Solidão
1 O Último Sacrifício de Harry Potter
Notas iniciais
Os mortos de Harry tiravam-lhe o sono durante a noite; tiravam-lhe a paz durante o dia.
Com o tempo, Potter se tornara muito competente em ignorar toda a dor que retinha em seu peito, e todos os corpos que deixara para trás na sua caminhada inevitável para a morte.
Mas ainda assim, às vezes, ele se permitia pensar em tudo que perdera. Se permitia imaginar como teria sido sua vida, se tudo não tivesse sido exatamente como fora.
Na escuridão do seu quarto, na cama vazia, sem Gina, na Mui Nobre e Antiga Casa dos Black, que tornara-se havia muito a Casa dos Potter.
Sirius gostaria que ele estivesse ali. E ele gostaria que Sirius pudesse estar ali também.
Em suas crises existenciais, quando via-se sozinho naquela casa enorme em que outrora vivera momentos tão felizes, Harry não chorava, transbordava.
Transbordava-se em lágrimas, aos soluços, revirando um álbum de fotos velho, no qual em cada página amarelada, ele identificava rostos de pessoas que foram importantes para ele, e que já haviam partido.
Mamãe, papai... Ele quase podia ouvir James confortando-o com um forte abraço, carregado de ternura e firmeza, enquanto Lily afagava com suas mãos delicadas seu cabelo, dizendo-lhe que ele ia superar, que tudo ia ficar bem.
Via Sirius em sua juventude, junto de seu pai.
Ali, ele não era um prisioneiro condenado, nem um homem cuja amargura da vida havia transformado em uma pessoa rancorosa e imprudente. Não estava morto.
Estava vivo, e sorria junto de seu pai. Era jovem, bonito... E cheio de expectativas — que nunca chegaram a se concretizar.
Os olhos marejados de Harry mancharam até mesmo a página que continha uma foto de Dobby.
Sem dúvida, ele fora um de seus amigos mais leais, e salvara sua vida em diversas ocasiões. Ou pelo menos tentara. E morrera tentando.
Sem que pudesse se conter, Harry levantou-se da cama e extraiu, da última gaveta de seu criado mudo, a sua amada garrafa de firewhisky, e destampou-a desajeitadamente, levando-a aos lábios. Sugou, desejando que o álcool lavasse de seu peito aquelas memórias sombrias que o atormentavam dia após dia.
Ele atreveu-se a olhar pela janela de seu quarto — não gostava de fazer isso — e notou o céu tempestuoso do lado de fora. Cinzento. Era assim que ele se sentia.
E agora, como as nuvens pesadas, transbordava, desejando que tudo pudesse ser diferente.
Harry lembrou-se de Cedrico, lembrou-se de Dumbledore... Lembrou-se até mesmo de Snape, a quem odiara durante uma parcela tão grande de sua vida, e a quem agora daria muita coisa para tê-lo perto de si.
No trajeto para a imortalidade, que ele jamais ansiara, perdera Fred, perdera George, perdera Hermione, Ron e Ginny.
No andar debaixo, Harry ouvira Albus Severus Potter tossir.
A idade parecia ter chegado mais rápido do que para os outros para ele.
A pequena Lily já havia partido, assim como James, mas Albus permanecia, velho, porém fisicamente intacto, e mentalmente desgraçado.
Harry não tivera netos. E Albus, Harry sabia, já se preparava para partir.
Com lágrimas nos olhos, ele fechou o álbum, enfiou o restante do firewhisky goela abaixo e capotou na cama, lembrando-se do sorriso de Hermione enquanto viva, e do quanto ela lhe fizera bem, e lembrou-se das inseguranças de Ron, que o venerava tanto, e estivera presente em todos os momentos de sua vida.
Para que pudesse salvar o mundo bruxo, Harry pagara caro.
Sim... Não era fácil ser o Senhor do Morte.
Notas finais
Imaginei como teria sido para ele perder todos os seus amigos e ver-se sozinho depois de tudo o que passou e bem, é isso.
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