Soho Dolls
37 Capítulo 36 - Breaking the arm... I mean, the ice
Notas iniciais
Quero agradecer a Anne pela recomendação linda, amei demais, amore, mt obg mesmo s2
Eu ainda estava um tanto extasiada pelo que havia acontecido no carro no dia anterior, não conseguia parar de tagarelar com Damon o quanto estava surpresa e animada pelo que Emily havia feito, provavelmente eu iria demorar muito tempo para conseguir me conformar de que aquilo realmente havia acontecido... Era tão ridículo ficar daquela forma por causa de uma menininha de doze anos, mas era inevitável se sentir mais leve e consequentemente feliz por ter feito uma pequena rabugenta sorrir daquela forma tão genuína.
Damon também parecia estar tão surpreso quanto eu, já que ele me aguentou falar incessantemente até a hora de dormirmos... Digo, até a hora de ele me calar com um beijo e repetirmos o que havia acontecido na banheira, só que dessa vez em sua cama.
No dia seguinte, obviamente, eu perdi o horário e quando acordei era tarde demais para tomar café da manha junto com Damon antes de ele ir para o trabalho e para minha infelicidade, pelo horário que marcava no relógio, ele já havia saído a muito tempo de casa, definitivamente, se nós dois continuássemos com aquele ritmo todos os dias antes de dormir, eu iria tranquilamente hibernar devido ao “esforço” da noite. Levantei-me e fiz algo rápido para almoçar, já que Jenna tinha tirado o dia de folga para ir ver seu filho que estava de aniversario no final de semana, o que era uma pena porque eu já havia me acostumado tanto com a companhia dela que chagava a ser estranho não tê-la comigo naquele apartamento. Depois de comer, decidi tomar banho para tentar afastar a sonolência, que insistia em querer me fazer voltar para cama, e ir para casa de Caroline como havia combinado. Arrumei-me da forma mais lenta que julguei ser capaz e após muitos minutos, sai do apartamento de Damon com destino ao endereço que minha amiga havia me passado por mensagem de texto.
Para minha surpresa, Caroline não morava tão longe de Damon e com uns quinze minutos de caminhada, já estava diante a um prédio tão luxuoso quanto o de meu médico. Entrei no saguão do mesmo e após toda a burocracia comum em moradias daquele porte em Nova Iorque, minha entrada foi permitida e logo eu estava no elevador, subindo até o apartamento onde minha amiga morava.
- Carol? – Sai do elevador entrando na sala de estar e chamei pela minha amiga que deveria estar me esperando chegar. O apartamento parecia não ser tão grande quanto o de Damon mas decoração era tão refinada quanto... Malditos assaltantes de banco, porque francamente, de onde esses homens tiravam tanto dinheiro para ter uma casa como aquelas?
- Lena! – A voz de minha amiga me tirou do devaneio e ela vinha em minha direção com um sorriso radiante nos lábios me fazendo sorrir da mesma forma. Enquanto ela vinha até mim, demorei um tempo olhando para sua pequena barriga de grávida, que naquele estagio de gestação não passava despercebida.
- Como você está linda e como esse bebê cresceu! – Eu a abracei forte e ela correspondeu o abraço na mesma intensidade. – Que saudades, Car!
- Eu juro que pensei na possibilidade de te encher de tapas quando te visse por ter me deixado tão preocupada daquele jeito! Nunca mais faça isso, Dona Elena. – Ela disse me apertando mais forte.
- Já falei que você está linda? – Ri baixinho tentando contornar minha situação.
- Linda e andando igual uma pata... – Uma voz afeminada e extremamente fina, que eu conhecia melhor que ninguém, me fez soltar Caroline e olhar para “o dono” da tal voz. – E eu não ganho nenhum abraço?
- Marcos! –Eu corri até meu amigo, que me olhava com um olhar de desprezo, e o envolvi com meus braços em um abraço caloroso.
- Eu não estou andando igual a uma pata, Marcos! – Caroline resmungou sozinha enquanto Marcos me levantava do chão de tão forte que era seu abraço.
