Sombras do Abismo
9 Ecos na Escuridão
O Abismo não era apenas escuridão, era uma presença viva, respirando, consumindo, desafiando a sanidade de qualquer um que ousasse atravessá-lo. Artorias avançava entre sombras líquidas que pareciam estender-se e engolir tudo à sua volta. Cada passo reverberava como um tambor distante no meu peito, mesmo estando a milhares de quilómetros de distância, na fortaleza. O vento noturno carregava memórias dele, e eu podia sentir, de maneira quase sobrenatural, cada movimento, cada golpe, cada respiração do homem que amava silenciosamente.
Na névoa densa, monstros surgiam como se fossem feitos de pura escuridão. Olhos vermelhos brilhavam, dentes afiados reluziam sob a luz inexistente, e o cheiro da corrupção queimava o ar. Artorias enfrentava-os com ferocidade, mas havia algo diferente na sua maneira de lutar. Não era apenas força, era urgência, e uma consciência silenciosa de que a própria vida se equilibrava sobre a lâmina que empunhava. Cada ataque era medido, preciso, quase coreográfico, como se cada golpe preservasse não apenas a sua própria existência, mas a memória daqueles que deixara para trás e, talvez, de forma silenciosa, a minha própria esperança.
A ausência de Sif chegou até mim antes de qualquer outra coisa.Não foi uma visão, nem um som. Foi um vazio súbito, uma ruptura silenciosa na ligação que eu aprendera a reconhecer ao longo dos anos. Sempre soubera distinguir quando Artorias estava em perigo, quando lutava, quando avançava. Mas aquilo era diferente. Aquilo era solidão.
Ele estava sozinho.
Apertei os dedos contra a pedra fria da fortaleza, como se isso me pudesse ancorar. O mundo à minha volta mantinha-se intacto, as muralhas erguidas, o céu imóvel, os passos distantes de outros cavaleiros e, ainda assim, tudo me parecia errado. Como se uma parte essencial da realidade tivesse sido arrancada e ninguém, além de mim, se tivesse apercebido.
Sif já não estava com ele. Soube-o com uma certeza absoluta, quase dolorosa. A presença do lobo era sempre clara, firme, uma força viva que acompanhava Artorias como uma sombra leal. Quando desapareceu, deixou para trás um silêncio demasiado limpo, demasiado definitivo.
Fechei os olhos. O Abismo tinha percebido.
Senti-o como uma pressão crescente na mente, uma pulsação lenta e persistente, como algo que respirava no escuro. Não estava perto de mim ainda mas estava à volta dele. Observava. Esperava. Sempre paciente.
Artorias avançava, eu sabia. Mesmo ferido, mesmo sozinho, mesmo com o braço quebrado a pesar-lhe junto ao corpo como uma lembrança cruel da fragilidade humana. Sentia a dor dele como um eco distante, abafado, mas constante. Não era a dor física que mais o consumia era o esforço contínuo de permanecer inteiro.
A verdadeira batalha já não era travada com espada e escudo. Era travada dentro da mente.
As criaturas do Abismo surgiam-lhe com maior frequência, mais agressivas, mais conscientes. Não atacavam apenas o corpo; testavam-lhe a vontade, a paciência, a lucidez. Cada confronto deixava marcas invisíveis, fissuras que não sangravam, mas que se alargavam lentamente.
Eu caminhava pelos corredores da fortaleza como um fantasma, consciente de cada passo, mas incapaz de permanecer em repouso. Sempre que tentava parar, a pressão no peito aumentava. Como se, ao ficar imóvel, estivesse a desistir dele.
Não podia ir a Oolacile. Sabia-o. E ele também. A decisão fora tomada muito antes de a missão começar. Mas isso não tornava a espera mais fácil. Os ecos começaram pouco depois.
No início, eram subtis. Pensamentos que não eram meus, mas que tentavam parecer familiares. Dúvidas que surgiam sem aviso, sussurros que se insinuavam entre uma respiração e outra.
E se ele já não conseguir voltar?
Afastei o pensamento com violência. Não porque fosse impossível, mas porque o Abismo se alimentava exactamente disso da aceitação prematura da perda.
