Capitulo XVII: Despedidas

O amor nunca morre de morte natural. Ele morre porque nós não sabemos como renovar a sua fonte. Morre de cegueira e dos erros e das traições. Morre de doença e das feridas; morre de exaustão, das devastações, da falta de brilho. (Anais Nin)

Uma única rosa branca brincava em seus longos dedos alternando de direções conforme o ritmo de seus pensamentos. Ela se encontrava parada na mesma posição fazia longos minutos, apenas encarando o mausoléu a sua frente, sem pronunciar sequer uma palavra desde que havia chego. Os flocos brancos se espalhavam por todas as partes de seu corpo enquanto ela permanecia com a postura imóvel sentada frente a lapide de sua avó. O tapete de neve que cobria á todas as superfícies – não somente do cemitério como também o restante cidade – transmitia um aspecto mais sereno a paisagem, serenidade essa que ela procurava absorver com o intuito de conseguir reunir as forças necessárias para executar a missão que a tinha levado ate ali.

Seu corpo revelava indícios de que ela finalmente tinha conseguido descansar devidamente durante a noite, suas pernas se encontravam cruzadas, os cotovelos mantinham-se apoiados sobre suas coxas enquanto seus pensamentos oscilaram entre as mais variadas questões.

Os termômetros da cidade deveriam estar marcando por volta dos 10 graus Celsius devido a forte nevasca que tinha acometido OHIO durante aquela madrugada de domingo fazendo com que toda a cidade amanhecesse coberta pelo gelo. Já deveria ser por volta das cinco da tarde, o céu já se encontrava enegrecido ao invés do clássico vermelho-alaranjado que sempre enquadravam as tardes das demais estações, porém durante o inverno eram substituídos pela noite precoce.

Tinha sido um longo fim de semana em Lima, em poucas horas ela pegaria o trem no qual estaria de voltar à Nova York – Já que as vias aéreas estavam interditadas graças ao mal tempo – E por mais estranho que pudesse parecer ela estava incrivelmente animada por seu retorno para aquela loucura urbana.

Sim, poderia ate parecer a mais pura insanidade que a médica estivesse se sentindo daquela forma, afinal mesmo não sabendo exatamente a cercar das circunstâncias presentes que a estariam esperando quando retornasse aos seus rotineiros dias na metrópole, sua tranquilidade se dava pelo fato de saber que ao menos dessa vez as coisas em sua vida estavam tomando uma forma definida. Sem duvida ainda haveria vários obstáculos a serem rompidos para que o restante daquela bagunça emocional fosse finalmente dissipado, porém estava ciente de que o primeiro passado á ser dado como providencia para que esse recomeço fosse possível era exatamente sua libertação das amarras que ainda a ligava tão fortemente ao passado.

Mas antes de tudo, era necessária uma despedida adequada á suas lembranças se a médica realmente quisesse obter sua liberdade. Com isso pode se imaginar que um dos motivos para que ela retornasse ao campo fúnebre estivesse diretamente relacionado aos impactos que aquela mulher – ao qual Santana olhava para á lapide recém-colocada minutos a fio sem esboçar emoção alguma – tinha empreguinado sobre sua atual situação.

Bem a resposta para tal duvida não era tão simples como a morena almejava naquele momento obter, era uma resposta bilateral, isso significava dizer que suas ações sustentavam dois significados que acabavam por seguirem lógicas opostas mesmo possuindo praticamente a mesma significação. Sendo assim mesmo que uma das repostas estivesse diretamente conectada ao perdão a outra oscilava entre a gratidão e o ressentimento. Ou seja, sim, ela estava ali para tratar com sua finada ambuela – por mais sinistro que isso possa parecer – todos os pontos soltos que eram necessários para que conseguisse deixar OHIO sem mais pendências. Porém para que isso se tornasse possível era necessário que Santana tornasse real uma das tarefas mais complicadas entre todas que já vinha tentando realizar.

Na noite anterior, antes de pegar no sono, a latina fez uma promessa para si mesma. Um juramento ao qual consistia basicamente em um recomeçar, um ato de anistia ao passado, uma tentativa juramentada de que suas lembranças não iriam mais interferir em suas decisões, pois mesmo inconscientemente ela tinha conhecimento de que já havia perdoado todas as dores que a dançarina a havia feito passar. Porém para que tudo aquilo realmente funcionasse e, ela tivesse condições de seguir adiante com essa promessa de recomeçar do zero aquela historia de amor era preciso antes de tudo que ela conseguisse se auto perdoar por todos os seus atos e decisões equivocadas.

