Sobreviva Ao Seu Destino
11 Primórdio.
Notas iniciais
O portão se fechou logo que o ultimo dos banidos saiu. O silencio foi súbito e ao mesmo tempo assustador. Os que tinham menos medo do desconhecido avançaram incentivando o grupo a prosseguir. A maioria dos que estavam na frente eram homens e algumas mulheres mais velhos, e não olharam para trás como os mais jovens fizeram, não queriam demostrar que ia sentir falta de um lugar que os tratava daquele jeito ou que tinham algum receio do lado de fora.
Após uma breve caminhada a areia fofa acabou e o silencio foi ocupado pelos passos sobre as pedras; um som que fazia parecer que as pedrinhas fossem crocantes. Aquela área era um deserto, mas em vez de areia existia aqueles estranhas pedrinhas azuladas, e não havia outra coisa se não isso. Esse mar azul-cinzento se estendia para os dois lados, com o uma plateia miúda para algum show em toda a muralha. Era área projetada para que os guardas das altas guaritas tivessem uma boa visão do que se aproximasse, e o declive, cujo eles começavam a descer após longos minutos, também era outro elemento para ajudar na vigia. E mesmo olhando para os lados, atrás da visão de algum outro grupo, era impossível ver mais alguém.
Já na borda da floresta bem protegida por cipós e arbustos de diferentes tamanhos e ao sol do meio dia, o grupo se reuniu. Dois homens, provavelmente os mais velhos, discutiam para decidir uma estratégia para todos. Um deles queria seguir para o meio da mata verde e procurar pelas coisas que precisavam; já o outro queria caminhar pelas bordas até que encontrassem um caminho mais aberto e menos ameaçador. A verdade era que só estavam escolhendo quando fariam isso, entrar na floresta era o único meio de acharem algo.
S-K, assim como outros, aproveitou a sombra rala das arvores que arcavam para fora da margem. D-I o seguia em silêncio e se acomodou em fino tronco seco do qual ele se estava próximo. O mesmo menino que viu tremer em sua frente pouco antes de saírem, se acomodou perto deles sem dizer nada e observou o resto do grupo. Logo Richard saiu do meio do grupo, vindo do outro lado do pequeno “conselho” que estava acontecendo, e se aproximou dos três acomodados próximo do mesmo tronco. S-K o reconheceu pelo cabelo cacheado, mas continuou em silencio.
–Silencio! -Alguém gritou na parte mais densa do grupo, que estava em volta dos homens que estavam discutindo. Tae não estava interferindo no que eles decidiam quando quis que todos ficassem quietos, embora desse alguns argumentos a favor de entrarem logo na mata. Ele ainda ouvia o som do cascalho se movendo em volta deles, embora todo o grupo já não se movesse tanto para gerar o som. Mas mesmo pedindo ninguém lhe deu importância.
Um grito de pavor foi ouvido, vindo do lado oposto de onde S-K observava, e superando o som das vozes dos que conversavam. Uma agitação diferente começou. O grupo agora estava se espalhando. Alguns corriam na direção do ruivo e dos que estavam com ele, e outros para o meio da mata atravessando os cipós, capim e arbustos que bloqueavam o caminho.
Sem que S-K pudesse entender o que estava acontecendo, ele se levantou. Logo ouviu o som das pedras atrás deles, mesmo não tendo ninguém ali, e ao se virar viu o que poderia estar perseguindo o grupo a frente. A cinco metros das sombras da mata, as pedras azuladas tremiam em uma área limitada e logo escorregavam sobre o dorso de uma criatura de um metro de altura que emergia do chão aquecido pelo sol.
O animal estranho parecia um grande porco gordo sem orelhas, calda ou nariz, tinha a pele translucida, como uma membrana levemente esbranquiçada, quatro patas cheias de dobrinhas e cada uma possuía um par de garras curvas e escuras; tronco arredondado e uma cabeça, que se diferenciava das patas por não ter as garras negras, com um traço como boca e um par de olhos negros e brilhantes bem separados. Sob a pele, entre veias grossas que variavam de verde ao vermelho, sua carne se movia como milhões barbantes ou lombrigas brancas inquietas deslizando para o meio das outras.
