Sombras e Seus Humanos
6 Capítulo 6
Embaixo do chuveiro com sua água quente, Ciel refletiu de tudo. Não sabia que Lady Yuki era tão apaixonada por ele. Na verdade, sabia. Mas mentira para ele mesmo, para não precisar acreditar realmente nisso e ter que desistir de Makino. Ou magoar Lady Yuki.
“Não entendo como isso possa acontecer. Não quis que uma garota tão bonita se apaixonasse por mim. Mas não consigo sentir nada por ela. Nada. Ou será que sinto?”
Ciel olhou para suas próprias mãos, sem saber o que fazer.
“No final, vai ser melhor que ela tenha ido embora. Assim não precisará se machucar mais ainda comigo. Não sou aquele que a merece.”
Tentou se enganar mais ainda Ciel.
E assim fora por mais alguns dias. Ciel ficava em silêncio na aula, sem prestar atenção. Olhava o tempo inteiro para a janela, esperando ver uma gata branca aparecer e miar para ele. Ao intervalo e depois da aula, conversava com Ichirou, sem realmente ouvi-lo, só respondendo quando a hora lhe convinha. Quando Makino chegava, esquecia de tudo, até de Lady Yuki, e só queria saber da humana.
Makino, toda vez que falava com Ciel, parecia nervosa, mas sempre que ia falar o que queria, havia algo para fazê-la calar. Até que, depois de uma semana, soltou a pergunta tão temida:
-E Usagui, não o viu mais? – Makino disse, olhando para os lados, como se a Sombra flutuante aparecesse atrás de alguma moita.
-Ele fica vadiando lá em casa, só me incomodando. Ri de tudo que eu faço. – Ciel respondeu, sem realmente ver que algo lhe afligia ao conversar com ele.
-Sério? – Sorriu Makino, como se aquilo fosse a melhor coisa que ela ouvira o dia inteiro. – Ciel, podemos ir no seu apartamento, te ajudar em alguma coisa, fazer companhia, sei lá, qualquer coisa? – Pediu, com brilho no olhar.
-Claro, vai ser muito bom. – Respondeu Ciel, ficando vermelho.
-Uhuul, festa no apê do Ciel! – Pulou Ichirou.
-Não grite, Ichirou! Podem ouvir e alguém aparecer lá, e não Usagui não pode ser descoberto!
-Mas ele é invisível pelos outros, lembra?
-E daí? Não quero festa nenhuma lá em casa. Já não basta a bagunça que está, ainda mais depois que...
Ciel não conseguira pronunciar o nome dela. Desde que Lady Yuki fora embora, não conseguira arrumar seu apartamento, só de pensar nela já o fazia desistir de qualquer limpeza. E isso era mais um motivo para Usagui encher seus ouvidos.
Ichirou, interpretando seu silêncio errado, respondeu:
-Tudo bem, carinha, sei que você é anti-social, então vamos só nós três. – Sorriu ele, piscando um olho e olhando com malícia para Makino. – Eu despisto Usagui – Sussurrou para Ciel.
Ciel deixou assim, para não ter que falar mais sobre ela.
Chegando no apartamento, Ichirou assobiou:
-É, faz realmente algum tempo que você não arruma isso...
Sua sala estava cheia de poeira, o sofá, as poltronas, a cama e cantos da casa estavam com montanhas de roupas sujas, a pia da cozinha entulhada de pratos, copos e talheres não lavados, o material escolar todo espalhado pela mesa, intocado, somente com poeira.
Ichirou olhou seriamente para Makino e disse:
-Makino, como você é a única garota daqui, não vai querer ver o jogo que veremos agora na TV, então, ajude-nos. Só você pode salvar seu pobre amigo, namorado, ou como queira chamá-lo. Arrume essa bagunça por ele, e por mim também. Pode fazer isso?
