Someone Like You

30 Complicações e Redenção



O resto do mês passou sem outras surpresas maiores. Dimitri e eu finalmente compramos o resto das coisas de Helena e planejamos o chá de berço para o final do mês. E por dizer planejamos, eu digo Lissa e minha mãe. Janine me ligou durante toda a semana em busca de noticias, querendo saber se eu precisava de algo ou coisa assim. Teve uma vez em que enquanto conversávamos eu ouvi a voz do meu pai ao fundo, mas eu não entendi bem o que ele disse. E da mesma forma, eu não pude conter as lágrimas por pensar em quanta saudade eu sentia dele.

Acordei com o barulho do microondas apitando. Eu havia parado de ir trabalhar a algum tempo, pela licença-maternidade, e foi por isso que não entrei em desespero quando vi o brilho do sol entrar pelas persianas da janela.

Ainda um pouco tonta e sonolenta, eu joguei minhas pernas para fora da cama e sai da cama com um pouco de cuidado. Minhas costas protestaram com o peso extra assim que meus pés tocaram no chão. Eu tinha acabado de entrar no sétimo mês de gestação e tudo parecia ficar pior a cada instante. Meus pés estavam um pouco inchados assim como meu rosto. Às vezes eu não via a hora de Helena nascer logo para me livrar dessas constantes dores, mas em outras vezes — em muitas outras — eu preferia que ela ficasse dentro de mim onde eu poderia cuidar e protegê-la melhor.

Eu peguei meu robe em cima da cadeira e sai do quarto, seguindo o excelente cheiro de panquecas que entrava pelas minhas narinas.

Encontrei Dimitri de costas para mim procurando algo na gaveta do armário.

–Eu pensei que fosse demorar um pouco mais para se levantar. –Dimitri disse sem se virar para mim, provavelmente ele sabia que eu estava acordada desde quando pus meus pés para fora da cama.

– Perdi o sono. –falei massageando minha lombar e ele se virou para mim.

–Quer uma massagem? – perguntou.

Surpreendentemente eu recusei. Eu estava me sentindo estranha, uma inquietação dentro de mim. Eu queria e precisava fazer algo, mas eu não tinha ideia do que era.

–Não, obrigada Dimitri. Mais tarde eu vou ver se mais tarde vou dar uma volta pelo parque. E não se preocupe, sem exageros. –afirmei piscando para ele e me sentando na cadeira, pegando uma panqueca que estava a minha frente.

Dimitri colocou um pouco de mel a minha frente e se sentou na cadeira ao meu lado, colocando um braço seu ao meu redor. Eu me aproximei mais dele, deitando minha cabeça em seu ombro esquerdo. Ele pegou uma bolacha amanteigada e colocou em minha boca.

–Desse jeito eu fico mal acostumada. –falei tentando me aproximar mais dele.

O contato eu, Helena e Dimitri não era tão bom assim.

Terminamos de tomar o café-da-manhã e eu ajudei Dimitri a tirar a mesa, logo depois eu o segui para o quarto. Eu fiquei no quarto arrumando sua roupa enquanto ele tomava um banho para ir ao trabalho. Eu soltei o ferro quando senti uma leve tontura e me sentei na cama. Tudo parecia estar rodando um pouco.

–Rose? –eu ouvi a voz do Dimitri ao meu lado, me segurando pelas costas. –O que foi meu amor?

–Eu não sei. –falei respirando fundo. – Eu senti uma tontura e ai....

–Vem, deite-se. –falou me deitando na cama e colocando um travesseiro embaixo da minha cabeça. –Você deve ter feito algum movimento rápido. Fique aqui e não se levante. Eu vou buscar um copo d'água.

Ele saiu e voltou em seguida com o copo. Eu bebi a água lentamente, e tudo foi parando de rodar, os pontos negros sumiram. Eu ouvi seu celular tocar e rapidamente ele olhou no visor, franzindo a testa.

–Você vai chegar atrasado Dimitri, melhor ir agora. –eu falei sorrindo, tentando mostrar que eu já estava bem.

Ele sorriu e acariciou minha barriga. Helena não chutou e nem fez todas aquelas acrobacias que ela fazia sempre que Dimitri passava a mão em minha barriga, como se saudasse o pai.

– Eu não vou te deixar aqui sozinha, nesse estado Rose. –falou em um tom gentil.

Ele ainda era novo lá na academia e as aulas de luta que ele fazia eram o mais perto que ele chegava de algo parecido com o trabalho de guardião. A Corte ainda não havia ligado atrás dele e muito menos dado sinal de que ele iria voltar à ativa tão cedo.

–Não Dimitri, você precisa ir. – falei tentando soar convincente. -Eu estou bem, vê? –perguntei voltando a me sentar, lentamente, para que tudo não voltasse novamente.

Ele me olhou por um momento, e então respirou fundo.

