídos próximos uns dos outros. Mia caminhou até eles de maneira cambaleante, deparando-se com os cadáveres dos amigos. Amanda tinha cortes profundos em sua barriga, enquanto Jennifer parecia ter levado uma facada no pescoço e Lucas tinha um picador de gelo cravado em seu olho esquerdo.
Todos os convidados do casamento estavam mortos. Cada um deles parecia ter sido assassinado de uma forma semelhante, sem o uso de armas de fogo. Mia sentia-se cada vez mais próxima de perder a sanidade, incapaz de processar tudo o que estava acontecendo. Ela desejou estar com o frasco de Paxil em suas mãos naquele momento, e ingerir cada um dos comprimidos de uma única vez.
Afinal de contas, não havia sido isso que ela fizera da última vez? Naquela época ela tinha ferramentas para segurar-se, mas mesmo assim não conseguira seguir em frente. Agora, diante de tudo o que estava acontecendo, as coisas eram piores, mais difíceis. Mesmo que tudo voltasse ao normal, a vida de Mia jamais seria a mesma.
Um estrondo tirou-a de seus devaneios. O barulho semelhante ao que a acordara no quarto, vindo de algum lugar no horizonte. Mia correu pelo campo verde, através dos corpos, o vestido branco esvoaçando com os seus passos rápidos. Ela parou diante do tratador azul estacionado ao lado do pequeno lago natural, e sentiu-se aliviada ao ver a chave no motor.
Mia dirigiu através da fazenda sentindo-se em um filme de terror. Depois de alguns metros, não havia mais corpos humanos, apenas animais. Todos os cavalos, galinhas, ovelhas e porcos da família de Ethan estavam caídos com cortes profundos em seus corpos. Todos foram executados. Com exceção da jornalista asiática na televisão, não havia ninguém vivo além dela. Era a sensação mais desoladora de todas. Sentir-se inexoravelmente só.
O céu vermelho foi seu único companheiro por vários metros, até chegar à porteira que dava para a saída da fazenda. Ali, deitado no chão e ganindo, estava um cão. Mia desligou o trator e desceu do veículo, abaixando-se na altura do animal. Ela o conhecia vagamente. Aquele era Spot, o vira-lata que servira de cão-guia para Ethan durante boa parte de sua vida. Mia havia sido apresentada a ele apenas alguns dias antes, com a notícia de que o animal tinha quase vinte anos de idade. Naquele momento ele gania de maneira alta, gemendo por conta de um corte profundo em sua barriga.
Mia segurou o vômito ao notar que as tripas do cão saíam através do corte. Era inacreditável que ele ainda estivesse vivo. A noiva era fisicamente incapaz de derrubar mais qualquer lágrima. Ela somente caminhou até o trator e impulsionou-se para cima, pegando a faca que havia deixado no banco. Spot ganiu mais alto, como se implorasse por aquilo. Mia fechou os olhos e desferiu uma única facada em seu pescoço, silenciando-o para sempre. Algumas gotas de sangue respingaram em seu rosto.
Diante do corpo do cachorro, a porteira de madeira tinha a inscrição, feita com sangue:
Nós fomos deixados para trás.
Mia meneou a cabeça negativamente, incrédula. Zonza, ela voltou a subir no trator e dirigiu de volta para a fazenda, procurando qualquer sinal de Ethan ou outra pessoa viva. Sua caminhada através dos campos verdes durou alguns minutos, até que Mia sentiu-se exausta e estacionou o veículo, apenas há alguns metros do aglomerado de cadáveres.
Diante dela havia uma série de cadeiras brancas e um elegante arco coberto de rosas azuis. As rosas haviam sido presente de seu fã-clube, o qual se identificava pela flor característica da garota. Mia sorriu diante daquele pensamento. Ela esperava que ao menos algum deles estivesse vivo, se aquele fenômeno já houvesse se espalhado pelo restante do país. Haviam sido quase quatro anos de vídeos postados semanalmente, e infinitas mensagens de carinho e apoio. Mia não conseguia imaginar a vida sem seus fãs, embora não se achasse digna de tê-los.
Sentindo-se sem opção, Mia desceu do trator e voltou até a mansão, entrando pela porta dos fundos, da cozinha, e desviando do mar de corpos na parte da frente. Assim que girou a maçaneta, a noiva viu um vulto se movendo dentro da casa. Ela instintivamente deu um pulo para trás e colocou a mão na boca. Não. Controle-se, Mia. Era coisa da sua cabeça. Só podia ser. Não havia qualquer som de passos ali. Mia estava perdendo a cabeça.
A televisão ainda parecia estar na estática. Se ao menos houvesse alguma maneira dela poder obter qualquer informação ou ligar para alguém... E então um presente da memória. A fazenda da família de Ethan não possuía sinal de telefone e nem internet, mas Mia havia comprado um pacote de internet móvel havia algum tempo. Ela só precisava conectar o seu tablet com o aparelho que havia guardado dentro da mala e então o mundo seria seu.
A noiva subiu as escadas de maneira apressada, observando mais uma vez o corpo do tio de Ethan estirado no chão. Um enjoo subitamente tomou conta dela, mas Mia sabia que deveria ser forte. Então continuou a subir, de dois em dois degraus, até estar de volta onde havia começado. A noiva subitamente percebeu que havia algo de diferente ali, mas não soube apontar o que era. As janelas estavam fechadas antes? Ela não se lembrava. Frustrada, ela entrou no quarto de hóspedes num movimento rápido. Sem saber direito o motivo, trancou a porta atrás de si.
