Something About December
1 Flocos de Neve
Notas iniciais
― Mamãe... Eu não gosto desses enfeites. – a pequena criança, de cabelos negros desgrenhados, encarou a mãe, agitando um minúsculo pingente em formato de floco de neve – Eu queria coloridos!
― Yuuki! – Natsu a repreendeu baixinho, gesticulando para que a pequena se calasse.
O Dragneel, que ajudava Erza a dispor os pratos à mesa, praticamente correu para silenciar a garotinha.
E, como em todos os anos anteriores, um silêncio mortal se abateu entre os três... Porque aquilo, com certeza, a magoaria. Mas Yuuki, num tom levemente arrogante, apenas mostrou a língua e se virou de costas para o tio... Que suspirou profundamente e mordeu levemente os lábios, desviando o olhar da menina – que era assustadoramente igual a ele –, olhando para o lado de fora. Porque logo iria chover...
E Erza, que carregava o enorme peru de Natal, teve que segurar a bandeja mais forte... Para não entrar em choque. Porque era um acordo implícito entre todos da guilda: jamais tocariam novamente no nome dele... Não, pelo menos, até que ela voltasse ao normal. E Juvia não estava...
Mas a pequena criança de olhos azuis expressivos não sabia disso. Curiosa como sempre, não entendia porque aqueles ínfimos pedaços de gelo podiam ser importantes. E, embolada num pisca-pisca parcialmente aceso, abaixou-se até encarar o rosto da mãe.
― Mamãe... – chamou ainda brava, tentando tirar sua mãe do transe. A casa dos outros tinha enfeites coloridos, então por que todo mundo ali parecia tão ofendido? Natsu e Erza a encaravam com ar reprovador, mas como sempre Yuuki deu de ombros e continuou – Mamãe!
E então, para a surpresa de todos, Juvia sorriu. Acariciou os cabelos da filha, ajeitando-a em seu colo.
― Mamãe gosta deles... – ela pegou um dos flocos em suas mãos, sorrindo, e o colocou contra a luz – Olha, vem ver...
E a criança, por mais que olhasse exatamente para onde a mãe olhava, não conseguia ver absurdamente nada de diferente. Era apenas um enfeite velho de gelo, nada mais... Mas, para sua mãe, era diferente. O amor com que ela olhava aquele pequeno objeto... Era como se a coisa mais linda do mundo estivesse ali.
― Esses floquinhos foram o presente mais especial de todos, Yuu... Junto com você.
― Por quê? – ela perguntou, descontente por saber que ela, o presente mais especial de todos, concorria com pingentes sem graça como aqueles.
― Você quer mesmo saber? – instigou a criança, que se jogou sobre o colo dela e sorriu.
As histórias de Natal de Juvia eram mirabolantes, e contavam sobre tempos em que dragões criavam crianças e pessoas nasciam com um tipo de magia... Que a criança adorava. Mas uma história em especial jamais fora contada...
― Juvia, você não precisa... – A voz da ruiva soou trêmula demais para conseguir apoiar a amiga. Porque ninguém estava pronto para ouvir aquela história. Era cedo demais... Recente demais.
― Tudo bem, Erza... – Juvia continuou sorrindo, e tocou a mão subitamente gelada em seu ombro – Ela precisa saber. – e virando-se para a criança, iniciou a história – Então, Yuu-chan... Lembra da última história que mamãe te contou?
― A dos magos maus que colocaram rostos no mundo pra acabar com a magia? – ela questionou, fazendo uma careta para deixar claro que não gostava dos vilões.
― É... – ela sorriu; definitivamente, a neve era realmente filha do gelo... – Quer saber o que aconteceu no final?
― Conta da parte do pelado bonitão, então! – a pequena saltou do colo da mãe, empolgada.
E os outros, que tinham sentado para ouvir, rapidamente começaram a rir. Encaravam-se, como se compartilhassem lembranças de outros tempos, e como se o apelido do pelado bonitão realmente viesse a calhar.
― Você sabe que o final pode ser triste, não é? – a garotinha assentiu, um pouco preocupada. Não gostava de saber que aquela era a última história sobre a guilda Fairy Tail, um pelado bonitão chamado Gray e uma maga de chuva. Mas, mesmo assim, queria saber o final.
― E então...
E, quando Mard Geer abriu o livro, tudo ficou claro. O final... Era o início. No E.N.D. estava guardada a magia Una... E ela, como se suspeitava, era a ausência. A falta de luz, de amor, de vida. Era uma nuvem negra, uma concentração absurda do pior que havia no mundo. E, com seus sussurros, possuía lentamente a mente de cada mago... Enlouquecendo-os... E obrigando-os a se matar.
A criança se encolheu no colo, tentando não deixar o medo ficar evidente demais. Mas, para o seu azar, a a mãe a encarou... E, com muitos 'por favor', pediu para que Juvia continuasse. Porque, Yuuki sabia que tinha que ouvir. Aquela era a história principal... O começo do fim.
E o príncipe do gelo – ou como seu tio prefere, o cueca congelada – ainda resistia. Ele e a maga d’água faziam o possível para não ouvir os sussurros, para não se deixarem absorver pela nuvem, mas... Pouco a pouco, viam seus amigos caminharem para a escuridão.
― Fire!* – o príncipe gritou – e Natsu murmurou ao fundo ‘Por que meu nome é tão gay?’, mas isso não vem ao caso agora – mas o filho do dragão não ouvia – Ame*, não se mova! Eu vou-
― Não vá, Ouji-sama*.. – ela sussurrou, segurando-o pelo punho. Mas sabia que suas súplicas não adiantariam... Gray amava demais o idiota do seu tio para deixá-lo ir embora.
