Someone, Somewhere in Summertime
2 2. The Boy With The Thorn On His Side
Notas iniciais
Se lhe questionassem se era um homem ansioso, Ukai diria com toda a certeza que não. Era um homem de ideias bem definidas (ou como alguns diriam, teimoso) e quando temos convição que as coisas que fazemos estão corretas não há espaço para duelar demasiado no que foi feito ou como foi feito. Se lhe perguntassem se era arrongante, ele daria de ombros e concordaria. Talvez fosse arrogante.
Num mundo onde a honestidade nem sempre é aceite, a arrogância é a melhor máscara a ter.
Quando decidiu largar o seu trabalho e toda a vida que tinha tentado arquitetar e investir em reeconstruir o velho orfanato em ruínas, que nada mais era que um velho edifício em forma de palacete de séc.XVIII e com tamanho de casa de século XXI, precisou de ignorar todos os comentários e conselhos bem intencionados, fazer as suas malas, empacotar tudo o que tinha no seu apartamento da cidade e voltar para a sua terra natal, como um cão com o rabo entre as pernas a voltar para o dono.
O que tinha de arrogância, tinha de orgulho.
Talvez tivesse sido esse o comentário do seu avô quando depois de quase 13 anos sem ver o neto este lhe apareceu à porta numa chuvosa tarde de terça-feira, sem aviso, sem um pedido, sem nada. Ikkei Ukai olhou para o seu neto, a sua expressão neutra não denunciando por um segundo que fosse os seus pensamentos. Keishin abriu a boca para falar. Para cumprimentar? Para pedir desculpa? Para pedir ajuda? Nem ele próprio saberia, porque as palavras não lhe chegaram a sair. O velho deu um passo ao lado e fez um gesto para ele entrar em casa.
Casa.
Ukai não se mexeu.
"Vô-"
"Está demasiado frio para usar um casaco fino, seu idiota." , deu um estalido irritado com a língua e virou-lhe costas para voltar para dentro, aguardando que o mais jovem o seguisse. Ao notar que não o fazia, olhou pelo ombro e franziu o sobrolho, "Vais ficar aí especado? Se gripares quem é que vai apanhar as ervas do casario?" , fez um gesto com o queixo como se apontasse na direção do "Palacete" e Ukai engoliu em seco, franzindo intensamente o sobrolho, na esperança que as lágrimas teimosas (arrogantes e orgulhosas) não caíssem pelas suas bochechas.
"Mais batatas, Ukai-san?"
O loiro quase saltou da cadeira com o susto e quando toda a mesa olhou na sua direção, o que não era difícil considerando que estava sentado na ponta, sentiu as bochechas a corar e pigarreou levemente, encarando Sugawara, que segurava a travessa e depois de pestanejar confuso lhe sorriu simpateticamente.
"Não, obrigado.", murmurou num resmungo.
Baixou a cabeça e concentrou-se no seu prato, mais arrumava o arroz de um lado para o outro do que o comia. A presença de Takeda provoca-lhe desconforto.
Quer dizer, o problema não era Takeda propriamente, mas sim o que ele representava. Na verdade, o homem não era o que ele tinha esperado de um inspetor. Imaginou alguém mais velho, mais formal, mais rígido e menos dado à confraternização com as crianças. Takeda era calmo e parecia ter paciência para as perguntas de Hinata e Hachi sobre o seu trabalho e respondia como podia com delicadeza ("Não, não tenho uma cama no escritório. Não, não levo brinquedos aos meninos.") . Todos tinham ficados ansiosos com a visita e com o futuro do orfanato caso corresse mal. Uns reagiram melhor que outros, claro. Hachi teve dores de barriga, Tsukishima não teve reação, Hinata fez mil perguntas, Kageyama ficou a manhã toda fechado no quarto…
Mas por mais cordial que Takeda pudesse estar a ser, Ukai sentia-se ansioso e encurralado, como se tudo o que estivesse a fazer estivesse a ser analisado. E talvez estivesse mesmo, porque notava a forma como Takeda analisava os espaços por onde passada: as rachadelas na parede, as cadeiras descasadas de várias cores e formatos, uma colher meia dobrada que era a favorita de Noya, as calças com remendo no joelho de Yamaguchi.