Tinha chego o momento de dispensar os papéis optativos de quem era o real vilão ou vitima daquela saga trágica de amor, de jogar as mascaras repletas de culpa e piedade, de extinguir os rótulos de certo e errado impostos pela racionalidade e simplesmente deixar com que as lembranças de seus erros fossem lavadas por sua alma. Aquele era o elemento crucial para a verdadeira aceitação daquele recomeço, a garantida de que dessa vez tudo seguiria do modo correto mesmo que não fosse à coisa mais simples de ser realizada. E ela estava disposta a esgotar todas as suas forças se necessário para fazer o que fosse preciso para que o passado fosse selado definitivamente e as promessas da noite passada se encontrassem a salvo.

E era por esse motivo que tinha voltado ao cemitério.

Ela precisava colocar tudo para fora, interpretar respostas que a velha mulher havia levado para o tumulo enquanto procurava as suas próprias conclusões naquele mar de possibilidades infinitas que era sua mente.

A rosa que ate então só tinha servido de distração para suas mãos inquietas finalmente tinha sido deixada junta as demais flores dos buquês que decoravam a cripta, sua expressão se tornou mais suave, mesmo que minimamente, ao perceber finalmente estar pronta para dizer algo e acabar com seu martírio interno.

‘’ Oi, ambuela. ’’ As palavras não eram exatamente as coisas mais fáceis de serem escolhidas naquele momento com isso foram necessários mais alguns minutos para que outra fala sua fosse então pronunciada. ‘’ Bom, se voce estiver me vendo, seja lá de onde voce esteja agora, eu quero que saiba que vim aqui novamente apenas porque preciso te agradecer... ‘’

Suas mãos tremiam de leve enquanto procuravam abrigo dentro do bolso de seu casaco, as luvas de lã eram eficazes apenas para a baixa temperatura não para o súbito nervosismo que tinha tomado conta de seus movimentos. Seu rosto se contraiu em uma careta que quase remetia a surpresa assim que processou sua ultima frase, tinha consciência de ter usado as palavras corretas, mesmo que ainda lhe causasse certo espanto o fato de estar realmente ali para agradecer algo à memória de sua avó.

‘’ Eu sempre me comportei como a garota que não se importa com nada, mostrando ser forte a todos, sendo impulsiva, destemida. Foi à senhora que me ensinou há ser dessa forma, como se não fosse preciso nada além do meu orgulho para impedir que eu pudesse ser abalada! Mas voce estava errada sobre tudo isso e, eu apenas tive o azar de perceber tarde demais que na realidade da mesma forma que eu fingia ser daquela forma a senhora fazia o mesmo. ’’

Seu olhar permanecia indecifrável, sua postura estava tensionada ao máximo enquanto suas pernas se movimentam com uma inquietude crescente. Talvez não fosse o momento certo para aquele passo tão difícil e ela devesse somente dar meia volta e esquecer aquela ideia estúpida de desabafar confissões sobre o tumulo de sua avó enquanto na verdade ela deveria estar se preparando para voltar à Nova York.

A ideia de desistir era tentadora, mas não fazia seu estilo ser negligente com algo tão necessário, ainda mais depois de tanto esforço para concretizar aquela tarefa na qual ela teve de revirar tantas dores e suplicas de seu passado turbulento. Também não era como se fosse uma luta sem causa, ou prêmio, pelo contrario, aqueles olhos azuis se faziam presentes a cada pensamento da Latina apenas para lembra-la constantemente de que não poderia se deixar esmorecer, pois a felicidade que lhe esperava seria sua maior gratificação.

Além disso, mesmo com tantas sensações adversas tentando tomar o controle do rumo de suas ações, era palpável que a cada palavra dita uma parte daquele enorme nó preso em seu esôfago era desfeito. Com isso mesmo que a penumbra cada vez mais tomasse conta do cemitério da mesma forma como todos aqueles pontos negativos o controle de seu corpo, ela conseguiu se desligar de seus pensamentos e estímulos externos deixando que as palavras cumprissem seu papel com maestria.