Ciel fez que não ouviu o que Ichirou disse, o rubor voltando a se instalar em seu rosto, e Makino tampouco se viu responder. Nem se podia dizer que ela ouviu algo que o garoto disse. Estava encarando Usagui, com os olhos perdidos, como se estivesse hipnotizada. Ichirou segurava seus ombros enquanto falava, e quando percebeu que ela não ouvira, a balançou. A garota olhou para ele, com a expressão quase de apavorada, e Ichirou repetiu:
-Makino, por favor, nos salve! Limpe esta bagunça!
-S-sim!
Ichirou sorriu, agradeceu, pulou no sofá empurrando as roupas para o canto, ligou a TV e se instalou lá, feliz consigo mesmo. Ciel sentou ao seu lado, olhando para Makino começar a limpar. Makino continuava com sua cara de hipnotismo, sem querer olhar para Usagui, que estava sentado em uma mesinha ao lado da porta. Mas sua tentativa era sempre em vão. Quase de segundo em segundo ela dava uma espiadela curta para aquela Sombra.
Estava tudo bem, Ciel já havia deixado de prestar atenção em Makino para ver o jogo. Miku então apareceu flutuando na janela, entrou e foi direto para a cozinha. Ichirou ficou olhando, até que conseguiu dizer:
-O-o que ela está fazendo?
-Ela sempre aparece só para preparar meu almoço e minha janta, depois some. Já tentei perguntar onde ela vai, mas ela sempre diz “Você sabe o que estoufazendo. Pense um pouco”, mas nunca descubro.
Ichirou ficou quieto, como se estivesse sendo difícil entender o que Ciel dissera. De repente selevantou e seguiu para a cozinha. Ciel perguntou onde ele ia, mas não recebeu resposta. Voltou sua atenção para a TV, mas sem deixar de ficar curioso. Usagui então se espreguiçou, e fora atrás de Ichirou para a cozinha, como já era costume, acompanhar Miku somente com o olhar.
Ciel percebera que o corpo de Makino ficara rijo, mas não notara que fora somente quando Usagui passou. Vendo que a comida já estava quase pronta, também seguira para a cozinha, sendo seguido por Makino. Sentando na mesa, Miku serviu cada um, Ciel observando Makino, Makino observando Usagui, Usagui observando sem interesse Miku, Miku sendo observada também por Ichirou, este com mais interesse nela do que na comida.
Todos comeram em silêncio, já sem a presença de Miku. Ichirou voltara com seus papos de sempre, sendo deles o mais tagarela, quando não estava perto de Miku. Ciel ainda não percebera isso.
Makino não falava, comia quieta, quase como uma zumbi, sendo facilmente diferenciada por olhar para Usagui e ficar vermelha na hora.
Ciel ainda não entendia o que acontecia com os dois, mas não parava de olhar para Makino, como que esperando que ela de repente criasse asas e voasse. Mas falava e ria com Ichirou ainda.
E assim foi as próximas duas semanas. Todos os dias, os três passavam a tarde na casa de Ciel, ele e Ichirou vendo Televisão, Makino limpando a casa, Usagui olhando todos com desprezo, se mexendo somente quando Miku aparecia, ficando em sua companhia na cozinha. Após o almoço, a Sombra ia embora, e tudo voltava como estava.
Ao final da semana, Makino estava limpando o chão, o triplo do tempo que Lady Yuki limpava espirrando com a poeira, e Usagui começou a flutuar acima da cabeça da garota.
Makino sentiu seu rosto esquentar, e o Sombra iniciou uma conversa:
-Você não se importa de ficar limpando enquanto os outros ficam vadiando por aí?
-N-não, eu e-estou be-bem.
-Você gosta de limpar?
-E-eu a-a-acho que sim.
-Hunff, humana burra!
-...
-Usagui, não chame Makino de burra. – Respondeu sem emoção Ciel, já acostumado com as implicâncias de Usagui.
-Nã-não e-eu estou bem.
-Porque gosta de limpar?
-P-p-porque e-e-eu e-e-e-estou co-co-com que-que-que-m e-eu go-go-gosto.
Ciel fingia que não ouvia, mas ficou vermelho no mesmo momento.