Ukai precisava de tudo perfeito: o "Palacete" foi todo limpo e arrumado, o jardim aparado, as partes feias escondidas.
Mas Ukai sabia que Takeda devia ter lido sobre o seu passado e isso, toda essa parte feia, não era tão fácil de varrer para baixo do tapeté.
Apesar de Hinata, Hachi, Noya e Tanaka fazerem conversa com o inspetor, sendo por vezes acompanhados por Sugawara, o resto dos rapazes mantinha-se em silêncio. Yamaguchi e Kageyama era já habitual serem de poucas palavras, Tsukishima e Daichi mal escondiam a sua expressão de desgosto: o primeiro de desdém e o segundo de desconfiança e um instinto de proteção.
(Ukai reparou que por mais que uma vez Sugawara dava um pontapé por baixo da mesa no moreno a ver se ele parava de franzir o sobrolho.)
O diretor do orfanato sabia que o pior estava para vir depois das crianças irem dormir. Teria de ter uma reunião com o assistente.
"Takeda-san!", Hinata chamou e balançou as pernas na cadeira, "Posso ensinar-te a jogar volley amanhã?"
"Hinata!", Ukai resmungou entre dentes pela milésima vez, porque pela milésima vez o ruivinho tentava convencer Takeda a jogar.
Takeda sorriu nervoso, "Eu não sou muito atlético."
"É, podemos ver." , Tsukishima disse entre dentes e Yamaguchi deu um risinho, mesmo quando Sugawara, ao seu lado, lhe deu uma cotovelada para ele se calar.
Hinata meteu outra batata na boca e não ligou ao comentário, continuava com o olhar fixo no assistente, "Nawm waz wal eu wozo-"
"Não se fala de boca cheia." , Kageyama disse, de sobrolho franzido e mordeu também uma batata.
Hinata engoliu de uma vez o que tinha na boca com um "glup" dramático que fez Takeda quase por instinto pegar no copo de água.
"Eu não estava de boca cheia, Bakayama!"
"Estavas, eu vi!"
"Como viste se a boca estava fechada?"
"Não estava fechada porque estavas a falar."
"Eu falo de boca fechada!"
"Isso não faz sentido!"
"Tu que não fazes sentido-"
"Já chega." ,Daichi resmungou, "Tenham modos em frente às visitas."
Kageyama endireitou-se, como se subitamente se tivesse lembrado do estranho que estava ali e voltou a encolher-se, baixando o olhar para o prato.
Hinata fez um "humf!" indignado e voltou a sua atenção para Takeda, sorrindo abertamente como se nada se tivesse passado, "Não faz mal que não sejas ateltico-"
"Atlético."
Hinata olhou para Tsukishima por um breve momento e mostrou-lhe a língua em resposta à correção.
"Eu não sei se seria um bom jogador. Além de pouco atlético, não sou muito jovem." , Takeda disse com um breve sorriso e o ruivinho abanou com a cabeça, "Não tem problema! O Ukai-san também é velho."
"Hinata!"
"Que foi?!" , encarou o mestre do orfanato com alguma indignação, "É verdade! Tens mais de trinta anos, queixas-te a levantar do sofá-"
"Eu não me queixo-"
"Os joelhos dele estalam." , acrescentou Kageyama e Noya assentiu, "E ele adormece no fim do almoço."
"E fica a resmungar quando está a chover."
"Ou sol."
"Ou demasiado vento." , Sugawara disse mal contendo um sorriso e Ukai encarou-o, "Tu estás do lado deles?!"
"Eles têm razão, trinta anos é uma idade muito avançada."
Ukai balbuciou uma respota e fez rir os rapazes. Para alguém que nem vinte anos tinha, realmente a decada seguinte parece algo distante. Para quem já tem trinta, parece que o tempo passou a voar.