‘’ Durante toda a minha vida toda eu observei a força com que a senhora encarava o mundo, fazendo o que queria e da forma que desejava, sem se importar com os outros ou com consequências. E sim, eu te imitei, pois mesmo sendo uma droga de aceitar eu sempre soube que a única força que eu possuía se encontrava do lado externo, porque por dentro sempre fui uma fraca. Bem, pelo menos eu achava que sabia quem eu realmente era ate perceber estar apaixonada e finalmente perceber que aquele sentimento se tornou a minha maior força. ’’

Ela respirou profundamente pela enésima vez desde que tinha começado aquele dialogo triplo, entre si mesma, a lembrança de sua avó e o perdão que tanto ansiava alcançar. Havia chegado a hora de ser honesta consigo mesma, suas preocupações sobre consequências a abandonaram, a verdade se fez presente e, mesmo receosa continuou a falar sem em momento algum perceber que já não era mais a única alma viva á escutar aquelas palavras.

‘’ Sim, eu nunca consegui te odiar, mesmo que muitas vezes eu já o tenha tentado. E de certa forma mesmo que não valha apena se agarrar ao orgulho foi exatamente ele que me fez completar a façanha de ate hoje estar respirando. E bem, sim, eu vim aqui para te agradecer por isso, pois mesmo eu tendo demorado tempo demais para entender no final de tudo percebo que essa foi a sua maneira de cuidar de mim. Você me preparou para o mundo e, graças a isso eu ainda posso me considerar viva e com a chance de amar. ‘’ Ate aquele momento ela tinha conseguido com êxito dominar suas emoções, porém ela não pode prever que quando a verdade fosse posta em xeque todas as suas proteções cairiam por terra de forma instantânea. ‘’ Eu não julgo sua fé, não possuo esse direito, ninguém o possui, acreditamos no que nos traz felicidade. E mesmo que não concorde com a enorme parte das coisas que são pregadas como verdade eu realmente espero que nesse momento sua alma esteja em paz. ’’

Sua voz morria a cada palavra pronunciada, a verdade crua jazia na frente de seus olhos. A médica se encontrava ajoelhada, suas mãos apoiadas sobre a neve fofa que cobria a toda vegetação rasteira, seu olhar parecia de certa forma quebrado, sua íris castanha vagava em pontos aleatórios da paisagem enquanto sentia a vazão de emoções descontroladas marcarem seu rosto com seus rastros salgados. Seu interior era algo indescritível, vários estímulos percorriam sua corrente neural, mas ela não parecia atender a nenhum deles. Era quase como se ela tivesse realmente desligada do mundo ficando presa em sua própria bolha de escape.

‘’ S! Você esta bem? ’’ As palavras chegaram tão rápidas quanto sua interlocutora. A dona do casaco vermelho apareceu por entre os arbustos e simplesmente a englobou em um abraço de proporções esmagadoras. Santana arfou surpresa com o contato, mas não opôs qualquer resistência, apenas apertou o corpo da loira contra o seu continuando com toda aquela vazão emocional. Não se teve respostas vindas da morena, ela permaneceu envolvida pelo silencio entrecortado pelo som de suas lágrimas acompanhadas de soluços secos.

Brittany também não voltou a falar, deixaram que seus corpos cumprissem essa comunicação muda, seus longos dedos se perderam na maciez dos fios negros fazendo com que a Latina se aconchegasse cada vez mais contra o seu peito. Por um momento ela duvidou que Santana ainda estivesse acordada, chegando a sorrir com pensamento de que a morena tinha dormido contra seu corpo, mas foi quando os olhos castanhos escuros voltaram a fita-la, reconectando de forma automática seus olhares.

‘’ Obrigada!’’ Com certa relutância a morena se afastou daquele corpo tão acolhedor, ela limpou seu rosto com as luvas que envolviam suas mãos antes de oferecer um sorriso dócil a loira.

‘’ Esta melhor?’’ A dançarina tocou seu rosto suavemente, suas mãos se encontravam sem luvas, mas o toque foi surpreendentemente quente ao ponto de fazer Santana adquirir tons rosados em sua face, deixando em evidencia que se encontrava extremamente corada.

‘’ Sim. ’’ Ela tentou retomar sua compostura, mas foi inútil tentar enviar ordens ao seu corpo, o qual se mantinha entorpecido pelas fortes correntes elétricas provenientes da interação de suas peles, com isso a única ação realizada foi o sorriso involuntário que se destacou por entre seus traços bem desenhados. ‘’ O que faz aqui? Pensei que já tivesse voltado à Nova York. ’’

As duas ainda permaneciam próximas o suficiente para compartilharem o mesmo calor, as mãos da dançarina tremeram levemente quando a intensidade do sorriso da latina se chocou com seus olhos. Ela mordeu o lábio brevemente como se reunisse forças para se concentrar somente nas palavras da médica e não em sua boca carnuda que parecia ainda mais atrativa enquanto ostentava aquele sorriso esplendoroso.

