Sombras do Passado

31 Capítulo 31 - A vida não espera que as feridas sanem


Notas iniciais
Estamos entrando na reta final. Ainda não sei ao certo quantos capítulos terá a fic, mas sim que não serão muitos mais ;) Deixo avisado, para que vocês não sejam pegos de surpresa. E muito obrigada pelas manifestações de todos sobre a leitura, cada impressão é importante para mim 🙏💗

***

Federico levou Cristina até o sofá do escritório, por ser mais reservado, enquanto Carlota o seguiu. Ele então pediu à cunhada que fosse buscar álcool ou algo para tentar reanimar a Cristina o que ela fez, não muito de boa vontade. Enquanto ela saiu apressada do escritório, Federico abriu os dois primeiros botões da blusa de Cristina e, acariciando seus cabelos com a mão esquerda pedia:

_ Cristina... por favor, meu amor, reaja! Eu morro se alguma coisa acontecer com você.

Federico não pôde deixar de recordar aquela vez em que Cristina, destruída pelo sofrimento da morte de seu pai, desfaleceu em seus braços no meio do bananal. Como ele ficava aflito ao vê-la daquela maneira, tão frágil, ao mesmo tempo em que a sentia tão ao alcance e via tanta ternura nela. Carlota ia entrando no escritório com uma garrafa de álcool, quando Cristina começou a reagir, abrindo os olhos.

_ Aqui está o álcool. – disse Carlota dirigindo-se à Federico.

_ Obrigada! Não se preocupe, eu cuido dela. Eu vi que vocês estavam discutindo e imagino que seja melhor vocês não se falarem nesse momento para evitar alterá-la.

_ Claro! – concordou Carlota aliviada.

Ela viu que a irmã já estava reagindo e a última coisa que queria era desvelar-se em cuidados com Cristina naquele momento em que ela havia descoberto sobre o namoro de Carlos e Amanda e que a irmã os apoiava. Atendeu à sugestão e deixou os ali, subindo para seu quarto.

_ Você está bem? O que você está sentindo? – Disse Federico sem deixar de fazer carinho nos cabelos dela.

_ Estou... eu só... – falou Cristina confusa fazendo menção de se levantar, mas tendo dificuldades por sentir uma vertigem. – Ai... minha cabeça dá mil voltas. – completou finalmente sentando-se.

_ O que você tem, Cristina? Você vem se sentindo mal? – indagou Federico preocupado.

_ Não... Sim... Quero dizer, tive algum mal-estar, imagino que porque não estava comendo muito bem, mas nunca como hoje. – ela disse olhando-o com ternura ao ver sua preocupação. – É que eu discuti com Carlota, tenho medo do que ela faça com Amanda e... você aparecendo aqui. Só fiquei nervosa. O que você quer, Federico? – indagou Cristina.

_ Não falemos disso agora, você precisa se acalmar. – pediu Federico. – Você tem que se cuidar, Cristina ou vai acabar doente. Disse que tem tido mal-estares, já foi ao médico? – preocupou-se.

_ Não, não é necessário, é só uma bobagem. – ela se esquivou.

_ Nada disso! Eu quero saber se você vai ao médico, senão, eu mesmo vou marcar uma consulta com o doutor Luís e te levo à força.

_ Federico, isso não faz sentido e você não vai fazer nada à força comigo. – reclamou. – Eu cuido de mim, entre nós dois, o único assunto que tem que haver é o divórcio.

_ Cristina, mas nem em um momento como esses, você abandona essa sua atitude inflexível? – queixou-se Federico.

_ Não é atitude inflexível, Federico, entenda de uma vez! É nossa maldita realidade. Nosso casamento acabou, não há como mudar isso. – Cristina disse ainda tentando encontrar o equilíbrio.

_ Eu não quero discutir com você, Cristina. Muito menos nesse estado, não quero que você volte a passar mal. – Federico tentou abrandar o tom. – Eu vi que você discutiu com sua irmã e não quero que você tenha mais estresse por minha causa. Por isso mesmo... acho melhor vir falar do que eu vim falar hoje, em outra hora.

_ Ah, então você veio falar de um assunto que me causa estresse? – ela disse com cinismo. – Pois fale de uma vez, Federico, eu não sou de vidro e já estou bem! E é bom que não deixemos nada pendente entre nós, eu vou me sentir melhor.

Federico suspirou, e se levantou, caminhando lentamente pelo escritório da casa em que ele vivia até poucos dias. Ajeitou os cabelos e começou, ainda hesitante, preocupado com ela.

_ São duas coisas. A primeira é que ontem... ontem eu vi que você ficou muito irritada comigo e queria me desculpar.

Cristina recordou os fatos do dia anterior e sentiu um calafrio percorrer seu corpo. Não queria falar daquilo, não queria lembrar... não podia esquecer.

