Sobre soldados e guerras.
1 Sobre balas disparadas e homens mortos.
Notas iniciais
Quando alguém mata e não se torna um assassino? Quando se é um soldado.
Pegue em armas e se torne de aço, ninguém nunca diz isso para um soldado, mas é o que esperam de um. Não se tolera fraqueza ou covardia. Os outros não vão se importar se você fraquejar, apenas lhe matarão, é o que dizem e todos sabem da verdade. E a guerra é sempre travada pelos inocentes de armas na mão, contudo, seus nomes raramente entram na história e seus feitos se tornam dos grandes generais enquanto o horror se desvanece no tempo.
Um bom soldado não questiona, obedece. Mas era difícil obedecer, cegamente, alguém que os enviava para a possível morte. Era complicado fazer isso porque, todos os dias, viam meninos, pais, irmãos e filhos caírem ensanguentados no chão, às vezes agonizando em outras já mortos. A determinação virava poeira – poeira, a mesma que os cobria quando uma construção em ruínas desabava – enquanto o horror se tornava diário e as noites mal dormidas. Não havia honra. Não havia glória. Apenas uma interminável maré de sangue e medo. Porque todos sangram e temem a morte que, todos os dias, leva alguém diferente.
Bons e jovens meninos e senhores com vidas andadas. Todos eles tinham importância, porém eram mandados para aquele inferno com armas e a missão de fazer o inimigo render-se. Tombavam gritando e deixando para trás famílias que receberiam uma visita de honra; veriam um outro soldado colocando o quepe sobre o peito em silêncio e saberiam que tudo estaria terminado. Choram, entretanto, pensam que foi uma morte honrada. Mal sabiam esses tolos que era honra não existia durante as batalhas, tudo o que havia eram linhas inimigas atirando sem piedade, logo eles mesmos também o faziam.
Morrer pela pátria é belo, não, não é. Morrer nunca é belo, mas falecer de uniforme parece ser mais glamoroso e ousado do que passar meses em uma cama de hospital. Prestem as honrarias, dizem todos os dias, um irmão de armas caiu hoje. Um? Apenas um? E os corpos amontoados em grandes extensões de terra ainda com armas carregadas e feições congeladas no pavor tangível?! Quem trará conforto àquelas almas penadas que tombaram por entre o caos e o sangue?!
Se houver um Deus, essa tarefa é dele, não dos homens mesquinhos e egoístas.
Porque políticos têm palavras belas, porém seus soldados comuns carregam um pesado equipamento e o desespero. A cada dia incontáveis amigos caem. Alguns poucos voltam cheios de histórias sobre o pandemônio que tudo havia, rapidamente, se tornado em uma batalha. Não existe nenhuma guerra que não seja fútil, todas as elas matam inocentes e destroem vidas, enquanto seus causadores entrarão na própria história.
Não existe honra. Não existe glória. Não existe paz. Apenas os gritos de dor e medo. Por hora são os jovens, logo depois os velhos e, por fim, cada um deles estará berrando por salvação mesmo que isso seja um louco sonho distante que parece inalcançável e enevoado em suas mentes exauridas. São todos assassinos, e o certo e o errado são leves sombras rindo em seus rostos imundos e cansados, porque o mundo real não pode existir nas guerras. São jovens e velhos gritando, o que os torna iguais são as fardas sujas e emocionais danificados.
Nos quartéis lhes ensinam uma velha lição: de morrer pela pátria e viver sem razão.
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