Sobreviver
8 Remissão
O tempo não pediu permissão.
Ele simplesmente passou.
Setembro virou outubro. Outubro virou novembro. E, quando Bella percebeu, o mundo já estava iluminado por luzes de Natal.
Era dezembro.
O consultório estava silencioso demais naquele dia. Bella apertava a mão de Edward enquanto aguardavam o médico abrir os exames no computador. Ela não respirava direito. O som do próprio coração era ensurdecedor.
O médico ajustou os óculos. Leu. Releu.
Sorriu.
— Isabella… nós não visualizamos mais atividade tumoral no mediastino.
Bella piscou. Não entendeu de imediato.
— Como assim?
— Não há evidência da lesão. Você está em remissão.
A palavra ecoou no consultório como se fosse maior que o mundo.
Remissão.
Edward soltou um som estranho, metade riso, metade choro. Bella ficou parada por dois segundos inteiros, como se o corpo não tivesse recebido o comando para reagir. Então as lágrimas vieram. Pesadas. Livres. Incontroláveis.
Ela estava viva.
Ela estava limpa.
Ela estava ali.
Esme chorou quando soube. Alice gritou tanto que Jasper teve que segurá-la pelos ombros. Emmett ergueu Bella do chão rodando-a no ar, ignorando os protestos dela. Charlie apenas a abraçou — daquele jeito quieto, forte, demorado.
Ninguém conseguia chamar aquilo de outra coisa.
Milagre.
E se havia milagre, precisava haver celebração.
Na noite da véspera de Natal, a casa dos Swan estava cheia. A árvore iluminava a sala com luzes douradas, o cheiro de peru assado e canela se misturava no ar, risadas preenchiam os cantos.
Bella observava todos ao redor da mesa. Cada rosto. Cada pessoa que a segurou quando ela achou que ia cair.
Edward estava diferente naquela noite. Silencioso demais.
Depois da ceia, quando os presentes já estavam espalhados pelo chão e Alice organizava fotos, ele pediu atenção.
O coração de Bella acelerou.
Edward se levantou. Caminhou até ela.
Ajoelhou.
O mundo ficou em silêncio absoluto.
— Eu quase te perdi esse ano — ele disse, a voz firme, mas os olhos denunciando tudo que ele não conseguia controlar. — E eu prometi para mim mesmo que, se tivesse outra chance… eu não esperaria mais nada.
Ele abriu a pequena caixa.
O anel brilhava sob as luzes da árvore.
— Isabella Swan… casa comigo?
Bella levou as mãos à boca. Chorava antes mesmo de conseguir falar.
— Sim.
Não foi dramático.
Foi verdadeiro.
A sala explodiu em aplausos, gritos, abraços. Alice chorava como se fosse o próprio casamento. Esme segurava o rosto de Edward com orgulho. Charlie limpava discretamente os olhos.
Bella olhou para o anel no dedo.
Ela estava viva.
Ela estava noiva.
Ela estava ali.
E, por um momento, parecia que nada mais poderia dar errado.
No almoço do dia seguinte, ainda com a casa cheia, Edward estava decidido.
— Não vejo motivo para esperar — ele dizia para Alice e Esme. — Quero casar no próximo mês.
Alice quase engasgou.
— Próximo mês?!
— Quanto antes, melhor.
— Edward, um casamento precisa de planejamento!
— Eu só preciso dela.
Esme sorriu, emocionada.
Bella observava de longe. Sorria. Conversava. Participava.
Mas algo dentro dela estava inquieto.
Um ruído baixo.
Uma sombra que não ia embora.
Rosalie percebeu.
Aproximou-se devagar, tocando o braço da amiga.
— Você está bem?
Bella hesitou.
— Eu devia estar… mas eu sinto que… — ela engoliu seco — que algo está errado.
— É medo.
— Não. — Bella balançou a cabeça. — É diferente.
Antes que Rosalie pudesse responder, o celular de Esme tocou.
O nome de Carlisle acendeu na tela.
Ela atendeu sorrindo.
A expressão caiu em segundos.
O silêncio que se formou foi brutal.
— O Miguel… — a voz dela falhou. — Ele não resistiu.
O ar saiu dos pulmões de Bella como se alguém tivesse socado seu peito.
Não.
Não podia.
Não agora.
Ela começou a chorar antes mesmo de perceber. Um choro infantil, cru, desprotegido. Edward a segurou, mas ela tremia inteira.
Miguel havia comemorado a melhora meses atrás.
Miguel havia acreditado.
Miguel tinha planos.
E agora não estava mais ali.
Bella foi ao enterro dois dias depois. Abraçou a mãe dele como se quisesse dividir a dor em partes iguais. Não havia palavras certas. Nunca há.
Quando estava voltando para casa, dentro do carro, o mundo parecia silencioso demais.
— Eu ainda tenho medo — ela confessou, olhando pela janela.
Edward apertou o volante.
— Isso não vai acontecer com você.
Ela virou o rosto devagar.
— Você não pode prometer isso.
Ele queria dizer que podia.
Queria mentir se fosse preciso.
Mas não mentiu.
Apenas segurou a mão dela.
— Então eu prometo que, aconteça o que acontecer… eu vou estar aqui.
Ela encostou a cabeça no ombro dele.
O medo não foi embora.
Só ficou menor que o amor.
No sábado seguinte, o grupo de apoio se reuniu no pátio do hospital. O frio de dezembro cortava a pele, mas ninguém reclamava. Cada um segurava uma lanterna de papel iluminada por uma pequena chama.
O nome de Miguel foi dito em voz alta.
Histórias foram compartilhadas. Risos misturados com lágrimas.
Bella segurava a lanterna com as mãos firmes. Edward estava ao lado dela.
— Para que a luz dele continue brilhando — alguém disse.
E então, uma a uma, as lanternas foram soltas no céu escuro.
Pequenos pontos de luz subindo devagar.
Bella observou até a sua desaparecer entre as outras.
Vida é isso, ela pensou.
Luz frágil no meio do escuro.
E, mesmo com medo, ela ainda estava ali.
Segurando a própria chama.
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