Sombras, Fogo e Gelo
19 O Próximo Capítulo de Nossas Vidas
As ruas próximas do hospital de Crystal Coast estavam envoltas em uma atmosfera densa e opressiva naquela tarde nublada. As nuvens escuras pesavam no céu, como se refletissem a tensão que permeava cada corredor do hospital. Joshua permanecia internado, ainda recuperando-se dos graves ferimentos que quase lhe custaram a vida. Seus olhos estavam vendados, cobrindo profundas queimaduras que afetam suas córneas, e uma máscara de oxigênio cobria parte de seu rosto, ajudando-o a respirar.
Ele dormia, mas o sono era inquieto. Seus sonhos eram povoados por sombras, lembranças fragmentadas das batalhas recentes, dos sacrifícios e perdas. Ele não percebeu a figura sentada ao lado de sua cama, observando-o em silêncio. Di estava ali, fora do horário de visitas, desafiando as regras do hospital. Entrara escondida horas atrás e implorou para uma enfermeira a deixar ficar, quando foi encontrada. Por sorte, a enfermeira apiedou-se por seu estado, claramente sofrendo pelo garoto ali, e não comunicou nada aos médicos de plantão.
A jovem estava exausta, as olheiras profundas marcando seu rosto, e as marcas vermelhas ao redor dos olhos, disfarçadas com maquiagem, revelavam suas noites de choro e preocupação.
Di sentia um turbilhão de emoções enquanto observava Joshua. Ele estava tão frágil, tão vulnerável. Ela queria dizer tantas coisas, mas as palavras pareciam presas na garganta. Seus dedos se apertaram contra os braços da cadeira, buscando a coragem para iniciar a conversa que sabia ser inevitável. Em sua tentativa de controlar a ansiedade, seus pés moviam-se como se estivesse ensaiando a coreografia de uma das músicas da banda, mesmo sentada.
Joshua acordou de repente, seu corpo tenso, a respiração acelerada sob a máscara de oxigênio. Ele piscou sob a venda branca, tentando entender onde estava. A dor era um lembrete constante de sua fragilidade atual. Di rapidamente segurou a mão dele, seus dedos finos e frios se entrelaçando com os dele, numa tentativa de lhe oferecer algum conforto.
Ele demorou um pouco, mas logo reconheceu o toque dela. "Daeun?", ele murmurou, a voz abafada pela máscara. O simples fato de ser reconhecida apenas pelo toque fez o coração de Di doer ainda mais. Ela apertou a mão dele, uma lágrima solitária escorrendo pelo seu rosto.
"Sim, sou eu," respondeu ela, a voz suave e trêmula. "Estou aqui, Josh."
Joshua tentou falar, mas a máscara tornava difícil. Ele podia sentir a presença dela, a preocupação, a dor. "Você está... bem?", ele conseguiu perguntar, a voz fraca.
Di forçou um sorriso, mesmo que ele não pudesse vê-la. "Estou... sobrevivendo," disse ela, lutando para manter a voz firme. Ela sabia que tinha que falar com ele, mas as palavras eram difíceis de encontrar.
"Josh," começou Di, a voz tremendo ligeiramente. "Eu... eu preciso me afastar de você."
Aquelas palavras atingiram Joshua como uma marreta. Ele apertou a mão dela com mais força, como se isso pudesse impedi-la de ir embora. "Não, Daeun. Não diga isso. O que… o que eu fiz de errado?"
Di sentiu seu coração se apertar. Ela sabia que não queria dizer aquelas palavras, mas precisava fazer o que era melhor para ambos, mesmo que isso significasse quebrar o coração dele – e o dela também. "Josh, escute," ela disse, tentando manter a voz firme. "Nós dois sabemos que nossas vidas são opostas em quase tudo. Eu preciso resolver minhas próprias questões, encontrar um caminho... sozinha, por enquanto."
Joshua lutou contra as lágrimas, a dor em seu peito mais intensa do que qualquer ferimento físico. "Eu entendo que você precise de tempo, mas... por favor, não me deixe assim. Nós podemos encontrar um jeito, juntos."
A jovem sabia que tinha que ser cruel, este seria o único jeito de que seguissem caminhos separados. Ela respirou fundo, reunindo toda a coragem que tinha. "Josh, nosso relacionamento nunca foi sério," disse ela, cada palavra como uma faca cravada em seu próprio coração. "Você sabe que é muito jovem para mim. Eu vou voltar para Seul e encontrar alguém que possa cuidar de mim… do jeito que um garoto cego não pode."