O aparelho de internet móvel estava onde ela havia o deixado. Mia seguiu até o tablet e o conectou, recebendo o aviso de conexão bem sucedida quase que imediatamente. Suas mãos tremiam quando ela tocou no ícone da internet no meio da tela. A página do Google se abriu, com um doodle diferente de qualquer um que ela já havia visto, mas a noiva ignorou-o e tocou na aba do Facebook.
A primeira imagem localizada na home fez Mia virar o rosto e vomitar. O líquido rosado saiu mais escasso que da última vez, e a noiva sentiu o seu estômago doendo de fome. No meio da tela havia a selfie de uma antiga colega de faculdade com metade do rosto apodrecido e uma expressão de angústia. Ao lado desta, uma série de fotos de todas as partes do corpo da garota, também apodrecidas, em um álbum intitulado “Progressão”. Enojada, Mia clicou na primeira foto e começou a ler as legendas com atenção.
Eu não sei mais a quem recorrer. O que está acontecendo comigo? Me ajudem!
Mia fechou a galeria de fotos e continuou a descer sua timeline. Depois de alguns segundos, desejou jamais ter feito isso. Tudo o que havia ali eram status, relatos e fotos de tragédias. O responsável pela edição dos seus vídeos, o pobre e inocente Pete, aparecia em um vídeo chorando em um quarto escuro, dizendo que “eles estão tentando entrar no meu apartamento”. Sua prima distante de Nova Orleãs aparecia ao lado da filha com rifles em mãos, dizendo que estavam prontas para “foder os desgraçados”. Uma professora do ensino médio alegava ter visto alguma coisa voando sobre a casa dela, e pedia ajuda a Deus. O presidente do seu fã-clube dizia ter visto um avião caindo perto de sua casa. Desesperada, Mia abriu o perfil de Ethan.
A última atualização do noivo havia sido feita há duas horas. Era apenas uma mensagem, curta e misteriosa:
Tudo está claro, mas eu não consigo encontrar a Mia. Onde ela está?
Em sua caixa de mensagens, porém, não havia uma nova mensagem do noivo ou de qualquer outra pessoa. Mia voltou para a linha do tempo e foi confrontada com diversas notícias confusas. Algumas tinham cunho religioso, alertando para “os demônios que haviam descido”. Outras, jornalísticas, informavam apenas posicionamentos da presidenta e de estudiosos que não sabiam explicar direito o que estava acontecendo. Aparentemente havia um meteoro passando sobre a Terra. E havia pessoas matando pessoas sem qualquer motivo. E doenças infecciosas. E monstros. E suicídios em massa. E histeria coletiva.
Então a janela do chat de Mia apitou. A noiva deu um pulo de susto. No canto inferior direito havia uma mensagem de Pete, dizendo:
Mia, você está aí? Não tem mais ninguém por aqui.
A garota imediatamente digitou a resposta:
Eu estou aqui. O que está acontecendo?
A fala de Pete veio segundos depois:
Eu não sei. Não existe muita gente por aqui. Do meu chat todo, só estão online você e mais uma garota. Eu acho que ela morreu em cima do teclado.
Mia:
Oh. Eu acordei com todo esse caos. O que eu perdi?
Pete:
Tudo! Eu não sei o exato momento em que as coisas se tornaram uma merda, mas o meu primeiro sinal foi quando a minha vizinha matou o meu gato Ottis. Eu tentei confrontá-la, mas ela pulou do oitavo andar. Então eu me tranquei no meu quarto e tentei chamar a polícia, mas ninguém atendeu. Na internet eles estão falando um bocado de merda. E alguém tentou quebrar as minhas janelas mais cedo, dizendo que eu não poderia me esconder. “Ele é o 1%” foi o que eu pude ouvir.
Mia:
Você sabe dizer o que esse 1% significa? Eu devo ter encontrado uma centena de pessoas mortas desde que eu acordei. Eu só não sei onde o Ethan está.
Pete:
Algumas pessoas desapareceram mesmo, eu li. A maioria crianças. 99% dos que não desapareceram morreram ou ficaram loucas. Restamos nós. 1%.
Mia:
Eu preciso ir até onde você está. O Ethan não está na fazenda.
Pete:
Ah, hoje é o grande dia! Eu diria “desculpe por não ter comparecido”, mas nessas circunstâncias creio que tenha sido a melhor coisa. Eu não sei se é uma boa ideia você vir até aqui, Mia.
Mia:
E por quê? Eu estou desesperada.
Pete:
Por que eu estou começando a sentir uma raiva incontrolável de você. Como se eu fosse capaz de enfiar uma faca no meio da sua barriga e rasgar sua carne até a virilha.
Mia afastou-se do tablet no mesmo instante, sentindo uma onda de eletricidade passar por todo o seu corpo. O isolamento, a solidão e o pânico pareciam capazes de esmagá-la. Mia nunca fora uma pessoa religiosa, mas naquele momento ela lembrou-se do livro de Apocalipse, o último da bíblia. Quando era pequena, a garota sentia-se aterrorizada com a ideia do fim do mundo. Do céu vermelho, das criaturas monstruosas, das doenças e morte.
E então Mia ouviu batidas na porta.
“Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida.”
— (Apocalipse 2:10)
Fim.
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