Sol da Manhã
6 Melhor mãe do universo
Notas iniciais
Depois de sair da casa de Dayanne, eu fiquei na parada de ônibus com Nathan e Allan, Allan ia a pé também assim como eu, mas Nathan morava um pouco mais distante. Então esperamos junto a ele para fazer companhia até o ônibus chegar. Ficamos conversando sobre Day, Anna e Karol terem uma noite só de meninas e chegamos à conclusão que devíamos sair juntos só nós também, para variar. Normalmente eu não me animaria muito de sair, mas eu tinha me divertido bastante na casa de Day então acredito que seria divertido. Não chegamos a marcar nada definitivo, mas provavelmente eles vão falar sobrei isso depois. O ônibus demorou uns quinze minutos para chegar e depois de me despedir dos garotos fui para casa. Não voltei na companhia de Allan porque íamos em direções diferentes, mas como eu já disse não era longe.
Eu morava num apartamento no sétimo andar, era simples, mas bem organizado. Na entrada do prédio ficavam a portaria e as garagens, protegidas por portões automáticos controlados pelo porteiro.
—Oi Daniel! Como vai sua mãe? — Perguntou-me Manuel quando cheguei à frente do edifício.
Manuel era o tal porteiro, ele me conhece desde pequeno, ele até me pegou no colo quando eu era bebê. Isso porque minha mãe se mudou para cá quando ainda estava grávida de mim. Ele é tipo um tio, faz parte da minha família.
—Ela está bem! E você? Como está indo com o Emanuel? — Esse era o filho dele, dá para perceber pelo nome né? Ele só tem cinco anos, mas o pai e a mãe dele estão se divorciando então talvez ele não reagisse bem.
—Ele está entendendo, aos poucos tudo vai melhorar.
Manuel costumava ser bem otimista, pensando bem isso é uma característica de Dayanne, ele gostaria de conhecê-la...
Depois de passar pela portaria e pelas garagens tinha um terraço bem espaçoso com piso de azulejo branco, os vizinhos costumavam aproveitar aquele espaço para fazer festas infantis. Lá também ficava uma pequena recepção com piso de granito polido, tinham dois sofás pretos e dois vasos de planta, era nessa recepção que ficavam os elevadores. Entrei em um dos dois elevadores e apertei o botão do meu andar, depois entrei no meu apartamento. Logo na entrada ficava a sala, cujas paredes eram todas brancas, era pequena, mas confortável. Ao lado da porta tinha uma mesa de jantar de vidro, e no meio da sala tinha um sofá branco de frente para o rack de madeira onde ficava a televisão. Tinha uma varandinha também, separada da sala por uma porta feita de vidro. O corredor dava acesso à cozinha, aos dois quartos, e ao banheiro.
Entrei em casa, mas não vi minha mãe. Depois percebi que ela estava na cozinha, então fui até lá. Ela estava de costas para mim e de frente para o balcão ao lado da pia de inox, cortando cenouras numa tábua de madeira.
—Cheguei!
—Oi filho! Como foi lá?
—Foi bem legal, gostei do resultado do trabalho.
—Você demorou um pouquinho para chegar.
—É que depois que a gente terminou ficamos conversando. A mãe de Dayanne fez bolo e tudo mais, depois eu ainda fiquei um tempo com Allan e Nathan na parada de ônibus.
—Você veio de ônibus?
—Não, vim a pé. É bem perto daqui.
—Hum. E como é a família dela?
—É engraçada, eles são bem animados. Eu acho que a irmãzinha dela gostou de mim, ela é bem madura para a idade dela, mas é bem fofa.
—Quantos anos ela tem?
—Oito, mas pelo jeito dela nem parece. Ela parece muito com Dayanne e com a mãe, você tinha que ver, são idênticas.
—Então você se divertiu.
—Bastante. Os meninos até querem marcar para sairmos só os garotos.
—E você vai querer ir?
—Por que não? Se você deixar.
Ela demorou um pouco para responder.
—Parece que eles te fazem bem.
— Como assim?
Ela terminou de cortar as cenouras e colocou numa panela grande que estava no fogão, depois se virou para mim.
—Filho, faz muito tempo que eu não te via animado desse jeito. Você nem cogitava a ideia de sair, para te tirar de casa dava muito trabalho. Você não costumava falar sobre o que você estava pensando, era fechado para tudo. Quando a gente conversava você raramente dava uma resposta que não fosse padrão. Eu sei que você é uma pessoa quieta e tímida por natureza, mas tem diferença, sabe? Dá para saber quando você está animado com algo e fazia muito tempo que você não falava com essa felicidade. Está entendendo o que eu quero dizer?
—Que você acha que o grupinho de pseudo-loucos me deixa mais feliz?
—Pseudo-loucos?
—É como eu os chamo. Mas foi isso que você quis dizer não foi?