Mesmo demorando mais tempo que o necessário para processar a pergunta e efetivamente responde-la a loira não pode evitar juntar as sobrancelhas ao perceber que não tinha dado aquela informação a Latina na noite passada. Por sua vez a médica apenas deu de ombros enquanto fazia uma nota mental sobre o quanto Lima não tinha mudado no quesito fofoca, afinal quando foi tomar café com seus pais ao amanhecer um de seus tios havia comentado a curiosidade ao chegar da padaria com algumas garrafas de leite.

‘’ Bom, meu voo foi cancelado então voltarei no próximo trem. ’’ Santana vibrou internamente de tal forma que foi necessário todo o seu autocontrole para que ela não começasse a pular de felicidade ou á dançar sua própria versão de comemoração da vitoria em frente à sepultura de sua avó. Claro que, ao contrario do que ela desejava fazer, Santana apenas sorriu de forma branda conseguindo como efeito que desta vez fosse o rosto da dançarina a se encontrar vermelho.

‘’ Como sabia que eu estaria aqui? Porque eu realmente agradeço por ter aparecido. ’’

‘’ Voce acreditaria se eu dissesse que foi apenas meu sexto sentido?’’ A Latina arqueou uma sobrancelha ao ouvir a pergunta feita de forma tão convicta por Brittany, a mesma soltou uma risada leve ao constatar que a morena havia adquirido o costume de sua colega de quarto da faculdade.

‘’ Na verdade eu vi voce saindo da floricultura com aquela rosa e sabia que voce iria precisar de um abraço depois que se despedisse dela. ’’ Sua voz era naturalmente serena, sem deixar de mostrar evidente o ar de preocupação que lhe envolvia. Santana sentiu seu peito apertar ao constatar que os efeitos daquela voz permaneciam os mesmos aos que a preenchia quando ainda eram namoradas durante o ensino médio, em uma mistura sádica de pura felicidade e tristeza.

‘’ Não se preocupe, eu não virei um Serial Killer ou algo do gênero da mesma forma que também não me permiti escutar nada do que conversaram. ‘’ Seus olhos se conectaram outra vez arrancando um suspiro rouco da garganta de ambas que acabou sendo disfarçado por sorrisos fracos. O desejo falando mais alto que a racionalidade, a realidade foi sendo distorcida lentamente enquanto se aproximavam enquanto o único som propagável por entre o vento rarefeito era o som frenético de batimentos cardíacos.

‘’Eu apenas vim para me certificar que voce estava bem. ’’ O vento frio passou displicentemente por entre o espaço de seus corpos, o olhar da morena foi desviado por um momento, algo estava vibrando no bolso de seu casaco –Maldito celular! – pensou com seus próprios botões enquanto olhava no display encerrando a tentativa de chamada, desligando o aparelho em seguida.

‘’ Acho que esta na hora de irmos, ou perderemos o trem. ’’ A dançarina lhe ofereceu um sorriso amarelo ao perceber que suas intenções estavam pareadas, poderia ate ser invenção de sua mente apaixonada, mas algo dentro de si lhe dizia claramente que todos os seus sentimentos e vontades eram recíprocas.

‘’ Eu tenho de ir, adeus abuelita. ’’

Seu olhar se voltou aos azuis enquanto sua cabeça se inclinava brevemente em um aceno afirmativo. A loira acentiu, seguindo lado a lado com o corpo envolvido no casaco negro de botões cinza.

Uma pequena trilha foi aberta por entre a neve para que os visitantes pudessem chegar com mais facilidade á saída. Mas antes que pudessem cruzar os portões levemente enferrujados seus dedos se entrelaçaram instintivamente.

Foi algo natural, inconsciente, quase como se tivessem voltado ao tempo em que o uniforme das Cherrios era seu maior orgulho e o sentimento entre as duas ainda era quase um mistério, sendo assim aquele era um dos gestos que mais a mantinham unidas, conectadas, inquebráveis, pois enquanto seus corpos transmitissem o que ainda não eram capazes de compreender o amor se encarregava de fazer o resto.

(...)

Notas finais
Hey, sim eu demorei muitoooooo e bem esse capitulo estaria muito maior mas eu não consegui terminar a segunda parte dele á tempo, mas prometendo por Naya Rivera que domingo estarei aqui com mais .... Então ficou bom? Mereço Reviwes?