- Argh como é bom ver vocês fora daquele inferno! – Não conseguia me lembrar de quando fora a ultima vez que eu me reunira com meus amigos para que passássemos o dia juntos fora do bordel, e por incrível que pareça eu sentia tanta falta disso, mais do que pudesse imaginar. Era naqueles pequenos encontros que eu conseguia me sentir uma pessoa normal, uma mulher normal que se divertia com seus melhores amigos e não uma prostituta que recebera a visita de seu amigo no bordel que trabalhava. E naquele momento em especial, eu estava me sentindo normal, pelo menos, quando deixasse a casa de Caroline eu não teria que encarar a árdua realidade da prostituição... Nunca pensei que eu pudesse me sentir tão feliz, tão realizada, com apenas o fato de eu ter saído da prostituição...
- Menina, ainda bem que você decidiu criar vergonha nessa cara e parar de dar para todos aqueles caras para ficar com um só! – Marcos disse me fazendo revirar os olhos rindo e dar um tapa estrondoso em suas costas. – Ai vadia, doeu, ok?
- Era para doer mesmo... Porque você sumiu do bordel quando eu mais precisava de ti, seu cretino?
- Fui despedido, bêm! Meredith me chutou o traseiro, disse que não precisavam mais de um personal e que iriam conseguir se virar sem mim...
- Que mentira! – Acusei. – Bonnie distendeu um musculo na academia depois da aula de pole dance, teria sido trágico mas como foi com ela eu dei risada e achei engraçado ela gritando de dor e perdendo clientes por não conseguir abrir as pernas direito! – Dei de ombros com descaso.
- Você não presta, Elena Gilbert! Você pode ter saído da vida de vadia mas a vadia nunca sairá de você, como pode... – Marcos colocou a mão na boca fingindo estar surpreso.
- Precisava encontrar uma forma de me divertir naquele lugar já que vocês dois me abandonaram...
- Ai gente, vamos deixar esses assuntos depressivos para depois, agora venham aqui que eu quero mostrar o closet lindo que eu e Klaus estamos montando para Claire. – Caroline segurou minha mão e me puxou em direção a um pequeno corredor.
- Não sei por que mas acho que vou levar o maior susto da minha vida ao entrar nesse closet... – Marcos disse vindo atrás de nós. Caroline nos conduziu até a primeira porta do corredor, onde entramos em um quarto que, tranquilamente, dava dois do nosso antigo com uma decoração sofisticada em tons de rosa envelhecido e branco. No canto do cômodo tinha um berço grande, ainda sem nenhum protetor, apenas com o colchão pequenino, e logo ao lado uma cômoda branca, assim como o berço, que servia também de trocador, nas paredes tinham alguns enfeites delicados como quadros pequenos com desenhos de bonecas e borboletas e prateleiras com bonecas de pano. No meio do quarto tinha uma cama de casal e logo na frente um rack com uma televisão de ultima geração.
- Você ainda está dormindo nesse quarto, Carol? – Perguntei apontando para a cama.
- Sim... – Ela assentiu com um tom de pesar.
- Eu pensei que dormir na mesma cama incluísse na evolução que você me disse ontem no telefone.
- Definitivamente, não! – Ela riu baixinho encolhendo os ombros. – Estamos longe disso, Lena, e para ser sincera isso nem me incomoda mais tanto como costumava a incomodas, o que eu mais quero é me entender de uma vez com Klaus e o que vier com isso é lucro...
- Carol, faz quanto tempo que vocês não transam?
- Muito tempo mesmo, Elena, tanto é que eu já parei de contar...
- Ih... – Marcos disse alto. – Eu não quero nem ver quando vocês voltarem à atividade, vão ficar semanas sem se desgrudar....
- Assim espero Marcos porque não aguento mais ter que tomar banho frio para tentar relaxar meu animo... – Ela riu baixinho. Por mais que minha relação com Damon fosse complicada, definitivamente, a de Klaus e Caroline era pior. Pelo menos, eu não estava grávida de Damon e nós não passávamos tanto tempo sem o outro como os dois... – Por favor, vamos mudar de assunto, fiquei dias sem pensar nisso, estava quase me acostumando com a minha carência...
- Aliás, que quarto lindo, Carol... – Eu disse logo desviando o assunto.
- Lindo, né? Klaus o montou sozinho antes de eu vir morar aqui e alguns detalhes fui eu quem escolhi, mas a maioria foi ele... Olhe só o closet dessa menininha. – Ela abriu uma porta de correr que dava para algo que eu não conseguia chamar de closet. Era a coisa mais anormal que eu já tinha visto, não conseguia sequer encontrar algo para comparar com aquele closet, nem Damon tinha algo daqueles no quarto...
- Vocês não acham que isso é exagero, Caroline?