― Natsu! – gritou, gritou, gritou... Mas ele parecia atraído pela escuridão.
E Gray foi atrás dele. Tentou levar o escudo com ele, mas não tinha magia o suficiente para sustentar a enorme bola que protegia ele e Juvia. Pediu perdão para a mulher e se atirou do lado de fora... Correu atrás desse rosado idiota que, por ser um filho de dragão, estava muito mais perto da escuridão do que imaginava.
‘Tio idiota’! A garota murmurou para Natsu, que mostrou os punhos e mandou que ela se aquietasse. Porque Juvia já estava com a voz embargada... E para o rosado, aquele não era exatamente o momento mais fácil da história. Ser salvo pelo rival era doloroso... Era insuportável a dor de ter perdido o melhor amigo.
E, conforme o E.N.D. ia consumindo o mal das pessoas, continuou crescendo... E criou mãos, e arrastou pessoas à força para o seu interior... E muitos magos, muitos humanos, a natureza... Tudo iria morrer se o mestre não intervisse. E foi o que ele fez. E, na última transmissão de Wakaba antes de ser sugado, disse em alto e bom som que todo mundo da Fairy Tail tinha dez minutos para voltar às ruínas da guilda...
Só que nós... só que nós... – Juvia limpou a garganta, respirando fundo numa falha tentativa de organizar seus pensamentos – Só que Gray e Juvia estavam longe demais. Ele perseguia Natsu com tudo o que tinha, e ela se esforçava para manter a magia dele intacta.
― Consegui! – Gray comemorou, empurrando Natsu para dentro da bola de vidro... Só faltava um minuto. Juvia estava com Natsu desmaiado no colo e, como ele era pesado demais e nenhum dos dois tinha mais forças, nem tentaram correr.
E, como Juvia nunca tinha visto antes, Gray sorriu. Sorriu mesmo... Mesmo. Ela já devia saber que tinha algo errado – porque Gray Fullbuster era orgulhoso demais para demonstrar qualquer emoção mais profunda, como você – mas, naquele momento, ela estava encantada. Ele mostrava um sorriso cheio de dentes, de quem estava orgulhoso de si mesmo pelo que fez e iria fazer.
― Ei, Juvia... – ele sussurrou, chegando bem pertinho dela – Obrigado pelo presente de Natal.
― Presente? – ela perguntou. Não se lembrava de ter dado nada a ele, até porque o natal apenas começaria algumas horas depois... Mas ele sorriu, beijou a testa dela, e acariciou a barriga ainda lisa.
― Diga à Yuuki que eu sou o cara mais lindo do mundo... E o mais forte também... – ele sorriu orgulhoso, beijando a mulher com ternura – E que eu vou estar sempre com ela...
Juvia limpou as lágrimas, já sem conseguir manter a aparência de história para a menina. Não se lembrava dos nomes fictícios, dos outros acontecimentos, de mais nada. Estava reprisando aquele momento... E sentindo a dor como se fosse a primeira vez.
E, ao final de tudo, ele mandou Juvia fechar os olhos e abrir a mão.
― Aqui... O meu presente. – E fez uma estrela... Uma estrela bem grande e bonita. – Feliz natal, Ju.
Ela ia reclamar, brincar que ele tinha que dar um presente decente pra ela, mas... Gray saiu da bolha. E, por mais que Juvia gritasse, que pedisse... Ele não voltou. E ela achou que fosse morrer... Na verdade, ela quis muito morrer com ele... Porque Gray era – na verdade, ele ainda é, com certeza – o amor da vida de Juvia. Ela não sabia o que seria da vida dela sem ele... Mas ele queria que Juvia ficasse com você, Yuu-chan...
E, com trinta segundos restantes, ele fez uma magia nova... – Juvia juntou as mãos e, como se ouvisse aquelas palavras pela primeira vez, recitou – Ice Make: Snow. E virou o nosso escudo. Camadas e camadas de floquinhos de neve juntinhos, todos coladinhos... Que deixaram que a mamãe visse a Fairy Sphere. Uma luz bem forte, que fez o nosso escudo virar um arco-íris... E que fez os floquinhos do papai se despedaçarem... Mas deixou a Yuu-chan, a mamãe e o Natsu vivos...
E a garotinha, orgulhosa demais para chorar na frente de todos, correu até a lareira e colocou o delicado pingente sob a luz do fogo. Viu cada reflexo, cada sorriso, cada possibilidade que o pai – por mais estranho e louco que fosse – imaginou para ela... E, como uma menina de dois anos emburrada por ter sido abandonada, ela atirou o enfeite ao fogo.
― Yuuki! – Erza gritou, subitamente enraivecida com o desrespeito da garotinha... Mas, para a surpresa da pequena, o pingente não derreteu. Não se tornou água, não entortou, não mudou nem um pouco. Continuava simples, translúcido e brilhante – como o sorriso do príncipe de gelo, ou melhor, do seu pai.
― Mamãe... O papai é um idiota, idiota! – ela gritou, chorando – Yuuki não queria desse jeito... – apontou para o enfeite ainda intacto com o fogo – Yuuki queria que o papai estivesse realmente aqui.
E Juvia sorriu. Acariciou os cabelos negros da pequena, deixando que ela chorasse e reclamasse do pai... Porque aquele era o jeito dela – deles – de amar.
Gray nunca estivera tão presente... Nela.
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