Sombras da Eternidade -Jacob Black
1 Nó de Bruxa
— Preparem meu cavalo. — Aro Volturi ordenou ao criado no pátio de pedra do castelo, pouco antes da primeira hora do sol.
Aro Volturi, regente do reino da Valáquia, preparava-se para uma caçada nas montanhas — um ritual em nome do rei e uma celebração ao último dia do outono.
O castelo repousava em silêncio. Apenas as criadas deslizavam pelos corredores de pedra, carregando roupas, limpando, acendendo lamparinas, despertando aos poucos a velha fortaleza.
Caminhando em passos quase inaudíveis pelo estábulo, Aro arrastava a capa negra sobre a palha úmida do chão. O solado das botas batia levemente contra a madeira, e os olhos verdes — de um tom pálido e frio — buscavam algo entre as sombras.
Ela. Melian Ravenia.
A jovem filha do armeiro alimentava os cavalos quando o viu aproximar-se. Levantou os olhos azuis, e a respiração lhe falhou.
— Sabia que a encontraria aqui, — disse Aro, num tom suave, o sorriso luminoso contrastando com a manhã cinzenta.
— Meu senhor. — Melian segurou as laterais do vestido cinzento e esfarrapado, inclinando-se em reverência. — Seu cavalo já foi alimentado e escovado como deseja. Entreguei-o ao domador há poucos minutos.
Com uma leveza calculada, Aro se aproximou dela. Melian sentiu o rubor subir-lhe às faces, o coração acelerando no peito.
Ele estendeu a mão e roçou o polegar em seu queixo, um gesto terno, quase reverente.
— Obrigado.
O toque dele fez o ar ao redor perder a forma. Aro, o jovem regente, não via nela uma serva, mas uma chama — uma mulher que desafiava sua razão e sua posição.
Melian Ravenia viera das terras remotas do norte, com o pai e duas irmãs. Sua beleza — os cachos escuros, os olhos azuis como o gelo sob a lua — cativara Aro desde o primeiro instante.
E, como em um feitiço silencioso, um amor proibido floresceu nas sombras do castelo.
Um beijo roubado selou aquele instante.
Melian agarrou os ombros dele, enquanto os lábios se encontravam numa urgência contida.
— O rei organizou uma caçada para celebrar o fim do outono, — murmurou Aro, a testa colada à dela, o hálito se misturando em nuvens frias.
— A floresta é perigosa. — Ela o segurou mais firme, as unhas cravando-se no tecido da capa. — Há rumores de criaturas que vagam nas sombras. Volte antes do pôr do sol... por favor.
O pedido soou como uma súplica, um fio de medo e amor entrelaçados.
Aro sorriu, beijando o topo da cabeça dela.
— Serei cuidadoso. — murmurou. — E eu sei me defender.
Nos braços dele, Melian fechou os olhos e começou a sussurrar um cântico antigo — palavras esquecidas que pediam à terra, ao vento e à lua que o guardassem.
Aro, ignorante da herança mística da mulher, sentiu apenas o calor do afeto.
— Leve isto. — Ela retirou do pulso um pequeno amuleto de palha trançada, um nó de bruxa.
Ele aceitou, beijando-a uma última vez antes de partir. O sorriso dele foi gentil, mas um tanto incrédulo quanto ao presente.
Ainda assim, guardou o amuleto junto ao peito, sob a armadura de couro, e partiu com os caçadores.
Melian observou os cavaleiros desaparecerem sob a névoa que se erguia. O coração dela pesava como pedra.
Nas entranhas do seu dom ancestral, algo gritava. O pressentimento da perda.
O dia se arrastou denso, o céu encoberto por brumas que pareciam sussurrar tragédias.
Quando o sol se pôs, o castelo mergulhou num silêncio fúnebre. Nenhum cavalo retornou. Nenhum homem.
Três dias se passaram.
E, ao cair da noite do terceiro, o som de cascos ecoou pelo pátio.
Melian correu até o estábulo.
A capa negra estava em farrapos, a armadura suja de barro, mas Aro Volturi regressara — sozinho.
Sob a luz prateada da lua, ele parecia uma aparição: pálido, belo demais, os cabelos longos e negros emoldurando um rosto que não parecia mais humano.
— Está vivo! — suspirou Melian, o alívio rasgando o peito.
Deu um passo à frente — e congelou.
Os olhos dele brilhavam em um rubro profundo.
Aro desmontou do cavalo e caminhou até ela.
— Meu amor, — sussurrou contra o ouvido da mulher, inalando o perfume de ervas e flores que lhe era tão familiar.
Seus lábios frios roçaram o pescoço dela, num beijo que beirava a adoração… até que o instinto o traiu.
As presas emergiram. O veneno lhe queimou a língua.
Ele sentia tudo — o medo, o amor, a devoção — tudo que vivia na mente dela, até que o pavor a dominou.
O toque dele se tornou um aperto.
O beijo, uma ameaça.
E, antes que as presas alcançassem a pele, um calor abrasador lhe atravessou o peito.
— Bruxa... — Aro arfou, recuando.
A dor o fez cair de joelhos, os olhos arregalados diante das mãos de Melian — agora brilhando como dois sóis em fúria.
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