“Preciso pensar na minha carreira,” completou a idol, tentando transparecer alguma verdade enquanto inventava uma desculpa para que os dois terminassem o relacionamento. “Pode ser que apareça alguém de outra banda de mais sucesso, ou algum empresário que possa ajudar a nos colocar em eventos maiores. Joshua, eu preciso pensar nessas possibilidades.”
Antes que pudesse ouvir uma resposta, ela engatou mais uma tentativa se que Joshua não mais a visse com o amor que ela sabia haver entre os dois, “Você sabe que eu sempre pensei em mim primeiro, eu protegi você e seus amigos para o bem da banda, mas agora…”
Joshua ficou em silêncio, cada palavra dela uma nova ferida em sua alma. Ele queria gritar, queria dizer que ela estava errada, mas as palavras não vinham.
Di, sentindo que precisava terminar de uma vez, finalmente acrescentou: "Você deve agradecer por isso. Um dia, você vai poder contar aos seus netos que beijou uma estrela. Isso é algo que poucos podem dizer."
Ela viu a expressão de dor no rosto de Joshua, mesmo com a venda cobrindo seus olhos. Ele abriu a boca para falar, mas nada saiu. Di sentiu seu próprio coração se partir com as palavras que dissera. Ela queria abraçá-lo, dizer que tudo aquilo era mentira, mas sabia que não podia.
Joshua finalmente conseguiu falar, a voz fraca e cheia de emoção. "Se... se isso é o que você realmente quer, Di... então eu não vou te impedir. Mas saiba que... nunca vai ser fácil para mim."
Di segurou as lágrimas, tentando manter a compostura, ser chamada por seu nome artístico e não o nome real, como ela já havia pedido a ele, significava que tinha atingido seu objetivo. "Adeus, Joshua," disse ela, levantando-se lentamente. "Cuide-se."
Ela soltou a mão dele e saiu do quarto, sentindo como se estivesse deixando uma parte de si mesma para trás. Enquanto caminhava pelos corredores do hospital, a dor em seu coração era quase insuportável, mas ela sabia que tinha feito o que era necessário.
Joshua ficou sozinho no quarto, o silêncio agora preenchido apenas pelo som de sua respiração pesada. Ele sentiu a solidão invadir seu ser, mas também uma sensação nova para ele, uma nostalgia misturada com mágoa, o sentimento de que algo havia acabado.
*****
Di caminhava pelos corredores do hospital, cada passo pesando como se estivesse carregando o mundo nas costas. Ela evitava olhar para trás, sabendo que, se o fizesse, poderia perder a coragem de seguir em frente. O som dos monitores cardíacos e os murmúrios de conversas distantes pareciam abafados, como se viessem de um outro mundo.
Seu coração se partia a cada passo que dava, uma dor profunda que ecoava dentro de si. Ela apertou os braços ao redor do corpo, tentando se segurar. As palavras que dissera a Joshua ainda reverberavam em sua mente, cruéis e cortantes. Ela sabia que tinha feito o que era necessário, mas isso não tornava a dor menos intensa.
Aproximando-se da porta que levava para a rua, lembrou-se de quando havia ido ao hospital encontrar com Joshua e os outros, levá-los para a pensão. Por um momento, lembrou-se da conversa na cafeteria e olhou para a própria mão. Lembrou da refeição que dividiu com o adolescente e de quanto os dois acabaram se aproximando naquele dia. Por um segundo, sentiu os cabelos de Joshua enrolados em um de seus dedos, como havia feito.
Ao chegar à saída do hospital, Di parou por um momento, suspirando profundamente. Não era um suspiro de alívio, mas de derrota. Sentia-se como se tivesse falhado de alguma forma, como se o peso de suas decisões fosse insuportável. Ela empurrou a porta que estava entreaberta e saiu em direção ao estacionamento, o céu nublado espelhando seu estado de espírito.
No estacionamento, ela avistou uma minivan estacionada com a porta de trás aberta. Com passos rápidos e desesperados, Di praticamente se jogou para dentro do veículo. Lá dentro, Lea já estava esperando, seus olhos cheios de compreensão e tristeza. Ela então caiu no ombro de Lea, as lágrimas começando a escorrer quase imediatamente.