–Tudo bem, eu vou, mas me ligue se sentir mais alguma coisa promete? –perguntou me olhando fixamente eu assenti.

–Prometo. –afirmei recebendo um beijo na testa dele.

Dimitri voltou a se vestir e eu achei melhor não levá-lo até a porta dessa vez. Fiquei um pouco deitada na cama e acabei dormindo. Quando acordei e olhei no relógio, haviam se passado três horas e eu ouvi o barulho de alguns pássaros na janela. Mas não foi isso o que eu senti. Foi uma coisa... Diferente. Eram umas pontadas que começavam na minha barriga e desciam até o meio das minhas pernas. Era até mesmo engraçada... Eu me levantei da cama e resolvi ir fazer algo para comer antes que eu e Helena morrêssemos de fome.

Eu peguei uma lasanha congelada e coloquei no formo. Fiz um suco de maracujá com laranja e arrumei a mesa. Assim que coloquei o prato de lasanha a minha frente estranhei por Helena ter continuado quieta. Eu comecei a comer calmamente, quando novamente senti aquele incomodo estranho, dessa vez mais forte e mais abaixo do ventre, no pé da barriga. Eu me mexi tentando fazer aquele desconforto passar e melhorou um pouco.

Eu parei de comer e lavei a louça suja e fui ver um pouco de TV na sala, enquanto assistia a uma reprise de CSI, novamente aquela dor chatinha voltou.

Acariciei minha barriga. Não fazia sentido Helena ficar tanto tempo quieta desse jeito.

Eu peguei o controle remoto e desliguei a TV, me levantei do sofá com um pouco de cautela com medo de a dor voltar e então senti algo quente descer pelas minhas pernas. Quando olhei para baixo, me surpreendi por encontrar minha calça de algodão molhada e o tapete da sala também.

–O que...

Minha fala foi interrompida por lembranças de uma conversa que eu havia tido há algum tempo com a minha mãe.

–Merda! – falei baixo para mim mesma quando percebi o que acontecia. –Calma Rose, respiração lenta. –eu falei calçando as pantufas macias e me movendo com cuidado para o quarto. – O doutor disse que isso aconteceria... Não há motivos para se preocupar. Temos tempo. Só fique calma e relaxe, ok? –falei chegando ao quarto e pegando a bolsa rosa que estava no closet. Todas as roupas que a Helena fosse precisar estavam ali, inclusive cobertores e enfeites de cabelo, mesmo Dimitri tendo me dito que quase nunca bebês nascem com uma boa quantidade de cabelo. Eu peguei o celular e disquei o número de Dimitri. Fora de área. Realmente, uma bela hora para ele estar longe!

Eu tentei pegar meu sapato que estava embaixo da cama, mas recuei assim que senti novamente a fincada na barriga, mais forte dessa vez. Nada de engraçado.

–Okay, nada de sapatos legais para mim. Se acalme Helena, estamos a caminho.

Ótimo, só faltam as fraudas, pensei olhando dentro da bolsa já um pouco cheia. Eu a peguei e fui até o banheiro, onde tinha um pacote de fraudas lá. Coloquei a bolsa em cima da pia e fechei a porta para abrir o armário que tinha lá atrás.

Peguei alguns pacotes que eu achei serem suficientes e pus tudo dentro da bolsa. Eu me curvei sobre a pia quando senti novamente a dor, cada vez mais intensa. Ainda respirando ofegante, eu me virei, pegando a mala com uma mão e colocando a outra sob a maçaneta.

Eu girei a chave quando a mesma não abriu e a forcei para abrir, sem sucesso.

–Tudo bem, se mantenha calma – eu falei respirando fundo. Tentei novamente abrir a maldita porta, mas não adiantou nada. Ela continuou sem abrir. Ótimo, a porta realmente deveria emperrar comigo ali dentro.

–Porque você não abre?! –perguntei tentando forçá-la novamente. –Merda!

Eu tirei o celular do bolso de trás da calça e disquei o número de Dimitri novamente. Eu realmente comecei a me desesperar quando caiu na caixa postal. Porque isso estava acontecendo logo agora? Eu tentei controlar minha respiração que já estava ficando acelerada e disquei o número de Lissa, ele chamou algumas vezes até a ligação cair. Alguma coisa no fundo da minha mente me lembrou de que hoje ela teria uma reunião com a rainha, é obvio que ela não atenderia o celular. O numero de Adrian apareceu na lista de contatos e eu pensei duas vezes antes de apertar o botão e esperar chamar. Dimitri e ele não se davam bem, mas eu devia apelar para qualquer um que pudesse me ajudar nesse momento. A voz de Adrian disse um alô animado do outro lado da linha.

–Adrian, sou eu...

–... Se você me ligou provavelmente não está conseguindo viver longe de minha beleza estonteante. Infelizmente estou ocupado então deixe sua mensagem e talvez eu ligue de volta.

