Solstício of Kami
1 Do sangue a raios de sol
Notas iniciais
Abro os olhos, sentindo a luz do sol e o vento gélido em meu rosto. Minha mente permanecia vazia do ocorrido, entretanto, lapsos de memória se apossam de meus pensamentos. Memórias de minha pequena e pobre vila, que havia ardido em chamas escarlates naquela mesma noite. Eu me encontrava ali, no chão, em uma poça do meu próprio sangue. Assim que olho para o lado, percebo a falta de meu braço direito, olho aquele ferimento horrorizado. Me levanto estupefato, olhando aquele cenário que eu facilmente poderia descrever como um inferno, onde já não restava vida naquela pobre cidade e eu, o único sobrevivente, deixado para traz por mero engano de um braço. Com a tamanha dor, mal consigo me mover, logo a escuridão me engole, fácil e rápida.
Passados alguns dias, acordo desnorteado em uma pequena casa que cheirava a madeira recém cortada. Tento me levantar, porém, meu corpo não responde e sinto imensa dor ao perceber tudo não era um pesadelo. Olho para os lados, com meus olhos castanhos claros arregalados, porém, na casa não há ninguém além de mim, apenas uma lareira acessa e alguns pães na mesa.
Com todo esforço do mundo, consigo me levantar, naquele momento, todas as memórias, que minha mente tentava esquecer, voltam a me atormentar. Alguns fragmentos de imagens me fazem lembrar do clã de sub mago que atacara minha vila. Sento na cama, até que sinto um arrepio em minha espinha. Sinto que há alguém do lado de fora, não poso explicar como, mas sinto uma aura assassina. Sem tempo para bolar um plano, pego um ferro pontiagudo, que estava ao relevo da lareira. Infelizmente, com meu braço esquerdo, nunca fui bom com espadas, mas, no momento, era o que me sobrara. Seguro e sinto minhas mãos entrar em contato com o metal gelado, suor frio desce pela minha testa, respiração mais lenta, fico atrás da porta ate que uma pessoa entra de supetão com uma espada na mão. Avanço até ela com o pedaço de ferro e o braço sem coordenação, até que ela se vira contra mim e bate sua espada tão forte contra meu mero pedaço de ferro que me joga pra trás. Caio com o rosto assustado, mas olho intensamente pra aquela pessoa de capuz negro na minha frente. Entretanto, ele só continua a me olhar fixamente e acaba por tirar o capuz. Ao analisar, percebo ser uma garota de cabelos longos cacheados, olhos pretos feito a noite e um rosto um tanto gentil, me apontando a espada e eu ali, indefeso e imóvel, até que tive coragem de resmungar.
— Ei o que você quer? Vai me matar?
Ela me olhou estranho diz:
— Já teria feito se quisesse. Estou de passagem e essa casa estava abandonada aos pedaços, quando passei aqui a uma semana atrás. Não é possível estar assim tão arrumada em uma semana e nevando como está.
Olho-a, sem entender;
— Eu também não sei como vim parar aqui, estava em minha vila quando foi atacada por um clã de sub magos, que queimaram tudo. Fui salvo apenas porque acharam que eu estava morto — termino a frase cobrindo o que sobrara do meu braço enfaixado. Ela me olhava atenta
— Pode tirar essas ataduras? — disse com um tom de dúvida, acabei por tirar bem devagar até que vi que estava curado, mas não era possível em tão poucos dias isso, ela me encarou. — Você teve sorte, quem lhe salvou era alguém forte. — Ela guardou sua espada na bainha, me estendeu a mão e eu a aceitei, ficando em pé
— Obrigado. — Sentei-me na cama com a memória daquela tragédia. —Eles mataram todos meus amigos. — Ela sentou do meu lado com um rosto gentil e sereno.
— Sinto muito. Seus pais também estavam lá? — Fiquei sem coragem de responder, mas me fiz de firme. — Eu não cheguei a conhecê-los, aos 6 meses de idade fui deixado na porta de um pequeno templo da minha vila, que se chamava Sakura Town, e agora já não existe nada além de cinzas. vou descobrir os que fizeram isso e vão pagar.
Ela faz uma cara irônica, deve estar pensando “o que um cara que acabou de perder seu braço dominante pode fazer com uma barra de ferro!”
Me levanto da cama.
— Preciso ir à cidade Hanagi, conheço alguém lá que me deve um favor. — Ela se levanta também, cruzamos olhares. Pergunto educadamente. — Como você se chama?
