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1 Prólogo
Notas iniciais
— Caso percebam que estão perdidos, mantenham a calma e busquem estabelecer uma conexão com o meio ambiente. Nos instantes desorientados, é imprescindível ouvir a natureza. Ela tem muito a falar, basta sensibilidade para entender. Por fim, revisem a direção. O trajeto é sempre mais importante que a velocidade.
Bunpuku, o monge que falava perante as portas do templo budista do fogo, se calou após um repentino barulho em meio a seus ouvintes chamar a sua atenção. O Alpha, um ancião de aparência frágil, mas de presença marcante olhou para um determinado ponto do pátio onde uma garrafa térmica havia caído no chão.
"Plaft!"
Repleto da sabedoria que os anos lhe concederam, o religioso analisou a pessoa que deixou o objeto cair.
A autora do feito era uma Alpha. Estava extremamente descontente, sua fisionomia era dura e a presença dominante saltava aos seus olhos. Por sua postura desatenta, Bunpuku suspeitou que a jovem fosse mais uma estudante as portas da formatura, compreendendo que não poderia fugir d'O caminho para sempre. O Caminho era o nome da tradicional trilha ecológica que alunos da Universidade de Konohagakure percorriam durante o recesso de primavera. Além de agradecer às divindades pelo êxito nos estudos, aquela era uma das poucas oportunidades que os universitários tinham para dar um tempo nas pressões psicológicas que enfrentavam durante o último período da formação.
A primeira parada dos estudantes antes de iniciar o circuito era sempre em seu templo. Lá, eles recebiam suas bênçãos e deixavam donativos para as obras de caridade assistidas por ele e seus irmãos. Muitos dos que estavam prestes a se formar, não simpatizavam com as crenças que norteavam a atividade por trás da trilha, mas para evitar más impressões junto aos corpos discentes e docentes e a queima antecipada dos currículo que futuramente enviariam para o mercado de trabalho, participavam do percurso mesmo a contragosto.
Aburame Shino e Sabaku no Kankuro, dois entre os muitos estudantes do curso de engenharia de bioprocessos e biotecnologia presentes no local, trocaram olhares significativos. Sem jeito, o primeiro ajeitou os óculos sobre a ponte do nariz, já o segundo, desviou o olhar para um ponto neutro do templo e fingiu não conhecer a Alpha vestida em roupas de ciclismo.
"Ploft!"
Dessa vez, a também universitária de engenharia, deixou uma pequena frasqueira ir ao encontro do piso. Envergonhado, automaticamente o Aburame massageou a têmpora e o Sabaku encolheu os ombros.
— Caralho!
Bunpuku ergueu a sobrancelha surpreso com palavreado alheio, todavia Ino nem notou quando a palavra chula deixou seus lábios, muito menos o desconforto que a mesma causou nas pessoas que estavam no local sagrado.
— Cof, cof. — Shino simulou tosse e cutucou-a com o cotovelo. Só naquele instante a Yamanaka percebeu sua gafe. O constrangimento de notar os olhares enviesados serviu para lhe fazer aquietar.
Para a surpresa de todos os presentes, Bunpuku sorriu para ela, em contrapartida, a jovem desarmou-se por alguns segundos, tamanha a empatia que deixou o homem e a alcançou.
Nos anos à frente daquele templo, Bunpuku viu inúmeros estudantes passarem por aquele chão de paralelepípedos. Muitos tão preocupados com o futuro que mal percebiam que o porvir começava no tempo presente. Aquela ansiosa jovem não era diferente de nenhum deles, estava tão chateada porque perderia duas ou três semanas longe de seus livros e trabalhos de conclusão de curso, que não se atentava aos sentimentos daqueles que estavam mais próximos dela.
Ela o fazia recordar de si mesmo quando tinha a mesma idade. O bondoso homem sempre ficava feliz quando isso acontecia. Era como viajar para o passado.
Quando Bunpuku percorreu pela primeira vez O caminho, há quase cinquenta anos, nem cogitava se tornar um monge budista. Ele era um mero estudante, ou melhor, um studentholic de medicina. Vivia apenas para seus livros e nada mais importava. Quando iniciou o circuito no templo do fogo, onde hoje era o humilde administrador, jamais imaginaria que durante os 800 quilômetros até sua chegada ao santuário xintoísta da Vila Oculta sob a Lua, sua vida fosse virar do avesso.
"Médicos doentes não conseguem curar ninguém."
O Alpha julgou engraçado ter a sensação de ouvir o conselho dado pelo saudoso monge que proferiu as bênçãos no ano em que sua vida tomou um rumo novo. Naquele tempo, tal como aquela moça, ele não compreendia o peso daquela herança cultural propagada por seus veteranos, se na época fosse capaz de entender que não foi do dia para a noite que o legado d'O caminho se transformou numa das rotas de peregrinação religiosa das mais procuradas das cinco grandes nações shifters, talvez nunca demorasse tanto para chegasse até ali…
Bunpuku ajeitou sua postura e seguiu discursando:
— Que cada um que se dispôs a fazer essa caminhada esse ano, chegue renovado aos meus irmãos do País da Lua. Quando receberem suas bênçãos, que estejam preparados para a nova fase que se iniciará em suas vidas. Que suas almas e espíritos possam se elevar e se transformar por completo a partir de agora!