S-K empurrou D-I, que já tinha ficado de pé, para o inicio da mata rala e gritou para que os dois que estavam próximos fizessem a mesma coisa. Rick seguiu D-I apressado, mas Fritz ainda encarava a criatura completamente imóvel, fazendo um som que parecia que estava com um grito preso na garganta, e espantado demais para se mover. S-K o puxou segurando sua blusa na altura do ombro e só assim ele saiu do lugar.
Quando as criaturas surgiram Charli perdeu tempo para tirar a grande mochila do chão, onde tinha deixado quando pararam na borda da floresta, e logo uma parte do grupo a atingiu, guiados apenas pelo pânico, e a derrubaram de cara na terra seca com finos ramos de grama junto com sua mochila. Ninguém se importou em ajuda-la. Assim que havia menos pessoas, ela começou a se levantar, mas algo morno a tocou na costela e a empurrou para o lado, girando-a para que ficasse de costas no chão. A criatura estava do lado dela, com o tipo de focinho apontando para ela enquanto a analisava. Charlotte tentou se arrastar para longe, mas estava sobre sua mochila e o movimento não deu certo. As mandíbulas do animal se separaram, mostrando fileiras de pequenos dentes finíssimos, prontos para abocanhar a barrida da garota, então, de repente, uma mochila preta passou entre eles, atingindo a cabeça macia da criatura que caiu atordoada para o lado e com a face amassada pelo golpe. A seguir Charli ficou de pé rapidamente, com um pouco da ajuda do rapaz alto e loiro, e quando a criatura retomou a consciência da situação, partiu para cima de Yuki, que usou o peso da mochila novamente em outro golpe e depois seguiu Charli em direção ao meio da floresta. Ela se esforçava para manter a mochila sobre um dos ombros, sem tempo para ajeita-la, mas logo o peso dela foi amenizando quando Yuki a alcançou e pegou o objeto. Charli não ia deixa-lo levar sua mochila e desaparecer, e eles correram juntos e mais rapidamente. Yuki logo passou a seguir alguém que corria mais a frente.
Ross parou de correr quando viu uma das criaturas surgir em sua frente e o encarar ao parar. O animal pendeu a cabeça para o lado e olhou além do moreno, e além de Yuki e Chali, observava a distante área de sol da qual veio. Então tremeu bruscamente e avançou desviando do rapaz que não entendeu a razão de não ser atacado. Porém, antes que chegasse próximo de Yuki e Charli, a criatura tropeçou e caiu ajoelhada no chão. Seus miúdos olhos pretos perderam o brilho e então ela tombou para o lado com algumas convulsões. Sob a pele as veias todas se escureceram e a movimentação excitada das lombrigas, que formavam protuberantes calombos na pele translúcida ao se desesperarem com seu fim, foi parando aos poucos.
Charli ouviu outras movimentações atrás de si e se virou. Lá na borda da floresta que podia enxergar, outros daqueles seres retornavam ao sol, sobre as pedras e hesitavam em se aproximar novamente das sombras frias. Subitamente Yuki jogou a mochila diante dela, desviando sua atenção, e foi ver o animal imóvel junto com Ross. Mas antes do loiro chegar próximo, uma garota surgiu correndo do meio dos arbustos e se chocou com a lateral dele. Rose era baixa diante dele, e deu um passo para trás depois da colisão, que não afetou tanto o garoto um ano mais velho. Assustada, atordoada e sentindo uma dor no antebraço, ela olhou em volta, vendo cada um deles, e perguntou:
–Porque não estão fugindo?!