Lá longe, ele avançava devagar agora. Cada passo exigia concentração absoluta. O braço ferido tornava cada movimento um cálculo doloroso. Empunhava a espada com a mão não dominante, e mesmo assim continuava. Sempre continuava.
Ouvi os murmúrios antes mesmo de ele os reconhecer.
Falhaste. Estás sozinho. Ninguém virá.
Senti a resistência dele como uma tensão quase palpável. Cerrava os dentes, recusava escutar, repetia para si próprio que aquelas vozes não lhe pertenciam. E durante algum tempo, isso bastava.
Mas o Abismo não se apressa. Mostrou-lhe imagens. E, contra a minha vontade, algumas chegaram até mim.
Vi a fortaleza vazia, corredores silenciosos demais, os outros cavaleiros imóveis como estátuas de pedra. Vi Gwyn distante, envolto numa luz que já não aquecia. E depois… vi-me a mim.
Fragmentada. Distorcida. O Abismo usava-me como arma.
Mostrava-lhe o meu olhar firme transformado em reprovação, a minha presença silenciosa convertida em acusação. Tentava convencê-lo de que a sua ausência era abandono, de que a promessa de regresso era uma mentira contada a ambos.
Ela espera por ti. E tu nunca regressarás.
Quando ele parou, senti-o.
A pausa foi tão clara que quase me fez prender a respiração. Artorias apoiou-se na espada, o coração a bater de forma irregular, o corpo exausto, a mente à beira de ceder. Por um instante, temi que fosse ali. Que fosse naquele silêncio que tudo se quebraria.
Mas então ele pensou em mim. Não na imagem distorcida que o Abismo lhe oferecia, mas na verdade. Naquilo que fomos sempre um para o outro. Lealdade sem palavras. Presença constante. Uma âncora.
— Eu voltarei — murmurou ele, e a frase atravessou-me como uma lâmina suave.
Não sabia se ainda acreditava nela. Mas precisava de a dizer.
O centro de Oolacile aproximava-se, e com ele a corrupção tornava-se quase palpável. Eu sentia o chão a ceder sob os pés dele, as ruínas a torcerem-se de forma impossível, a realidade a dobrar-se como se estivesse cansada de existir.
Havia momentos em que ele se perdia. Momentos em que tinha de se lembrar do próprio nome.
Cada vez que isso acontecia, eu parava onde estivesse, fechava os olhos e repetia-o em silêncio, como se as palavras pudessem atravessar o Abismo. Artorias, o cavaleiro protector. As palavras soavam cada vez mais frágeis, mas ainda resistiam.
Quando ele caiu, senti o impacto como se tivesse sido eu a ser atirada ao chão. A criatura era maior, mais brutal, uma massa disforme de sombras e ossos. A espada escorregou-lhe da mão, e por um instante interminável, tudo pareceu suspenso.
Rende-te.
O desafio dele foi um grito mudo, mas feroz. Um acto de pura recusa. Com um esforço desesperado, recuperou a espada e cravou-a na criatura, sentindo a resistência ceder.
Quando se levantou, algo tinha mudado. Não era ainda a corrupção total. Mas era uma fissura irreversível.
O Abismo tinha entrado.
Senti-o instalar-se nele como uma presença interna, paciente, à espera. Não precisava de dominar bastava-lhe esperar que a exaustão fizesse o resto.
Artorias apoiou-se numa parede quebrada, o corpo a tremer.
— Não… ainda não.
Mas ambos sabíamos. O tempo estava a esgotar-se. Mesmo assim, ele avançou.
Não lutava já pela vitória. Nem sequer pelo regresso. Lutava para atrasar o inevitável. Para garantir que o que enfrentava ali não alcançaria o resto do mundo.
Pensou em Sif, vivo, longe dali. Pensou em mim. E esses pensamentos foram a sua última defesa.
Quando voltou a erguer a espada, senti que a sua silhueta já não era totalmente humana à luz distorcida do Abismo. As sombras colavam-se-lhe ao corpo, acompanhavam cada movimento. Mas os olhos… os olhos ainda eram dele.
A vontade ainda era dele. Por enquanto. E enquanto restasse um único fragmento de consciência, Artorias continuaria a lutar. Mesmo que isso lhe custasse tudo.
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