Há quem diga que a década dos vinte são os melhores anos da vida, mas Takeda nunca concordaria com essa afirmação. Baixou os olhos para o prato, mas não via a comida. Via, em vez disso, os últimos dez anos dispostos em pastas de arquivos suspensos e luzes fluorescentes de escritório. Ukai respondeu de volta a uma das provocações que um dos rapazes fizera e deu uma risada rouca e genuína, mas para Takeda, aquele som era um lembrete doloroso de tudo o que ele havia silenciado em si mesmo.
Ele pensou na década dos seus vinte como um túnel. Enquanto outros jovens cometiam erros, viajavam sem destino ou se permitiam o luxo de não saber quem eram, Takeda estava demasiado ocupado a ser o "aluno prodígio", o "filho perfeito", o "funcionário exemplar", o homem que nunca chegava cinco minutos atrasado. Ele sacrificara a espontaneidade no altar de uma carreira que, agora que ele a tinha, revelava-se uma engrenagem fria e indiferente aos seus ideais.
O silêncio interno de Takeda foi subitamente estilhaçado por um estrondo: Nishinoya e Tanaka bateram com as mãos na mesa enquanto apontavam para os cabelos de Ukai, "Já viram?!" berrou Nishinoya, a voz a saltar duas oitavas. "O velhote está a ficar com as orelhas da cor do molho de tomate! É a crise dos trinta a bater à porta!"
"Não o pressiones tanto, Noya-san," acrescentou Tanaka, com um sorriso de escárnio teatral e uma mão no peito. "A esta idade, o coração já começa a dar sinais de cansaço. Ele precisa de uma sesta depois do almoço e de uma manta nos joelhos!"
Hinata, com as bochechas cheias de arroz, soltou uma gargalhada engasgada, enquanto Yachi, ao seu lado, alternava entre rir baixinho e olhar apavorada para Ukai, como se esperasse que ele entrasse em combustão espontânea a qualquer momento. Kageyama, ignorando a etiqueta, aproveitou a distração para tentar roubar um pedaço de carne do prato de Hinata, o que deu início a uma luta silenciosa de pauzinhos que quase derrubou o copo de água.
Do outro lado da mesa, o contraste era absoluto. Tsukishima ajeitou os óculos, os olhos a brilharem com malícia.
"É fascinante, na verdade," comentou ele, com aquele tom de voz arrastado que fazia qualquer um sentir-se pequeno. "A forma como o metabolismo abranda e a irritabilidade aumenta. É quase um caso de estudo sobre a decadência humana, não achas, Yamaguchi?"
"Tsukki! Não digas isso..." Yamaguchi tentou repreender, mas o sorriso nervoso denunciava que ele também estava a achar piada ao estado aflito que Ukai se encontrava.
Sugawara, sempre o mestre do caos disfarçado de gentileza, inclinou-se para a frente, colocando a mão no ombro de Ukai com uma falsa compaixão, "Vá lá, pessoal, tenham respeito. O Ukai-san já não tem reflexos para estas brincadeiras. Se ele se enerva, ainda lhe dá uma dor ciática."
Até Daichi, que habitualmente era a voz da razão, limitou-se a tapar a boca com o guardanapo para esconder um riso seco, os ombros a tremerem enquanto observava a desgraça do mestre do orfanato.
Ukai sentia o calor subir-lhe pelo pescoço, tingindo-lhe o rosto. Ele tentou manter a postura, mas a provocação conjunta era demasiado eficaz. Respirou fundo, os punhos cerrados sobre a mesa, e soltou um resmungo gutural que soou exatamente como o de um avô rabugento a quem tinham acabado de roubar o jornal.
"JÁ CHEGA!" rugiu ele, embora o brilho nos olhos o traísse. "Cambada de pirralhos ingratos! Se eu oiço mais uma palavra sobre idades ou dores nas costas, ponho-vos todos a lavar a loiça com uma escova de dentes! Eu ainda vos dobro ao meio antes de me dar qualquer dor ciática, ouviram?!"