Eu bufei desligando o celular. A dor que eu senti tirou qualquer chance de comentário sobre a espiritualidade de Adrian. Eu me curvei, me escorando a parede do outro lado e respirando fundo. Passando a minha mão pela testa eu notei que o suor começava a escorrer. Coloquei uma mão sobre a barriga.

–Vai ficar tudo bem Helena, vamos ficar bem.

Lágrimas escorreram pela minha bochecha enquanto eu pensava que algo de ruim poderia acontecer conosco. Novamente peguei o celular. Um contato com o desenho de uma casa me chamou a atenção e eu o contornei com o polegar. Casa. Rezando para que alguém estivesse em casa eu apertei para chamar. Respirei fundo quando chamou. Um, dois, três toques. Alguém atendeu.

–Alô – falei apressada. –Melody, sou eu, Rose. Eu preciso que chame minha mãe eu...

Minha voz foi interrompida por um quase grito estrangulado do outro lado da linha.

–Rose? – eu ouvi a voz do meu pai. – Rose, o que aconteceu?

Meu coração acelerou, talvez pela dor que eu novamente senti ou por ter ouvido a voz do meu pai. Seja qual for o motivo, eu não tinha tempo para brigas ou por qualquer ódio que eu sentia do meu pai.

–Pai, eu preciso de ajuda. –eu funguei enquanto as lágrimas ainda caiam livremente. – O Dimitri está trabalhando e eu... –eu parei de falar enquanto eu sentia a dor aumentar. O tempo entre elas diminuíam cada vez mais.

–Rose? Rose, ainda está ai? –sua voz soando desesperada.

– Pai, eu... – o celular começou a fazer um barulho estranho e eu não ouvi mais a voz do meu pai. Eu olhei para a tela dele totalmente escura. A bateria havia acabado.

–Não, não, por favor, não faça isso! – falei me desesperando. Aquilo não podia estar acontecendo, de jeito nenhum. Tudo estava indo bem, não podia desmoronar agora.

Eu taquei o celular no chão com raiva e tentei me manter firme. Dimitri chegaria em breve, eu pensei tentando me acalmar, logo ele estaria aqui comigo e então tudo ficaria bem.

Eu sentia a dor entre minhas pernas aumentar cada vez mais enquanto grossas lágrimas rolavam pelo meu rosto. Eu não podia deixar nada acontecer com Helena. Nunca tive qualquer fé em Deus ou quem quer que seja, mas nesse momento, eu nunca desejei tanto que um milagre acontecesse.

Eu perdi a noção do tempo enquanto continuava lá, não me restavam forças nem ao menos para me levantar. Eu estava cansada sem realmente fazer nada. Havia se formado uma poça de sangue no chão, e a única coisa que eu pedia era que Dimitri chegasse logo e me ajudasse. E então eu ouvi meu nome, longe. Inicialmente eu pensei que fosse apenas uma ilusão, mas então, eu ouvi novamente, mais alto e claro dessa vez.

–Estou aqui. –minha voz saiu baixa. Minha garganta doía com a sede, mas não era nada comparada ao resto. – Estou trancada no banheiro. –tentei novamente, fazendo o máximo para ser ouvida.

– Rose? – aquela voz me era familiar, mas eu não sabia dizer de onde. Tudo parecia tão longe. –Vamos tirar você daí kiz.

Pai... Era ele. Eu tentei sorrir e falar algo, mas parecia cada vez mais difícil. Eu ouvi a voz de mais outra pessoa, um homem, mas não me importei com isso. Tudo ficaria bem agora. Eu escutei um barulho alto, e então senti uma leve brisa em meus cabelos. A porta do banheiro agora estava partida em dois e eu vi meu pai passar por ela. Preocupação estampada em seu rosto, junto com algo que eu não consegui saber o quê. Ele se abaixou ao meu lado.

–Vamos tirar você daqui filha.

Eu queria ter dito para chamarem Dimitri, que eu precisava dele ali, mas eu não consegui me manter acordada. Mesmo dizendo para mim mesma que eu deveria ser forte por Helena, eu não consegui. Senti a escuridão me envolver completamente.

Hora ou outra eu tinha flashes. Sentia meu corpo em movimento. Via meu pai falar algo para mim. Vi o rosto da minha mãe enquanto sentia uma leve pressão em minha mão. Vi Dimitri ao meu lado e logo depois ele discutir com alguém. Ouvi minha mãe falar sobre números com alguém. Ouvi-a dizer que ainda não estava na hora. E então, eu vi um lugar todo branco e azul, e alguém me dizendo para tentar me manter acordada. Vi um homem vestido de branco dizendo que tudo ficaria bem. Eu tentei segurar seu braço e dizer que ainda não estava na hora. Eu estava grávida de somente sete meses, Helena não deveria nascer agora. Mas eu não consegui me manter acordada por muito tempo.