- Pode parecer assustador, mas esse é o meu closet e o dela, por isso é tão grande assim...
- Oh meu Deus, será que Klaus não quer me adotar não? – Marcos disse deslumbrado com o que via, podia imaginar as coisas que estavam passando na cabeça de meu amigo ao ver um closet daquele tamanho. Definitivamente, ter um closet igual ao de Claire, cheio de roupas, era o sonho de consumo de qualquer mulher, principalmente o meu...
- Nós já escolhemos até a roupa que ela vai sair do hospital quando nascer, a que ela vai usar no primeiro dia de vida e a... – Caroline tagarelava animada enquanto eu tentava achar um motivo para uma criança tão pequena ter tantas roupas, do jeito que bebês crescem rápido, era capaz de Claire usar uma por dia e chegar a nunca repetir um mijão sequer...
- Me deixe adivinhar, escolheram também a da festa de um ano, a que ela vai usar no primeiro dia de escola, a do Natal e a do Ano Novo... – Marcos ironizou.
- Nós estamos animados com a chegada dela, ok? – Minha amiga cruzou os braços explicando-se. – Klaus e a família dele são um tanto exagerados, mas não posso falar nada porque estou adorando tudo isso...
- Podemos perceber isso... – Disse rindo. – Daqui a pouco eu vou chamar a Rosie Pope para resolver sua relação com Klaus porque você é oficialmente uma grávida da alta sociedade de Manhattan.
- E eu iria adorar se você fizesse isso, aquela mulher tem um dom de acertar as coisas na vida dos outros, nunca vi um casal ou uma mulher que não teve seu problema resolvido quando recorreram a ela.
- Ah que demais, minha amiga vai aparecer em “Pregnant in heels”. Por favor, se você for mesmo participar não se esqueça de mim, eu sou doido para conhecer aquele ajudante dela e nunca tive a oportunidade de cruzar com ele na rua... Vida injusta. – Marcos comentou distraidamente enquanto olhava distraidamente as roupinhas de Claire penduradas no cabide. – Mas gente, essa criança é um luxo, Claire, sou seu fã, coisa pequena.
- Acho bom mesmo você ser fã da sua afilhada, Marcos... – Carol piscou para mim de um jeito malandro.
- É, pois é, eu sou fã da minha afilhada mesmo, menininha de estilo.... – Ele disse com descaso sem perceber o que havia acabado de falar. – Não, calma. – Marcos parou o que fazia e virou-se para nós. – Você disse “sua afilhada”? – Perguntou em choque.
- Sim! Eu e Klaus concordamos que já que Claire terá o sobrenome dele, eu poderia escolher os padrinhos dela, então você será padrinho e Elena madrinha...
- Oh meu Deus! – Ele disse pausadamente colocando a mão na boca. – Eu estou emocionadíssimo, meu Deus não acredito nisso, ai meu Deus, socorro eu vou chorar! – Marcos andava de um lado para o outro dando pulinhos baixos de excitação enquanto eu e Caroline ríamos dele. – Muito obrigado, Car! – Subitamente, nosso amigo abraçou Caroline a levantando do chão da mesma maneira que havia feito comigo na sala.
- Marcos, minha barriga, cuidado! – Carol disse rindo.
- Ai é verdade, desculpe! – Ao colocar ela de volta no chão, ele se agacha em sua frente e coloca as mãos na barriga dela. – Nunca pensei que fosse ficar nessa posição na vida... – Riu baixinho aproximando o rosto da barriga de Caroline para falar com Claire. – Hey, Claire, venha logo para cá, pequenina, o padrinho e a madrinha estão ansiosos para te pegar no colo e te encher de mimos e beijos...
- Argh parem com isso porque senão e vou começar a chorar. – Eu disse ao me dar conta de que meus olhos encheram-se de lágrimas com aquela cena.
- Ei, a grávida da história sou eu! – Carol reclamou em uma falsa revolta.
- Eu sei, mas estou muito emotiva ultimamente, ok? – Me defendi. – Me deixem chorar, seus chatos!
- Tudo bem, chore o quanto quiser, mas enquanto você se emociona com o instinto paternal que floresceu em nosso amigo isso vamos preparar alguma coisa para comer porque a grávida aqui está com muita fome.