—Foi. Você não acha?
—É, pode ser. — Eu respondi dando de ombros.
Na verdade eu acho que ela estava certa sim, fazia realmente um tempo que eu não me animava, ou dava uma gargalhada sincera como aconteceu hoje. A convivência com aquelas pessoas realmente me deu uma nova perspectiva, novas inspirações, eles me trouxeram esperança, uma esperança que há muito tempo eu não tinha. É incrível o que boas memórias podem fazer com você, percebi que às vezes parava e ria sozinho lembrando de piadas e momentos bobos que eu tinha tido com Allan, Anna, Karol, Day e Nathan. Realmente mamãe estava certa quando me disse que fazer amizade com eles me faria bem, ainda bem que eu segui o conselho dela.
Mas depois dessa reflexão positiva sobre as vantagens de ter amigos, eu me sentei junto a minha mãe para jantarmos. Minha mãe tinha dotes culinários interessantes, alguns pratos saiam maravilhosamente deliciosos, outros ela não conseguia fazer de jeito nenhum. Mas a sopa dela era muito boa, e eu estava com fome, então mal podia esperar pelo jantar.
—Eu não sei se a sopa está boa mesmo ou se eu só estou muito faminto, mas está muito bom. — Eu disse, colocando a primeira colherada na boca.
—Que bom que você gostou, filho. — Disse Aline sorrindo, e depois ela provou também. — Nossa, ficou boa mesmo.
—Você deve estar melhorando.
Ela sorriu.
—Você podia chamar seus amigos para passar um final de semana aqui, para usar aquele controle extra de vídeo game que até hoje só eu usei, e não tem graça jogar comigo.
—Tem sim mãe, e eu já joguei com Manuel também, mas a ideia é legal.
—Ah tinha até esquecido, vou ao shopping amanhã resolver uns problemas e comprar umas roupas, então pensei em te levar e a gente escolher um violão novo para você.
—Sério?
Eu toco violão desde os seis anos. Meu violão já está bem velho, e semana passada uma das cordas dele arrebentou, então estou precisando de um novo, obviamente.
—Sim, diz se não sou a melhor mãe do mundo?
—É sim. Melhor mãe, melhor cozinheira, melhor tudo.
—Gostei hein. A gente aproveita e compra umas roupas pra você, está precisando.
—Acabou de ganhar o título de melhor mãe do universo.
—Gostei mais ainda. — Ela sorriu.
Percebi que ela realmente estava feliz, feliz pelos elogios, feliz por eu ter feito amizades, feliz pela conversa de mãe e filho, isso me deixou feliz também.
Outra coisa que me deixou feliz foi ela estar sóbria, minha mãe bebia bastante em alguns finais de semana, principalmente quando estava estressada, vira e mexe ela fumava também. Já teve uma vez que ela saiu para beber e só voltou no outro dia. Às vezes eu acho que é por minha causa, por ela se preocupar demais comigo, e acaba juntando com o estresse do trabalho — ela trabalha em uma empresa no ramo da estatística, na área da economia se me lembro bem -, outras vezes acho que é pela ausência do meu pai, não sei. Ela também sai pra conhecer uns caras, mas a maioria são uns idiotas. Mamãe já teve uns namorados, mas todos eram uns ogros brutos e machistas que queriam uma empregada e não uma companheira, ela terminou com todos eles. Eu não sei o motivo de ela fazer isso, sair com essas pessoas, ela não precisa, estamos bem só nós dois, é como diz o ditado “antes só do que mal acompanhado”.
Esses momentos são tão raros, momentos em que realmente conversamos, sobre coisas engraçadas, coisas bobas, fazemos piadas. Por que ela tinha que beber? Por que ela tinha que fumar? Por que ela procurava um cara para ficar ao invés de esperar a pessoa certa? Não podíamos simplesmente ter momentos assim sempre?
Eu não devia estar pensando nisso, esse está sendo o melhor sábado em meses e eu não vou ficar pensando nos problemas da minha vida agora. Fora que minha mãe está bem nesse momento, é o que importa... Acho que estou começando a aprender a ver as coisas por um lado bom, ou pelo menos um que não seja ruim, deve ser influência de Dayanne.
Depois do jantar eu me preparei para deitar, ainda fiquei um tempo trocando mensagens com o pessoal, depois eles pegaram no sono — menos as meninas, as meninas provavelmente nem iam dormir -. Eu acho que era a última pessoa do prédio a dormir nos finais de semana, na verdade meu sono é muito complicado, às vezes eu não consigo dormir de jeito nenhum, e às vezes eu durmo a noite e o dia todo, mas ainda assim continuo cansado. Mas nos finais de semana eu aproveito as madrugadas, são as horas que eu posso ficar sozinho fazendo o que eu quero, no meu mundo, com as minhas regras.
