Socorro! Americano Louco À Vista!
1 Um azar dos diabos.
Notas iniciais
Não sou um demónio sortudo.
É com esse pensamento que acordo todos os dias e é com esse pensamento que mantenho toda a minha vida imortal.
Por exemplo, alguma vez ouviram falar em anjos da guarda? Sim? E em demónios da guarda? Óbvio que não.
Estão a ver aquela vontade louca de comer um bolo de chocolate quando prometeram a vocês mesmos que não comeriam mais? É... Estão a ser controlados por um demónio da guarda.
Mas não se assustem. Para esses casos, são apenas demónios de baixo ranking que não vos farão muito mal a não ser fazerem-vos engordar uns quilinhos ou cair de cara no meio da rua.
O meu nome é Arthur Kirkland e sou um demónio de 7º ranking. Aspiro a um dia conseguir chegar ao topo da pirâmide e poder ter um emprego a sério, como recolher almas, e não andar a influenciar crianças roubar bolachas ou rebuçados do supermercado.
Dizem os meus superiores que a partir do 3º ranking tudo se torna mais divertido apesar do desemprego estar a aumentar. Acho que agora os políticos já não precisam de demónios para os corromper. Enfim.
Voltando ao princípio...
Eu sou muito azarado até mesmo com esses pequenos empregos que me arranjam.
Estava muito descansado a passear pelo inferno quando me deram a notícia que tinha uma alma inocente para corromper. Sem pensar duas vezes eu aceitei e agora, visto em retrospectiva, o melhor teria sido recusar.
Por que digo isso? Vocês perguntam.
Bem... Esse é o motivo de toda esta história:
Quando cheguei à superfície reparei imediatamente que ainda era de noite e estava frio. Pelo tipo de arquitectura e organização das ruas, conclui imediatamente que não estava na Europa e isso fez-me logo ficar reticente. Como não fazia ideia de onde estava ou do que tinha de fazer, decidi entrar na primeira casa que vi.
Passo a explicar, regra geral os demónios são invisíveis para toda a gente menos para o seu protegido. Então, é fácil de saber quem vou ter de corromper porque normalmente alguém sempre dá um grito ao ver um demónio.
Neste caso, não foi excepção.
Esvoacei até ao piso superior da casa e entrei pela janela. Foi logo dar directamente a um quarto. Mal me voltei para fechar a janela ouvi o berro.
Ironicamente, assustei-me e rapidamente voltei a rodar para o lado oposto, ficando a flutuar pelo ar.
"Q-Q-QUEM-- NÃO ME VAIS COMER, POIS NÃO? EU-EU- A MINHA CARNE FAZ MAL À SAUDE!"
Franzi o sobrolho e levantei uma das minhas elegantes sobrancelhas, "Que raio-"
"POR FAVOR SENHOR VAMPIRO! NÃO ME MATE!"
Encarei aquele humano, que tremia de medo. O rapaz devia ter uns vinte anos mas tremia como uma menina de cinco. Era loiro e tinha os olhos, muito azuis, arregalados com medo e espanto.
Sorri de lado e cruzei os braços, "Vampiro? Eu por acaso pareço um vampiro?"
E é aqui, caros leitores, que eu, um mero demónio, percebo que a mente humana realmente é problemática.
"S-Sim! Tu és branco... E brilhas!"
Admito que demorei uns segundinhos a perceber a referência. Ser um demónio invisível tem a vantagem de poder ficar a noite inteira numa livraria ou supermercado (eu sei que vários humanos tem esse desejo, nem pensem em negar) e fazer o que bem quiser. Assim como entrar no cinema sem pagar.
Juntar isso ao facto de ser imortal, significa que já passei horas e horas a devorar livros e ver filmes.
E há uma conclusão que eu cheguei sobre os humanos: Não importa qual o século em que vivem. Sempre irão gostar de um romance idiota e esse romance será para sempre recordado. Quer seja uma tragédia onde um amante se mate por outro após três dias de se conhecerem e saberem que pertencem a famílias inimigas ou um romance onde um vampiro brilha e atraí a sua vitima como um pirilampo que tem um traseiro brilhante.
Mas tudo bem, gostos não se discutem.
E não é como se eu tivesse chorado ao ver "Romeu e Julieta" no teatro. Demónios nem sabem chorar, por favor. Que ideia mais ridícula.
Mas sem divagar... Naquele momento a minha paciência estava a começar a sentir-se ameaçada.
"Eu sou um demónio, não um vampiro. Seu idiota."
O terror passou pelos olhos do humano, "E-E-EU NÃO QUERO MORRER! NÃO ME LEVES PARA O INFERNO!"
Rolei os olhos e cruzei as pernas à chinês, ainda flutuando pelo ar, "Como se eu fosse levar algo tão pesado para o Inferno."
"EU NÃO SOU PESADO É...É...É MÚSCULO!"
"E eu sou o Coelho da Páscoa."
"..." , o humano levantou um pouco mais a cabeça para me conseguir fitar, "Mas... Eu pensei que eras um demónio e... Estás a mentir! Os coelhos não têm asas!"
Percebem agora porque disse que era azarado?
Voltei a rolar os olhos, "Sou o teu demónio da guarda. Estou aqui para corromper a tua alma inocente e pura. Prazer~"
O loiro ganiu e enrolou-se no lençol da sua cama, "M-Mas eu não quero ser corrompido!"
"Por amor de Satã, eu não assim tão cruel quanto isso." resmunguei e bufei de seguida. Vai que ele percebia a minha irritação e colaborava?
"S-Satã? ONDE É QUE EU TENHO SAL? E UM ALHO? ÁGUA BENTA!"
Pisquei e depois desmanchei-me a rir com tamanha idiotice. Pelos vistos, a minha reacção deixou-o curioso, pois agora olhava para mim ofendido.
"Não tem piada!"
"Tem sim. Isso não tem efeito em mim."
De facto, nunca entendi onde é que vocês foram buscar a ideia de que demónios eram destruídos com sal ou água benta. Por favor.
O humano murmurou alguma coisa baixo e voltou a deitar-se. "Vai-te embora."
"Tentador. Mas só posso ir depois do meu trabalho estar feito."
E pela inocência que ele tinha, parecia-me algo que iria demorar imenso tempo. Antes que perguntem como posso afirmar que ele era assim tão inocente e sem ainda o conhecer, digo apenas que aquele quarto estava cheio de posters de super-heróis e bonequinhos de heróis de desenhos animados japoneses.
"Repito, o meu nome é Arthur Kirkland e sou o teu demónio da guarda. Quem és tu?"
Após um silêncio breve, ouvi-o murmurar, com a voz ainda trémula, "A-Alfred Jones..."
Voltei a suspirar. Aquilo prometia ser uma tarefa muito longa.
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