_ Acho muito bom você se desculpar por tudo aquilo que aconteceu na cachoeira, seu imbecil. Você não tinha o direito! – disse ganhando, com o assunto, forças para se levantar.

_ Mas eu não estou me desculpando por tudo o que aconteceu na cachoeira. – Ele se virou e encarou-a malicioso.

_ Como assim? – indagou Cristina mostrando irritação.

Ele caminhou até ela com um sorriso suspeito no rosto e ela foi dando passos para trás adivinhando sua intenção. A respiração dela, como que num reflexo involuntário, já se alterou com a proximidade de Federico e com só imaginar que ele podia fazer de novo. Ela sabia que não podia controlar suas reações quando ele a tocava e se odiava por isso.

_ Eu nunca me desculparia com você por... um beijo. – disse pícaro já bem próximo do rosto dela.

_ Não chegue perto de mim! – ela pediu.

_ Muito menos um beijo tão... tão tórrido como aquele que me deixou atormentado durante toda a noite com sua ausência, com a sua necessidade, com a saudade, meu amor. A única coisa que eu quero sobre um beijo como aquele é repetir, aprofundar, ir até o fim. – disse ele sem nenhum pudor aproximando-se do rosto dela.

_ Não, Federico... – disse fechando os olhos.

Ela sentiu-se um pouco zonza e não entendeu se era pelo mal-estar que lhe provocara o desmaio ou o descontrole que lhe causava sua presença. Federico lhe desarranjava totalmente, tinha que conseguir afastar-se dele, mas como com tanto assédio? Com tão delicioso assédio da parte dele? Bastante perturbada com seu contato, ela virou o rosto e barrou-o com a mão direita no peito dele. Num grande esforço, desvencilhou-se dele e, parada do outro lado do escritório, disse:

_ E a outra?

_ A outra o quê? – Federico perguntou confuso.

A mesma perturbação que a proximidade dele provocava nela, também provocava nele. E ele não tentava fugir, nunca podia tentar fugir de Cristina.

_ A outra razão para que você viesse até aqui. Você não disse que eram duas? – Ela explicou.

_ Sim. – ele falou com certa hesitação. – Eu encontrei aquele idiota saindo de sua fazenda mais cedo...

_ Idiota é você que fica me rondando e rondando à Plantanal, Federico! Porque você não entende e se afasta de uma vez?

_ Eu não posso, Cristina, não posso! É você que tem que entender. – voltou a se aproximar dela. – Eu não posso viver sem sentir o gosto da sua boca, o calor da sua pele, seu corpo nos meus braços, eu te amo.

_ Fique longe! – ela voltou a adverti-lo.

_ Por quê? – indagou Federico. – Do que você tem medo? Tem medo que eu... que eu te beije de novo como ontem? Tem medo... – disse rumorante próximo ao ouvido dela. – tem medo de me corresponder outra vez?

_ Não... – ela respondeu ofegante. – Eu quero você longe de mim, seu... tarado! – disse empurrando-o.

Federico não pôde evitar dar uma gargalhada com a reação dela. Divertia-se ao ver como a alterava e isso a irritava muito.

_ Quanto mais cedo você entender que nosso casamento acabou e que nós não vamos voltar a estar juntos, melhor para você, Federico. Eu não vou te perdoar! Entenda isso de uma vez por todas. – disse Cristina implacável.

_ Cristina...

_ Vá embora, por favor. Você viu que eu não estou me sentindo bem, estou no meio de uma crise familiar, a última coisa que eu preciso é da sua presença... – pediu Cristina.

_ Do que você não precisa, Cristina, é passar por tudo isso sozinha. – garantiu Federico. – Eu te amo! E estou do seu lado para te apoiar, no que seja. Mas, tudo bem! Se é o que você me pede, eu vou embora e vou tratar de parar de... te incomodar.

Cristina sentiu o coração se cortando ao ouvir aquela frase de Federico. Ele se afastaria dela? Mas isso seria bom, era o que ela estava pedindo. Então por que ela sentia como se o peito fosse explodir quando ele disse que ia parar de procurá-la? Teve um impulso de detê-lo ao vê-lo se aproximando da porta do escritório e indo em direção à saída da sede, mas sufocou o soluço que ameaçou assaltá-la e deixou-o ir. Amava-o! Amava-o completamente ainda, pôde constatar naquele instante, mas não podia perdoá-lo. E ainda havia aquele mal-estar que podia significar algo que... Melhor confirmar antes de se preocupar ou celebrar. Na manhã seguinte, iria ao consultório do doutor Luís.

***

Vicenta bateu à porta do quarto de Cristina logo pela manhã. Ela estava saindo do banho:

_ Mandou me chamar, menina?

_ Sim, Vicenta! Depois do que aconteceu ontem, duvido que Carlota permita que Amanda me acompanhe à cidade... eu vou ao médico e quero que você vá comigo.