"Lea," Di sussurrou, a voz quebrada. "Eu... eu não sei como eu fiz isso… meu coração dói tanto."
Lea envolveu Di em um abraço apertado, acariciando suavemente seus cabelos. "Shh, Daeun. Está tudo bem," disse ela, usando o nome verdadeiro de Di, um lembrete de sua amizade profunda e duradoura. "Você fez o que precisava fazer."
Di soluçou, sentindo as lágrimas encharcarem o ombro de Lea. "Eu... eu o machuquei, Lea. Eu disse coisas horríveis. Eu nunca quis feri-lo assim."
Lea continuou a confortá-la, a voz suave e cheia de empatia. "Eu sei, Daeun. Mas às vezes, precisamos ser cruéis para proteger aqueles que amamos. Ele vai entender um dia."
Di se agarrou a Lea, deixando que as lágrimas fluíssem livremente. "Por que tudo tem que ser tão difícil? Por que não podemos simplesmente ser felizes?"
Lea suspirou, sentindo a dor de sua amiga como se fosse sua. "A nossa vida nunca será fácil, Daeun. Mas você é forte. Nós cinco vamos continuar o nosso caminho, se Joshua estiver nele, nós vamos nos reencontrar um dia."
Por alguns momentos, Di se permitiu chorar, deixando que a dor e o arrependimento escorressem junto com suas lágrimas. Lea conformou-se em ser seu ombro amigo, sabendo que, às vezes, o maior ato de força é simplesmente estar lá para alguém.
Finalmente, Di se endireitou, limpando as lágrimas com as costas da mão. "Obrigada, Lea. Eu não sei o que faria sem você."
Lea sorriu, um sorriso triste mas encorajador. "Você se sairia melhor do que imagina. Vamos sair daqui, Di. Há um mundo lá fora esperando por nós."
Di assentiu, sentindo a esperança de dias melhores começar a se formar dentro de si. Ela olhou para a porta do hospital pela última vez, prometendo a si mesma que encontraria um caminho para seguir em frente, por mais difícil que fosse.
O motorista entendeu que este era o momento de irem embora e rapidamente ligou o veículo. Em segundos estavam passando pelas cancelas do hospital, prontos para seguir a estrada em direção a um lugar em que Di e Lea poderiam descansar pelos próximos dias.
*****
A minivan parou em frente a um pequeno complexo de mini-apartamentos na cidade vizinha a Crystal Coast. A cidade, que antes fervilhava com a vida e a energia de um show recente da Rainbow 5, agora parecia um fantasma de seu antigo eu. As ruas estavam desertas, os edifícios danificados e os escombros espalhados por toda parte, vestígios visíveis dos ataques de Hu Can.
Di e Lea saíram da minivan, olhando em volta com uma mistura de espanto e tristeza. O complexo onde estavam era uma pensão de baixo custo, claramente escolhida pela necessidade de discrição e economia. Min Jae saiu da entrada principal, caminhando em direção a elas com uma expressão cansada, mas determinada.
"Consegui o último quarto disponível para vocês," disse ele, apontando para a entrada do prédio. "Não é muito, mas é limpo e seguro."
Lea olhou em volta, preocupada com a segurança. "Hum… tem certeza… você acha que estaremos seguras aqui? A cidade parece um campo de batalha."
Min Jae assentiu, embora seu rosto revelasse a mesma preocupação. "Fiz o melhor que pude, Lea. Não há muitos lugares seguros por aqui, mas este é o mais próximo que conseguimos."
Di parecia distante, seus pensamentos claramente em outro lugar. Ela mal registrou a conversa, seus olhos vagando pela cidade em ruínas. Min Jae percebeu a distração dela, mas não comentou. Em vez disso, ele começou a tirar as malas das garotas de dentro da minivan, colocando-as no chão com cuidado.
"Vamos levar isso para o quarto," disse ele, pegando algumas malas. Lea suspirou e pegou as dela, enquanto Di, como se acordando de um transe, pegou a última.
Elas subiram as escadas do complexo em silêncio, cada uma imersa em seus próprios pensamentos. O quarto era simples, mas limpo, com duas camas confortáveis e uma pequena mesa no canto. Lea imediatamente começou a organizar as coisas, enquanto Di se dirigia à janela, olhando para a estrada que levava a Crystal Coast.
