Sobre felicidade

1 A visitante


Notas iniciais
Boa leitura =]

Há momentos em que ser o que eu costumo ser apenas me deixa exausta. Há momentos em que eu posso ser outra pessoa, alguém tão diferente da minha realidade, que não posso supor algo que senão a inexistência desse alguém. Uma pessoa tão diferente do que eu sou, mas ao mesmo tempo tão eu, é quase completamente impossível.

Eu parei de tentar entender, esmiuçar algum possível significado de todas essas possibilidades, significado que eu sei que não poderia compreender. Quando essa nova e velha pessoa vem, visitar-me por um breve instante, que poderia eu fazer além de abrir-me a esse convite? Poderia eu negar tal alegria, mesmo que miúda e confusa?

Não, não poderia. Eu só me entrego às luzes, aos sons e aos rodopios que preenchem meu ser, alimentam minha alma de uma cor maravilhosa sem nome.

Por dez segundos, vinte minutos ou três horas, eu sou a garota que eu sempre quis ser. Sou a menina-mulher-moça dos meus próprios sonhos de grandiosidade vã. Sou aquela que pode destruir o mundo, criar um lugar melhor, sou aquela que realiza tudo e a quem todos conhece, aquela que é livre e poderosa e (mais importante) feliz. Eu sou tão feliz.

Ela vem assim, sem aviso, e se vai antes que eu possa contestar. Fica por tão pouco tempo, que chego a me perguntar se ela realmente esteve aqui. Sua ausência me dói, porque parece que eu morri. A parte bonita e radiante de mim. Ela sempre fica pouco, nem espera pelo chá ou café, ou pela poção mágica que eu preparo e que a faria eternamente minha.

Etereamente minha, é o que ela é.

Efêmera como uma borboleta ao vento, fugaz como um beijo leve. Ela é aquele movimento breve e doce das cortinas, o som sereno da água nas pedras pequenas, o tinir de um pássaro sem voz.

Fico tentando saber mais sobre ela, qualquer coisa, qualquer coisa que me mostre mais que esse doce e angustiante mistério de mormaço. Ela vem e leva minha força, meu amor, tudo o que eu não sei ser. Ela vem, provoca o meu melhor, e se vai, levando tudo o que me falta consigo.

Ela me mostra o que realmente importa, me mostra a beleza na simplicidade das coisas, e depois rouba-as de mim. Minhas cicatrizes-pérolas, ela as leva. Só pra voltar, sei lá quando de novo, e fazer o mesmo e o mesmo e o mesmo e o mesmo e o mesmo.

Ela roubou o meu amor. Tirou-me minhas fitas coloridas, meus sorrisos indecisos, minhas alegrias infantis e minha risada de mandala. Ela levou meus sonhos vibrantes, meus desejos apaixonados, meus planos cheios de esperança. Ela invade meu futuro e surrupia o meu passado. Ela me consome e depois me vomita, de dentro-pra-fora.

Fico desbotada, sem cor, sem amor.

Então, uma onda me inunda e entorpece meus sentidos. Meu espírito adormece e a dor passa a ser calmaria, tranquilidade e tristeza. Meu ser dorme e dorme e só desperta quando ela vem, me maltratar de novo.

Ai. Ai ai ai.

Somos ciclo, somos travessia sem princípio e sem fim. Travessia.

Ela atravessa meu peito como uma flor de diamante. Pardon, ma chérie. Acho que estou congelada.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.