–Por que não precisamos mais. -Ross disse calmo, indicando a criatura morta. Rose não compreendeu e sem muita ele paciência complementou. –Essas criaturas não podem ficar muito tempo no frio das sombras. Hipotermia aguda.
Em seguida ele olhou o bicho do alto e deu um chute leve com a ponta da bota em uma das patas, chamando o olhar de Rose, que encarou o animal compreendendo.
–O que vamos fazer agora? Todo mundo sumiu. -Rose ainda olhava Ross, claramente o mais velho do grupo, atrás da resposta.
–Temos que encontrar mais pessoas antes que a noite chegue. -Charli disse limpando um pouco a mochila empoeirada e com alguns ganhos. -E se der tempo arrumar um lugar seguro para passar a noite.
Os três olharam a pequena, depois Yuki concordou indo até a criatura falecida e a tocando, sentindo a pele translucida áspera, seca e completamente fria.
–Não toca nisso! — Disse Rose com receio da ação dele, e o loiro se levantou sem ser muito afetado.
Charli pôs a mochila nas costas e passou por Ross, caminhando e olhando a frente com atenção procurando um caminho mais aberto, sem arbustos ou cipós, ou alguma trilha de outra pessoa para seguir.
[///]
A mata era fechada até onde tinham ido, mas o silencio aos poucos fez com que parassem de correr e se acalmassem. D-I reclamava de um galho em que tropeçou no caminho e provavelmente tinha ralado o joelho, então S-K resolveu parar em uma clareira não muito ampla.
Fritz estava um pouco cansado e tenso, então se sentou perto da raiz de uma arvore grande e começou a estralar os dedos para se acalmar. A pequena de gorro se sentou ao lado dele, observando SK e Richard analisarem em volta, procurando por sinais de outros e localizando onde estavam. Depois ela levantou uma das barras da calça e deu olhada no joelho levemente ralado.
Após alguns curtos minutos de descanso ouviram o som dos galhos secos estalando, e a seguir a figura de um garoto de cabelos escuro e bem curtos surgiu. Louis estava sozinho e parou ao encontrar o trio. Rick deu um oi incerto com um sorriso, e Louis apenas acenou com a cabeça e arrumou um lugar mais limpo para se sentar e descansar as pernas.
Não muito longe de onde eles estavam, Alice tinha seguido um homem mais velho por vários metros, chegou a ver uma das estranhas criaturas se jogar em cima de alguém e depois ouviu o som dos lamentos pela dissecação do abdômen, e assim acabou se perdendo do seu guia, mas continuou andando e logo encontrou uma trilha de mato amassado e, sabendo que lado não devia ir pela posição do sol, a percorreu chegando em uma clareira estreita e longa em volta de um imenso e largo tronco caído. A imensa arvore tombada há muitos anos, se estendia á vários metros dos dois lados que Alice olhasse, e a floresta já tinha crescido sobre a madeira e fechado um pouco da longa clareira formada.
–Ah, que coisa horrível e nojenta! Mal saímos e... e somos atacados! Saímos do sol escaldante para a sombra, eu não estava vendo nada quando entrei no mato. E os gritos, que coisa, até acho que pisei em alguma gosma... — a voz da garota continuou reclamando de alguns arranhados e falando de tudo que lhe aconteceu naquele momento tenso até chegar ali.
–Esse lugar já está mostrando que é complicado. E dá para você ficar sentada aqui e continuar escondida, Piper. Não sabemos o que mais tem por aí!
Alice escalou silenciosamente o tronco que se elevava a quase três metros, e de relance viu fios ruivos se abaixando. Depois de se equilibrar sobre o troco se ajoelhando e arcar-se um pouco conseguiu ver três pessoas encostada do outro lado do tronco. A ruiva estava sentada do lado de uma morena que saciava a sede, e ao lado dela tinha outra garota de cabelos escuros que afiava a ponta de um galho longo e reto com a faca que veio na mochila.