"Di," começou Lea, a voz suave. "Você está bem?"
Di não se virou, mantendo os olhos fixos na estrada. "Eu... não sei," respondeu ela, a voz quase um sussurro. "Tudo parece tão errado. Deixá-lo lá, sozinho... não sei se foi a coisa certa."
Lea se aproximou, colocando uma mão reconfortante no ombro de Di. "Você fez o que precisava fazer. Joshua é forte, ele vai sobreviver. E nós também."
Min Jae observou as duas por um momento antes de falar. "Eu vou voltar para Crystal Coast, vou ficar com as outras integrantes da banda. Estamos todos no mesmo barco agora, e vamos superar isso. Mandarei alguém pegar vocês para os ensaios, não se preocupem com isso."
Di finalmente se afastou da janela, tentando forçar um sorriso. "Obrigada, Min Jae."
Ele acenou com a cabeça, olhando para elas com uma expressão paternal. "Descansem. Precisamos de toda a força possível para o que está por vir."
“Garotas, não esqueçam que eu ainda estou tentando um avião de resgate. Assim que tivermos algum contato com a embaixada ou com Seul, vou conseguir ajuda e voltamos para casa,” completou, com palavras quase casuais.
Com isso, ele saiu do quarto, fechando a porta atrás de si. Lea olhou para Di, vendo a tristeza nos olhos da amiga. "Vou ajudar você a superar isso, Di. Eu prometo."
Di assentiu lentamente, sentindo a força das palavras de Lea. "Sim," disse ela, tentando acreditar. "Eu só… eu quero que Joshua supere também."
A estrada que levava a Crystal Coast permanecia visível pela janela, um lembrete constante do que haviam deixado para trás.
*****
Senhor Meia-Noite despertou lentamente, a consciência voltando como uma maré subindo. A maquiagem usual que cobria seu rosto e os poderes de sombras que o envolviam estavam ausentes. Ele estava em um lugar em ruínas, uma construção antiga e desmoronada, que ele reconhecia vagamente, mas não conseguia saber claramente o que já havia sido. Pelo grande desmoronamento do que um dia foi o teto, ele via a lua cheia brilhando intensamente, iluminando a cena com um brilho prateado e etéreo.
Ele tentou se levantar, uma mão indo automaticamente para os ferimentos em seu abdômen, mas para sua surpresa, encontrou a pele lisa e curada. Confuso, ele olhou ao redor, procurando respostas. Foi então que notou uma figura feminina do outro lado da sala, uma presença etérea que parecia brilhar com a luz da lua.
"Espírito da Noite," ele murmurou, reconhecendo a entidade que lhe concedera os poderes. A voz dela não vinha dos lábios, mas do próprio vento que soprava suavemente pela sala em ruínas.
"Você completou o contrato," disse a voz, agradecida e melódica, como uma canção sussurrada pelo vento. Ela olhava fixamente para a lua, os olhos brilhando com um brilho sobrenatural.
Senhor Meia-Noite se aproximou, cauteloso. "Então estou livre? Livre dos poderes e das obrigações?" A esperança em sua voz era evidente, mas havia um toque de desconfiança.
A mulher se voltou para ele, um sorriso enigmático no rosto. "Livre?" A voz no vento era suave, mas havia um tom de aviso. "Este era apenas um contrato. Eliminar Hu Can era a tarefa deste acordo. Mas haverá mais. E eu vou procurá-lo novamente, quando precisar."
Senhor Meia-Noite sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ele sempre soubera que seus poderes vinham com um preço, mas a ideia de ser eternamente atado a essa entidade era perturbadora. "E se eu me recusar? Se eu não quiser mais fazer parte disso?"
O sorriso do Espírito da Noite não vacilou. "Você não pode recusar, minha criança. O poder que você carrega não é apenas um presente, mas uma responsabilidade. Você aceitou isso quando fizemos nosso primeiro acordo."
Ele fechou os olhos por um momento, tentando processar a realidade da situação. A ideia de mais missões, mais contratos, era exaustiva. "Entendi," ele disse finalmente, resignado. "O que acontece agora?"
"Agora," disse a voz no vento, "você volta ao mundo dos vivos, mas lembre-se sempre de que estou observando. Esteja pronto e forte. Seu sucesso de hoje pode tornar-se o fracasso de amanhã."