Ele cruzou os braços e sentou-se com um baque pesado, resmungando palavras impercetíveis sobre a juventude que estava perdida e falta de mods, enquanto os rapazes explodiam numa nova vaga de gargalhadas. Para Takeda, que observava tudo de fora, aquela explosão de vida era o oposto da ordem estéril que ele fora treinado para avaliar; era uma desordem magnífica que ele, tragicamente, sentia que já não tinha idade para acompanhar.
Takeda sentiu um calafrio ao desviar o olhar para Ukai, que agora tentava, praticamente sem sucesso, recuperar a sua autoridade enquanto Sugawara servia mais arroz aos mais novos com uma naturalidade desarmante. A falta de etiquetas e de títulos formais ali não era um sinal de desleixo, mas de algo muito mais perigoso para o sistema: proximidade. Nos manuais que Takeda decorara, a relação entre tutor e órfão devia teruma distância clínica, uma barreira de autoridade que garantisse a ordem através da submissão. Ali, porém, o respeito não era imposto pelo medo da punição, mas cultivado por uma lealdade que a burocracia nunca seria capaz de compreender.
Takeda franziu ligeiramente o sobrolho, uma expressão quase impercetível que escondia a sua confusão. Olhou de relance para Hinata, que gesticulava de forma expansiva enquanto explicava algo a Kageyama, já carrancudo, e depois para a tranquilidade com que Yamaguchi e Yachi partilhavam o espaço. Era óbvio, demasiado, que aquelas crianças estavam confortáveis. Não havia ombros encolhidos, olhares receosos ou o silêncio pesado que costumava habitar as instituições estatais.
Se o objetivo de qualquer orfanato era o bem-estar dos seus tutelados, aquele lugar não deveria representar problema para o Ministério, pelo menos não um problema suficiente para enviarem uma inspeção tão afincada. Porque raio, então, existia um interesse tão grande em escrutinar cada canto daquela casa? O conforto ali era tão evidente que a própria investigação parecia um erro administrativo grosseiro. Contudo, Takeda sabia que o Governo não cometia erros desse tipo por descuido. Se o sistema olhava para aquele refúgio com suspeita, não era por duvidar da sua eficácia, mas sim porque aquele conforto era, de alguma forma, uma anomalia que o Ministério não sabia como processar ou permitir.
Foi então que a peça final do puzzle encaixou na sua mente, trazendo consigo um sabor metálico de desilusão. Ele percebeu, com uma clareza cortante, que o Ministério não o enviara para garantir que aquelas crianças estavam a ser bem cuidadas. O objetivo nunca fora a funcionalidade ou o bem-estar dos miúdos. O interesse devia ser puramente económico.
Aquele orfanato, com o seu rácio reduzido de crianças por tutor e a insistência de Ukai em proporcionar uma vida que se assemelhava a uma família real, era considerado um luxo desnecessário nas contas do Estado. Para o Governo, o lugar era "caro demais para ser mantido". Era um investimento sem retorno financeiro imediato. Takeda fora instruído para encontrar falhas técnicas não para as corrigir, mas para as usar como justificação para o encerramento.
Se ele reportasse que a gestão de Ukai era "informal" ou "pouco profissional" devido àquela proximidade quase familiar, daria ao Ministério o pretexto perfeito para transferir os rapazes para centros de acolhimento massificados que nada mais eram que armazéns humanos onde o custo por cabeça era reduzido ao mínimo, e onde a individualidade era sacrificada em nome da eficiência orçamental.
"Eles querem que eu escreva que este afeto é uma ineficiência," pensou Takeda. Ele fora treinado para ser o instrumento de um sistema que via a felicidade de uma criança como um excedente orçamental que devia ser cortado. Enquanto observava o caos vibrante à sua volta, Takeda compreendeu que a sua suposta neutralidade era, na verdade, o mecanismo que o Estado usava para transformar vidas em dívidas liquidadas. Ele não estava ali para auditar um orfanato; estava ali para pôr um preço no que deveria ser impagável.