Calmo como sempre, o religioso juntou as palmas das mãos em frente ao peito e murmurou uma breve oração. Antes de saudar os estudantes e fiéis peregrinos que estavam prontos para seguir viagem, Bunpuku dirigiu um último olhar na direção da Yamanaka, sabendo que em breve a veria outra vez.
******
— Aos meus Kouhais que visam um maior contato com o sagrado, deixo um conselho: aproveitem o percurso a pé, pois vocês jamais terão a oportunidade de ver paisagens naturais tão incríveis. Aos que irão praticar o mountain Bike ou o off-road: peço que respeitem a natureza. Estamos na temporada das flores, época em que os animais buscam alimentos ao longo d'O caminho. Nunca se esqueçam. Nós somos os invasores aqui, não o contrário.
“Blá, blá, blá.” Ino desdenhou entre sussurros após ouvir por quase meia hora seu senpai dissertar sobre O caminho.
— Agora a regra de ouro de todo universitário. Equilíbrio é tudo. Ninguém será um profissional de sucesso um dia, se a vida pessoal estiver um caos. Por ora, deem descanso ao aprendizado acadêmico e aprendam um somente com o meio ambiente. Não existe melhor professor. Relembre os motivos que os trouxeram até aqui e os que os fazem seguir adiante. Boa trilha para todos!
Tsc! Finalmente. Na opinião de Ino, que os fiéis peregrinos e monges elevassem ao status de experiência mística transformadora uma simples trilha, vá lá! Mas que estudantes esclarecidos insistissem naquilo, ah, por favor! Ela não aceitava. Ela acreditava na supremacia dos estudos e que só após formada e com a vida estabilizada deveria investir em equilíbrio e coisas do tipo. Agora, só precisava focar no conhecimento oriundo dos livros e afins, o resto era supérfluo, não merecia sua atenção.
— Está mesmo decidida a não ir com o grupo dos senpais? — Shino perguntou ao perceber que Ino ignorava a fala dos veteranos, tal como fizera mais cedo com a partilha do monge. O Alpha observou a amiga colocar smartphone, notebook e também carregadores na mochila. Itens desnecessários para ocasião.
— Shino… — O tom de Ino não era amistoso. Ela havia acordado há pouco tempo, além disso, fazia um calor infernal e não eram nem oito horas da manhã. — Se você não quer que eu desista de fazer essa maldita trilha antes mesmo de dar a primeira pedalada, pare!
Kankuro olhou para Shino e meneou a cabeça, um segundo depois o rapaz tocou seu ombro num pedido mudo para que ele não batesse mais naquela tecla. Os dois sabiam que Ino, nas palavras dela mesma, não estava interessada em passar os próximos dias na companhia de dezenas de Shifters hiperativos, barulhentos e lobotomizados.
— Onde está o maldito capacete? — Ino procurava o equipamento de segurança em volta, sendo que o mesmo já estava em sua cabeça, quando percebeu o item, não fez comentários e seguiu arrumando a mochila.
Shino e Kankuro suspiraram em simultâneo. Mesmo não sendo religiosos, ambos os Alphas simpatizavam com as histórias que sempre ouviram a respeito d'O Caminho e desejavam que todas elas fossem verdadeiras, inclusive quando falavam de transformações e mudanças.
— Você é quem sabe, todavia, caso mude de ideia... — Shino jogou no ar.
O Alpha colocou a mochila no bagageiro da bicicleta e montou no veículo. Conhecia a outra o suficiente para saber quando era hora de recuar ou insistir num assunto. Nos últimos dois anos, tanto ele quanto o Sabaku desconfiavam que a fixação da Yamanaka pelos estudos vinha deixando de ser somente um estilo de vida e estava ganhando contornos de misantropia. A amiga vinha se afastando cada vez mais das pessoas, inclusive deles dois, por quem ela sempre teve grande apreço.
— Você pegou o mapa e a bússola? — Shino quis saber.
— Peguei.
— O kit de remendo, para o caso dos pneus furarem? — O Alpha insistiu, fazendo a amiga soltar muxoxos.
— Eu a lembraria do Kit de primeiros socorros. Com todo esse mau humor, prevejo que essa festa logo virará um enterro. — Kankuro, que perdia a amiga, mas nunca a oportunidade de implicar com ela, sacaneou, no entanto, acabou despertando a fera.
— Que saco! Já peguei todas as merdas que ambos me fizeram trazer. Porra, qual é o problema de vocês?— Ino extravasou. —Estou começando a me arrepender de ter cedido aos apelos dos dois e ter dado uma chance a essa bendita trilha.