Nós três seguimos para a cozinha e enquanto preparávamos alguma coisa para comer, conversamos besteiras e sobre as coisas que aconteceram enquanto estávamos separados; Caroline nos contou sobre seu progresso com Klaus, de como ele estava diferente com ela e como os dois haviam se aproximado naquelas semanas, também nos mostrou suas ultrassons e nos deixou atualizados sobre o crescimento de nossa afilhada. Carol estava bem, parecia feliz, mesmo com tudo o que estava acontecendo com ela e Klaus, e era isso que importava, eu não suportava ver minha amiga sofrer como ela estava sofrendo quando morávamos juntas então vê-la daquela forma era mais que gratificante. Marcos já havia encontrado outro trabalho para substituir seus serviços como personal no bordel, agora ele trabalha em duas academias e estava fazendo um curso de barman para tirar um dinheiro extra no fim do mês. Sua vida amorosa continuava sendo uma incógnita para nós, mas pelo menos dessa vez, ele nos contou que está saindo com um cara e que as coisas entre eles pareciam estar ficando sérias, obviamente eu e Caroline insistimos para que ele nos contasse tudo, assim como ele fazia conosco, mas não fomos bem sucedidas e ele disse que nos contaria tudo o que quiséssemos caso eles dessem certo. Nós decidimos aceitar e esperar até que ele viesse nos contar com calma sobre o rapaz... Marquinhos era muito pé no chão, fazia as coisas com calma e não criava expectativas nelas, mesmo que seu jeito impaciente mostrasse o contrario, ele era daquelas pessoas que não se deixava abalar facilmente pelo o que os outros diziam dele, vivia sua vida sem se importar em como seria visto pela sociedade e isso era uma das coisas que eu mais invejava nele... Ele também parecia feliz, na verdade, Marcos sempre estava daquele jeito, em todos esses anos que eu o conhecia, dificilmente o vi para baixo alguma vez.
Nossa tarde juntos passou mais rápido do que esperávamos e após termos preparado as coisas mais calóricas para comer, por minha influencia, fomos para a sala conversar enquanto comíamos . Já era quatro da tarde e depois de termos acabado com tudo o que tínhamos preparado para comer, digo, depois de eu e Caroline termos terminado juntas e praticamente sozinhas, nós assistíamos um filme qualquer que passava na televisão, eu não prestava muita atenção no que acontecia porque era a continuação de um filme que eu não havia assistido então não estava entendo muita coisa, mas Carol e Marcos estavam vidrados no que passava naquela tela. Mas quando o filme começou a ficar interessante, meu celular tocou mostrando ser um número desconhecido.
- Alô…
- Elena? – Uma voz conhecida choramingou meu nome no outro lado da linha.
- Emily? O que houve? – Perguntei surpresa. Definitivamente, algo de muito sério tinha acontecido para ela estar ligando no meu celular e com aquela voz.
- Elena, meu pai está com você? Eu estou tentando ligar para ele há um tempão... – Emily perguntou em desespero e mesmo que eu não estivesse junto a ela, conseguia perceber que ela estava chorando, e muito.
- Não, seu pai está em cirurgia, o que houve Emily?
- Elena, tem como você, por favor, vir me buscar? Eu acho que quebrei meu braço e está doendo demais!
- Claro, já estou indo para ai! – Me levantei em sobressalto sem questiona-la o que havia acontecido e peguei minha bolsa rapidamente enquanto Marcos e Caroline me olhavam sem entender nada.
- Venha rápido, está ficando inchando... – Ela disse rapidamente e desligou o telefone.
- O que aconteceu, Lena? – Caroline perguntou enquanto eu entrava em um desespero interno pensando em como iria fazer para chegar até onde Emily estava.
- A Emily está desesperada e acha que quebrou o braço, preciso ir vê-la e leva-la ao hospital...
- Deixe que ela fique lá mesmo, que o braço apodreça só pra ela aprender a não ser tão imbecil com você! – Marcos respondeu com descaso enquanto desviava sua atenção do filme para mexer em seu celular.
- Marcos! – O repreendi. A ideia era tentadora mas independente do que ela tivesse feito para mim, eu nunca iria fazer isso com ela. – Ela foi humilde o suficiente para pedir ajuda para mim, não posso deixa-la com dor daquele jeito, seria desumano.
- Ai Elena Gilbert, você me quebra as pernas sabia disso? – Marcos levantou do sofá guardando o celular no bolso. – Vamos lá, eu te levo até a pirralha...
- Jura? – Ele assentiu. – Marcos, eu te amo, você é o melhor amigo do mundo!