_ Claro que sim. – prontificou-se a mulher.

_ Na volta eu falo com Carlos, na escolinha e, depois com Amanda.

_ A menina está tão tristinha. – observou Vicenta.

_ É natural. – recordou Cristina. – Ela sente que seu mundo veio abaixo com a proibição de Carlota. Mas falta tão pouco tempo para ela completar 18 anos, Carlota não poderá impedi-la de nada e é isso que ela tem que ter claro. Amanda têm o apoio do pai, meu apoio financeiro, só precisa ver essa situação em perspectiva.

_ Mas é difícil ver as coisas assim quando se trata do amor. – disse sabiamente Vicenta.

_ E ainda mais, Nena, do primeiro amor, não? Eu entendo tanto, Amanda. Mas ela vai ser feliz, Carlota não vai destruir a vida dela porque eu não vou permitir!

_ Isso filha! Eu vou me arrumar para te acompanhar. Quer que eu chame José Maria para te levar?

_ Não é preciso...

_ Você passou mal ontem, não é bom que dirija.

_ Não vai ter nenhum problema, eu já estou bem. Eu vou ao médico para tirar uma dúvida. Só isso.

***

Federico acordou com uma grande ressaca depois de gastar mais uma noite bebendo, dessa vez, sozinho em casa. A campainha da sede da Olho d’Água tocou, e ele sentiu que a cabeça pesava uma tonelada quando se levantou para abrir a porta. Era Raquel.

_ O que você faz aqui? – indagou impaciente, nem sequer a convidou para entrar.

_ Isso é jeito de me receber, meu caubói? – ela ignorou a hostilidade dele e foi entrando. – Você está um trapo. – constatou.

_ Raquel eu não te convidei para vir à minha casa, não te convidei para entrar. O que você quer? Fale e suma pelo mesmo lugar por onde você veio!

_ Olhe para você, Federico. Olhe para essa casa, parece mais uma hospedaria, tudo tão impessoal. Você não percebe quanto tempo você desperdiçou com Cristina? – atacou.

_ Não fale do que você não sabe, Raquel! – advertiu Federico.

_ Não sei? Qualquer um sabe, é só olhar para você! Você não tem família, não tem ninguém, não tem a esposinha pela qual você fez tantos esforços, filhos, nada! Enquanto estivemos juntos você sempre evitou que eu...

_ Eu não queria ter um filho com você, Raquel. Nossa relação nunca foi um compromisso, você sabe disso! – Federico demonstrou novamente estar impaciente.

_ Eu poderia te dar um filho, uma família, te fazer feliz, Federico. – implorou se aproximando dele, porém, ele se esquivou.

_ Raquel, entenda que eu não quero nada com você! E se eu te digo tudo isso de forma tão direta é pelo pouco respeito que eu te tenho. Entre nós foi sempre você que insistiu para que estivéssemos juntos porque eu não queria te dar esperanças...

_ Porque eu te amava, Federico, eu te amo! – voltou a implorar.

_ E eu amo Cristina! – bradou o fazendeiro. – Sempre amei e sempre vou amar! Não há um único dia em que eu não amaldiçoe aquela maldita noite que eu passei com você! Porque se não fosse isso, eu estaria hoje com Cristina, a única mulher que me interessa, Raquel!

_ Por que você me trata assim, Federico? Não foi bom aquela noite, não foi bom todas as vezes que estivemos juntos? – Raquel não se dava por vencida.

_ Não, Raquel, não foi! – Federico respondeu direto.

_ O quê? – ela disse não acreditando.

_ Eu não devia ter ido pra cama com você nunca! Só o fiz por orgulho e paguei caro por isso! Suma daqui, me causa asco olhar para você porque me lembra que por sua causa eu não tenho Cristina. Eu vou recuperá-la, vou reconquistar Cristina, mas... para isso, você precisa estar onde você tem que estar: longe de mim!

_ Você e Cristina vão se arrepender por fazer com que eu me sinta assim, Federico, tenha isso muito claro!

Enfurecida, pegou sua bolsa que tinha colocado em um móvel perto da porta, e saiu da sede da Olho d’Água decidida à se vingar. Federico não deu muita importância às suas ameaças, mas ela estava levando à sério.

***

Cristina observou enquanto a enfermeira acomodava o curativo no braço dela depois de colher o sangue para o exame.

_ Pelos sintomas que você está me descrevendo, não há muitas dúvidas, Cristina, mas o exame de sangue vai nos dar a certeza. – disse doutor Luís.

_ E quando sai o resultado? – Cristina indagou apreensiva voltando a acomodar seu braço.

_ A amostra de sangue vai ser analisada aqui no laboratório do consultório mesmo e eu vou marcar para que você venha pegar comigo o resultado do exame em uma semana.