-Sério? Bem, acho que este não é um bom motivo – Usagui respondeu com superioridade.
-Ah....
-Que foi?
-Na-na-nada.
-Hunff, tanto faz.
-U-U-U-Usagui
-Que foi?
-E-e-e-e-esssta pessoa é-é-é-é vo-vo-vo-cê.
Ciel sentiu uma fisgada em seu coração, sendo observado por Ichirou.
-Eu? – Perguntou Usagui, sem entender.
-Sim.
-Não entendi...
-Usagui, eu-eu te amo. Quero que você seja a minha sombra! Eu-eu preciso de você! – Makino despejou as palavras como se estivessem presas dentro de si fazia meses.
-Desculpe, eu não posso aceitar. Vou me casar com Lady Yuki.
Era como se uma facada tivesse acertado em cheio no coração. Makino não sabia como ainda tinha forças para ficar de pé. Mas não era só ela que tinha essa sensação. Ciel também ficara chocado com as frases de Usagui. Mais chocado até que a verdade de Makino. Aqueles segundos pareceram horas, mas Miku aparecera para fazer o almoço. Como se soubesse, a Sombra fora para a cozinha, com Usagui e Ichirou atrás. Ciel e Makino ficaram ali, parados, sem saber o que fazer.
Makino de repente saira correndo para o banheiro, seu choro irrompendo o silencio da sala de estar. Ciel, com uma lentidão desumana para ele, fora até a cozinha, e, reunindo forças, perguntou para Usagui:
-Como ela irá se casar com você, se Lady Yuki é minha sombra?
-Porque eu sou a Sombra da maior linhagem que possa se casar com ela. A família dela vem primeiro, a minha vem em segundo. Nossas famílias se juntarão e serão da mais alta nobreza. E depois, você ama Makino, não vai querer uma apaixonadinha no meio.
-Pensei que não tinha como quebrar o pacto.
-Há, mas é muito difícil. Se nenhum dos dois estiver mais apto a se aturar, a Sombra irá se enfraquecer, até que suma do mundo humano e volte para nosso mundo, e nunca mais poderá voltar para cá.
Ciel recebeu outra facada. Nunca mais poderá voltar, disse ele mesmo pensando na ausência de Lady Yuki.
-E onde Lady Yuki está?
-Em um lugar onde ela possa descansar, até que fique forte o suficiente para escolher se será ou não sua Sombra. – Respondeu Miku.
-Ela está bem?
-Óbvio que não, você estilhaçou o coração dela depois de dize que não a ama. – Disse Usagui com desprezo.
-Foi você que disse que não a amo!
-Você nunca contaria para ela?
Ciel ficou em silêncio, sem saber o que dizer.
Lady Yuki...
Ciel, sem Lady Yuki...
“EU JÁ PEDI PARA QUE ME CHAME SÓ DE YUKI!”
Seu grito irrompeu em sua mente.
Sem Lady Yuki...
Ciel não suportou a idéia.
Não suportou saber que a magoou tanto.
Lembrou de Makino dizendo que amava Usagui, e o frio que deu em seu corpo.
Imaginou Lady Yuki dizendo que iria se casar com Usagui.
“Ciel, irei me casar com Usagui” –Dizia ela em sua consciência, sorrindo.
Uma facada maior perfurou seu coração, tirando seu ar.
“Pare de me esfaquear” – Disse ele para aquela Lady Yuki sorridente.
“Ciel, irei me casar com Usagui”
“Pare com isso...”
“Vamos se casar e fazer nossa família feliz” – Dizia Usagui.
“Pare...”
“Nossos filhos serão lindos, não é?” – Lady Yuki sorria para Usagui.
“por favor...”
“Serão, minha linda, ainda mais com seus olhos” – Usagui sussurrou, puxando o queixo de Lady Yuki.
“Por favor...”
Lady Yuki sorria, fechando os olhos para se preparar para o beijo que o seu amado Usagui daria em seus lábios sabor framboesa.