Voltou a baixar o olhar,sentia um nó no estômago. No seu quarto de hóspedes no anexo tinha uma pasta de cabedal com todos os documentos relacionados com o processo dos miúdos e de Ukai. Ele tinha só lido pela diagonal no caminho para o orfanato (com tanto nervosismo, tinha enjoado e a ler no comboio) e sabia que era uma invasão mito grande da privacidade dos miúdos. Pior que isso, era perceber como o Governo os tratava como passivos financeiros.Hinata não era um rapaz com energia a mais, era o "Processo 410", com um historial de instabilidade familiar e défice de atenção. Kageyama era apenas um registo de "dificuldades de socialização e agressividade latente"…
O ressentimento de Takeda começava a borbulhar. Ele passou anos a fio a queimar as pestanas nos manuais de psicologia e assistência social, acreditando que a sua ascensão na hierarquia governamental o iria permitir a ajudar estas vidas. Em vez disso, deram-lhe uma régua e um carimbo para medir a viabilidade económica de lares como aquele.
O tilintar de uma colher contra a cerâmica foi o que finalmente rompeu a dissociação de Takeda. O som, vindo da ponta da mesa onde Tsukishima limpava o resto da sua sobremesa, trouxe-o de volta àquela sala de jantar barulhenta.
Takeda pestanejou, sentindo os olhos secos. Por um breve instante a transição entre os seus pensamentos sombrios sobre auditorias financeiras e a realidade vibrante e barulhenta ali à sua frente foi vertiginosa. Ele percebeu sobressaltado que tinha ficado demasiado tempo imóvel, com o olhar perdido num ponto vazio da toalha de mesa remendada.
Sentiu-se observado e ao levantar a cabeça, os seus olhos encontraram os de Ukai. O diretor do orfanato não estava a rir, nem a resmungar com os rapazes. Apenas estava encostado ao espaldar da sua cadeira, observando o inspetor com uma intensidade que Takeda achou desconcertante.
"Takeda-san? Está tudo bem? Parece que viu um fantasma," a voz de Ukai era baixa, mas cortou o ruído da mesa.
Takeda sentiu o coração falhar uma batida. Esforçou-se por esboçar um sorriso que, embora forçado, esperava que parecesse apenas cansaço da viagem.
"Peço desculpa," disse Takeda, a voz um pouco rouca. "Apenas... perdi-me em pensamentos. Foi um dia longo."
"O senhor está muito pálido," comentou Hinata, inocente. O ruivinho inclinou o rosto em jeito de confusão, "É do estômago? O Ukai-san diz que quando as pessoas ficam com essa cor é porque têm gases ou porque estão a pensar em coisas chatas."
"Hinata, por amor de Deus..." Ukai suspirou exasperado. Tinha de ter mais cuidado sobre o que dizia à frente daquela criança.
"Ou então de susto." , disse pensativo e logo endireitou-se, "Por falar nisso!", exclamou, já a saltar para o próximo tópico com a velocidade de um relâmpago. "Takeda-san! Tem de ter cuidado se for ao sofá da sala, porque o Kuroo, o gato vádio que às vezes dorme aqui, sabe? Tem o hábito de caçar coisas. Ontem ele deixou uma lagarta enorme, verde e cheia de pelos, mesmo em cima da almofada onde o Ukai-san se senta! Ele deu até gritinho-"
"Eu não me sentei!", protestou Ukai. "Eu vi a lagarta antes! Tive o instinto de-"
"O instinto foi o grito que até acordou a Yachi no andar de cima," atirou Tanaka, a rir-se abertamente enquanto começava a empilhar os pratos vazios.
Takeda riu. Desta vez, foi um som mais genuíno. A imagem de Ukai, um homem que parecia um delinquente, a saltar por causa de uma lagarta era o tipo de detalhe que nunca apareceria num relatório oficial. O Ministério não queria saber de gatos chamados Kuroo ou de lagartas em sofás. Eles queriam metros quadrados e relatórios de contabilidade.
Ukai observou o riso de Takeda, mas a sua expressão permaneceu cautelosa. Ele levantou-se, a cadeira arrastando-se no chão de madeira com um som áspero.
