Sombras do Abismo
12 Além da Névoa
A névoa do Abismo começava a dissipar-se lentamente dias depois. Não o fez de forma súbita, nem com qualquer intenção de piedade. Recuou lentamente, como um animal cansado, deixando para trás apenas o suficiente para revelar o que restava de Oolacile. Quando finalmente atravessei os limites daquele lugar, senti que estava a entrar num espaço onde o mundo tinha falhado não apenas na sua forma, mas no seu propósito.
As ruínas erguiam-se partidas, deformadas, como ossos antigos à superfície da terra. Árvores retorcidas inclinavam-se em ângulos impossíveis, como se tivessem tentado fugir e falhado. O silêncio era pesado, denso, carregado de ecos que não pertenciam ao presente. Caminhei devagar, cada passo calculado, como quem atravessa um túmulo aberto sem saber exactamente onde repousa o morto.
Não havia batalha à espera. Não havia sinais de um herói de regresso, nem esperança suspensa no ar. Havia apenas ausência.
À medida que avançava, comecei a reconhecer os sinais. Marcas profundas no solo, golpes que rasgaram a terra com uma força desesperada. Corpos deformados pela corrupção jaziam espalhados, alguns irreconhecíveis, outros congelados em posições que denunciavam o instante final da violência. Aquilo não fora uma luta travada para vencer. Fora uma luta para atrasar o inevitável.
E Artorias ficara ali até ao fim. Cada vestígio confirmava o que o meu coração já sabia desde antes de entrar naquele lugar. Desde do dia em que acordei com o peito em dor, com o nome dele preso na garganta sem som. Ainda assim, continuei a caminhar, como se o corpo se recusasse a aceitar aquilo que a mente já compreendera.
Não procurei um corpo. No fundo, sabia que não o encontraria. Foi no centro de uma clareira silenciosa que o vi.
O escudo.
Estava partido, cravado no chão como um marco funerário improvisado. A superfície estava marcada por fendas profundas, impregnada de sombra antiga, mas ainda reconhecível. Parei a alguns passos de distância, incapaz de me aproximar de imediato. O objecto parecia carregar um peso maior do que o metal permitiria o peso de uma decisão, de um sacrifício feito sem testemunhas.
Aproximei-me devagar. Estendi a mão com cuidado, como se o escudo pudesse desintegrar-se ao toque. Quando os meus dedos tocaram no metal frio, uma dor surda atravessou-me o peito. Não havia calor algum, mas jurei sentir a memória das mãos dele ali. O modo como segurava o escudo firme, decidido, sem hesitação.
Não havia corpo. O Abismo reclamara-o por inteiro. Mas havia significado.
Ajoelhei-me diante do escudo e deixei a mão repousar ali por um longo momento. Não chorei. O luto ainda não tinha forma. Era apenas um peso imóvel dentro de mim, demasiado grande para se transformar em lágrimas.
Foi então que senti a presença. Levantei o olhar a tempo de ver Sif emergir da névoa restante. Movia-se em silêncio, o corpo marcado por feridas que ainda não tinham sarado por completo. Parou a poucos passos de mim, os olhos fixos no escudo, carregados de algo que não era apenas instinto animal. Havia reconhecimento. Havia dor.
O lobo aproximou-se lentamente, cheirou o metal, e soltou um lamento baixo, profundo, que ecoou pela clareira vazia como um cântico fúnebre.
Ajoelhei-me ao lado dele. Sem palavras, estendi a mão e toquei-lhe no pêlo áspero. Sif não se afastou. Ficou ali, imóvel, como se aquele fosse o último lugar onde ainda conseguia sentir o seu companheito. Naquele instante, compreendi plenamente o que Artorias fizera.
Ele ficara. Não fugira. Não recuara. Lutara até que o corpo deixara de responder, até que a vontade fosse a única coisa que o mantinha de pé. E mesmo quando tudo lhe fora retirado o braço, a força, a esperança recusara cair.
Ficara de joelhos. A espada cravada no chão. O último obstáculo entre o Abismo e o mundo.
Sif afastou-se lentamente depois. Olhou-me uma última vez, como se partilhasse comigo um entendimento silencioso que não precisava de palavras. Não houve despedida. Apenas aceitação. O lobo desapareceu entre as árvores retorcidas, levando consigo a última ligação viva a Artorias.
E eu permaneci. Ergui-me quando o sol começou a romper por entre as nuvens, lançando uma luz pálida sobre as ruínas de Oolacile. Não havia corpo para sepultar. Não havia espada para recuperar. Apenas o escudo partido e a memória de quem ele fora.
E isso teria de bastar. Aproximei-me uma última vez do escudo e inclinei a cabeça, num gesto simples, íntimo. Não como guerreira. Não como lenda. Mas como alguém que amara.
— O mundo lembrar-se-á de ti como um herói — murmurei, a voz baixa, quase engolida pelo vento. — Falarão do cavaleiro que enfrentou o Abismo sozinho.
Fechei os olhos por um instante.
— Mas eu lembrar-me-ei de ti como foste — continuei. — Do homem que escolheu ficar. Do homem que nunca me prometeu nada, excepto que faria o que era certo.
Quando me virei, não olhei para trás. Algumas histórias não terminam com regresso. Não terminam com vitória, nem com salvação. Terminam com permanência com a certeza de que alguém existiu de forma tão plena que nem a escuridão o conseguiu apagar por completo.
Artorias não regressara. Mas enquanto eu respirasse, enquanto o seu nome fosse pronunciado com verdade e amor, ele nunca deixaria de existir.
E isso, mesmo no meio da perda, foi o que me permitiu seguir em frente, para além da névoa.
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