—Kula. — Ela responde gentilmente — E o seu?
— Kaze, só Kaze. Prazer em conhecê-la. — Respondo rapidamente. Olho para ela com um poco de vergonha. — Gostaria de pedir um favor, se não for de muito incomodo.
—Diga. — Me responde vagamente.
— Poderia ir comigo até Hanagi? Posso ser atacado e, nessas condições, acho difícil lutar. — Termino a frase com esperança, ela balança cabeça confirmando que sim, “acho que foi dó do pobre debilitado que acabara de encontrar sozinho e curiosamente em uma casa que antes estava aos pedaços”.
Ela sai primeiro, abre a porta e volta a colocar seu casaco negro com capuz. Eu não tenho muito, só um manto branco em retalhos, me despeço da casa que me acolheu por um breve tempo e saímos juntos dali a passos largos. Com um pouco de dificuldade de andar naquela neve toda, mas teríamos que atravessar a floresta fechada ao lado da casa, se quiséssemos chegar o mais rápido possível em Hanagi.
Entramos naquela floresta fechada de enormes pinheiros aquilo me deixava inseguro, mas trouxe comigo “meu nobre e guerreiro ferro” da lareira. Andamos mata adentro seguindo uma trilha. Ela seguia na frente, quieta, devia estar pensando em como fui parar ali e porque estar me ajudando, mas percebi que também estava com medo. Não tirava suas mãos do cabo de sua espada, pronta pra empunhar a qualquer momento.
— Estou ouvindo alguma coisa. — Eu disse com uma voz trêmula. Ela se virou rápido e sacou a espada de prata com pomo de dragão e me olhou.
— O que foi que ouviu? — Eu também já estava com minha barra de ferro super útil na mão esquerda. Pulei sobre ela, derrubando a nós dois enquanto passou por nós uma esfera de fogo que derrubou a árvore a nossas costas. Ouvi risadas no meio daquela mata assombrosamente fechada.
— O que os dois coelhos estão fazendo em meu território? — A voz disse bem alto.
— Estamos só de passagem. — Eu gritei com todas as forças. Ele atirou outra esfera, rindo sem parar. Essa acabou sendo desviada pela espada de Kula, que fez isso lindamente.
— Então a bela bastarda sabe como usar uma espada? — Ele disse com um tom de ironia.
Ele desceu do alto do pinheiro, pulando a poco mais de cinco metros de onde estávamos. Estava de máscara bem arrepilante, era vermelha de olhos largos, tinha um símbolo em sua testa, pela distância e adrenalina em minhas veias não pode discernir. Kula estava aposta com sua espada sem abrir a boca, estava muito concentrada e parecia saber do que se tratava. Sem cerimônia avançou ferozmente com sua espada pra cima da estranha criatura mascarada. Ele sacou sua espada também prata de pomo redondo e cabo negro, desferido um golpe sobre Kula que bloqueio seu ataque bravamente. Eu ali, parado imóvel, com um ferro velho na mão me sentindo maior inútil por não pode lutar, assim como fui um inútil quando meu vilarejo ardeu em chamas.
Por três segundos de coragem, começo a correr ligeiramente contra aquela figura assombrosa sem ao menos pensar, Kula se vira rapidamente com uma expressão de que iriamos morrer ali, até que ouço um estrondo tão alto como um trovão e uma luz tão forte que não aguento manter meus olhos abertos. quando abro os olhos vejo aquela figura que na verdade era um homem de meia idade caído no chão sem a máscara parecia desmaiado. Kula também está no chão, sinto uma presença massacrante subir em minhas costas, me viro e ali está. Uma figura que ardia como o sol. Eu mal aguentava manter-me em pé diante desse jamais visto. Era uma mulher com quimono dourado amarado com laço vermelho, cabelos lisos tão negros quanto as noites de inverno e olhos escuros. Com uma bela espada em suas mãos, espada dourada seu pomo o símbolo do sol, seu cabo negro, ela me ofereceu aquela espada sem dizer uma palavra sequer. Fiquei de joelhos e aceitei, não sabia o motivo disso e não questionei, apenas aceitei. Segurei a espada sem bainha, senti meu corpo todo tremer com tamanho poder, olhei a nos olhos e ela disse:
— Calma. — Sorriu docemente. — Me chamo Amaterasu.
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