Sobreviver

7 Paris é um boa ideia


A piora não veio com alarde.

Veio em números.

Exames silenciosos.

Marcadores alterados.

Um olhar longo demais de Carlisle antes de falar.

Bella estava sentada na maca quando percebeu que o médico demorava mais do que o normal para explicar.

— Houve progressão — ele disse, finalmente.

A palavra caiu como algo físico.

Progressão.

Não ajuste.

Não reação.

Progressão.

Edward ficou imóvel ao lado dela, mas por dentro algo despencava em queda livre. Ele já tinha aprendido a ler entrelinhas médicas demais para não entender o peso.

O novo protocolo seria mais agressivo.

Mais efeitos colaterais.

Mais risco.

Bella ouviu tudo em silêncio, a mão ainda presa à dele.

Quando saíram do consultório, ela foi quem falou primeiro.

— Olha só… eu sempre fui dramática. Pelo menos agora tenho justificativa.

Ele tentou sorrir.

Mas naquela noite, quando chegou em casa, Edward quebrou.

Esme o encontrou no escritório, sentado no chão, o caderno fechado ao lado.

— Eu não posso perder ela — ele disse, a voz falhando de um jeito que ela nunca tinha ouvido.

Esme sentou-se ao lado do filho e, pela primeira vez, falou abertamente sobre Edward Masen.

— Seu pai era jovem quando descobriu o câncer. Ele tentou ser forte por mim. Dizia que ia ficar tudo bem. Mas à noite… ele tinha medo.

Edward nunca tinha escutado aquilo daquela forma.

— Ele sabia que não ia sobreviver?

Esme demorou a responder.

— Acho que, no fundo, sim. Mas ele escolheu passar os últimos meses sendo presente. Não perfeito. Presente.

Ela segurou o rosto do filho.

— A doença dele não foi o que mais marcou a minha memória. Foi a forma como ele me amou até o último dia.

Edward sentiu o chão mudar sob os pés.

Naquela madrugada, ele abriu caixas antigas. Fotos. Cartas. Relatórios médicos. Descobriu detalhes sobre o tipo de câncer do pai. Sintomas. Progressão. Medo.

Pela primeira vez, não era só Bella que estava doente.

Era a história dele também.

Na casa dos Swan, naquela semana, o ar estava mais pesado.

Bella estava deitada no sofá quando Edward chegou. Ele sentou no chão, apoiando a cabeça na perna dela.

— Eu descobri mais sobre meu pai — disse, sem rodeios.

Ela passou os dedos pelo cabelo dele.

— Isso te assusta?

— Sim.

— Porque você tem medo de que minha história termine igual à dele?

Ele não respondeu.

Não precisava.

— Edward — ela murmurou — eu não sou seu pai. E você não pode me salvar.

Ele fechou os olhos.

— Eu sei. Eu só queria mais tempo.

Ela também.

Eles ficaram ali, falando sobre os pacientes do grupo. Sobre Clara, que fazia piadas sobre perucas coloridas. Sobre Miguel, que desenhava sempre casas enormes com jardins impossíveis.

— Às vezes eu penso que a gente virou uma pequena família — Bella disse. — E eu não quero que ninguém ali desapareça.

Ele levantou o olhar para ela.

— Você não vai desaparecer.

Ela não discutiu.

Na manhã seguinte, Bella foi trabalhar na doceria como fazia questão de fazer sempre que o corpo permitia. O cheiro de chocolate ainda era o único lugar onde a doença parecia perder poder.

Ela entrou na cozinha e quase deixou a tigela cair ao ver Edward usando avental.

— O que você está fazendo aqui?

Ele abriu um sorriso convencido.

— Não estou aqui como cliente.

— Não?

— Estou aqui como estagiário.

Ela riu, alto demais para alguém que estava piorando.

— Você não sabe nem temperar chocolate.

— Eu aprendo rápido.

Ele passou a manhã inteira ao lado dela. Quebrou ovos errado. Sujou a própria camisa de cacau. Errou o ponto do brownie. Mas olhava para ela como se estivesse aprendendo a coisa mais importante do mundo.

Em um momento, enquanto ele tentava decorar um doce, ela o observou em silêncio.

— Quando eu partir… você pode assumir aqui.

Ele congelou.

— Não fala assim.

Ela deu um sorriso pequeno.

— Estou falando de organização empresarial.

— Eu não aceito promoção nessas condições.

Ela riu e o puxou pela gola do avental, beijando-o com gosto de açúcar.

— Você é meu melhor investimento.

Ele encostou a testa na dela.

— Você é minha vida inteira.

No grupo de apoio daquela semana, a notícia da piora já era conhecida.

Mas ninguém tratou Bella com pena.

Clara mostrou fotos do neto.

Miguel contou que conseguiu caminhar sem ajuda.

Uma senhora chamada Dona Lúcia levou bolo de fubá.

A vida insistia.

Esme anunciou a atividade do dia:

— Autorretrato. Quero que vocês desenhem como se enxergam daqui a alguns anos.

Houve murmúrios, risadas nervosas, comentários brincalhões.

Edward distribuiu papéis.

Um a um, os pacientes começaram a desenhar.

Clara fez um jardim enorme.

Miguel desenhou a própria formatura.

Dona Lúcia desenhou uma viagem.

Bella segurou o lápis.

E ficou parada.

A folha em branco parecia maior que o mundo.

Como se enxerga alguém que não sabe se estará ali?

O lápis não se movia.

Edward percebeu antes de qualquer um.

A respiração dela ficou curta.

Ele se aproximou devagar.

— Bella…

Ela balançou a cabeça.

— Eu não consigo.

Não era sobre talento. Era sobre futuro.