Normalmente eu fico no computador, ou escuto música, mas nessa madrugada eu fiquei um bom tempo deitado na cama e olhando para o teto enquanto dava replay nos acontecimentos do dia. Todas as bobagens e brincadeiras que eu tinha vivenciado juntamente com meus amigos, na verdade bobagens e brincadeiras foram as únicas coisas que aconteceram no meu dia todo. Exceto... Por aquele momento na casa de Dayanne, no segundo andar. Aquele quadro realmente me chamou atenção, e eu tinha elogios bons para fazer sobre ele, mas quando ela começou a me encarar eu não consegui falar nada. Ela estava lá, me olhando, sorrindo para mim, e eu estava que nem um idiota encarando de volta. Nós estávamos sozinhos lá em cima, e com certeza não foi um momento de bobagem e brincadeira, e sim de vergonha e timidez. Eu não sabia como agir, não sabia o que fazer ou dizer, pensando bem, não sei se agi bem o dia todo, será que a família dela gostou de mim? É comum as pessoas me acharem estranho, talvez ela também me ache estranho. Se bem que ela não estaria errada, olha pra mim, eu sou estranho.
...
Quando o domingo chegou, minha mãe fez como disse e fomos ao shopping. Ela me deixou na loja de roupas pra escolher algumas coisas enquanto ela resolvia os problemas com documentação, pelo menos foi o que ela me disse que ia fazer.
Eu não enrolo muito para escolher roupas, sempre fui bem tanto faz como tanto fez. Normalmente escolho camisetas e calças jeans, era isso que eu estava fazendo, procurando camisetas de heróis. Passei mais ou menos meia hora naquela loja, minha mãe tinha me dado dinheiro então comprei algumas coisas e fui encontrar com ela. Quando eu estava saindo da loja esbarrei com Aline.
—Achei que você fosse demorar mais. — Comentei.
—Eu também achei, já comprou suas roupas?
—Já.
—Então vamos escolher seu violão.
Eu sorri e bati palminhas para mostrar minha animação.
Chegando à loja de instrumentos, tinha uma variedade enorme de materiais para vários tipos de música. Lá tinham teclados, pianos, a maioria dos tipos de instrumentos de corda, e tinham acessórios mais simples também, acho que lá tinha de tudo. Demorei um pouco para assimilar tanta coisa, mas sem perceber fui direto aos instrumentos de corda, estava cheio de modelos. Reparei em um violão todo rosa — que obviamente não fazia meu estilo -, outro no tom de madeira normal, era o mesmo modelo do meu antigo, e no meio de todos aqueles modelos vi um todo preto, adivinha só de qual gostei mais? Exato, do preto.
—É sua cara. — Disse mamãe. Eu tinha esquecido que ela estava ali, bem atrás de mim.
—Concordo.
—Posso ajudar? — Perguntou um homem alto com barba grande e óculos, ele parecia ser bem jovem, e aparentemente trabalhava naquela loja.
—Na verdade acho que já decidimos. — Minha mãe respondeu, sorrindo.
—Já sim. — Concordei.
—Vocês são rápidos, quando eu escolho um violão ou qualquer outro instrumento faço a mesma coisa, é sempre o primeiro. Deixe-me levar vocês para o caixa. — Disse o atendente.
Eu não acreditava em amor à primeira vista, até hoje, parece que pelo menos com música funciona. Eu não podia estar mais contente. Depois de eu e mamãe sairmos da loja, ainda fizemos um lanche, desnecessariamente e exageradamente calórico. No caminho para casa, fomos ouvindo música alta no carro. O gosto musical da minha mãe é bem amplo então ela ouvia de tudo. Quando uma música que ela adorava tocou ela começou a cantar e a me cutucar para que eu cantasse também, ela sabia que eu conhecia.
—Eu sei que você quer! Pare de negar a música! — Ela estava cantando loucamente e eu já estava com as bochechas doloridas de tanto rir, até que comecei a acompanhar ela.
Quando paramos no semáforo o motorista do carro ao lado ficou nos encarando, mas não fez diferença nem para mim nem para mamãe, nada poderia estragar isso. Eu e ela cantando juntos, quando passávamos momentos como esse, éramos como verdadeiros melhores amigos. E eu percebi como sentia falta disso, dessa proximidade familiar.
Para completar o dia, depois de chegar em casa eu assisti a um filme de ação com minha mãe, ela fez pipoca e nós ficamos no sofá comentando os erros do roteiro e do cenário. Definitivamente aquele tinha sido um final de semana bom, gostaria que esse tipo de coisa acontecesse com mais frequência. Mas tinha acabado, era hora de dormir, eu precisava acordar cedo no outro dia. Tomei banho e pus uma roupa confortável, depois peguei meus fones de ouvido e ouvi música até meia-noite, quando peguei no sono.
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