Enquanto ela falava, Senhor Meia-Noite notou algo estranho. Havia uma sombra que percorria o corpo translúcido da mulher, uma presença que parecia ser parte dela, mas também separada. Era escura e amorfa, e ele sentiu um arrepio de reconhecimento. Algo sobre essa sombra parecia familiar, mas antes que pudesse questionar, sentiu-se sendo puxado de volta.
A sala em ruínas começou a se dissolver ao seu redor, a luz da lua se apagando enquanto ele era transportado de volta. A última coisa que viu foi o sorriso enigmático do Espírito da Noite e aquela sombra inquietante, um presságio do que estava por vir.
Quando abriu os olhos novamente, estava de volta a sua casa, sobre a cama ensanguentada, a familiaridade do lugar trazendo um breve momento de conforto. Mas a lembrança da sombra e das palavras do Espírito da Noite persistiam, um lembrete constante de que sua luta estava longe de terminar.
*****
Alguns dias se passaram desde a fatídica conversa com Di, e o hospital estava em um estado de atividade frenética. Joshua permanecia internado, seus ferimentos melhorando lentamente, mas seu espírito parecia quebrado. Ele se recusava a comer, a depressão se instalando profundamente em seu ser. Seus olhos ainda estavam cobertos por uma venda branca, um lembrete constante de sua fragilidade.
Era uma manhã cinzenta quando o experiente médico que o tratava entrou no quarto de Joshua, um sorriso de satisfação no rosto. "Bom dia, Joshua," disse ele, com um tom caloroso. "Vamos ver como está a sua recuperação hoje."
Joshua assentiu levemente, a expressão abatida. O médico começou a examinar as queimaduras que cobriam partes do corpo do jovem, notando uma melhora significativa. "As queimaduras estão cicatrizando muito bem," comentou o doutor, mais para si mesmo do que para Joshua. "E os cortes no peito estão fechando perfeitamente."
Ele se inclinou, verificando os olhos vendados de Joshua com cuidado. "Seus olhos ainda precisam de tempo para se recuperar, Joshua. A venda é necessária para proteger a cicatrização, mas tenho boas notícias. Acredito que sua cegueira não será permanente. Com mais algum tempo, você deve recuperar a visão. Vai demorar, mas tenha confiança."
Joshua permaneceu em silêncio, as palavras do médico parecendo distantes, irrelevantes. Ele estava perdido em seus próprios pensamentos, revivendo os momentos de dor e perda, sentindo a ausência de Di como uma ferida aberta.
O médico suspirou, percebendo o estado emocional de seu paciente. "Eu sei que é difícil," disse ele suavemente. "Mas você está melhorando, e isso é o que importa. Você precisa ser forte, Joshua."
Joshua finalmente falou, a voz rouca e cansada. "E se eu nunca mais voltar a ser o mesmo? E se... eu nunca mais puder ver?"
O médico colocou uma mão reconfortante no ombro de Joshua. "Você já mostrou uma força incrível, Joshua. Não subestime sua capacidade de se recuperar. Acredite no processo e dê tempo a si mesmo. Você já é um milagre, se a situação fosse um pouco mais calma, eu tentaria chamar outros médicos para entender melhor como você conseguiu melhorar em tão poucos dias…"
Antes de sair do quarto, o profissional parou na porta e olhou para Joshua com uma expressão séria. "A situação no hospital é crítica," disse ele. "Estamos ficando sem recursos, e pode ser que você receba alta em breve para continuar o tratamento em casa. Mas não se preocupe, vamos garantir que você tenha todo o suporte necessário."
Joshua apenas assentiu, sentindo-se exausto. A ideia de sair do hospital, de voltar ao mundo exterior, parecia esmagadora. Ele ouviu os passos do médico se afastando pelo corredor e voltou a mergulhar em seus pensamentos sombrios.
"Como vou conseguir sair daqui?" pensou ele, a ansiedade crescendo dentro de si. "E se eu não conseguir me adaptar? E se... eu não encontrar mais meu lugar?"
Ele tentou afastar esses pensamentos, mas a tristeza era um companheiro persistente. A esperança que o médico tentara plantar parecia frágil, quase inalcançável. Joshua sabia que precisava ser forte, mas naquele momento, a força parecia uma ideia distante e evasiva.