"Muito bem, equipa. O espetáculo acabou," anunciou Ukai, batendo as palmas das mãos. "Daichi, Suga, podem coordenar a limpeza? Quero esta cozinha a brilhar. E nada de lutas com esponjas, ouviste, Nishinoya?"
"Quem, eu? Nunca!", exclamou o rapaz mais pequeno, cruzando os braços em indiganção.
"Vou confiar em vocês," disse Ukai, embora o seu tom sugerisse que não confiava minimamente. Depois, virou-se para Takeda. O seu tom mudou para algo mais formal. "Takeda-san... se já terminou, talvez queira acompanhar-me até ao meu escritório? Podemos tomar um café e... bem, falar sobre o que realmente o trouxe aqui."
O convite não era aberto. O momento da verdade tinha chegado. Takeda levantou-se, sentindo os joelhos a estalar. "Sim, claro. Um café seria excelente."
Enquanto seguiam pelo corredor estreito, o som da barulheira na cozinha foi diminuindo, substituído pelo estalido rítmico da madeira sob os seus passos. O "Palacete", como lhe chamavam, era uma casa que gemia com a idade, mas que vibrava com a vida de quem lá morava. Takeda notou as fotos emolduradas nas paredes e não eram fotos de propaganda institucional, mas fotos desfocadas de aniversários, de jogos de voleibol no jardim, de joelhos esfolados e sorrisos sem dentes.
O escritório de Ukai ficava no terceiro piso, no que seria um sotão, ao fundo o corredor, uma divisão pequena e a com o cheiro de tabaco antigo (embora ele claramente tentasse esconder o vício perto das crianças) e papel velho. As estantes estavam sobrecarregadas com livros de desporto, manuais de agricultura e uma quantidade impressionante de dossiers desorganizados.
Ukai apontou para uma poltrona de cabedal gasta e com rasgões cujas molas pareciam ter visto dias melhores. "Sente-se. Vou num instante buscar o café."
Takeda sentou-se (a poltrona chiou toda com o seu peso), sentindo o silêncio do escritório. Ali, longe da energia contagiante das crianças, a realidade do seu propósito ali voltou a pesar-lhe nos ombros. Ele olhou para a secretária de Ukai. No centro, havia um pequeno cinzeiro escondido por baixo de uma pilha de faturas de eletricidade e um desenho feito à mão por uma criança (no canto estava assinado YACHI em letras trémulas) que mostrava Ukai com o cabelo espetado, segurando uma bola de voleibol com as riscas vermelhas e verdes e a boca em forma de "^" como se estivesse amuado.
A mesa estava apinhada de papeis , alguns em resmas com post-its coloridos a espreitar das beiras. Alguns desses post-its, Takeda notou, tinham pequenas capivaras e pandas desenhados com corações.
Isso fez Takeda sorrir levemente.
Ukai voltou minutos depois com duas canecas e entregou uma a Takeda e sentou-se na sua cadeira.
"Não é café de máquina , espero que não se importe," disse Ukai, dando um gole longo na sua caneca. Ele estudou Takeda por cima do rebordo quando este abanou com a cabeça e agradeceu a bebida.
"Então, Takeda-san. Vamos saltar a parte em que o senhor finge que está aqui apenas para ver se temos saídas de incêndio suficientes. Eu sei como o Ministério funciona. E sei o que eles pensam desta casa."
Takeda segurou a caneca quente com as duas mãos, procurando conforto no calor. "Eu…"
"O senhor leu o meu ficheiro," Ukai interrompeu antes Takeda o tentasse demover, com uma voz desprovida de rancor, mas cheia de uma honestidade brutal. "Sabe que eu não era a primeira escolha para isto. Sabe que o meu avô ajudou a fundar este lugar com o dinheiro do próprio bolso e que eu o herdei como quem herda uma maldição que se transformou em... bem, na minha vida. O senhor viu os números. Viu que gastamos mais em comida fresca do que em uniformes. "
Takeda baixou o olhar para o café preto. "Sim."