- Eu sei, eu sei, agora vamos lá pegar sua enteada antes que ela morra de dor... – Antes de sairmos eu me virei para Caroline e a abracei com força.
- Me desculpe não poder ficar mais, queria passar o dia contigo... Sinto muito!
- Não tem problema, Lena, podemos combinar para outro dia mas agora Emily precisa de você! – Ela retribuiu meu abraço com a mesma intensidade. – Só não suma mais desse jeito, eu preciso da minha melhor amiga perto...
- Prometo não sumir! – Garanti. – Te amo, amiga, se cuide! – Nós nos despedimos com mais um abraço e eu deixei um beijo demorado em sua barriga antes de sair.
Eu e Marcos fomos o mais rápido que conseguimos e que o transito permitia até onde Emily estava, mas para nossa sorte, ou de Emmy, o rinque não era tão longe e em menos tempo que planejávamos, ela já estava conosco no carro.
(...)
- Hey... – Eu sorri acolhedoramente a menina que se aproximava de mim com um braço engessado. – Consegui falar com seu pai, ele já está a caminho. – Emily assentiu com a cabeça baixa e se sentou ao meu lado.
- Marcos já foi embora?
- Uhum...
- Não consegui agradecê-lo por ter me trazido até aqui...
- Tudo bem, eu agradeço por ti. – Marcos além de ter feito a enorme gentileza de nos dar uma carona até o hospital, ele ficou nos fazendo companhia e distraindo Emily da dor enquanto esperávamos ela ser atendida, deixando todo aquele discurso de “deixar que o braço dela apodrecesse” de lado, o que na verdade foi facilmente esquecido no momento em que ele viu as unhas bem feitas e o cabelo bem cuidado da filha de Damon. Emily continuou de cabeça baixa olhando para um ponto fixo no chão e eu conseguia ouvi-la chorando baixinho. – Você está com dor? – Por impulso, eu levo minha mão até seu cabelo colocando uma mecha que cobria seu rosto para trás da orelha, fazendo que Emily secasse uma lágrima que escorria pelo seu rosto para que eu não visse.
- Não, a dor já passou, só o gesso que incomoda um pouco...
- O que houve, Emily? Porque está chorando?
-Não é nada... – Ela respondeu rapidamente, virando o rosto para o outro lado.
- Fale para mim, eu posso tentar ajudar... – Não sabia se Emily me responderia docilmente, mas esperava que depois de ter sido extremamente educada comigo no dia anterior, ela não tivesse uma recaída e voltasse a me tratar mal. Sabia que corria o risco de ser mandada para “aquele” lugar por uma garotinha de doze anos, mas preferia correr o risco a perder uma grande oportunidade de me aproximar a ela.
- Eu vou ter que ficar dois meses sem patinar e não vou poder competir no sábado... Agora eu só poderei competir ano que vem porque não posso entrar no meio das competições, todo meu esforço foi em vão, Elena...
- Eiei, não pense assim, nada é em vão, Emily, você pode não ter encontrado ainda o que tenha o feito valer a pena... Pense que são só dois meses, poderia ter sido mais, poderia ter sido sua perna e assim ficaria muito mais difícil de voltar a patinar, mas não, foi seu braço e são só dois meses...
- Eu devia ter tomado mais cuidado, não deveria ter colocado o braço para me segurar na hora que cai...
- Não adianta se remoer dessa forma, você iria se machucar de qualquer jeito, pelo menos foi o seu braço, como eu disse... – Fiz uma breve pausa deixando que ela capitulasse o que eu estava dizendo e então prossegui. – Tenho certeza que esses dois meses parada não vão te fazer tanta diferença, você é uma ótima patinadora e aposto que em uma semana já terá conseguido retomar seu ritmo de hoje...
- Como você tem tanta certeza se nunca me viu patinar... – Ela defendeu.
- Posso não ter te visto patinar, mas se levar e consideração o tanto que você treina e se dedica ao esporte, tenho certeza que não estou errada...
- Minha coreografia, minha roupa, minha música... Tudo estava pronto.
- Você pode usá-los ano que vem... Tudo vai dar certo e o tempo vai passar rápido, você vai ver.
