Sombra e Neve
3 Capítulo 3
O coração de Branca batia como um tambor, dentro de peito. Ela não podia hesitar se ficasse, morreria. Se tentasse fugir sem um plano, seria capturada.
Mas ela tinha algo a seu favor: anos trabalhando como serva lhe deram conhecimento sobre passagens escondidas, portas esquecidas e a estrutura exata da barreira de gelo que rodeava o castelo, iguais a barreiras que limitavam o reino. Naquela noite, enquanto os ventos uivavam ao redor das torres, Branca, aguardou o momento perfeito.
Os guardas estavam distraídos, a final seu trabalho era mais simbólico do que um dia foi, depois que Mallory assumiu e havia fechado as fronteiras eles eram apenas marionetes. Mallory, em êxtase, iniciava os preparativos finais para o feitiço que lhe daria vida eterna. O caçador Cassius estava em outra ala do castelo, afiando sua lâmina, preparando-se para eliminar a princesa antes do nascer do sol.
Respirando fundo, Branca deslizou pelas sombras usando um capuz, seus pés silenciosos contra o chão de pedra fria. Movendo-se por corredores escuros, chegou até uma ala abandonada do castelo—onde havia uma estreita passagem que levava diretamente aos fundos da muralha congelada. O gelo era sólido, impenetrável… ou assim acreditavam.
Branca pressionou suas mãos contra um ponto específico da barreira. Era pequeno, quase imperceptível, mas sua mente aguçada havia notado há meses que ali o gelo era diferente ele não refletia a luz da mesma maneira que o resto da muralha, não tinha a força mágica de Mallory.
Com toda sua força, desferiu um golpe contra a parede, usando um pedaço afiado de madeira que havia escondido em seu vestido. O gelo estalou, como vidro rachando, e uma pequena abertura surgiu.
Sem pensar duas vezes, se enfiou pela brecha, sentindo o frio cortante contra sua pele, mas não parou. Do outro lado, havia uma estrada que levava ao vilarejo mais próximo, sua única chance de escapar. Chegando ao vilarejo roubou um cavalo de alguma taverna e disparou em direção ao único lugar que tinha certeza de que conseguiria fugir das garras do caçador e depois pensaria num jeito de fugir do reino e esse lugar era o bosque sombrio.
Havia ouvido sobre ele de alguns servos com quem trabalhou nos últimos anos, onde diziam ser magico e que no centro dele havia um tipo de força ninguém nunca ousou tentar se aproximar ou domar. Quando a brisa noturna soprou contra seu rosto, ela soube: havia conseguido fugir do castelo. Mas a sorte não duraria.
Mallory, sentada em seu trono, de repente sentiu um tremor percorrer seus ossos seu feitiço, sua barreira, sua prisão perfeita havia sido violada. Seus olhos se arregalaram e, com um grito de fúria, ela correu até o espelho mágico.
— Espelho, espelho meu… — Murmurou, seu tom carregado de ódio. — Onde está Branca de neve?
A superfície brilhou, distorcida como uma poça de água em tempestade. Então, a imagem surgiu a princesa correndo para fora do vilarejo, já fora de seu alcance imediato. Mallory rugiu, sua fúria explodindo contra as paredes do castelo. No mesmo instante, Cassius ouviu o chamado da Rainha. Ao ver o olhar distorcido de ira em seu rosto, soube que a caça começara. Sem demora, pegou sua lâmina e cavalo, partiu seguindo os rastros, seus olhos fixos na trilha que a princesa havia deixado.
A noite envolvia a floresta em sombras densas, e o som dos cascos de seu cavalo ressoava entre as árvores retorcidas. Branca cavalgava desesperada pela floresta forçando o animal a ir mais rápido, não podia parar. O frio mordia sua pele, o vento cruel arrancava seu capuz e lançava seus cabelos ao ar como fios de obsidiana brilhando sob a luz da lua. Ela tinha escapado do castelo…, mas agora, precisava escapar do caçador. E Cassius não falhava em suas caçadas.
O caçador sentia o cheiro da presa antes mesmo de avistá-la. Sua capa escura esvoaçava enquanto cavalgava sem hesitação, seus olhos ferozes não piscavam enquanto seguiam a trilha que Branca deixava. Cada galho quebrado, cada marca na terra, ela estava desesperada, e ele sabia exatamente como caçar desesperados.
Branca ouviu o som do outro cavalo se aproximando. O peso de sua presença, a ameaça de sua lâmina escondida, fez o pânico crescer dentro dela. Mas ela não podia se entregar ao medo. O bosque estava próximo.
Porém com destreza o Cassius preparou um arco e flexas para sua caçada, adorava atormentar suas presas, sem remorso algum, o homem disparou uma flecha contra o cavalo de Branca, acertando uma de suas patas dianteiras fazendo com que imediatamente o animal reagisse a dor tombando a frente depois a traseira derrubando Branca de neve ao chão.
Sem demora a garota saiu debaixo do cavalo, sentindo que havia torcido o tornozelo, mas não podia parar tinha que cruzar a fronteira da floresta com o bosque. Por isso mesmo com dor, disparou a correr, sua respiração curta e ofegante, o cheiro da floresta ia mudando o ar tornava-se denso, úmido, carregado de algo desconhecido. Era como se atravessasse um véu invisível para um mundo onde as regras eram diferentes.