Ela colocou o lápis na mesa e, pela primeira vez no grupo, não sorriu.O silêncio ao redor era respeitoso, mas pesado.

Edward sentou ao lado dela. A folha ainda estava em branco quando ele pegou o lápis de cima da mesa.

Ele não perguntou. Não pediu permissão.

Apenas começou a desenhar.

As linhas surgiram firmes, decididas. Uma torre alta, elegante, reconhecível mesmo em traços simples. Um banco logo à frente. Duas figuras sentadas lado a lado. Pequenas, mas juntas. Entre elas, uma sacola cheia de doces exageradamente desenhados.

Bella observava em silêncio.

Quando ele terminou, virou o papel para ela.

— Esse é o nosso futuro.

Ela engoliu em seco ao reconhecer a silhueta da Torre Eiffel.

— Você é impossível.

— Eu sou persistente.

— E convencido.

— Também.

Ela passou o dedo sobre o desenho.

— Paris?

— Paris.

Ela não disse que aquilo parecia distante demais. Não disse que tinha medo de não chegar até lá.

Guardou o desenho.

Como quem guarda algo frágil.

Naquele mesmo dia, 09 de setembro, Edward fez algo que ninguém soube.

Entrou no site da companhia aérea com as mãos tremendo mais do que gostaria de admitir.

Comprou duas passagens de ida e volta para Paris.

Ida: 19 de junho do próximo ano.

Volta: uma semana depois.

Em nome de Edward Anthony Masen.

Em nome de Isabella Swan.

Não contou para Esme.

Não contou para Bella.

Era um ato silencioso de fé.

Quatro dias depois, 13 de setembro chegou: O aniversário de Bella.

Alice havia assumido o controle absoluto da casa dos Swan desde cedo.

— Jasper! Esse balão está dois centímetros torto!

— Emmett, se você estourar mais um eu juro—

— EU QUERO SIMETRIA!

Bella estava na cozinha, rindo enquanto misturava a massa do próprio bolo. Renee e Rosalie organizavam os doces da mesa de parabéns.

— Você devia estar sentada — Renee reclamava.

— Eu faço bolo desde os sete anos, mãe.

Charlie montava um painel enorme na sala. Fotos espalhadas como uma linha do tempo da vida da filha.

Esme e Edward chegaram cedo para ajudar. Carlisle estava de plantão, exausto, acumulando horas extras porque Miguel, o jovem do grupo, estava em seus últimos dias.

A alegria da festa tinha um fundo agridoce.

Mas ainda era alegria.

Quando os convidados chegaram, a casa ficou cheia de vozes, abraços e música. Bella estava radiante. Magra demais. Pálida demais. Mas radiante.

Edward parou diante do painel de fotos.

Renee grávida, sorrindo.

Bella recém-nascida.

Bella criança, bicicleta caída ao lado.

Bella com farinha no rosto aos oito anos.

Os cabelos castanhos chocolate, longos, brilhando ao sol.

Bella com as amigas do grupo de apoio.

Bella com Edward.

A vida inteira dela ali.

Vivida intensamente.

Quando chegou a hora do parabéns, as velas iluminaram o rosto dela. Bella fechou os olhos antes de soprar.

Sussurrou pedidos que ninguém ouviu.

Talvez nem ela mesma.

Emmett, incapaz de sustentar clima solene por muito tempo, começou:

— Com quem será…

Todos acompanharam.

— É com Edward!

Ele ergueu as mãos teatralmente.

— Eu até queria casar com ela, mas ela não aceitou!

A gargalhada foi geral.

Menos de Charlie.

Bella empurrou Emmett, rindo.

— Você é ridículo.

— Mas eu estou disponível!

— Senta.

A noite seguiu leve. Música. Fotos. Abraços demorados demais.

Mais tarde, quando a casa finalmente silenciou, Edward bateu na porta do quarto dela.

Bella estava sentada no chão, cercada de presentes abertos.

— Você está muito mal acostumada — ele disse, encostado na porta. — Parece uma criança mimada.

Ela gargalhou.

— Olha isso! Alice me deu três vestidos. Três!

Ele se aproximou, ajoelhando-se diante dela.

Segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou devagar.

— Falta um presente.

— Edward, você não precisava me dar nada. Você já é meu maior presente.

Ele balançou a cabeça.

— Não é suficiente.

Tirou do bolso da jaqueta um envelope.

— Nossa… que misterioso — ela provocou.

— Abre.

Dentro havia uma aquarela.

Bella em Paris.

Cabelos castanhos longos, ondulados pelo vento. Casaco de frio elegante. Um doce francês nas mãos. Ao fundo, a Torre Eiffel desenhada com delicadeza.

Os olhos dela se encheram imediatamente.

— Edward… é lindo.

— Ainda tem mais.

Ela franziu o cenho e puxou outro papel de dentro do envelope.

Leu.

Parou.

Leu de novo.

Passagens aéreas.

19 de junho.

Destino: Paris.

Ela levantou o olhar devagar.

— O que é isso?

— No próximo ano — ele disse, a voz firme apesar do coração acelerado — nós vamos comemorar meu aniversário em Paris. Vamos sentar na frente da Torre Eiffel e comer todos os doces que você quiser.

Ela riu, incrédula.

— Você é completamente maluco.

— Eu prefiro o termo determinado.

Ela o beijou com força, segurando o rosto dele como se quisesse gravar cada detalhe.

— Obrigada.

Ele encostou a testa na dela.

— A gente vai estar lá.

Ela não disse “se”.

Não disse “talvez”.

Apenas segurou as passagens com cuidado.

Como se fossem mais do que papel.

Como se fossem promessa.

E naquela noite, entre risos cansados e abraços longos demais, Paris deixou de ser sonho.

Virou destino.