"E o que é que o seu relatório vai dizer?", perguntou Ukai, inclinando-se para a frente e puosando os cotovelos na mesa, as mãos juntas como se estivesse a rezar. A luz do candeeiro de secretária criava sombras profundas no seu rosto, fazendo-o parecer mais velho do que os seus trinta anos. "Vai dizer que somos ineficientes? Que este lugar é um desperdício de recursos porque eu trato estes miúdos como seres humanos e não como estatísticas de reintegração social?"
O silêncio que se seguiu foi cortante. Takeda sentiu o nó no estômago apertar-se. Ele pensou na pasta de cabedal no anexo. Pensou na palavra "Liquidação" que tinha visto sublinhada num dos memorandos internos do Ministério antes de sair da Cidade.
"Ukai-san," começou Takeda, a voz tremendo ligeiramente, mas logo ganhando um pouco firme. Tinha de ter mais confiança no seu trabalho e no seu conhecimento, afinal, foi ele o escolhido para aquela inspeção, "O sistema... o sistema não foi desenhado para pessoas como o senhor. Foi desenhado para a eficiência. E a eficiência é, por definição, cega ao afeto."
Ukai soltou um riso seco e amargo. "Eficiência. É uma palavra engraçada para descrever o ato de arrancar um miúdo como o Kageyama de um sítio onde ele finalmente se sente seguro para o atirar para um centro com oitenta outros rapazes, onde ele vai ser apenas o 'Processo nº qualquer coisa'. O senhor acha que isso é eficiente? Criar adultos partidos para poupar uns trocos hoje?"
Takeda sentiu uma onda de revolta. Sim, ele estava só a seguir ordens, mas não era menos humano. Ele entendia o ponto de vista do mestre do orfanato.
"O que eu acho é irrelevante, a minha função é reportar o que vejo."
"Então o senhor está encurralado tanto quanto nós," murmurou Ukai, voltando a encostar-se para trás.
"Eu vi os perfis dos rapazes," continuou Takeda, "O Hinata, o Kageyama... o sistema vai vê-los como casos difíceis' Insucessos garantidos. O caso de Daichi tem lacunas no sistema que despertaram os alarmes."
"Ah é isso que preocupa o governo?"
Takeda olhou diretamente para Ukai. "Eles esperam que eu escreva que a sua proximidade com eles é pouco profissional. Que a falta de uniformes e de horários rígidos prejudica o desenvolvimento deles."
Ukai suspirou, cruzando os braços. "E o que é que vai fazer, Takeda-san? Vai ser o homem que assina a sentença de morte do Palacete? Ou vai esperar até ao final da inspeção e nos dar uma chance?"
Takeda olhou para as suas mãos. Eram as mãos de um burocrata, limpas, sem calos, sem as marcas de quem trabalhava a terra ou carregava crianças ao colo. Mas, naquele momento, ele sentiu que tinha o poder de um carrasco ou de um salvador.
"Eu nunca fui bom em desporto," disse Takeda, mudando subitamente de assunto, um brilho de determinação a surgir nos seus olhos por trás das lentes dos óculos. "Mas sou excelente com as palavras. E sou ainda melhor a navegar nos labirintos da burocracia estatal."
Ukai arqueou uma sobrancelha, curioso.
"O Ministério quer eficiência.", continuou Takeda. "Eu posso dar-lhes eficiência. Posso escrever um relatório tão técnico, tão denso em terminologia sociológica avançada, que eles vão precisar de um dicionário para o ler. Posso justificar cada centímo gasto como um investimento preventivo em capital humano para redução de custos de criminalidade e assistência social a longo prazo."
Um pequeno sorriso começou a formar-se nos lábios de Ukai. "Pode?"
Takeda ajeitou os óculos na ponta do nariz e pousou a caneca de café na mesa, "Posso ser o inspetor mais rígido que já viram. Posso exigir que o senhor faça melhorias técnicas em coisas que eu sei que o senhor pode fazer, como atualizar os registos médicos ou instalar novos extintores e consigo provar que estou a ser rigoroso. E posso concluir encerramento desta unidade resultaria num prejuízo financeiro catastrófico para o Estado nos próximos dez anos devido à perda de expertise institucional única."
