Solidão
1 Capítulo 1 - O Fim
Notas iniciais
Parte 1
Estava eu mergulhada na minha solidão, dois cobertores e três taças de vinho tinto suave da pior qualidade existente na terra. Olhava para o teto, como que se procurando alguma rachadura que faria ele cair em cima da minha cabeça e fazer aquela cena patética virar pó. Infelizmente meus esforços foram em vão, o teto se recusava a cair.
Meia-noite-o-relógio-soava.
Chuva.
Oitenta milímetros?
Previsão furada (como sempre)! Já devia ter chovido uns 80 METROS.
Décima-segunda-badalada-um-trovão-ecoa.
Continuo olhando pro teto. Outro trovão e uma luminosidade cegante. Eu morri?
Eis que entra nosso primeiro personagem.
Parte2
A figura diante dos meus olhos era aterrorizante. Não conseguia gritar, porque ela era tão hipnotizante que meus olhos se viam vidrados na sua forma. Um lobo. Mais ou menos o dobro da altura de um normal, colorido em tons de cinza escuro, apesar de ter o focinho branco e os olhos vermelho sangue. Ele abriu a boca e um trovão ensurdecedoramente forte ruge.
“Olá, meu nome é Cedric, sou um demônio” – eu respiro pesadamente após as palavras – “O destino me guiou até você, pois então tens direito a um desejo.”
Sua voz era incrivelmente suave para uma criatura tão sombria. Era forte marcante, mas eu notava certo tom escondido.
“Eu não tenho desejos, nem sonhos”
“Todos tem sonhos! Eu tenho sonhos... Anjos tem sonhos”– Isso soou muito melancólico. Demais para uma criatura das trevas.
“Eu sou diferente, eu não tenho.”
“Você não tem nada! Só sua solidão. Eu enxergo sua alma, suas virtudes. E você é vazia.”
“Pois então, a solidão é a minha virtude. Ela traz paz, tédio, ausência. Eu tenho ela comigo. Por isso estou completa. A morte é o fim do corpo, a solidão é o nascimento da alma. Por isso sou sozinha, quando morrer serei renascida! Por isso quero virar pó e voltar para o nada. Por isso sou a pessoa mais virtuosa do mundo!”
Aquela criatura demoniaca não entencia o que estava se passando na minha mente quando eu falava com tanta vivacidade sobre aquele macabro assunto. Sua fisionomia mudava a cada palavra proferida. Que atrevimento! Zombar dos meus ideais!
“Mas então, eu tenho um desejo, uma pergunta posso?” — Sorri ironicamente.
“Diga, estou às ordens.”
“Qual é o SEU desejo?”
Cedric reagiu estranhamente: ficou quieto, pensativo, depois se abaixou, em seguida, levantou rapidamente a cabeça pra cima, se contorceu. Repentinamente olhou pra minha cara e falou firmemente, como se eu tivesse torturado ele:
“Como ousa...?”
“MEU desejo...”
“... é uma ordem.” – ele me interrompeu.
Fechou os olhos, e outro brilho intenso me cegou.
Parte 3
Abri os olhos em meio de algo muito bom, um sentimento enjoante de esperança e felicidade. Era tudo muito branco. Como uma planície de branco. Eu podia ver pequenos pontos de luz brilhando intensamente.
“Isso são anjos.” – era meu querido amigo demônio – “Eu era um.”
Não acreditava no que estava ouvindo. COMO? Ele era um demônio. Anjo?
“Sim, eu sei que está confusa. Vamos Explicar.”
Fomos pra uma vasta escuridão. Ele começou a monologar.
Eu era um anjo. Eu tinha um desejo. Esse desejo me fez virar sombra. Meu desejo era virar humano. Queria poder sentir a existência com uma intensidade diferente. Os outros não tinham esse desejo, se contentavam com ser apenas anjos, em ajudar os outros. Mas eu não. Por isso me remoia, sabia que só podia ajudar os outros, não podia me ajudar. Por isso me remoia, e me remoendo virei isso. Virei um demônio. Fui fadado a ajudar diretamente os humanos, por medo, pra ficar próximo deles.
Voltamos para o branco angelical, e eu vi uma das luzes virando Cedric, lentamente o tempo passava e a luz se esmaecia e a criatura grotesca por debaixo do brilho aparecia.
Achei-me de volta no meu quarto, exatamente na mesma posição em que fui cegada. Os olhos de ódio se transformam em olhos de dor.
Parte 4
“Ahh, então você realiza o desejo dos outros porque não pode realizar o seu?”
“Sim, e não me conformo de você poder e não querer.”
“Mas eu também desejo. Desejo me tornar nada. Me tornar um só com o vácuo. Vácuo para ser completa, para minha alma renascer.”
“Mas você tem a humanidade”
“E eu não quero a humanidade!”
“Como você recusa tal dádiva?
“PORQUE EU QUERO MORRER!”
“Que assim seja.”
Uma cruz negra me engoliu e a escuridão me tomou. A ultima coisa que eu me lembro é de ver meu corpo a longe, abrindo as janelas respirando o ar que há muito tempo não entrava no meu quarto.
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