*****
Horas depois da visita do médico, Joshua recebeu a notícia de que teria alta do hospital. Seu pai, estava ao seu lado, ajudando a preparar a mala para o retorno à casa. Era um homem de meia-idade, com cabelos ruivos já grisalhos nas têmporas e uma expressão de constante preocupação. Ele tentava manter uma atitude positiva, mas a tristeza em seus olhos era inegável.
"Joshua, deixa eu fazer isso. Você precisa descansar um pouco mais," disse ele, enquanto dobrava uma camisa e a colocava na mala.
Joshua, ainda vestindo a venda para proteger seus olhos, suspirou. "Estou bem, pai," respondeu ele, tentando soar convincente.
O homem parou o que estava fazendo e olhou para o filho, mesmo sabendo que ele não podia ver. "Joshua, como você realmente se sente?" perguntou ele, a voz carregada de preocupação.
"Eu disse que estou melhor," respondeu Joshua com um tom desinteressado, mais uma vez tentando esconder a verdade.
O pai repetiu a pergunta, desta vez com uma intensidade que exigia sinceridade. "Josh, como você realmente se sente? Seja sincero."
Joshua hesitou, mas finalmente cedeu, sentindo a necessidade de desabafar. "Eu me sinto sozinho, pai. Muito sozinho."
O silêncio se instalou entre eles, pesado e denso. O pai do adolescente suspirou, sentando-se ao lado do filho na beira da cama. "Eu entendo, filho," disse ele suavemente. "Sei que você está falando da garota de cabelos brancos. Mas você precisa ser firme. Ainda é um adolescente, tem muita vida pela frente. Vai conseguir seguir em frente."
Joshua tentou sorrir, mas o gesto parecia forçado e vazio. "Eu sei, pai. Só que... é difícil."
O homem colocou uma mão reconfortante no ombro do filho. "Sim, é difícil. Mas você é forte. E, bem… eu era bem mais velho quando conheci sua mãe. Eu achei que ia me casar com uma namoradinha da escola," disse, interrompendo a conversa para um suspiro pesado, para só então retomar, com um tom mais condescendente. “Mas, pensando bem, hoje eu nem sei onde ela está. Não se preocupe tanto com isso.”
Com a mala finalmente pronta, ele ajudou Joshua a se levantar. Ele segurou o braço do filho com firmeza, guiando-o pelo corredor do hospital. Joshua movia-se lentamente, cada passo uma lembrança de sua vulnerabilidade. o adolescente sentia as paredes e o chão frios, o cheiro estéril do hospital, cada detalhe intensificado pela falta de visão.
Quando chegaram ao estacionamento, colocou a mala no porta-malas do carro e ajudou Joshua a entrar no banco do passageiro. Num primeiro momento, o adolescente tateou a lateral do carro, tentando sentir onde estava a maçaneta da porta, conseguindo abri-la somente com a ajuda de seu pai, somente então pode sentir o assento macio sob si e tentou se ajustar, sentindo-se desconfortável em mais de uma maneira.
O pai entrou no carro, ligando o motor. "Vamos para casa," disse ele, a voz firme, mas com um toque de melancolia. O som do motor e a sensação de movimento trouxeram memórias para Joshua, ele ao menos lembrava de como era a vida antes disto tudo que viveu.
O trajeto foi silencioso, os dois mergulhados em seus próprios pensamentos. Joshua tentava imaginar como seria voltar para casa, como enfrentaria os dias que viriam. A ausência de Di pesava sobre ele, mas a sensação de perder seu amigo Ethan apenas começava a nascer em seu coração e já lhe rendia flashes sombrios conforme avançava por cenários conhecidos.
O homem, por sua vez, estava preocupado com o filho. Ele sabia que Joshua enfrentava uma dor que ele não podia aliviar completamente, mas estava determinado a fazer o que pudesse para ajudá-lo a se recuperar.
Quando finalmente chegaram à casa, o pai parou o carro e saiu, indo até o lado do passageiro para ajudar Joshua a descer. "Estamos em casa, Josh," disse ele, tentando soar encorajador.
Joshua assentiu, segurando-se no braço do pai enquanto caminhavam em direção à porta da frente. Ele sabia que o caminho à frente seria difícil, mas com o apoio do pai, sentia uma pequena centelha de esperança.
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