Numa impressionante sintonia, os dois Alphas ergueram os braços em sinal de rendição. Não sabiam mais o que fazer para melhorar o clima entre os três.
— Quer saber! — A Yamanaka fechou a mochila e jogou a peça nas costas, subindo na bicicleta logo em seguida. — Nem mesmo as vossas fuças, quero ver nos próximos dias.
A Alpha deixou Shino e Kankuro junto aos outros estudantes no meio do pátio de paralelipípedos e começou a pedalar sozinha rumo ao bendito caminho…
Três dias depois, acampamento de estudantes e peregrinos, região montanhosa da Vila Oculta da Pedra.
— Cara, relaxa. Talvez a fera tenha optado por seguir viagem, ao invés de parar no acampamento de peregrinos.
Shino admitiu que talvez Kankuro tivesse razão, afinal, Ino estava tão aborrecida que duvidava que ela quisesse vê-los tão cedo.
— Caso não a encontremos no próximo acampamento antes de chegarmos à Vila da Lua, acionamos a patrulha. — O Aburame decidiu e Kankuro concordou com um gesto de cabeça. Ele continuou separando as varetas com as quais montaria a barraca de dormir, e mesmo sentindo certo desconforto ao pensar na amiga viajando sozinha, algo em seu interior lhe dizia que ela ficaria bem.
— Shino, a loira também é uma Alpha. — Kankuro imaginou o que passava na mente do irmão de casta. — Considerando os trilheiros e aldeões que encontramos ao longo do percurso, ela não corre perigo algum.
Shino suspirou. Estava tão cansado, física e mentalmente, que mal aproveitou a viagem até aquele ponto.
— Você deve estar certo.
— Sim, eu estou. — Kankuro afirmou convicto.
Em silêncio, os dois Alphas continuaram com suas atenções voltadas para a montagem da barraca de camping. Em seus corações, ambos apenas desejavam que a loirinha geniosa realmente estivesse segura e bem.
******
Ino estreitou o olhar. Talvez estivesse precisando de óculos. Que símbolos eram aqueles desenhados no canto esquerdo do mapa? Por que raios teria um quadradinho cheio de lobos desenhados no lugar onde deveria conter o desenho de uma cachoeira?
— Esse mapa aparentava ser mais simples há três dias.
Ino resmungou assim que desistiu de entender o pedaço de papel. Com a bicicleta parada no meio do nada, a Alpha olhou ao redor. Nem sinal de outros ciclistas, de motoristas dos picapes 4x4, fiéis peregrinos ou colegas de curso. Ela era a única na estradinha de terra batida, localizada em um terreno íngreme no qual havia se enveredado há umas três horas.
— Se ao menos Shino ou o imprestável do Kankuro estivessem aqui. —Não ouse pensar naqueles dois falsos amigos. Ino pensou. — É por causa deles que você está nessa furada. — Com o olhar, a jovem vasculhou novamente a área, mas continuou sem ver ninguém. — Tenho que achar logo essa droga de cachoeira.
Ino entendia o quão importante era encontrar a queda d'água e por tabela o primeiro acampamento de peregrinos. Caso não encontrasse nenhum dos dois locais, teria que achar rapidamente um local seguro para pernoitar, pois estava anoitecendo.
— Vamos, Yamanaka!
Repleta de determinação, Ino ajeitou a mochila nas costas e começou a pedalar, esquecendo todos e quaisquer conselhos sobre direção, velocidade e respeito à natureza que tinha ouvido no templo antes de pegar sua bike de qualquer maneira e sair desembestada pela trilha, a qual nem mesmo queria percorrer...
A pressa, a falta de atenção no caminho e o cansaço físico a fizeram perceber um filhote de lobo que atravessava a estrada, somente quando o animal estava a poucos passos de sua bicicleta.
—'Óe, sai daê’ bichinho!
Sem temer o perigo e apenas sendo um filhote muito curioso, o lobinho parou e olhou nos olhos da jovem que gritava desesperada enquanto ia na sua direção. Sem alternativa, Ino desviou para a direita, no entanto, percebeu de imediato a péssima escolha que havia feito.
— OH, DROGA!
"… O caminho é uma das experiências místicas mais transformadoras que existem no mundo shifter…"
A frase ouvida por tantas vezes ao longo do último ano irrompeu sua mente feito tiro à queima-roupa, bem no instante em que ela se deu conta de não haver mais chão sob os pneus da bike, apenas nuvens e água.
Muita água por todos os lados.
Yamanaka Ino soou descrente ao compreender que havia encontrado a bendita cachoeira que tanto procurou durante horas na porra do mapa, ou melhor, o enorme despenhadeiro por onde a queda d'água descia, e consequentemente, ela desceria também.
— MERDA, MERDA, MERDA!
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