Emily ficou em silencio, apenas absorvendo o que havia dito a ela e eu deixei que ela tomasse o tempo necessário para refletir sobre aquilo... Tinha que confessar que estava um tanto surpresa por ter sido bem recebida por ela, eu esperava que ela fosse fazer como de costume e ser grossa ou mal educada, mas para o meu alivio, aconteceu exatamente o contrario disso. Aquele era o nosso primeiro contato pacifico e vê-la me tratando relativamente bem, me deixava com mais esperanças de que pudéssemos nos dar bem...
- Obrigado por ter me trazido até aqui, Elena, e me desculpe por ter te feito sair da casa de sua amiga por mim... – Ela disse baixinho após ter passado um tempo considerável em silêncio.
- Não tem porque agradecer, Emily, eu não iria conseguir ficar tranquila com Caroline sabendo que você precisava de ajuda... – Emily suspirou sorrindo levemente e eu fiz o mesmo.
- E obrigada por ontem... Eu sei que foi você que lembrou meu pai sobre sábado e eu fico muito feliz em saber disso, se não fosse por ti ele não teria lembrado... – Ela disse cabisbaixa encolhendo os ombros. – E obrigada por ter aliviado meu lado com Thomas, eu percebi o que você fez... Acho que se você não estivesse no carro ele iria ter surtado muito mais...
- Na verdade, se eu não estivesse no carro e não tivesse controlado a fúria de seu pai, provavelmente você nem teria aparecido no treino hoje devido à vergonha que ele teria te feito passar...
- Ele iria descer do carro para falar com Thomas? – Ela perguntou abismada e eu assenti contorcendo meu rosto em uma careta de desgosto. – Não acredito nisso, vou ser eternamente grata por você ter o controlado...
- Eu juro que por alguns instantes, achei que ele fosse arrancar o volante do painel do carro quando vocês se despediram com um beijo no rosto... – Ri baixinho lembrando-me da cena de ciúmes que Damon fizera.
- Céus, meu pai consegue ser bem ciumento quando quer, acho bom você saber disso... – Ela riu timidamente revirando os olhos. Olhando a daquele jeito, naquelas circunstancias, eu via aquela menina doce e encantadora que Damon tanto me falava quando nos conhecemos, Emily só precisava de carinho e atenção, como qualquer outra menina de sua idade. – Algo me diz que esse ciúmes do meu pai nunca vai passar...
- Você é a garotinha dele, Emily, vai demorar um tempo até ele conseguir se convencer de que sua menininha está crescendo, só tenha um pouco de paciência e calma que ele vai entender, te garanto. – Sorri para ela lembrando-me de meu pai e seus frequentes acessos de ciúmes...
- Seu pai era ciumento também?
- Muito! Talvez mais que Damon...
- Mais? – Perguntou rindo um tanto abismada.
- Quando eu tinha quinze anos, comecei a sair com um menino da outra turma, não era bem um namoro, nós trocávamos alguns beijos e andávamos de mãos dadas mas não era nada sério... – Emily ouvia minha historia atentamente mantendo um sorriso suave em seus lábios. – Como eu e minha mãe erámos muito amigas, decidi contar a ela sore o menino e acho que meu pai acabou me ouvindo falar sobre ele e foi no dia seguinte até minha escola, na saída, e perguntou ao garoto quais eram suas intenções comigo, qual a idade dele, suas ambições, nome, sobrenome, tudo o que você possa imaginar... Resultado; o menino não quis saber mais de mim e mais nenhum outro garoto também. Eu acho que ele fez isso de proposito sabendo que depois de sua grande cena nenhum garoto iria chegar perto de mim por medo dele... – Disse em um tom pensativo, fazendo Emily rir alto pela minha historia. Era tão estranho falar de meus pais, mesmo que sete anos tivesse se passado desde a morte deles, eu ainda sentia um aperto no peito, principalmente quando o assunto era esse... Se meu pai já sentia ciúmes de mim com pirralhos de quinze anos, ficava imaginando como ele lidaria sabendo que sua inocente garotinha havia virado uma prostituta vadia que transava com qualquer homem que estivesse disposto a pagar pelo seu sexo. Definitivamente, após a morte deles, minha vida havia tomado um rumo que nenhum pai e mãe desejava para o filho, aonde quer que eles estivessem, eles sentiriam vergonha de falar que eu era Elena, “a pequena deles”, eu conseguia imaginar claramente suas expressões cheias de desgosto...
- Na verdade, eu acho que não corro esse risco, meu pai é ocupado demais até para passar um final de semana comigo, quem dirá para ir até o rinque me fazer passar vergonha com Thomas... – Mais uma vez, pelo mesmo motivo, meu peito contorceu-se de pena de Emily...