-PAREEEEEEE! –Ciel gritou, soltando toda a sua raiva para fora.
Viu que estava ajoelhado com suas mãos no chão, suas lágrimas empoçando o piso de sua cozinha.
-Cara, ta tudo bem contigo? – Ichirou perguntou, ajoelhado ao seu lado.
-Não posso perdê-la, não posso, não posso, não posso... – repetia, colocando a cabeça em suas mãos, sem saber o quê fazer.
-Ela vai se casar comigo-
-Usagui, cale sua boca. Você sabe muito bem que isso não irá acontecer.
-Claro que vai, sei que vai.
-Está mentindo. Você sabe que Lady Yuki só aceitará Ciel ao seu lado, e mais ninguém. Sei que a via observar Ciel, este tempo todo que não pode falar com ele. Sei que sentia ciúmes de ter menos atenção do que um humano que só era visto por um espelho mágico. Sei que esteve aqui somente para tentar aprender o que Ciel tinha que você não tinha.
-Você sabe como posso consegui-la de volta?
-Chame-a pelo que ela mais queria, só assim ela saberá de seu verdadeiro amor.
“EU JÁ PEDI PARA QUE ME CHAME SÓ DE YUKI!”
-YUKIIIIIIIIII!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! – Ciel gritou o mais alto o possível.
Makino ouviu, e quando ouviu, chorou mais ainda.
Ichirou sorriu para Miku.
Usagui ficou mais emburrado ainda.
Ciel ficou em silêncio, abraçado em si mesmo, ainda ajoelhado no chão.
-Ela não vai voltar...
Sentiu cabelos passarem em suas costas, sedosos e macios como uma cascata. Sentiu um perfume familiar, tão bom que não saberia se realmente era real. Sentiu as palavras, como se fossem também somente o fruto de sua imaginação.
-Ela quem?
Essa voz era tão perfeita, que Ciel teve certeza de que não teria tanta criatividade para imaginá-la.
-Lady Yuki! – Ciel gritou, abraçando a garota.
-Ciel... – Sorriu ela, apertando mais seu amado.
Ciel a empurrou um pouco, somente para poder ver seu rosto.
-Desculpe, eu não queria, eu não... – Então ele notou, as horríveis olheiras que se afundavam abaixo de seus olhos. Seu olhar fraco, agora com a luz que não se aparecia fazia semanas. Seu sorriso pequeno, já desacostumado a aparecer.
-Está tudo bem. – Disse ela.
-Eu não acredito que fiz isso com você!
-Está tudo bem. – Repetiu ela.
-Não, não está tudo bem!
-Agora está.
-Lady Yuki, por favor...
-Ciel, por favor, não me chame de Lady Yuki. Só você pode deixar de dizê-lo.
-Desculpe... Yuki...
Os dois se abraçaram novamente, e toda a dor que Ciel carregava havia semanas, sem querer notar, sumiram.
Todos jantaram felizes, conversando e rindo. Makino havia ido embora sem que ninguém percebesse. Usagui estava parado em seu canto habitual, com o rosto mais fechado que o normal. Miku falava pouco, mas também sorria e conversava, desta vez sentada junto com eles. Ela e Lady Yuki não comiam.
Ao final da janta, Ichirou fora embora, mais feliz do que o costume. Ciel, embora não entendesse o porquê, sorriu para a felicidade de seu amigo, e deixou sua curiosidade de lado quando foi esmagado novamente pelo abraço de Lady Yuki.
-La... Yuki, será que poderia deixar de me apertar o tempo todo?
-Não dá, agora que finalmente você aceitou de todo que eu seja a sua sombra!
-Está bem, me aperte mais forte então.
Lady Yuki o abraçou com força, e os dois sentaram no sofá para ver Televisão. Aos poucos o sono foi chegando, até que Lady Yuki dormiu em seus braços.
“Ela é tão linda” – Disse Ciel para si mesmo. Essa foi a ultima coisa que o garoto lembra antes de cair em sonhos.
Fale com o autor