_ Ai doutor, tanto tempo? – a aflição por conhecer a verdade era evidente nela.

_ Não é tanto, Cristina! – ele disse entregando-lhe uma receita com um medicamento. – Isso é para os enjoos, tonturas, caso voltem. Alimente-se bem e... Bom, você, melhor do que ninguém conhece seu corpo e o que se passa com você, o exame é só para que não restem dúvidas.

_ Sim! – ela disse com um sorriso de emoção no rosto. – Em uma semana vou ter a resposta de algo que eu já sinto... Obrigada, doutor. – disse estendendo a mão despedindo-se.

Saindo do consultório Vicenta não fez perguntas porque ela conhecia Cristina muito bem. Até mesmo sem que ela dissesse as coisas, ela percebia. E sabia que, naquele momento, era melhor não dizer nada.

_ Vamos voltar para casa? – indagou Cristina muito calma.

_ Sim! Foi bom que não tenhamos chamado José Maria para nos acompanhar porque, antes de saí, eu percebi que ele estava preocupado. – comentou Vicenta.

_ Algum problema na fazenda? – indagou Cristina.

_ Acredito que sim, é melhor você falar com ele.

_ Então vamos para casa porque a vida não espera que sanemos nossas dúvidas para seguir, não é mesmo?

***

Cristina foi procurar José Maria no armazém logo que chegou na Plantanal. Alguns empregados avisaram que ele estava ali perto em uma das lavouras e ela foi até onde eles indicaram. Chegando lá, Cristina notou o empregado realmente muito alterado e se preocupou.

_ O que houve José Maria? Algum problema com as plantações?

_ Infelizmente sim, senhora Cristina. Outro dia eu retirei uma bananeira que estava infectada com sigatoka negra e isolei a área.

_ Meu Deus, por que você não me disse nada? – Cristina se preocupou.

_ Porque eu tinha certeza que era só um foco isolado, mas...

_ Não era? – Indagou Cristina assustada.

_ Olha só, outra planta com essa praga e... os peões vieram me dizer que encontraram outra muito perto da divisa com a Olho d’Água.

_ Federico já sabe disso?

_ Não, e temos que dizer a ele, senhora.

_ Será que é mesmo necessário? – indagou Cristina receosa.

_ Se a lavoura for contaminada com sigatoka negra e não for só uma ou outra planta, a senhora sabe que isso pode comprometer totalmente a produção, temos a obrigação de avisá-lo e... talvez... ele possa nos ajudar também aqui. Independente de todas as diferenças que eu tive com o senhor Federico, ele é muito eficiente e experiente em lidar com esse tipo de problemas. Tanto é que... esses anos todos, nunca tivemos nenhum problema com pragas.

_ Isso não! – Cristina se mostrou inflexível. – Não quero pedir a ajuda de Federico nesse momento, José Maria, vamos resolver isso nós mesmos.

_ Está bem! Ele poderia ajudar muito, mas... com certeza nós conseguiremos resolver bem esse problema aqui. O primeiro grande passo é detectar e poderíamos chamar o agrônomo que seu Federico sempre chama para observar a lavoura.

_ Claro... Federico, sempre Federico. Era tão mais fácil quando ele estava aqui, os problemas se resolviam quase por si só, ele sempre me apresentava a solução, nunca trazia a preocupação. – Constatou Cristina.

_ Ele é muito eficiente na administração da fazenda. – concordou José Maria.

_ Nisso e... em tudo mais. – disse Cristina divagando. – Eu vou falar com Federico! Vou avisar sobre a praga e no armazém há o contato do agrônomo, chame-o.

_ Está bem, vou fazer isso agora mesmo. – Avisou José Maria.

_ Também vou agora mesmo.

Cristina entrou no carro, que estava estacionado no armazém e ficou apreensiva por ir procurar a Federico. Era algo que ela não tinha o hábito de fazer, era sempre ele quem ia atrás dela nos lugares e... na vida. Ouvir José Maria, um homem a quem ela admirava e respeitava o trabalho, falar de Federico com tanta admiração também deixou-a balançada. Especialmente porque todos sabiam que os dois não se entendiam.

E, aquele fato, mais uma vez, recordou-lhe que sempre podia contar com o apoio dele, mais do que isso, ele sempre resolvia os problemas para ela. Pela primeira vez, desde que se separaram, pensou positivamente no marido e justo em um momento em que ia encará-lo para uma conversa. De negócios que fosse, mas ia falar com ele, com ele! E ainda havia aquele exame do qual ela esperava o resultado. Secretamente, pediu forças à Deus ao tocar a campainha da sede Olho d’Água. Federico, que trabalhava de casa em sua fazenda, atendeu à porta e se surpreendeu por aquela visita que, ao contrário da primeira que recebeu nesse dia, sim lhe agradava.

_ Cristina? O que você faz aqui?

***