- Você sabe que ele não faz isso de proposito, né? – Ela assentiu. – Você não faz ideia o quando ele se culpou por ter esquecido sua competição... Ao contrario do que você deve pensar, Damon faz de tudo para conseguir ficar contigo e ele se sente péssimo por não te dar atenção que você merece... Seu pai é louco por você, Emmy, nunca duvide disso, você é tudo que ele tem na vida! Eu não consigo imaginar Damon vivendo em um mundo sem ti...
- Eu sei disso... – Ela respondeu suspirando. – E acho que é por isso que eu sou tão ciumenta, ele é tudo, absolutamente tudo que eu tenho, não sei o que eu faria se ele não estivesse sempre lá para mim, acalentando-me quando eu acordava assustada de pesadelos ou quando eu tenho minhas crises de saudades de minha mãe. Sabe, Elena, em certo ponto te admiro muito porque eu não teria forças para suportar perder meu pai e minha mãe de uma vez... – Uma sensação estranha tomou conta de mim ao ouvir sua confissão... Emily me admirando por algo? Eu não poderia estar ouvindo direito...
- Você teria sim, Emily, mesmo que pense ao contrario. A força sempre vem quando mais precisamos... – Ela soltou um riso anasalado assentindo o que eu havia dito e olhou para mim em seguida.
- Obrigada, Elena, de verdade! – Seus olhos eram cheios de sinceridade e eu conseguia perceber até um toque de arrependimento naqueles límpidos azuis que lembravam-me muitos dos olhos do homem que eu amava... Aquela sim era a Emily que Damon me falava, sem duvida alguma... Minha vontade era toma-la em meus braços para dar um abraço mais forte que conseguisse, mas definitivamente não tínhamos intimidade o suficiente para isso.
- Emily, quero que você saiba que por mais que eu não seja sua pessoa favorita no mundo, eu sempre vou estar aqui para te ajudar e você sempre vai poder contar comigo, ok? – Mais uma vez, por impulso, eu pego sua mão boa e a aperto levemente. Ela não disse nada, apenas ficou em silencio fitando nossas mãos com uma expressão um tanto confusa.
- Hey vocês duas! – A voz de Damon soou ao nosso lado fazendo q nós olhássemos para cima para recebê-lo. – Está tudo bem por aqui? – Ele perguntou ao ver nossas mãos juntas.
- Está tudo bem sim! — Assenti sorrindo.
- Ei princesa, o que aconteceu? – Damon perguntou a filha agachando-se em sua frente para ficar da sua altura.
- Eu finalize um salto errado e quando percebi que ia cair, levei a mão, por impulso, para me segurar, mas a queda foi grave demais e eu acabei caindo em cima do meu braço. Por sorte eu tinha o número de Elena... – Emily resumiu os fatos para Damon e ao terminar sorriu gentilmente para mim.
- Desculpe por não ter te atendido, filha, mas tive que operar um paciente às pressas...
- Tudo bem, pai, Elena me trouxe até aqui e está tudo bem agora...
- Ainda bem mesmo que eu deixei o número dela contigo. – Ele assentiu e deixou um beijo na testa da filha e um demorado em meus lábios. – Enquanto vou falar com o médico que te atendeu, porque vocês não me esperam no carro e pensam em algo para comermos? – Damon entregou as chaves da Land Rover para nós e nós fizemos o que ele havia nos pedido.
Eu não conseguia me conformar com o que havia acontecido, se no dia anterior eu havia ficado radiante por ela simplesmente ter gostado do presente, depois daquela conversa eu estava em êxtase, em negação... Provavelmente tudo aquilo não deveria ter sido real e minha mente fértil estava me pregando mais uma peça enquanto eu imaginava as coisas boas que deveriam me acontecer antes de pegar no sono. Na verdade, tudo parecia surreal, desde o episodio com Emily até minha relação com Damon... Desde o momento em que eu me envolvi com aquele homem eu desejei ter uma relação como a que estávamos tendo e ver meu desejo se tornando aos poucos realidade me fazia questionar se aquilo estava mesmo acontecendo, se eu iria ser feliz daquela forma que eu estava para o resto da minha vida...
Se aquilo era um sonho, eu implorava para que ninguém me acordasse... Depois de tanto tempo vivendo na escuridão eu merecia o mínimo que fosse de luz.
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