–Posso participar dessa reunião?- Alice perguntou subitamente no meio do silencio da mata. Piper ergueu a cabeça bruscamente olhando-a com surpresa, Aurora se engasgou um pouco antes de olha-la e Pietra levantou o rosto com uma expressão um pouco indiferente e calma.
–Se não estiver chamando a atenção das criaturas daí, desça logo! –Piper disse encarando a loira.
Alice deu uma olhada para trás sobre os ombros, e não viu nenhum movimento, então escorregou para o outro lado e ficou do lado da menor morena, que afiava sua arma improvisada pacientemente.
–O que estão fazendo aqui?- ela perguntou.
Pietra apenas olhou para as outras, num sinal que esperava que o trabalho de dar uma reposta fosse admitido por uma delas.
–Vamos esperar a poeira baixar. Depois vamos ver uma rota para seguir e caminhar atrás de água e abrigo. –Aurora respondeu, tampando seu cantil de água e o recolocando na mochila.
–Ah, perceberam?- Piper sorriu olhando as três garotas enfileiradas. Nenhuma delas entendeu pelas expressões confusas que fizeram. Então ela estendeu a mão na direção de Alice, do outro lado: –Loira, — depois indicou Pietra e Aurora –Morenas, — e indicou o próprio rosto — Ruiva!
Alice sorriu e concordou entendendo-a, Aurora também e apenas Pietra não deu muita importância para o fato.
[///]
Tae estava coberto por terra, folhas e lama, reclamava consigo de sua aparência e por mais que fizesse algo, seria difícil se limpar sem usar muita água. Quando estava fugindo, derrapou em um declive e chegou á uma vala com o fundo úmido e um pouco barrento, conseguiu continuar, mas nas sombras o frio o incomodou, assim como a sensação da terra pesando nas roupas, então resolveu parar e dar um jeito, quando achou que estava distante o suficiente de qualquer coisa. Subitamente um grito agudo veio da sua frente e ele olhou o que era, viu á uns dez metros de onde estava, no meio das sombras e alguns feixes de luz solar, uma garota de cabelos loiros ondulados de prováveis quinze anos. Ela o encarava chocada, assustada e imóvel. Logo depois um rapaz de olhos claros apareceu perto dela, vindo de trás de uma das arvores, e até ele, por um momento, se espantou com a visão do rapaz tão sujo, mas depois mostrou um sorriso largo achando graça.
–Esta rindo do quê?- Tae perguntou dando alguns passos até eles, e fazendo a garota recuar até o rapaz.
–Nada. -Henry respondeu tentando conter um pouco do sorriso. -Mas foi uma boa ideia sua camuflagem. Aposto que intimidou todos os bichinhos que estavam nos perseguindo.
Tae encarou o outro sério, sem achar qualquer diversão no comentário.
–Empresta seu cantil?
Henry não pensou muito e entregou. Mas devia ter sido mais inteligente e refletido da razão do pedido, assim evitaria que Tae lavasse o rosto com a agua e devolvesse a garrafa pela metade, com uma expressão séria e ignorando a perplexidade dele.
–Vocês encontraram mais alguém ou algum sinal de outros?- Tae olhou para a dupla e os dois negaram. Um pouco decepcionado com os únicos humanos que encontrou. Ele seguiu andando para o meio da mata, sendo seguido sem perguntas por Suzie, a menina loira, e Henry os seguiu sem ter outra opção.
Após algum tempo andando sem parar, a voz de Suzie chamou atenção dos garotos ao perguntar se eles sabiam da garota que os estava seguindo. Henry logo olhou para trás curioso e Tae também, mas ele já sabia disso. A garota de longos cabelos loiros e lisos, arranjados em um rabo de cavalo, caminhava na trilha deles sem pressa de encontra-los. Cheryl estava os seguindo sem grande ânimo de encontra-los de vez. Então sem muita paciência de ficar esperando ela chegar, Tae disse para continuarem andando.
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