Cassius estava focado em sua presa e adorando caçar uma jovem, não via a hora de capturá-la, por isso disparou mais uma flexa contra Branca, acertando seu ombro esquerdo, se deliciando em ouvir seu grito de dor, instigando seu cavalo a ir mais rápido, o caçador percebeu a mudança de ambiente tarde demais.
Seu cavalo tentou avançar, mas algo freou sua movimentação. O vento soprou mais forte, e as árvores pareceram se mover, bloqueando sua passagem. A escuridão do bosque engolindo Branca, ocultando-a de sua visão.
O caçador praguejou, tentando forçar seu caminho com o cavalo, mas ele se recusou, assim abandonou o animal e saiu em perseguição da garota, mas o Bosque Sombrio não aceitava invasores. Algo ali protegera Branca algo a queria ali dentro. E assim, pela primeira vez, Cassius perdeu uma caçada.
Branca correu sem olhar para trás, sua respiração curta e seu ombro pulsando de dor. O sangue quente escorria pela pele, tingindo o tecido de seu vestido, mas ela não podia parar. O Bosque Sombrio parecia absorvê-la, fechando-se em torno dela como uma muralha viva, ocultando seus passos do caçador que a perseguia.
A jovem cambaleou por entre as árvores grossas, os galhos arranhando seu rosto e braços, seus pés afundando no solo úmido. O frio, que antes era cortante, parecia mais ameno ali dentro do bosque, como se a própria floresta estivesse protegendo-a.
Foi então que avistou uma cabana de madeira, escondida entre raízes e folhas densas. A construção era pequena, mas o telhado e a fumaça saindo da chaminé indicavam que alguém morava ali.
Sem escolha, Branca se aproximou, seus joelhos fraquejando, sua visão turva de dor e exaustão. Antes que pudesse chamar por ajuda, a porta se abriu de repente, revelando sete figuras baixas e de olhos atentos.
Eram os Sete Anões, cada um segurando alguma ferramenta martelos, machados e tochas como se esperassem algum perigo. Seus rostos se contraíram ao ver a jovem ensanguentada diante deles.
— O que está fazendo aqui, garota? — Perguntou um deles, desconfiado.
— Me a...
Branca tentou falar, mas seu corpo cedeu ao desgaste, desabando na porta dos anões.
Enquanto isso, Cassius rugia de raiva, seus punhos cerrados ao perceber que o bosque havia o enganado. A escuridão e o vento haviam cortado sua visão, seu cavalo recusara-se a seguir, e, agora, a presa estava perdida.
Ele tentou avançar, mas a floresta se tornava cada vez mais hostil, os galhos pareciam se mover para bloqueá-lo, a névoa tornava impossível seguir qualquer trilha deixada por Branca. Mallory não ficaria satisfeita.
O caçador respirou fundo, seu instinto afiado ainda pulsando o orgulho ferido pela primeira falha. Se não podia atravessar a barreira do bosque, esperaria que sua presa saísse. Com um olhar frio e determinado, encarou o bosque e recuou para floresta e montou vigília. Branca não ficaria escondida para sempre. E, quando saísse, ele estaria esperando.
Mallory estava ansiosa, os preparos para seu feitiço estavam quase prontos, espera por boas notícias assim que amanhece, porém o dia terminou e nada do caçador voltar.
Um dia se passou, depois dois e quando o terceiro caiu no anoitecer a Rainha se encontrava revoltada e mandou que um guarda encontrasse com o caçador com a ordem que se não voltasse no cair da noite do quarto dia, ele seria morto. Mallory não tolerava desculpas. Seu feitiço estava quase pronto, e a presença de Branca ainda viva corria o risco de arruinar tudo.
Cassius, por sua vez, recebeu a notícia da Rainha pelo guarda e logo o dispensou dizendo que estava no encalço da garota, mentiu. Ele sabia que falhara ao permitir que a garota escapasse, e Mallory não deixava de lembrá-lo disso suas palavras eram afiadas como lâminas, sua ira crescia a cada noite. Sem ter conseguido encontrar a princesa desde sua fuga, Cassius decidiu que precisava de uma solução imediata.
Na floresta, ao amanhecer, ele caminhou silenciosamente entre as árvores até que por sorte ou azar avistou uma camponesa com idade similar a da princesa, andando solitária e sem chance contra sua lâmina afiada.
Sem hesitar, desferiu um golpe mortal, sentindo seu corpo pulsar com o triunfo de uma caçada bem-sucedida. O sangue quente escorreu pela terra gelada, e, com mãos firmes, ele retirou o coração da garota. O que importava não era a presa, mas sim o engano que criaria com ela. Com a peça sangrenta em mãos, Cassius retornou ao castelo, seu semblante impassível ao cruzar os portões. Mallory o aguardava com impaciência, seu olhar afiado como gelo quebrando.
— Espero que não tenha falhado apesar da sua demora. — Sua voz era carregada de expectativa e ameaça.
Sem hesitação, Cassius ergueu o pequeno baú onde o coração repousava, ainda quente.
— A princesa está morta. — Disse ele. — E aqui está a prova.
Mallory sorriu, um sorriso torcido, triunfante. Finalmente, sua maior ameaça havia sido eliminada. Ou assim ela acreditava.
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