Ukai ficou em silêncio por um longo tempo, pensando nas palavras dele. O homem à sua frente já não parecia o inspetor nervoso e frágil que tinha chegado de manhã. Parecia alguém bem mais resoluto nas suas opiniões.
Ukai franziu levemente o sobrolho,""Isso é uma promessa ou uma ameaça?", perguntou, a voz baixa, mas firme.
Takeda não desviou o olhar. Apenas inspirou fundo, como se já estivesse à espera da pergunta, "É uma explicação," respondeu. "Do meu trabalho."
Ukai soltou um pequeno resmungo, "E o seu trabalho inclui decidir se isto tudo continua de pé ou vai abaixo, inspetor."
"Inclui avaliar," corrigiu Takeda com calma. "E ser honesto sobre o que encontro."
Ukai inclinou ligeiramente a cabeça, tal como Hinata tinha feito durante o jantar, "E o que é que o senhor acha que vai encontrar?"
Takeda deu levemente de obros, "Isso depende," disse. "Se eu encontrar problemas, vou apontá-los. Se encontrar coisas boas, também as vou registar." Fez outra pequena pausa, depois acrescentou,"Se o senhor não tem nada a esconder, não precisa de ficar nervoso."
O silêncio que se seguiu foi mais pesado do que o anterior.
Ukai desviou o olhar por um segundo, passando a mão pela nuca, pensativo. As palavras de Takeda eram demasiado cuidadosas. Não eram de alguém ingénuo. Eram de alguém que sabia exatamente onde pisava.
Moeda de troca, pensou.
Toda a gente tinha uma.
Voltou a encará-lo, de sobrolho franzido.
"E em troca?", perguntou. "O que é que o senhor ganha com isso tudo? Ser... honesto?"
Takeda imitou a expressão de desagrado dele, como se a pergunta o apanhasse desprevenido .
"Eu ganho fazer bem o meu trabalho," respondeu, mas havia algo na forma como disse aquilo que não soava completamente verdadeiro.
Ukai soltou uma pequena gargalhada seca.
"Ninguém faz isto só por isso, por isso diga-me outra vez," continuou, mais suave, quase curioso. "Qual é a moeda de troca, inspetor?"
Takeda olhou para o desenho de Yachi na secretária. Pensou na sua própria década dos vinte, perdida em arquivos e luzes fluorescentes, e no vazio que sentia todas as noites ao chegar a um apartamento silencioso.
"A minha carreira tem sido um túnel escuro, Ukai-san," respondeu Takeda. "Talvez esteja na hora de eu começar a olhar para a luz no fim dele. E, se o Hinata acha que eu não sou demasiado velho para aprender a jogar voleibol... talvez eu ainda não seja demasiado velho para fazer a coisa certa."
Voltou a encarar o diretor do orfanato, mais sério e mais firme, "Eu escolhi esta carreira porque queria ajudar as crianças e é isso que eu quero fazer ao reportar devidamente o que encontro. A única moeda de troca que preciso, é a sua ajuda, diretor, para fazer isso acontecer."
Houve um silêncio de alguns segundos, mais uma vez e Ukai que mais parecia uma estátua começou a mover-se com um sorriso de canto e depois levantou-se e, pela primeira vez, estendeu a mão a Takeda. Não foi um aperto de mão entre um supervisor e um subordinado, mas um pacto entre dois homens que entendiam que precisavam de proteger algo precioso.
"Bem-vindo ao Palacete, Senhor Takeda," disse Ukai, usando o título com um respeito novo. "Espero que o seu café esteja bom, porque vamos ter uma noite muito longa de papelada pela frente."
Lá fora, o som de uma gargalhada de Hinata ecoou pelo corredor, seguida pelo grito de Daichi a mandar alguém ir buscar a vassoura. Takeda sorriu.
"Só Takeda, senhor é o meu pai."
Pela primeira vez desde que tinha chegado ali, o inspetor viu Ukai sorrir genuinamente, "Coincidência, senhor Ukai é o meu avô."
E Takeda entedeu.
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